Arquivo da tag: pudor

Big Brother

Não sei se há respaldo legal para a aplicação de vigilâncias panópticas em centros obstétricos, onde as grávidas em trabalho de parto desfilariam desnudas diante de câmeras, exibindo-se involuntariamente a um observador à distância. Alguns dizem que este controle já é usado em alguns hospitais.

Entretanto, se isso for fato e houver garantias legais para tal, qual o problema? Qual seria a novidade em invadir desta forma o mundo privativo do nascimento na perspectiva da biomedicina patriarcal?

Posso garantir que, se essa pergunta for feita para 10 médicos obstetras, 9 deles vão olhar o interlocutor com cara de assombro, como a não entender do que se está falando. Para quem não consegue entender que “episiotomia é violência obstétrica“, como exigir que entenda a nudez das pacientes na perspectiva delas mesmas, e não de quem as atende?

Via de regra, a resposta a este questionamento será: “Como assim? De onde tirou essa ideia?“, para logo depois arrematarem: “Vocês enxergam maldade em tudo“…

O corpo das mulheres, ao olhar da medicina, é dessexualizado; um corpo real, tornado des-animado para assim oferecer proteção à atuação dos profissionais. Monitorar grávidas desnudas não parece, aos olhos da medicina, configurar uma invasão da intimidade ou da privacidade.

Entrar em um hospital para parir significa perder sua condição de cidadã e sua autonomia, e abrir mão dessas “frescuras” de intimidade, pudores e privacidade. Estas necessidades, tão humanas e banais, ficam no guichê do hospital, junto com os documentos e a carteirinha da Sulamérica. Assim, não causaria nenhum tipo de surpresa se o “big brother” obstétrico achasse normal, natural e benéfico vigiar corpos-máquinas desnudos fazendo seu trabalho de procriação.

Qual o sentido dos corpos já deserotizados pelo sistema de atenção ao parto reclamarem e questionarem a perda de sua privacidade?

Big Brother is always watching you...

Deixe um comentário

Arquivado em Parto

Pudor

Uma vez eu disse uma frase no meu Facebook que ajudou a piorar minha fama. Na verdade era a pura expressão de uma percepção que eu tinha de mim mesmo, e não dos outros. Mesmo assim, levei paulada. A frase era até bem simples: “De todas as virtudes de uma mulher a que mais me atrai é o pudor“.

Evidentemente eu falava de uma perspectiva subjetiva e bem pessoal, mas algumas preferiram tomar isso como uma afirmação prescritiva e, como de hábito, choveram afirmações redundantes como “a mulher se veste como quiser”, ou as previsíveis “mulher se veste para si e não para os outros”. É óbvio que se veste como quiser; hoje em dia quem ousaria questionar esse direito? Também é certo  que se veste para si mesma, mas sempre em função do olhar do outro.

Apesar das contrariedades, mantive o que disse até porque não se tratava de uma “opinião”, mas de um sentimento, absolutamente pessoal, que fala de mim e não das mulheres. Também não acredito que haja uma maneira “correta” ou justa de se vestir, e esta liberdade vai desde o nu total à roupa de uma marquesa francesa do século XVII. Não faço mais julgamentos sobre a forma como os outros se cobrem.

Entretanto, o pudor é o mistério que sussurra. Ele provoca e instiga ao invés de oferecer sem luta. Produz uma mobilização interna que vai além do olho, e se acomoda nos porões obscuros de nossa imaginação. Por isso casei com a mais recatada das mulheres, a mais reservada e cuja alma, ainda hoje, guarda segredos a serem perseguidos. E acreditem, o pudor foi o gatilho.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos