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Distopia

(Uma manifestação de contrariedade com o texto que escrevi sobre o parto normal e a humanização do nascimento – feita por uma mulher).

“…mulher nenhuma deveria ter parto normal na atualidade, para que serve a medicina? Para evitar dores e mutilação no corpo das pacientes. Hoje parto normal só para animais, e olha que os domesticados já estão passando por cesárea para não sofrer. Mas enfim, vá ter um filho em parto normal, depois a gente se fala, ok?”

Diante dessa manifestação fica muito difícil responder. Estou estupefato. Inquieto e atônito, mas com uma clareza súbita sobre estes temas.

Sua mensagem me deixou perturbado a ponto de abrir um portal de iluminação sobre minha cabeça. Na luz que se produziu eu percebi a verdade de suas palavras e, mais ainda, o fato de que não só o parto normal poderia ser considerado obsoleto, mas que o próprio sexo deveria ser, com o tempo, descartado como desiderato máximo do prazer humano.

Como você disse, depois do acesso aos recursos tecnológicos, o mundo “natural” deveria ser reservado apenas aos animais. Afinal, se já é possível fazer fertilização “in vitro” por que ainda insistimos nesse modelo ultrapassado de reprodução?

E veja bem…. além de ser cansativa e desagradável essa “troca de odores e fluidos”, o que dizer dos riscos? Doenças sexualmente transmitidas, infarto agudo, torcicolo, arritmias, hemorragias e gravidezes não planejadas, entre outros dissabores, poderiam ser evitados. Sexo é cansativo e pode ser dolorido, enquanto uma inseminação pode ser feita num laboratório de qualidade com toda a segurança e limpeza, enquanto o casal poderá estar viajando para a praia ou desfrutando dos verdadeiros prazeres da vida: pedir comida pelo IFood e ver séries da Netflix.

Não há como deixar de reconhecer seu acerto em decretar o fim do parto normal diante de tantas evidências científicas de sua obsolescência. Todavia, eu reconheço que, sendo o parto uma parte da vida sexual da mulher, melhor seria que TODOS os aspectos da sua sexualidade – e não apenas o parto – fossem relegados ao esquecimento e trocados pelas suas variantes tecnológicas. Assim, por que não banco de esperma no lugar de marido, fecundação artificial no lugar de sexo, cesariana no lugar do parto, fórmula láctea no lugar da amamentação, babás e creches no lugar da maternagem? Por que ainda insistimos nesses anacronismos que só atrapalham nosso conforto e nossa alegria?

Certamente que este futuro utópico que você imagina para todos será, por certo, mais seguro, mais feliz e indolor. Haldous Huxley e Margaret Atwood ficariam corados de vergonha de não terem pensado em todos estes detalhes.

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Formatura Medicina

É difícil que os médicos recém saídos das universidades consigam entender as reais necessidades da população que atendam, e por isso temos tantas dificuldades. Essas pessoas, os novos médicos, são de estratos sociais completamente diferentes daqueles a quem vão assistir e tratar. É complicado entender o sofrimento humano, principalmente as questões carenciais básicas, quando você tem uma casa, comida e afetos e não sabe o que é ter violência doméstica, falta de comida, crack, sujeira, tráfico, pobreza intensa e tantas outras mazelas contemporâneas.

Quando eu era residente escutei uma contratada dizer que achava que toda a ciência “psi” (da psicologia, passando pela psiquiatria até a psicanálise) era pura balela, pois que suas questões (sim, as dela…) eram todas resolvidas com um “banho de loja”, pois isso resolvia suas carências e conflitos. Não, ela não estava brincando; era verdade mesmo. Como ela poderia atender uma mulher em profundo sofrimento psíquico? Como ela poderia entender a dor de uma perda, de um remorso, de uma carência afetiva fundamental e trágica? Da mesma forma, como ela atenderia no posto de saúde uma mulher que não consultou antes porque não tinha dinheiro suficiente para pagar a passagem do ônibus? Será ela capaz de entender o que isso significa? Será ela capaz de entender a dor de ser negro em uma sociedade racista? Uma distância tão gigantesca entre perspectivas e visões de mundo pode ser superposta por boa vontade, empatia e uma visão “carinhosa” com os desvalidos? Ou seria fundamental que essas pessoas tivessem um mergulho nessas sub-culturas para que pudessem entender o que a saúde e os tratamentos significam para elas? Será possível esta visão em uma academia que prepara médicos (mormente especialistas) para dar atenção à burguesia através de tecnologias de ponta e tratamentos curativos terciários? Ou teremos que mudar radicalmente a abordagem à saúde e os sujeitos que a conduzem?

É inegável que existem médicos maravilhosos que conjugam valores técnicos com humanos, mas também é claro que a formação e o sistema abafam a real expressão desses valores. É difícil manter-se conectado a esses princípios diante de tantos estímulos em contrário. É quase impossível ser estudante universitário sem ser da classe média alta, principalmente em universidades públicas. As transformações estão acontecendo, mas uma REAL mudança demográfica nas universidades ainda levará uma geração para se consolidar.

A medicina e o direito, só para dar dois exemplos de cursos universitários clássicos, tradicionais e fáceis de entender, foram criados para servir uma burguesia que aos poucos se organizava. Estas instituições apenas a pouco começaram a ser oferecidas às classes populares. O direito, diferentemente da medicina, só há pouco tem “sistemas populares” de atendimento, como “pequenas causas” ou a defensoria pública. Meu pai me conta que só veio a conhecer um médico em sua vida com mais de 12 anos de idade, quando veio do interior para a capital. E “conhecer” é usado no sentido de “enxergar“, pois consultar com um desses profissionais era inviável há 70 anos.

Fazer essas profissões darem conta das necessidades do povo é um desafio cultural pois que, como eu disse anteriormente, os próprios atores sociais que as compõe não são – com raras e notáveis exceções – oriundos das classes mais baixas. Para se certificar disso basta olhar a história pessoal dos antigos médicos, os que hoje nomeiam enfermarias na Santa Casa, nomes de rua, professores catedráticos da universidade e ver de onde saíram: quase todos da burguesia abastada ou do latifúndio. Assim, democratizar a atenção oferecida por estas profissões – a saúde física da medicina e a saúde social do direito – é uma tarefa complexa e difícil, mas absolutamente necessária. Entretanto, para que ela atinja seus objetivos mais profundos, é fundamental que seus integrantes tenham pleno conhecimento da população que atendem, com seus dramas, valores, idiomas, tragédias e alegrias.

Para isso é necessário sentir na pele o que é ser como eles.

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