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Cotas

Agora a ideia dos liberais é privatizar o ensino com a tese de que assim ele seria mais “democrático”. Não tem como apoiar isso. Chile e a Alemanha acabaram com a universidade paga por perceberem o mal que o capitalismo fez à educação.

Por que haveríamos nós de retroceder?

Quanto ao dilema com os filhos brancos – pobres “prejudicados” pelas cotas – isso não passa de pura fantasia. Esses meninos e meninas da classe média recebem educação diferenciada – se comparada aos pobres – e vão competir em desigualdade de condições com pretos e pobres do Brasil que – fossem dadas condições iguais – teriam a mesma possibilidade de ingressar na universidade.

As cotas são para isso. São para estancar essa hemorragia racista e classista. São para evitar esse embranquecimento nojento da magistratura, do MP, da engenharia e da medicina e tantos outros cursos. Diga aí o nome de um juiz preto, um professor seu ou um médico afrodescendente. Diga o nome de um engenheiro negro. Os filhos brancos desse país são criados no privilégio que esta sociedade determina (tanto quanto eu e os meus filhos). Esse privilégio injusto e imoral é o foco das cotas e elas precisam existir enquanto ele persistir.

Quer uma equação mais justa para o seu dilema entre matricular na escola pública (para ter “vantagem”) ou na particular (e ser “prejudicado” pelas cotas)?

Tenho uma proposta: saia de casa, desapareça, pare de pagar pensão, mas antes disso bata neles com vontade para que a sua imagem paterna vire poeira. Não mande dinheiro algum para comprarem roupas, comida, cadernos e livros escolares. Coloque-os para morar num barraco com zinco furado. Mande-nos para a escola com fome e depois diga pro PSDB roubar a merenda. Faça tudo isso por vários anos escolares… e depois inscreva-os para o vestibular em “igualdade de condições” com os branquinhos classe média  Iphone-Disney que nunca pegaram ônibus na vida.

Se os seus filhos se classificarem depois desse “teste de sobrevivência na selva” poderemos falar em meritocracia.

Ser contra as cotas é viver tão dentro da bolha de privilégios que o próprio mundo de verdade desaparece diante dessa fantasia.

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Free Birth

“Free Birth” se refere às mulheres no mundo ocidental que voluntariamente abandonam o sistema de saúde e decidem parir livremente, por sua conta e risco. Minha ideia é de que tal abandono dos recursos médicos (com o qual não concordo) é consequência da negligência do modelo biomédico contemporâneo para com as necessidades básicas (fisicas, psicológicas, sociais, emocionais e transcendentais) das mulheres, algo que os médicos sequer conseguem perceber em função de estarem à deriva no oceano paradigmático da tecnocracia.

Ou, nas palavras da antropóloga Wenda Trevathan, este afastamento está baseado “na falha do sistema médico de muitas nações industrializadas em reconhecer e suprir as reais necessidades das mulheres que atravessam o rito de passagem chamado parto”.

“Parto Livre” é o sintoma; a distância do sistema médico do que desejam as mulheres para si e para seus filhos é a doença.

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Enfermeiras

“Enfermagem é o pelotão de frente da atenção à saúde. O trabalho é árduo, complexo, multitarefa, humano, conflituoso e desafiador. O que existe de complicado na atenção à saúde não é essa fantasia de Dr. House, a aventura intelectual de achar diagnósticos brilhantes ou fazer cirurgias incríveis que duram horas e separam xifópagos. Tais eventos são raridades e, apesar de serem espetaculares, não produzem nenhum impacto sobre a saúde de uma população. O que é verdadeiramente difícil na arte de atender é olhar os pacientes nos olhos, encarar suas dificuldades e paradoxos e encontrar a SI MESMO nas falas de quem nos procura.

Eu lembro de um colega envolvido com pesquisa de infertilidade e que dizia, com ar de arrogância e superioridade, que “nem todos podem ser cientistas“, mas no meu íntimo eu achava que os “médicos cientistas” eram os mais frágeis, aqueles que se escondiam nos laboratórios para não ter que encarar as feras, os demônios de si mesmos, transformados em falas e dores que brotavam do discurso dos pacientes.

Para a enfermagem não há escolha, pois faz no cotidiano essa batalha. Não existe descanso. O acolhimento e o cuidado – elementos centrais do paradigma da enfermagem – não permitem o afastamento da pessoa real. Não há “carinho in vitro”, e nem consolo “virtual”. O olhar que afaga e a palavra de ânimo de uma enfermeira são essenciais para a resposta de cura que pode (ou não) surgir a seguir.

Entretanto, a sobrecarga e o peso da responsabilidade desse contato são fatores que podem desestabilizar. Quando não metabolizados adequadamente estes sentimentos podem resultar em raiva e ressentimento, que são respostas sempre possíveis no horizonte. Por esta razão, creio que toda enfermeira devia ter suporte psicológico para dar conta dos choques inevitáveis que sua ação profissional propicia.”

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O parto de cada uma

A foto acima causou furor na internet ao mostrar uma mulher que recém havia parido tomando um refrigerante enquanto mexia no seu celular. Aos seus pés o bebê, com poucos  minutos de vida. A fúria de algumas pessoas causa espanto. Talvez tenham dificuldade para encontrar coisas realmente relevantes para se “enfurecer”. Tomar uma Coca Cola e a avisar os amigos pelo celular do nascimento de seu bebê está entre as milhares de atitudes que já testemunhei imediatamente depois do parto.

Entretanto, o comportamento das pessoas ao rejeitarem a imagem é revelador do conceito subjacente que os anima: a puérpera como um ser divino, angelical e puro, onde o mundano não tem vez e a química do refrigerante não passa de um veneno mortal a ameaçar seu leite sagrado.

Tolice. Basta ver mulheres recém paridas para perceber como suas perspectivas de mundo permanecem únicas. Se há aquelas que obedecem o ordenamento delas exigido (amor incondicional, lágrimas, promessas de amor, etc) existem outras cuja tranquilidade e senso prático tomam corpo e determinam seu comportamento. Aceitar que as mulheres possam ser diferentes do que esperamos delas é sinal de maturidade cultural na busca por equidade.

Por outro lado, essa foto é um artefato altamente pedagógico. Faz lembrar aquelas imagens de parto orgásmico, cheias de alegria esfuziante, onde as pessoas atônitas se perguntavam: “Como assim? Prazer? Não… isto está errado!!!”

Eu digo agora, jocosamente: “Como assim beber refrigerante e falar com os amigos? Não…. isto está errado!!!”

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Porta aberta

Eu concordo que romantizar parto e maternidade é um erro que pode custar caro. Lembro muito bem da frustração de mulheres que idealizaram seus partos de forma muito intensa e irreal e acabaram em cesarianas. Para estas a perda do “parto ideal” produz uma queda ainda maior por causa das expectativas criadas sobre o evento. Por esta razão é importante transmitir a elas a noção de que no parto, no amor e no sexo não há garantias e que é melhor que estejam preparadas para os reveses que podem vir a ocorrer.

Entretanto, também não é justo oferecer a elas uma visão negativa e catastrófica do parto e amamentação com a desculpa de que, assim “preparadas” para o pior, não serão pegas de surpresa. Para tudo há que buscar a moderação e o “caminho do meio”. Transformar o parto em um circo de horrores serve apenas àqueles que desejam manipular pelo terror.

Depois de atender por mais de 30 anos a estes eventos, com toda sorte de resultados, a minha postura se baseava numa frase que meu pai repetia: “Visualize o melhor, prepare-se para o pior“. Zeza tinha também uma expressão muito boa para esse dilema: “Você pode enaltecer o quanto quiser as virtudes do parto e da amamentação, mas deixe sempre uma porta aberta em seu discurso para permitir que a esperança entre quando os projetos não ocorrerem como os idealizamos.

Essa porta é o segredo, e sei o quanto é difícil mantê-la aberta. Entretanto, este é o ponto nevrálgico da preparação: capacitar as mulheres para que possam lidar com maturidade seja qual for o resultado.

(De uma conversa com Andreia Moessa De Souza Coelho)

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O que querem as mulheres?

Em um trabalho de 2002 a enfermeira e pesquisadora Ellen Hodnett reuniu 137 relatórios (estudos descritivos, ensaios randomizados e revisões de intervenções no parto) sobre os fatores que influenciam as avaliações de mulheres sobre suas experiências de parto. Quatro foram os fatores essenciais:

  1. Expectativas pessoais;
  2. A quantidade do apoio recebido dos profissionais;
  3. A qualidade do relacionamento cuidador/paciente e
  4. O seu envolvimento na tomada de decisões

Estes fatores parecem ser tão importantes e primordiais que sobrepujam as influências de idade, status social, etnia, preparação para o parto, ambiente físico do centro obstétrico, dor, imobilidade, intervenções médicas e continuidade nos cuidados.

Para este estudo os fatores afetivos e psicológicos sobrepujam as questões técnicas da assistência, a preparação de pré-natal, a continuidade no cuidado e inclusive a dor. Surpresos?

A conclusão de Ellen Hodnett é marcante:

“As influências da dor, do alívio da dor e das intervenções médicas intraparto na satisfação subsequente não são tão óbvias, tão diretas e nem tão poderosas quanto as influências das atitudes e comportamentos dos cuidadores”.

Uau!!!

Assim sendo fica mais fácil entender o sucesso do “Dr Frotinha”. Mesmo sendo um cesarista, sem vinculação com a Medicina Baseada em Evidências e com práticas agressivas, violentas, dolorosas e muitas vezes perigosas e ineficazes, sua abordagem afetiva e próxima pode oferecer às gestantes suas necessidades primordiais de afeto, reconhecimento e participação nas decisões. Assim, mesmo oferecendo uma assistência de baixa qualidade e desvinculada da ciência obstétrica, ele é capaz de transmitir uma ideia de cuidado, um clima de atenção e uma percepção de autonomia (mesmo quando ilusórias).

É evidente que não podemos nos colocar diante de um falso dilema. Não há porque contrapor a atenção centrada na pessoa e uma abordagem que estimula a autonomia com as evidências científicas e a prática humanizada. É, em verdade, exatamente o que a Humanização do Nascimento se propõe. É plenamente possível oferecer às mulheres o “melhor de dois mundos”. Não precisamos mais de profissionais “capengas” que ofereçam apenas um aspecto da atenção, relegando o outro lado ao desprezo.

Entretanto, este estudo evidência que, quando olhamos para o parto pela perspectiva das mulheres é importante não esquecer que o parto é um processo sexual e afetivo acima de qualquer outra consideração. Não é o medo da dor ou do excesso de intervenções o que mais as domina, mas o temor pela rudeza nas relações e o medo de não ser ouvida nas decisões sobre seu corpo e seu bebê.

Aceitar essa perspectiva nos ajuda a entender o que se passa na mente de uma mulher que vai parir. Se as ferramentas tecnológicas são capazes de nos garantir a devida segurança diante das patologias é fundamental entender que a maioria delas não tem muito mais de 100 anos de idade, enquanto o cuidado amoroso, empático, doce e próximo oferecido às mulheres têm a exata idade da existência do gênero humano nesse planeta.

Mais do que treinar profissionais de parto para uma atenção cientificamente embasada é também essencial selecionar aqueles que percebem na assistência sensível e amorosa o caminho mais seguro para um parto satisfatório.

PS: O nome disso é “sincronicidade”. Escrevi o texto acima – que fala dos aspectos emocionais e psicológicos como preponderantes na qualidade da avaliação das mulheres sobre o parto – após rever o trabalho da enfermeira Ellen Hodnett sobre o tema. Procurei uma foto sua para ilustrar o texto e lembrei no nosso breve encontro no Chile em 2012. Tinha na memória uma foto que tiramos juntos, mas sabia que jamais a encontraria e acabei colocando uma encontrada na internet.

Naquela data eu fiz a ela apenas uma pergunta: “É possível melhorar este sistema de atenção ao parto centrado no trabalho médico?”, ao que ela me disse apenas “não, este modelo não tem futuro”. Depois ambos falamos de netos; do seu que recém havia nascido em casa (e do vídeo do nascimento dele que tinha o barulho do aspirador de pó do andar de cima) e do meu primeiro, que nasceria alguns meses depois, de cuja existência eu havia sido avisado dois ou três dias antes.

Pois 20 minutos depois de publicar o texto baseado em seu trabalho o Facebook me lembra do aniversário de 6 anos desse encontro. Mais ainda: me mostra a foto que eu jamais encontraria se fosse procurar. Como explicar essa coincidência?

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Velhas novidades

Após 45 minutos de explanações sobre o melhor modelo arquitetônico e as formas de organizar pessoas em centros obstétricos para maximizar resultados o palestrante solta a frase definitiva que eu, secretamente, já gritava em minha mente: “Estamos aprimorando um produto que as mulheres não querem comprar”.

Bingo!!! Ufa, felizmente ele falou o que era indispensável. Nenhum – literalmente – sistema pode funcionar enquanto dádiva; qualquer um pode ter sucesso se for por conquista. Se esses modelos não partirem de uma MUDANÇA CULTURAL onde as mulheres sejam encorajadas a tomar as rédeas do processo nunca haverá verdadeiro protagonismo e no máximo teremos “sofisticação de tutela”.

Portanto, somente a mudança de baixo para cima, envolvendo as mulheres e suas associações representativas, poderá produzir um sistema que seja realmente eficiente e produza resultados consistentes em longo prazo.

Outra frase marcante, esta do sociólogo Raymond DeVries: “nenhum estudo muda a realidade; eles servem para oferecer substrato científico para nossas crenças e desejos”.

Se a ciência e as pesquisas médicas tivessem esse poder nenhuma episiotomia seria realizada há mais de 30 anos e nenhum país teria taxa de cesarianas superiores a 15%. Medicina e toda a assistência à saúde são questões políticas e respondem às leis de poder e pressão, como toda e qualquer decisão política.

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Educação

Eu me convenci da falha no modelo há muitos anos, exatamente no período em que se acreditava (e quando se apostava) na possibilidade de “educar” médicos para o modelo humanístico. Nessa época me vieram à mente as palavras de um psicólogo americano humanista chamado Carl Rogers que afirmava “Perdemos recursos e tempo demais com treinamento que seriam mais bem usados em seleção“. Isso para mim foi revelador…

A revolução nunca se faz na cabeça, sempre no coração. Só depois a razão toma as rédeas. Ou como dizia Raymond DeVries, “Nenhum estudo muda a realidade; eles servem para oferecer substrato científico para nossas crenças e desejos”.

Em outras palavras: de nada adianta treinar médicos para que façam algo que não gostam, não querem e não desejam. Médicos não são formados para a atenção ao parto porque TODA a lógica da medicina é direcionada à INTERVENÇÃO. Não é por acaso que já os estudantes, no início da sua formação, se interessam por cirurgia: ela é o ápice do modelo. Como seria possível passar 9 anos de escola médica ensinando as intervenções e suas possibilidades e mostrando como elas garantiram status social ao médico (e dinheiro, por consequência) para depois exigir que na atenção ao parto nada do que foi aprendido pudesse (ou devesse) ser usado. Como exigir que, depois de tanto treinamento, o jovem médico use suas maravilhosas ferramentas em apenas 10% das ocasiões? Como pedir que ele abra mão exatamente daquilo que lhe confere importância na sociedade e lhe diferencia do modelo das “parteiras, curandeiras e bruxas”?

Ora… o erro é flagrante. Não devemos despender tantos recursos em treinar estes profissionais. A experiência mostra que isso é inútil. Toda essa campanha do “parto adequado” (nome criado para desprestigiar o nome “parto humanizado” – usado por nós) aplicada aos hospitais privados para termos um decréscimo de 1% na taxa de cesarianas!!! Sim, um por cento…. esse é o tamanho do impacto da “educação” e do controle sobre o trabalho médico.

Para mudar de verdade os números só se tivermos a coragem para trocar o paradigma e incentivar a SELEÇÃO adequada dos profissionais. Pior (ou melhor); elas já existem e são as parteiras profissionais, que durante 99% do tempo de existência da nossa espécie foram as responsáveis por essa tarefa. Obstetrizes e enfermeiras obstetras serão as principais atendentes do parto normal no Brasil. Podem me cobrar, ou lembrem dessa minha profecia quando eu já tiver partido.

Pedir para médicos atenderem ao parto foi uma aventura tecnicista recente, e um fracasso retumbante para o parto normal e fisiológico. A medicalização dos ciclos vitais (nascer e morrer, em especial) precisa ser combatida porque ela significa um passo seguro para a artificialização da vida e a perda do que existe de humano em nós.

Precisamos mais bom senso e menos ganância…

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Repercussões sobre o debate

Legalizar o aborto significa apenas que a gente combina com a mãe que ela não vai morrer. Entretanto, lembrem que é plenamente possível apoiar a humanização do nascimento e ser contra ou a favor da legalização do aborto. Estes são dois assuntos diferentes que possuem suas interfaces, mas podem ser analisados separadamente.

É claro que a humanização e a legalização são temas progressistas e que apontam na mesma direção: protagonismo da mulher e autonomia em suas decisões. Todavia, não existe nenhum problema lógico ou incompatibilidade em ser a favor de um e contra o outro. A minha posição, por exemplo, não é compartilhada por muita gente que debate humanização no Brasil e no mundo: sou a favor da legalização mas jamais atenderia um aborto, por uma questão de “isenção de consciência”. Entretanto, isso não me torna menos “humanizado” pois continuaria a honrar os princípios fundamentais da humanização do nascimento: protagonismo garantido à mulher, interdisciplinaridade e MBE.

Palavras bonitas, cheias de amor à vida, carregadas de paixão por fetos e nenhuma consideração pelas mulheres que morrem todos os dias em abortos clandestinos. Torquemadas e Savonarolas ainda queimam, em nome de conceitos abstratos, bruxas e hereges que ousam se preocupar com seu semelhante.

Ser contra a legalização é permitir que tudo se mantenha como agora, quando milhares de mulheres jovens perdem a vida em abortos clandestinos, a despeito de muitas delas terem orientação e educação. Ser contra a legalização é ser a favor do “Apartheid da morte”, onde ricas abortam e pobres morrem tentando.

A propósito da isenção de consciência, e a aparente contradição do “sou a favor mas jamais faria”, posso dizer que sou a favor de que as mulheres tenham esse direito mas eu não aceitaria fazer isso porque trabalhei a vida inteira com a vida, enquanto um aborto é a interrupção de um projeto de vida. É uma questão eminentemente pessoal. Mais ou menos como “Sou carnívoro mas não mataria uma vaca para comer“. Ou, “respeito as prostitutas e dou apoio às suas reivindicações, mas não uso seus serviços“. Existem muitos exemplos de fatos que lhe atingem pessoalmente, mas que você aceita em um nível social.

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Expropriação do parto

Assisti não mais de 3 minutos da fala de um obstetra do centro do país com o tema “Você quer estar certa ou obter resultados?“. Logo me dei conta de que estava diante da mesma retórica de risco que escuto há 40 anos e que – ao se analisar em profundidade – serve como substrato ideológico para a submissão das mulheres ao controle médico no momento apical de sua feminilidade: o parto. Em suas palavras encontrei o mesmo discurso da “mulher bomba relógio” que justificaria a perda total de autonomia e que colocaria o médico como o único sujeito capaz de tomar atitudes em seu nome. O resumo de sua fala poderia ser “Você quer ser livre ou continuar vivo?”. Ou ainda “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Só vais te manter viva se for por mim“.

Para este médico reduzir-se a uma fiel e subserviente paciente, curvada diante de seu saber absoluto, é a única maneira de sobreviver à terrível jornada da gravidez e do parto. Sua voz parece surgir das catacumbas, colocando para o exterior um paradigma mumificado e bolorento. Entretanto, não há mais espaço no mundo contemporâneo para acorrentar as mulheres a um paradigma que as coloca como coadjuvantes no nascimento dos próprios filhos!!! Não há mais lugar para uma visão iatrocêntrica, focada no profissional, sem que a mulher possa escolher como e onde vai parir. Não se justifica mais a falta de conexão com as evidências científicas que mostram o parto domiciliar como tão seguro quanto o hospitalar no que tange mortalidade materna e neonatal, e com inúmeras vantagens acessórias.

O que resta de verdade após escutar essas mensagens de anacronismo e preconceito é que vozes carcomidas pelo tempo e visões antiquadas sobre a mulher e o feminino não devem se manter como hegemônicas; é preciso que a voz dos profissionais humanizados se faça ouvir cada vez mais na Academia e que sejam estes novos modelos os principais canais a informar as pacientes. Chega de ouvir médicos falando sem embasamento científico e sem qualquer conhecimento de causa.

Quando a proposta se resume a “Você quer estar certa ou ter resultados” na verdade estamos diante de outra demanda: o desejo de que se abra mão de toda a autonomia e que se sucumba à ordem hierárquica perversa de expropriação do parto.

Que a onda verde atinja esses médicos para que a liberdade deixe de ser slogan e vire prática cotidiana.

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