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Língua

“Gosto de roçar a minha língua na língua de Camões” (Caetano Velloso)

Ontem presenciei um curto debate nas redes sociais a respeito do uso de uma palavra: “alevantar”. Um sujeito, ao ler a expressão, criticou o que julgou ser o uso errado do idioma, dizendo se tratar de “coisa de petista”. Acho que cabem algumas considerações, até porque a forma como falamos e escrevemos tem a ver com questões políticas e de classe.

Mesmo aqueles que afirmaram que “alevantar” estava certo também, de certa forma, estavam errados. Digo isso porque o conceito de “certo” e “errado” em se tratando de língua portuguesa não faz sentido nenhum. Como dizia meu filho, quando tinha uns 10 anos, “falar ‘menas’ é uma questão de tempo”. Se as pessoas usarem desta forma no futuro irá verter para o cotidiano da fala e, posteriormente, para o vernáculo mais erudito. Tratar da fala como errada ou certa é, em verdade, uma forma de estabelecer diferença de classes, baseando-se na maneira como as pessoas falam. O debate poderia ser entre “norma culta” x “norma popular”, mas até esse debate já está um pouco defasado, porque, para alguns autores, existem tantas línguas quanto falantes, e nos comunicamos porque reconhecemos semelhanças entre as nossas falas – nossos idiomas pessoais – e as de nossos interlocutores.

Dizer que uma expressão é “errada” é um equívoco conceitual, pois não leva em consideração a função precípua dos idiomas. Usando um exemplo que li do linguista Marcos Bagno, dizer que “alevantar” está errado seria o mesmo que afirmar que uma cobra é um animal “errado” porque não tem pernas. Ora… errado em relação ao quê? Uma cobra é absolutamente adaptada ao seu meio ambiente – aliás, a mais tempo do que nós. Pela mesma perspectiva, uma expressão funciona se está adaptada à comunicação de ideias e se transmite conceitos e símbolos aos outros falantes, e “alevantar” cumpre essa função, pois todos que a leem entendem o que significa. O preconceito linguístico é uma forma clara de estabelecer barreiras de classe, por isso é usado em qualquer comunidade. Entretanto, é importante ter uma postura crítica em relação a estas diferenças culturais, para evitar exclusões baseadas na forma específica como as pessoas se comunicam. Por certo que, se uma pessoa fala e/ou escreve na norma popular será discriminada por não conhecer o idioma das classes “superiores”. Entretanto, essa forma de falar não é errada, feia ou menor; ela é o motor das transformações da fala. Na verdade, ela está na linha de frente da construção do idioma. A norma culta olha para o passado; a popular para o futuro.

Questionar o preconceito de classe que se insere nas críticas ao modo de falar, em especial das pessoas mais simples, não significa desprezo pelo aprendizado da norma culta. Ela é importante para que as pessoas falem em círculos de poder superiores, como na academia ou nas empresas. Entretanto, a língua que falam em casa ou com seus iguais não está “errada”, e nem é culturalmente inferior. Desta forma, acreditar que uma expressão está errada, apelando para um positivismo linguístico maniqueísta, deturpa a própria função dos idiomas. Uma língua falada funciona como os seres vivos, que por meio de metamorfoses infinitas se ajustam às necessidades oferecidas pelo meio ambiente mutante. Da mesma forma, a língua se modifica em decorrência das necessidades dos humanos, implicando na transformação dinâmica dos idiomas, dos sotaques, das expressões e das gírias com as quais estes se expressam

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Religiões

Hoje me aconteceu algo curioso. Recebi do Facebook uma mensagem estranha: “Seu pedido de inscrição no grupo ‘Religião para quê?’ foi aceito”. Cliquei no link e vi que se tratava de um grupo ateísta. Na sua página inicial fala do “mal que as religiões causam ao mundo”, mas curiosamente estes grupos se expressam como se fossem religiões comuns, com seus dogmas, explicações totalizantes, visões unívocas e o desejo explícito de culpar o vizinho do lado – as outras religiões – por todas as tragédias do mundo.

Meu primeiro – por certo, o último – post no grupo é este que se segue:

“Caros irmãos ateus, unidos pelo amor de Richard Dawkins, cultuadores da razão e da lógica ateia. Venho perante vós perguntar: se eu não me inscrevi nesse grupo… como pude ser aceito? E, se é possível ser sincero, acho que o conceito positivista e ingênuo do grupo está muito distante da visão que tenho das religiões. Explico…

As religiões são artifícios criados pelos homens para a compreensão de mistérios insolúveis pela ciência. São parte do conhecimento compartilhado pela humanidade e cumprem uma importante função social. Elas não são “A verdade”, mas são modelos de entendimento, formas de perscrutar o insondável.

A fé – um elemento aquém da racionalidade – é a água que corre sob o solo rochoso da razão. Essa água percorre todo o planeta e é igual em todas as latitudes, enquanto as religiões são os poços criados para atingir os mananciais profundos. Os orifícios que atravessam o solo duro da razão são distintos entre si, dependendo do tempo e do espaço; são obras da cultura onde estão inseridos. Entretanto, buscam sempre o mesmo: a água da fé, a compreensão dos sentidos cósmicos, a busca pelas razões primeiras e a direção do porvir. Enquanto houver dúvida e desconhecido haverá modelos que buscam nos oferecer uma explicação coerente.

Por esta razão, as religiões são eternas e imortais, mas não imutáveis. Tanto quanto qualquer criação humana elas se transmutam, se contorcem e se modificam para adaptarem-se a novos tempos. Não há como existir uma ciência que dê conta de todas as perguntas, todas as dúvidas existenciais, e que ofereça a explicação completa. Para sempre há de existir uma pergunta sem resposta, uma dúvida não satisfeita um vazio de compreensão. No entanto, diante da avalanche de novas evidências, até os Papas aceitam o darwinismo e reconhecem em Adão e Eva um casal alegórico.

Religiões são, desta forma, idiomas que nos conectam uns com os outros para com eles dividirmos as angústias do não-saber. Como qualquer língua, entendemos e falamos para aqueles que compartilham da nossa compreensão. Por vezes achamos as outras línguas estranhas e até incompreensíveis; algumas são para nós bizarras, indecentes ou até perversas. Todavia, algumas delas, de tão semelhantes, são quase idênticas àquelas que falamos.

Alguém poderá nos dizer: “Mas eu não preciso desse idioma, algo externo a mim. São línguas atrasadas e sem sentido”. Perfeito, não é necessário falar por nenhum idioma, mas isso serve para aqueles que não compartilham dúvidas, perguntas, ideias e uma aguçada curiosidade sobre o significado último do Universo. Caso você tenha uma perspectiva especial sobre isso, por certo que muitos outros tem a mesma visão teleológica e gostariam de falar neste mesmo “idioma”.

Já a ideia de que as religiões fazem “mal ao mundo”, é totalmente tola e infundada. Nunca houve guerras motivadas por elas, mesmo que sejamos ensinados a ver isso por alguns observadores pouco atentos. As guerras seguem um determinismo econômico, lutas de poderes e interesses geopolíticos. Somente ingênuos acreditam que as Cruzadas eram motivadas pela libertação da “Terra Santa”, que católicos e protestantes se digladiaram na Irlanda ou que judeus e muçulmanos se atacam na Palestina ocupada. Essas guerras tem claros interesses econômicos, fortes motivações políticas e sua face religiosa serve como propaganda ou para mascarar interesses muito mais materialistas do que o resgate de lugares sagrados ou a supremacia de um credo sobre outro.

As religiões são um conjunto de histórias, relatos e revelações onde depositamos nossos valores, e não de onde retiramos ensinamentos ou regras. O mesmo Corão onde encontramos violência está repleto de proposições pela paz e pela compreensão, assim como para o amor e o perdão; o mesmo encontraremos na Bíblia ou no Bhagavad Gita. Por isso mesmo são retratos completos de uma era, que nos oferecem a possibilidade de buscar o que nós queremos encontrar, dependendo daquilo que somos ou desejamos.

Religiões são construções humanas, escritas por homens, publicadas para os homens da Terra, em diversos momentos da história. São ricos repositórios do conhecimento alegórico humano, de nossa história, nossos valores e nossas aspirações. Religiões foram criadas para resolver problemas mundanos e para nos oferecer explicações hipotéticas sobre o funcionamento do Universo. Elas não são boas ou más; são coleções gigantescas de valores onde as pessoas – boas ou más – podem fazer perguntas e receber respostas que as satisfaçam.”

Grato pela atenção

Ric Jones, agnóstico

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Latitudes e semelhanças

Uma das coisas que sempre me impressionou ao visitar lugares muito distante e culturas bastante afastadas da minha é a curiosa proximidade que sinto ao constatar o cotidiano de suas vidas. Por mais que aspectos culturais pareçam ser relevantes ainda sinto como válido um comentário do meu velho pai: “Se um viajante de um universo longínquo chegasse à terra lhe assombrariam muito mais as nossas gritantes semelhanças do que nossas minúsculas diferenças”.

Quando vejo línguas tão distintas quanto enigmáticas sendo faladas, como tcheco, búlgaro ou mandarín, me encanto com as tentativas de decifrá-las pelas entonações, ênfases, silêncios e paradas. Percebo que todas elas não me são estranhas; o riso, o espanto, a alegria, a preocupação, a timidez, a paixão e a raiva me são todos familiares. Isso deixa claro que somos de verdade uma grande família cujos muitos filhos se separaram há pouco tempo, e nossas tímidas diferenças surgiram nos poucos minutos em que nos distanciamos do olhar da terra mãe que nos abriga.

Nosso idioma não falado mais ancestral – com o qual convivemos 75% da nossa historia – continua comum a todos nós. Por esta razão, por sermos tão semelhantes, parece muito tolo que ainda exista racismo. Se há uma coisa que o convívio com as aparências díspares pode oferecer é a capacidade de reconhecer-se no outro, mesmo quando a cor da pele e a sonoridade da língua parecem tão diferentes.

No meio dos diferentes nunca me senti tão igual.

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