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Nostalgia

Quantas vezes a gente já escutou essa expressão?

“A gente era feliz e não sabia. Que saudade da minha infância”

A gente – no sentido de todos nós – não era mais feliz e nem mais alegre nos anos 60-70. Também não era mais saudável bebendo anilina no K-Suco, respirando DDT no “Flit” ou se engasgado com bala Soft. Talvez um pouco mais seguros, desde que a gente pense apenas na pequena fatia de classe média a qual eu mesmo pertencia. Sim, naquele tempo era possível voltar a pé da casa da namorada de madrugada sem temer ser assaltado. Entretanto, ao mesmo tempo em que eu desfrutava dessa liberdade, os pobres – naquela época 80% da população – experimentavam todas as inseguranças possíveis. Da insegurança de não haver escola, de não ter o que comer até de ser espancado impunemente pela Polícia pelo crime de ser pobre.

Nós, que vivíamos em uma pequena bolha social, tínhamos mais segurança porque a violência urbana – resultado das crescentes contradições do capitalismo – ainda não havia explodido e se tornado o que é hoje: um desastre cotidiano de segurança pública, brutalidade policial, violência moral contra a população pobre, crimes domésticos, etc. Olhar com saudosismo para o século passado sem sair da pequena caixa de classe média onde estamos inseridos é perder o contexto. Este é, em verdade, o erro mais característico da direita: olham para o Brasil como se fosse uma extensão do seu bairro, desconhecendo propositalmente a miséria e a desassistência que nos circunda. Dentro de suas redomas, a realidade pode ser muito enganadora.

Temos esse saudosismo sobre o passado por sermos capazes de escolher aquelas lembranças que nos parecem mais adequadas para uma melhor adaptação a qualquer situação. O esquecimento de aspectos ruins e traumáticos de nossas vidas é essencial para que possamos guiar nosso comportamento e essa inibição da memória é parte fundamental do funcionamento cognitivo. Além disso, deixar de olhar para o lixo que se acumula pelo capitalismo sempre nos dá a impressão de um lugar mais limpo, por mais que isso seja uma miragem.

A vida no passado pode nos parecer mais sorridente apenas quando apagamos os seus aspectos negativos e olhamos exclusivamente para o mundo que nos cerca, o pequeno universo ao redor do nosso próprio umbigo.

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As Fases da Lua

Certa feita estava em um evento social (isso soa quase como uma piada para um ermitão como eu) quando escutei uma voz conhecida me chamando alguns metros atrás de mim. Eu de imediato reconheci o timbre da voz, mas logo percebi que se tratava de alguém de um passado muito distante:

– Então Ric, as fases da lua realmente influenciam no parto?

Olhei para o lado e encontrei um colega de residência. Por alguns segundo fiquei tentando imaginar a razão de me fazer esta pergunta após algumas décadas sem nos vermos. Por que me perguntar da lua? Durante algumas frações de segundos eu busquei nos arquivos empoeirados da minha memória até conectar os pontos. A explicação para esta bizarra conexão me oportunizou refletir sobre padrões que utilizamos para valorar circunstâncias e personagens.

Durante a residência por diversas vezes eu fui confrontado com algumas informações a respeito do “gatilho do parto”, ou seja, quais os elementos internos e externos envolvidos na início do trabalho de parto. Hoje sabemos que o processo está relacionado à maturidade fetal, que é quem inicia este processo. Todavia, há mais de 3 décadas atrás, muito se discutia sobre fatores ambientais e circunstanciais – inclusive por aqueles que trabalhavam em maternidades – e era comum escutar que as fases da lua tinham um papel no desencadeamento de eventos que culminariam no nascimento de um bebê. Alguns colegas de outras especialidades me falavam que a lua, por sua gravidade, era capaz de mover extensas massas de água, no fenômeno conhecido como “marés”. Ora, se o ser humano é composto de 70% de água é natural imaginar que esta mesma água seria, de alguma forma, modulada pela força atrativa da lua. Lógico, não?

Essa pode ser até uma boa ideia, ou apenas mais uma fantasia colocada no catálogo interminável de crenças aplicadas sobre o evento do nascimento humano. Quando as pessoas me diziam sobre a experiência que tiveram com o plantão lotado em um dia de lua cheia eu perguntava se elas lembravam da luz cheia anterior, se também havia sido movimentado. A resposta era negativa, e eu argumentava que deveria se tratar apenas de “viés de confirmação” – a tendência de recordar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais – e não de uma correlação verdadeira entre eventos. Eu, particularmente, não acreditava nessa coincidência, mas também sabia que só poderia haver uma forma de comprovar seu acerto ou erro.

Sim, a aplicação de um método.

Desta forma resolvi analisar todos os partos do hospital escola ocorridos no ano anterior. Capturei as folhas da enfermagem do centro obstétrico e comecei a analisar os dados. O que primeiro me chamou a atenção foi o número enorme de internações fora do trabalho de parto, por indicações médicas variadas, além do uso de oxitocina, que poderia fazer um parto ocorrer antes do que estava programado para acontecer. Enquanto eu me ocupava com a elaboração de uma hipótese houve um encontro de residentes no hospital, e na oportunidade fui convidado a mostrar minha proposta de pesquisa. Afinal, muitos colegas ficaram vivamente entusiasmados em saber se, afinal, é verdade ou não esta suposta influência da lua sobre os nascimentos.

No dia da minha fala mostrei apenas alguns dados preliminares e expliquei que seria necessária uma depuração para que fosse possível ver a ação natural da lua sobre os eventos do parto. Porém, foi durante a breve apresentação que me dei conta da inutilidade da minha pesquisa solitária. Já naquela época eu estava me divorciando definitivamente da ideia do “parto natural”, um termo que desde então passei a combater. Não existe nada de “natural” no parto, se esta palavra for usada como contraposição às perspectivas culturais, portanto artificiais, e que não dizem respeito à pura ação biológica sobre o processo de expulsão fetal do claustro materno.

Para avaliar a influência da lua sobre os partos seria necessário realizar o isolamento das milhares de outras condicionantes socio-culturais-contextuais que agem sobre o parto, uma tarefa que eu percebi ser completamente impossível e inviável. Talvez há alguns séculos, em uma tribo de indígenas autóctones da Amazônia, seria possível retirar muitos destes condicionantes, mas nem assim seria o suficiente para retirar deles a linguagem – e como diria Lacan “a palavra matou o real”. O parto natural está restrito aos outros mamíferos, e mesmo para eles apenas quando estiverem em segurança, distantes do nosso olhar. A par deste meu desencanto, a influência da lua sobre partos acabou sendo desmentida por diversos estudos, e hoje resta pouca dúvida sobre a questão.

Eu me dei conta muito cedo que o real do corpo é inacessível para um universo simbólico, onde variáveis infinitas agem sobre o pensamento, e este sobre o corpo e suas funções. O desencadeamento de um parto pode até ocorrer pela lua mas é muito mais provável que hoje em dia seja mais condicionado pelo humor e pelas crenças do médico do que por qualquer alteração hormonal. Por esta razão a pesquisa logo se tornou absolutamente desinteressante, até porque a minha visão a partir de então estaria totalmente direcionada para as questões relacionadas ao protagonismo feminino no evento, o que consumiu praticamente toda a minha vida profissional. As influências da lua ficaram como uma curiosidade passageira da época do final da residência.

Entretanto, e aqui o ponto que eu achei interessante, a imagem do “jovem médico místico” preocupado com a influência das fases da lua ficou gravado na memória do meu colega, como se aquela imagem pudesse traduzir minha personalidade e os meus interesses. Nada poderia estar mais longe da verdade, como o resto da minha vida pode comprovar. Todavia, fiquei igualmente impactado ao me dar conta de que este tipo de comportamento é extremamente utilizado por todo mundo – inclusive por mim.

Comecei a lembrar de pessoas pelas quais tenho uma profunda antipatia por coisas feitas ou ditas em um passado distante e percebi que muitas vezes (quase todas) essa má impressão está ligada a pequenas coisas, posições que o sujeito teve no passado, e que podem estar completamente distantes de sua realidade atual. É possível que tenham abandonado por completo suas posturas, suas ideias, suas perspectivas de mundo e tenham se tornado bastante diferentes. Como a menina na praia de Copacabana que deu uma declaração preconceituosa e até racista para a extinta TV Manchete, mas que refez sua vida, estudou filosofia e hoje diz ter “horror de gente que pensa como ela pensava”.

Pessoas mudam, pessoas crescem, se modificam. Pessoas evoluem… o que era algo valioso no passado pode se tornar desinteressante em muito pouco tempo. Paixões se dissipam no ar sob a ação do sol, novos amores surgem, assim como novos interesses brotam da experiência cotidiana. É possível que, dentro de um tempo variável, todos sejamos compelidos a mudar o nosso foco, nossa visão da realidade, fazendo o interessante virar frugal, e o banal essencial.

Minha maior fantasia é ter um encontro com Jesus depois de morrer. Imagino encontrá-lo no plano espiritual, e, passado o susto por vê-lo, nossa conversa seria assim:

– Fala Nazareno!!! Feliz de te encontrar!! Meu, que honra…

– Obrigado, mas ninguém me chama mais de Nazareno há alguns séculos. Aqui acabei me dedicando a outras coisas, meu foco de atenção está em outros projetos. Nada contra aquela minha fase, que foi até bem legal. Fiz vários amigos e curti muito. Converso muito com os apóstolos ainda. Pedro, por exemplo, quando vem para cá sempre fica na minha casa, né Madalena?

Olho para o lado e Madalena concorda com um sorriso e um meneio de cabeça, enquanto passa um pano nos móveis da sala. Volto o olhar para o Messias e o vejo carregando com certa dificuldade uma sacola marrom.

– O que tem na sacola, Mestre? Precisa de ajuda?

– Ahh, tudo bem. Faz parte do treinamento. São meus halteres.

– Halteres?

– Sim, nos dois últimos séculos tenho me dedicado ao fisiculturismo. Percebi que este é um caminho muito mais interessante. Se eu estivesse bem fisicamente teria sido muito mais difícil para os romanos me pegarem. Essa é a minha paixão por ora…

Ok, uma fantasia, mas creio que manter-se com a fotografia estática de qualquer um – para o bem e para o mal – diminui a imensa adaptabilidade humana para encontrar novos caminhos, novas paixões e projetos.

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Lembranças

A Igreja do Cebrero, no município de Pedrafita, província de Lugo na Galícia

As pacientes costumavam me contar do seu passado assim: “Bahhh, naquela época eu andava muito louca”, ou diziam “Só agora estou conseguindo sair de um período muito triste”. Entretanto, também falavam coisas do tipo “sim, aquele foi o período mais feliz da minha vida, mas eu não tinha consciência disso”.

A análise que faziam era sempre pretérita, como se a felicidade ou alegria só pudessem ser analisadas na distância garantida pelo tempo. Hoje eu penso que o futebol “das onze à meia noite” com meu filho e seus amigos eram momentos de esfuziante alegria, assim como os almoços de domingo quando meus pais eram vivos, com filhos e netos pequenos a colorir os espaço da casa deles.

Mas, quando essas coisas aconteciam, a vida real e concreta obliterava a precisa avaliação do esplendor de cada um desses momentos. O mundo que passa diante dos nossos olhos nos dificulta avaliar a real dimensão dos acontecimentos. É como postar-se diante de uma montanha que de tão alta nos impede avistar seu cume, e só quando nos afastamos é que podemos ver seu verdadeiro tamanho. Quando fiz o Caminho de Santiago com minha filha e minha sobrinha tive breves “flashes” em que eu conseguia sentir o êxtase daquela aventura, tentando apreender o gozo feliz do futuro antes que ele se tornasse memória.

Quisera guardar para sempre a emoção das crianças que tiram de cada momento a total emoção que lhe cabe. Queria voltar o tempo, sentar à mesa na casa da minha mãe e perguntar ao meu pai da vida e do mundo. Queria jogar bola com a garotada e sentir o prazer dos gols e das vitórias. Queria de novo caminhar livre pela Meseta contando os passos para chegar no Cebrero e depois em Santiago. Agora, só me resta viver cada um desses momentos na lembrança.

Mas sei que a vida é sopro e que os dias tristes e frios que se aproximam poderão se aquecer nas memórias felizes e assim afastar a inevitável tristeza destes tempos vindouros de sombra e despedida.

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Voltar ao passado

Penso muito em voltar no tempo. Fico imaginando às vezes me concentrar até entrar em transe, aparecer em uma data do passado e mergulhar nela, como no filme “Somewhere in Time”. O problema é pensar em qual data eu gostaria de chegar.

Algumas vezes penso em retornar instantes antes de fatos traumáticos, mas outras vezes volto à escola, à infância, à minha casa no interior. Tipo, para falar com meu avô que morreu quando eu tinha três anos, ou reencontrar minha mãe e minha avó Irma. Também para rever a turma da rua ou os amigos da escola. Voltar naquele momento especial e ter coragem de dizer algo que não falei – por medo. Mas também voltar para ficar calado quando disse alguma bobagem que magoou alguém.

Essas viagens sempre me oportunizam pensar “como seria se…”, mas, mesmo que fosse possível ajeitar alguns erros do passado, uma viagem no tempo seria uma angústia brutal. Fico imaginando encontrar a mulher da minha vida e dizer a ela as palavras que sempre achei que deveria ter dito, só para depois perceber que o segredo de sua paixão foi mesmo ter sido bobo, tolo e desajeitado. E se dessa vez ela não me quisesse? Perderia instantaneamente meus filhos e netos e passaria a eternidade imaginando em que outra barriga teriam nascido.

Eu seria um perdido, vagando pelas ruas, imaginando encontrar em outros corpos as almas que perdi. A volta ao passado seria um martírio infinito, uma coleção de dores e tristezas. Uma “saudade do que nem cheguei a ser“…

Talvez sejamos feitos dos próprios erros que cometemos, e mesmo os piores deles constroem o que somos hoje. Perdê-los talvez signifique retirar de nós a nossa própria essência.

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