Arquivo do mês: julho 2015

Amicus Plato

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“Amicus Plato, sed magis amica veritas”

(Sou amigo de Platão, mas amo ainda mais a verdade.) Aristóteles

É por vezes difícil e desafiador reconhecer os valores mais profundos embutidos em nossas atitudes e no nosso discurso. Por vezes nos deixamos ofuscar pelo brilho das teses que defendemos sem nos dar conta de que, por baixo da tela fúlgida que encobre o que ardorosamente defendemos, existe uma questão filosófica mais ampla e complexa. A liberdade de falarem o que não me agrada é um assunto que sempre tomei como “sagrado”, assim como o direito ao contraditório, a busca de pluralidade nas expressões, a liberdade garantida e a resiliência para suportar opiniões contrárias. Desta forma, também considero essencial a necessidade de devolver as agressões com argumentos e não com violência. Quando tratamos das teses humanistas do nascimento é importante ter em mente que para combater o excesso de cesarianas é essencial que fundamentemos nossa causa com ideias e argumentos, e não com agressões e xingamentos. Para a defesa das minorias nossa postura não pode se afastar desse mesmo ideário: devemos utilizar a argumentação embasada na fraternidade e nos ideais humanísticos, sem cair na tentação de usar as mesmas armas cerceadoras daqueles que nos atacam.

A violência cometida contra as nossas opiniões é mais grave por ferir o direito de livre expressão do que por atacar algo que a medicina baseada em evidências comprova como sendo lícito, adequado e até mesmo benéfico. A humanização do nascimento é passível de debate, com profusão de argumentos livremente expressos de ambos os lados. Aliás, essa é a solicitação veemente que fazem os defensores destas ideias: um debate plural, cientificamente embasado e livre sobre a assistência ao nascimento. Entretanto, é fundamental para isso que tenhamos as garantias que o estado de direito oferece aos cidadãos: a certeza de que suas opiniões possam ser expressas sem coerção ou constrangimento.

Posso não concordar com um colega que defenda “cesarianas para todos”, mas não ousaria impedi-lo de manifestar suas teses e seus argumentos. Sem isso teremos uma situação grave, exatamente por agredir um dos preceitos fundamentais das democracias modernas: a liberdade de falar o que os alguns não querem ouvir.

Numa sociedade livre tal preceito está acima de qualquer consideração.

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Ambrosia

Esta é uma história verídica, mas os nomes dos personagens foram trocados.

Conheci Ildo há muitos anos atrás quando fazia meus primeiros plantões como “interno” em um pronto Socorro da minha cidade. Ao contrário do Dr Emerson, meu colega das quartas-feiras, eu encontrava o Ildo apenas nos plantões de fim de semana. Diferentemente do que acontecia com o Dr Emerson eu não precisava chamar Ildo de “doutor”, pois ele não chegava aos 30 anos de idade, o que era pouca diferença dos meus 20 anos recém feitos. Ele havia se formado há alguns poucos meses em uma faculdade do exterior e estava começando seu trabalho como médico pelo lugar mais divertido: um Pronto Socorro, cheio de estudantes, colegas jovens e histórias curiosas.

Nossos plantões eram muito divertidos, principalmente porque Ildo tinha uma forma jovial e curiosa de pensar. Era cheio de frases e bordões gauchescos, já que toda sua infância foi passada na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Era recém-casado com uma belíssima mulher que se chamava Angélica. Muitas vezes saíamos de um atendimento e fazíamos uma breve parada em sua casa, na parte antiga da cidade, para um breve café e uma rápida conversa. Eu me encantava com o charme e a beleza de Angélica, que sempre me perguntava como estava a faculdade e mandava lembranças para a minha namorada. Um casal aparentemente feliz e cheios de sonhos.

Uma tarde, num plantão no pronto-socorro, encontro Ildo absolutamente alterado. Não parava de sorrir e de falar alto. Parecia excitadíssimo com uma novidade. Quando seus colegas médicos se afastaram me aproximei e perguntei a razão de tanta alegria.

– Eu fui escolhido, Ric. Fui chamado. Acabo de receber o telegrama que tanto esperava. Vou para o Rio de Janeiro no mês que vem e vou estudar com o maior cirurgião plástico de todos os tempos: Dr Ivo Pitanguy!

Claro que tamanha alegria transbordou inevitavelmente para mim. Certamente que isso parecia ser algo fora do comum, uma oportunidade única de estudar cirurgia plástica com um dos mais renomados cirurgiões do mundo, conhecido até pelas pessoas que não são da área médica. Cumprimentei-o e desejei a ele a melhor das sortes. No nosso último plantão despedi-me de Angélica, sua linda esposa, e disse que sempre me lembraria deles como um casal maravilhoso, amigos do coração. Ela me abraçou e pediu que eu transmitisse à minha namorada um grande abraço, e que um dia queria conhecê-la. Ildo nunca mais voltou àquele pronto-socorro. Seu estágio de mais de um ano com o famoso professor fez com que ele retornasse para nossa cidade já ostentando um nome, uma carreira promissora e muitas promessas. Por intermédio de amigos médicos eu ficava sabendo de suas conquistas. Uma clínica de cirurgia com seu nome, o casamento que se mantinha sólido, a fama repentina, mas merecida. Parece que as coisas tinham funcionado da maneira como ele sempre desejou. O sucesso e a fortuna haviam sorrido para ele.

Aqui faço um recorte no tempo e costuro com nosso reencontro 25 anos depois daquela despedida afetuosa em sua casa, no último plantão de pronto-socorro que fizemos juntos. Eu deixava o hospital e estava parado à frente do elevador do quarto andar, depois de uma visita pós-parto. Olhava fixamente para a porta metálica esperando que ela se abrisse quando senti uma mão em meu ombro, seguida de uma expressão e um sotaque “gaudério” inconfundíveis.

– Mas e aí vivente, que tal?

Só um guasca de fora fala assim. Era Ildo, com seu costumeiro linguajar gauchesco.

– Ildo, disse eu, !! Como vai? Quanto tempo? O que fazes aqui?

Eu sabia que ele dificilmente estaria operando um paciente naquele hospital, já que era dono de uma clínica famosa de cirurgia plástica na cidade. Sua presença era no mínimo estranha, como alguém muito “chique” para estar em um hospital comum como aquele.

– Eu… bem, eu… vim visitar uma parente minha que está internada.

Seu titubeio não passou despercebido, mas não insisti na pergunta. Talvez não quisesse me dizer o que ela tinha, ou apenas julgou que não era um assunto importante para interromper um reencontro que ocorria depois de um quarto de século. Ildo continuava um homem muito bonito. Estava bem mais magro do que quando o conheci, mas guardava uma nobreza facilmente identificável. Roupas caras, andar portentoso, um relógio dourado e extravagante. Um homem de sucesso.

– E a …..

– Zeza? Vai bem. Tivemos dois filhos, que já são grandes.

– Parabéns Ric!!

– E Angélica como vai? Eu, obviamente, me lembrava muito bem do nome de sua esposa.

– Vai muito bem, melhor do que nunca.

– Eu não acredito que ela ainda está com você!! Ela não conseguiu arrumar nada melhor? Que desperdício!!

Conversas de homem, como sempre tolas e divertidas.

Subitamente ele ficou sério e me olhou de uma forma diferente. Fixou-se em meus olhos e perguntou:

– E você Ric, o que fez da sua vida? Resolveu mesmo ser obstetra? E então, ficou rico?

Eu sorri e respondi que ser rico era uma possibilidade praticamente nula, mas que nunca foi meu objetivo. Trabalhava com o que gostava e da forma como desenhei muito cedo na minha vida. Humanizar o nascimento era um ofício e uma bandeira; um trabalho e um sonho de vida. Ele continuou a me olhar como que tentando me decifrar. Finalmente falou de si.

– Pois eu fiquei rico, muito próximo do que se pode chamar um milionário. Comprei casas, apartamentos, mansões, uma clínica, um pequeno Iate, dinheiro no banco, viagens pelo mundo todo. Fui o introdutor no nosso meio de uma técnica que vi no Rio de Janeiro e que estava apenas começando a ser utilizada. É a lipoaspiração, conhece?

Abanei a cabeça sorridente. Como não conhecer algo que havia revolucionado a cirurgia plástica? Ele continuou.

– Pois choviam paciente para fazer isso. Eu ganhava em dólares. Cinquenta, as vezes cem mil dólares em um único mês. Era muito dinheiro. Fiquei muito rico mesmo.

Curiosamente, eu não percebia na conversa do meu colega nenhuma arrogância. Não era exibicionismo o que eu presenciava; era algo bem mais profundo. Ildo parecia trazer à tona o relicário de sua vida, uma avaliação de suas conquistas e do valor real que elas possuíam. Parecia ter perguntado sobre o meu percurso apenas para relativizar o seu. Não havia uma expressão de vitória ou de pedantismo em suas palavras. A imagem que eu via era a de um homem que desejava ansiosamente saber o valor do que conquistara, e se o que ocorreu com ele havia valido a pena.

– Não, Ildo; minha vida passou longe disso. Não nasci com este talento. Gosto de atender minhas pacientes, tenho um grande prazer em atender partos, mas nunca serei rico. Não tenho nada contra ser milionário, mas jamais me esforcei nesse sentido.

Ele não ficou constrangido com a minha resposta, e sequer achou que eu estava desprezando sua capacidade de fazer dinheiro. Seu olhar era de sincero questionamento. Parecia querer saber o que havia acontecido naqueles 25 anos que nos separaram.

– Bem, foi um grande prazer lhe reencontrar, Ric. Continue seu trabalho sempre. Eu vou indo, pois estão me esperando. Um abraço para ….

– Zeza, disse eu.

– Isso, mande um abração para ela.

Desejei o mesmo para Angélica e olhei sua silhueta virando a curva do corredor, enquanto eu aguardava a chegada do elevador. Caminhei até o estacionamento do hospital e liguei meu velho carro.  Antes de sair ainda olhei para os lados, esperando encontrar a Mercedes ou BMW que eu imaginava ser do meu colega. Não os vi, mas me diverti pensando nos 25 anos e nos milhões que nos separavam.

Algumas semanas depois encontro sobre minha mesa, ainda dentro da capa plástica, o exemplar de uma revista médica da minha cidade. Normalmente eu nunca leio nada dessas publicações, pois as matérias são essencialmente corporativas, enfadonhas e recheadas de propagandas de remédios. Entretanto, desta vez fiquei tentado a folhear suas páginas acetinadas. Entre matérias insossas e fotos de medalhões da medicina da província, encontrei na última página o quadro de obituário médico. Nela apareceram nomes de médicos falecidos naquele mês e, entre aqueles que eu nunca ouvira falar, meus olhos repousaram sobre um nome conhecido.

– Dr Ildo Buaiz.

Cheguei a me assustar ao ver o nome do meu colega na lista de falecimentos. “Como poderia ter morrido, se há poucas semanas o encontrei no hospital, quando pudemos trocar ideias e recordar o nosso passado nos plantões do Pronto-Socorro?

Como isso teria acontecido? Pensei num homônimo, mas dois médicos na minha cidade com o mesmo nome não parecia razoável. Achei que a melhor hipótese seria um acidente. No nosso país as pessoas morrem todos os dias nos mais absurdos desastres de automóvel, e meu colega Ildo poderia ter sido mais uma vítima dessa tragédia cotidiana. Passei vários dias com esta pergunta na cabeça até que, alguns dias depois, indiquei uma cirurgia no hospital e pedi para minha colega Andréa para que viesse ao hospital me auxiliar. Durante o procedimento eu comentei que ainda estava abalado pela morte de um colega nosso, de forma repentina e sem explicação até então. Contei o episódio de nosso encontro na frente dos elevadores do hospital e da minha surpresa com a notícia.

– Como é o nome dele, perguntou minha colega.

Eu disse que se chamava Ildo Buaiz, um antigo amigo e colega do tempo do Pronto-Socorro.

Ela ficou estática me olhando e exclamou:

– O Ildo é da minha cidade, lá da fronteira. Eu não sabia!! Mas ele é jovem, não tinha sequer 50 anos! Que será que houve?

Expliquei a ela que não tinha ideia, e que ele me pareceu bem durante nosso breve encontro, apesar de estar bem mais magro do que no tempo que fazíamos plantão.

– Deixe comigo, Ric. Vou descobrir o que houve.

Passaram-se algumas semanas e reencontrei Andrea em outra cirurgia. Perguntei se ela tinha notícias daquele caso do nosso colega e ela disse que me contaria depois de terminada a operação, na sala do café. Depois de finda a nossa tarefa, nos encontramos na sala de conforto médico, e ela me relatou a história que havia desenterrado.

– Câncer, Ric. Fulminante.

– Sério? Que coisa!!

– Um tumor galopante. Ele fazia tratamento nesse hospital, foi por isso que você o encontrou aqui.

Visitar uma parente”, disse ele. Em verdade ele estava se tratando, mas não quis me dizer.

– Sim, Ric. Ele teve um tumor raro e absolutamente inoperável. Em poucos meses ele passou de um cidadão rico e feliz para um quadro desesperador. Foi rápido demais, até para poder se adaptar à essa realidade. A vida às vezes tem dessas surpresas.

Enquanto ela me descrevia as informações que colhera com seus familiares na sua cidade eu tentava recuperar da memória os detalhes do nosso breve encontro. “E você Ric, ficou rico?”. Essas palavras agora tinham um outro sentido, mas confirmavam a clara impressão de que não se tratava de exibicionismo ou arrogância. Não, ele apenas queria saber o que significava toda a sua vida, os seus sucesso, sua fama e seu dinheiro. Naquele dia, tudo parecia estar escorrendo pelos dedos.

– Ele faleceu aqui no hospital, continuou Andrea. Ele sempre foi muito discreto, mas lá na minha cidade todos acabaram sabendo. Ele era muito querido pela família. Seu pai foi político e era um homem influente. Uma tristeza isso. Jovem, bonito e bem sucedido.

– Muito triste, respondi

– Conheço uma tia dele que mora lá, e falei com ela há alguns dias. Nos últimos dias antes de falecer ele pedia a ela que trouxesse de nossa cidade um presente muito especial, algo que o fazia voltar aos seus tempos de criança, quando tomava banho no rio e caminhava descalço pelo campo.

– O que era?

Ambrosia. Ele era louco por ambrosia, mas se privava de comer para não engordar. Durante muitos anos não fez o que seu desejo mandava, mas quando percebeu que seus dias estavam contados resolveu aproveitar seus últimos momentos fazendo o que lhe dava tanto prazer: uma deliciosa ambrosia com calda açucarada.

As palavras do meu colega ainda ecoavam na minha cabeça. Seu olhar fixo era em busca de respostas para o sentido de sua vida. Provavelmente por muitos anos ele pensou que a vida era feita para obter sucesso e usufruir das coisas que o dinheiro pode comprar. Seus dólares, entretanto, não foram suficientes para comprar o mais caro de todos os bens: o tempo. Antes de chegar à terceira idade seu tempo se esgotou, e toda a riqueza que ele conquistou na vida perdeu completamente seu sentido. Era isso que Ildo perguntava para mim: “Qual o sentido da vida? Qual a importância de lutar para conquistar valores que se esvaem por entre os dedos?

Eu não sei Ildo, não posso lhe dizer. Mas creio que a próxima vez que tiver vontade de comer uma ambrosia lembrarei de você, e vou saborear sabendo que esta é uma das melhores coisas da vida. E que as coisas mais importantes não podem ser compradas com dinheiro, mas são os afetos que plantamos durante nossa existência.

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O Outro

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Venho por meio dessa singela mensagem prestar uma homenagem a uma das pessoas mais importantes da minha vida, a qual me mostrou os caminhos a seguir, minhas limitações, virtudes, defeitos e capacidades escondidas.

Minha eterna gratidão ao …. Outro.

Sem o Outro jamais teria a mais tênue noção de quem sou, nem a menor possibilidade de me situar no universo. Sem ele eu jamais compraria uma camisa nova, e nem pentearia meus poucos cabelos. Se não fosse pelo Outro jamais teria estudado ou me aperfeiçoado, e nem tentaria eliminar os constrangedores buracos negros da minha educação. O Outro me ensinou (e continua agindo assim) todos os dias a me comportar nas mais diferentes situações, garantindo que todo avanço é seguido de uma força contrária em sentido oposto. Sem o Outro eu seria um perfeito idiota, incapaz de me situar no mundo.

Nem um milhão de anos seriam suficientes para agradecer a você, Outro, o quanto me ajuda a transitar pelo mundo de forma positiva. Seus conselhos, sua ajuda incondicional, seus “toques” e dicas, seus puxões de orelha me ajudaram a ficar de pé até agora.

Sem você minha vida não teria nenhum sentido e nenhum futuro. Você é o espelho que olho todos os dias para seguir caminhando. Você me construiu, fez o que sou, me moldou e me nomeou. Você me define.

Obrigado, Outro.

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Privilégios

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Para aqueles que adoram exaltar suas próprias virtudes, talentos e qualidades, as quais surgiram do seu valor pessoal e do seu esforço solitário preciso declarar que:

O meio foi SUPER, HIPER, MEGA benevolente comigo, por TODA a minha vida. Faço parte da camada mais privilegiada desse país, e estou no TOP 2% do planeta. Sou um ENDIVIDADO com as circunstâncias que fizeram o que sou. Anotem aí apenas 10 benesses que gratuitamente recebi da vida:

  1. Sou branco e homem
  2. Heterossexual (juro!)
  3. Nasci na classe média
  4. Tive irmãos maravilhosos
  5. Estudei em escolas próximas da minha casa e nunca me faltou um livro, uma caneta ou um caderno.
  6. Conheci meus avós
  7. Tive uma mãe maravilhosa
  8. Tive um pai filósofo e erudito
  9. Fiz uma faculdade PAGA por VOCÊ, e mais alguns milhões de brasileiros.
  10. Casei jovem com uma mulher espetacular, e por pura sorte… Também por pura sorte meus filhos se espelharam nas virtudes da mãe…

Nada do que está escrito aqui consegui por talento ou muito esforço. Tudo isso eu GANHEI da vida. Por isso me sinto devedor da enormidade de privilégios que cercam os burgueses brancos e heterossexuais como eu.

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Responsabilidade e Culpa

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Uma das confusões mais comuns que vejo no mundo das redes sociais é entre os conceitos de “responsabilidade” e “culpa“. Isso gera discussões e até exclusões, como muitos já foram vítimas. Por isso creio ser importante clarificar o que estes termos pretendem, para que fiquem bem assimilados.

Podemos dizer que os negros não tiveram culpa pela escravidão, e nem os gays pela exclusão e preconceito. Nenhuma dessas condições é feita por escolha do sujeito. Entretanto, é responsabilidade dos negros e dos gays mudar sua realidade. Ninguém vai carregá-los no colo, o que seria estúpido e indigno. Somente eles podem protagonizar suas lutas e sua busca por espaço e reconhecimento. Esse protagonismo é deles.

Isso não implica que sujeitos como eu, branco e heterossexual, não possam ser estimuladores de uma nova realidade inclusiva para negros e homossexuais. Faz parte das nossas tarefas eliminar as diferenças possíveis. O mesmo pode ser dito das lutas femininas e em especial pela dignificação do Parto. Não é culpa delas a situação objetualizante e coisificante, mas é responsabilidade delas – com o auxílio de todos nós – a retomada do protagonismo.

Espero que isso ajude a descomplicar esta confusão semântica.

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Desabafo

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Ontem eu li a emocionada declaração de uma médica obstetra na Internet descrevendo o bom trabalho que faz junto às suas pacientes e as dificuldades da profissão. Diante de cada dificuldade ela dizia se sentir “violentada”. Depois de descrever com minúcias sua atuação médica ela se alia aos críticos da atuação do deputado Jean Wyllys (que combate a violência obstétrica) e estampa a hashtag “calabocajeanwyllys”.

Eu tentei entender a motivação da colega e vi que ela se estendia para além das palavras escritas, e ficou nítido que ela se referia a uma herança da ação médica, que entende todo ato médico como “benevolência”. Em palavras – menos explícitas – o que ela diz é: “Depois de TUDO o que faço por vocês, com enorme sacrifício da minha vida, como ousam falar de violência obstétrica?”

Para mim fica clara a ideia de que os pacientes “devem” aos médicos pela ação devotada e superior que eles tem na sua labuta diária contra as doenças e o sofrimento. O salário que recebem é insuficiente para dar conta dessa dívida e, portanto, não faz sentido uma reclamação vinda de quem tanto deve para eles.

Este tipo de postura é essencialmente autoritária e desprovida de sentido amplo, servindo apenas como um desabafo pessoal, que qualquer um pode fazer diante da sensação de não receber o reconhecimento de que se acha credor. Ele, entretanto, falha quando insinua que uma profissão não pode ser questionada por estar “acima” das críticas, em função da essência superior de sua ação.

O desabafo soa como o de um policial que enfrenta bandidos, prende malfeitores, arrisca a vida em tiroteios e depois não aceita que se fale em “violência policial” já que ele coloca sua vida em risco por nós.

Ora, o fato de haver bons e dedicados policiais não inválida a existência de violência, tortura, ilegalidades, arbítrio e corrupção, assim como o fato de que estas falhas PRECISAM ser denunciadas. Da mesma forma, o fato de um obstetra (ou qualquer outro profissional da assistência ao parto) fazer bem o seu trabalho (SIC) não invalida a existência de um modelo violento de obstetrícia, que despreza a autonomia feminina, desreconhece práticas baseadas em evidências, burla a legislação do acompanhante, impede a livre expressão e objetualiza gestantes. E isso também PRECISA ser denunciado, para que seja eliminado da assistência ao parto.

O deputado Jean foi apenas o veículo de uma indignação crescente da população com a incapacidade do sistema médico de reconhecer as questões éticas essenciais da assistência ao parto, como a liberdade de fazer escolhas informadas. Reclamar dele é cegar-se à óbvia mudança que se aproxima em relação aos direitos reprodutivos e sexuais.

Espero que minha colega continue seu bom trabalho mas que possa, ao mesmo tempo, reconhecer que a violência ainda é um modo de relação entre profissionais e pacientes, e que ela precisa ser eliminada para sempre do nosso meio.

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Profundo e Sagrado

“As doulas representam para o mundo contemporâneo o resgate da mais profunda das relações humanas aplicada ao mais sagrado dos rituais de passagem: a solidariedade e o apoio no auxílio incondicional a quem vai parir.”

Quando eu vejo as manifestações raivosas de colegas em relação às medidas que estão sendo tomadas no Brasil em resposta aos descaminhos do nascimento (cesarianas em excesso, intervencionismo, práticas defasadas, etc…) eu penso que a medicina precisa ser “doulada” para passar por esta crise. Sempre que eu vejo uma manifestação de puro ódio e violência contra o que propomos (ou contra mim mesmo) tento imaginar o que eu diria para estas pessoas se elas fossem meus filhos, cuja raiva se insere num contexto inevitável de passagem pela crise da adolescência. Certamente que jamais responderia com a mesma agressividade da qual somos vítimas; a resposta só poderá vir pela via da compreensão e do diálogo.

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