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Cultura do medo

The nurse relaxing Jerald before the milk challenge during the Labor Games.

Em “Media Representations of Pregnancy and Childbirth: An Analysis of Reality Television Programs in the United States”, os pesquisadores Morris e McInerney (2010) descreveram a resultados de sua análise de conteúdo de 85 reality shows que retrataram 123 nascimentos, exibidos nos EUA no “Discovery Health” e no “The Learning Channel” em novembro de 2007, concluindo que “os corpos das mulheres eram tipicamente exibidos como incapazes de dar a luz um bebê sem a intervenção médica “. (Ways of Knowing about Birth – Robbie Davis-Floyd, no prelo)

Não é de se admirar que, na cultura contemporânea, o parto seja visto como a “crônica de um desastre anunciado”. A sociedade, através de seus meios de controle social (a televisão em especial), cria e amplifica a ideia central da defectividade feminina e sua extremada dependência da ciência e da tecnologia para superar seus desafios fisiológicos. Nesta abordagem, os heróis são sempre os médicos e a tecnologia, responsáveis últimos pelo resgate das pobres e frágeis mulheres de sua natureza imperfeita e traiçoeira. Nos filmes, documentários e séries, a gestação é quase sempre retratada como um momento dramático, perigoso e causador de tragédias. Como dizia meu obscuro professor na residência, “uma grávida é um equilibrista nas alturas sobre a corda bamba, e vocês são a rede“. Por que tanto espanto quando as mulheres descrevem o parto como algo que lhes causa terror e medo? A quem cabe a culpa por uma “cultura de medo” sobre o nascimento?

A fragilidade do organismo das mulheres e sua incapacidade de parir com segurança sem a intervenção patriarcal da obstetrícia são mitos que sobrevivem ao tempo, mas cuja disseminação não se expressa num vácuo conceitual. Pelo contrário; são parte essencial do controle dos corpos, o biopoder e a dominação patriarcal sobre a sexualidade feminina.

A mudança na forma como entendemos o parto nas sociedades ocidentais não se fará pela simples disseminação de informação de qualidade, como ingenuamente acreditam os racionalistas. Esta transição é um processo cultural, e só se dará obedecendo os movimentos de fluxo e contrafluxo de qualquer outro fenômeno social. Na atual conjuntura, a abordagem intervencionista da obstetrícia ocidental ocorre por meio de um acordo mútuo entre as mulheres e seus médicos, que se baseia nos valores fundamentais e na abordagem geral da vida inserida na cultura tecnocrática.

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