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Estigmas

“Ele não passa de um alcoólatra”.

A propósito, modernize-se. A palavra “alcoólatra” caiu em desuso nos anos 80, pois antes disso se considerava o vício em bebida como um problema moral. As palavras certas hoje em dia para descrever este transtorno são “alcoolista” e “alcoolismo”, porque esta adição é considerada pela OMS uma doença e desta forma deve ser encarada e tratada.

Mas, nao é à toa que esta ofensa ainda é usada, em especial contra sujeitos que emergem das classes populares. Chamar pobre de “bêbado” é uma atitude antiga das classes dominantes para criar um estigma de falha moral entre aqueles que surgem do proletariado.

Pobre é bêbado, vagabundo e relaxado. Lula é “alcoólatra”, “bebum” e está sempre sob o efeito de álcool. A burguesia repete essas ofensas para reforçar o estigma e deixá-lo colado à pobreza. Desta forma mantém-se a fantasia de que os proletários, os pobres e os operários jamais poderão conduzir uma nação já que são prisioneiros do vício na bebida.

Manter essas mentiras é um ato criminoso, tão grave quanto o racismo ou a corrupção. Elas só servem à narrativa racista de uma burguesia canalha que se locupleta mantendo o povo controlado por factoides e mentiras deslavadas.

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Rótulos

O gozo que os pacientes experimentam ao receber – em batismo médico – o nome de suas doenças e enfermidades sempre me surpreendeu. “Mas afinal, o que é isso que tenho?”, perguntavam com ávida ansiedade. O “carimbo” médico – a nomeação de seus males – era seguido de um suspiro de alívio. O esforço comovente que tantas pessoas fazem para colar nos outros – e em si mesmos – diagnósticos e rótulos para explicar suas mazelas é uma das marcas da nossa medicina. O efeito apaziguador dessas rotulagens oferece um sentido de pertencimento e delimitação. Desta forma, estabelecendo barreiras para o sofrimento, parece-nos mais simples imaginar uma cura para os males, mesmo que não seja mais do que uma fantasia com pouca conexão com a realidade. Também nos livra do isolamento que se abate sobre todo aquele que se vê vítima de uma enfermidade. “Somos muitos aqui nessa dor”, e não há como negar o quanto este compartilhamento apazigua o sofrimento.


Dr. James McKinnon, “Disease as a Matter of Fact”, Ed. Coltrane, Pág. 135

James McKinnon é um médico sul-africano nascido em 1943 em Cape Town. Com 24 anos de idade foi testemunha do primeiro transplante cardíaco realizado por Christiaan Neethling Barnard durante seu período como residente de cardiologia no hospital Grote-Schuur em Cape Town, quando o coração de uma pessoa falecida bateu pela primeira vez no peito de outro ser humano, exatamente às 5h 25min do dia 3 de dezembro de 1967. James McKinnon era da equipe de suporte da UTI do paciente transplantado, que sobreviveu a cirurgia apesar de vir a falecer de sepse 18 dias depois do transplante. Apesar do aparente fracasso, as equipes envolvidas nessa cirurgia inédita não se deixaram esmorecer e logo após realizaram uma nova cirurgia, onde o paciente sobreviveu por 1 ano e 7 meses. McKinnon iniciou uma carreira de sucesso como cardiologista e passou a se dedicar à literatura na maturidade, quando começou a escrever sobre temas médicos mais amplos, inclusive com uma visão muito crítica à medicina exógena e medicamentosa contemporânea. Seu livro “Medicina Quaternária” lançou seu nome como um dos importantes escritores médicos de língua inglesa. “Disease as a Matter od Fact” é seu último livro, e trata das relações entre médicos e pacientes, em especial na força curativa da relação transferencial.

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Rótulos

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Muitas pessoas se incomodam quando alguns profissionais do Brasil que atendem sob a égide da humanização do nascimento são chamados de “humanizados”. Eu não me importo com esta rotulagem.

O rótulo é inevitável. Se nós não falarmos os pacientes o fazem sem a menor cerimônia. Obstetra humanizado, enquanto rótulo, existirá enquanto houver necessidade de contrapor nossas condutas ao modelo hegemônico contemporâneo. Houve um tempo em que havia astrônomos heliocentristas, para diferenciarem-se daqueles que seguiam o modelo ptolomáico. Hoje eles se chamam apenas “astrônomos” e o heliocentrismo foi incorporado aos conhecimentos básicos deste ramo do saber.

Dia haverá em que os valores da humanização – protagonismo restaurado e garantido, visão interdisciplinar e respeito à MBE – serão a base para qualquer ação obstétrica, e o nome “humanização” cairá em desuso por redundância, e não por decreto;  muito menos por ferir suscetibilidades.

Eu não vejo problema algum em ser referido como obstetra “humanizado”, desde que o significado desta expressão esteja claro para quem a diz.

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