Acordem desde torpor; romantismo é uma fantasia sexual tão válida quanto bundas, peitos ou pés.
Jeffrey Mallone, personagem de “A Mangled Desire”, de Emett Drurys, pág. 135
Emmet Drurys nasceu em Chattanooga, Tenesse em 1967. É basicamente um escritor autodidata, tendo iniciado sua carreira escrevendo roteiros de humor para a rádio local – 98.1 FM – THE LAKE. WLND-FM. Seus sketchs humorísticos fizeram muito sucesso local e por causa disso foi convidado a fazer parte da grade nacional de grandes emissoras de rádio. Escreveu seu primeiro livro – No Earth Connection – com recortes de suas histórias e piadas e foi um sucesso de vendas. Já em seu primeiro livro de ficção “A Mangled Desire” ele descreve as desventuras de Matt Rifkin, um “loser”, sujeito feio, pobre e sem sorte nenhuma com as mulheres e que tinha um inédito talento como cantor. Todavia, sua falta de atrativos físicos obrigou o produtor Edmond Baxter a criar uma farsa. Seu rosto não podia ser mostrado porque destoava de sua voz e por isso convidou Jeffrey Mallone, um bonitão charmoso, canastrão e sem talento algum para a música, para emprestar seu corpo e seu rosto para a voz espetacular e o talento musical de Matt. As desventuras da farsa criada e a amizade que se criou entre Jeff e Matt nos fazem questionar os valores e as valências que a vida oferece graciosamente, desafiando nossas concepções sobre beleza, riqueza, talento e sucesso.
A descrição depreciativa que fazemos dos outros é inversamente proporcional à condescendência que reservamos para nossas falhas e defeitos. Isso vale para o Oriente médio, o islã, a Ásia, os LGBT, os homens, as mulheres e para todos a quem ilusoriamente consideramos – em essência – diferentes”.
Martha Chistensen, “Le Second Autre”, ed. Maigret pág. 135
Martha Schneider Christensen é uma blogueira e influencer sueca. Seu blog tem uma imensa popularidade em seu país e nele ela trata de costumes, sexualidade, religião, islamofobia e ateísmo. É engenheira química de formação, mas dedica-se ao “jornalismo das redes sociais” como formadora de opinião desde 2009. É fundadora da ONG “United Against Discrimination” – UAD – que luta pelos direitos LGBT e pela proteção aos habitantes da Faixa de Gaza.
A mensagem veio dobrada em um papel amassado que Jason colocou em meu bolso momentos antes de entrarmos na sala do magistrado de apelações do condado. Resolvi abrir, com discrição, pois poderia ser algo importante, algum ponto especial a dizer – ou calar – diante do Juiz durante a sessão. Meus dedos procuraram as pontas da pequena dobradura e a abriram. Coloquei os óculos e li o que estava escrito com a letra desengonçada de Jason.
– Martin e a mulher estão mortos. Acidente de carro.
Levantei os olhos à procura de Jason, mas ele não mais estava na sala. Como auxiliar de defesa, ele não tinha obrigação de estar ali, apenas o meu defensor. Olhei de novo para o papel com a respiração ofegante, sem saber o que dizer. Percebi que estava corado. Sim, eu me sentia envergonhado.
Martin era a razão de toda a minha desgraça. Se eu estava em uma sala fria aguardando um juiz prepotente e estúpido para analisar minha causa, eu devia isso a Martin. Fora ele que, por inveja do meu sucesso rápido na banca de advogados do seu pai, havia me denunciado à polícia por defender uma mulher negra e pobre por posse de drogas, hospedando-a em minha própria casa. Sua acusação – falsa e absurda – era de intermediar a venda de drogas e esconder uma fugitiva. Sabia de suas ligações espúrias com a polícia, mas acima de tudo percebia seu ciúme doentio pelo fato de eu ser admirado por seu pai. Desde o início do processo soube que Martin estava por trás de tudo. As drogas plantadas, o falso testemunho de Bridget, a pressão sobre o pessoal na polícia. Seu cinismo ao me oferecer ajuda foi nauseante. Diante disso, eu o odiei com todas as minhas forças. Imaginei toda a sorte de sofrimentos e tragédias para ele. Fantasiei todas as desgraças imagináveis para ele e para os seus.
Inclusive essa.
Agora eu me envergonhava dos meus pensamentos. Olhava para os lados como se as pessoas ao meu redor soubessem o quanto desejei este terrível infortúnio. Mais ainda; senti culpa por desejar tanto, e com tanta veemência de espírito, como se minha vontade estivesse magicamente conectada por meio de cordéis etéreos ao acidente fatal. Uma culpa a mais com a qual teria que lidar.
Leonard Doohan, “Cliff of Dreams” (Penhasco dos Sonhos), ed. Bethesda, pág. 135
Leonard Doohan é um escritor americano nascido em Chesapeake (Virgínia) em 1977. O romance jurídico/policial “Penhasco dos Sonhos” de Leonard Doohan (seu melhor livro, ainda melhor que “Eu, Vincent”, que virou filme com Jennifer Coolidge no papel de Laura/Vincent) foi escrito imediatamente após cumprir pena no Ventress Correctional Facility em Clayton, Alabama (USA). A partir desse livro, que combina memórias pessoais com relatos recolhidos de colegas de penitenciária, ele inaugurou uma sequência de 14 obras nas quais analisa, com olhar sociológico, o fenômeno do “white trash” e dos “rednecks” do “bible belt” e dos “red states” americanos, examinando o entrelaçamento entre essa cultura e a idolatria por Trump. Vive ainda hoje em Galveston no Texas, com seu cão Jax, e está escrevendo um romance sobre o lado pouco conhecido e obscuro da família Bush.
Se por um decreto divino a prática médica a partir de hoje fosse plenamente vinculada às evidências científicas – mesmo as que já temos – muito rápido a medicina se tornaria uma profissão tão diferente do que existe na atualidade que seria praticamente irreconhecível. O que chamamos de “ato médico” é, em verdade, a encenação de um encontro terapêutico cujo enredo não é necessariamente escrito com as tintas da ciência.
James H. Waldorf, “From the depths to Calicut”, ed Norwegian, para 135
The search for chloroquine, ivermectin and now dexamethasone bears a resemblance to the search for love in a man or woman, an ideal of happiness that depends in someone to complete us and offer what we lack. In all cases the answer is always out there, in something that will rescue us from loneliness, degeneration and death. Exogenous healing has never gone out of style. Prince Charming never stopped visiting our dreams.
“A busca pela cloroquina, ivermectina e agora a dexametasona guarda uma semelhança com a busca do amor em um homem ou a mulher, um ideal de felicidade e em alguém a nos completar e oferecer o que nos falta. Em todos os casos a resposta está sempre lá fora, em algo que vai nos resgatar da solidão, da degeneração e da morte. A cura exógena nunca saiu de moda. O Príncipe Encantado jamais deixou de visitar nossos sonhos.”
Patricia Highsmith, Punxsutawney Chronicles, june 12th,
A ideologia do acúmulo infinito, da meritocracia irrestrita, leva à criação de ‘monstros’ como Ma, Bezos, Musk, Gates e Zuckerberg, cujo poder acumulado é maior do que o PIB da maioria dos Estados nacionais. Esse modelo é, acima de tudo, antidemocrático, que coloca o capital acima das pessoas, tirando delas o poder e mantendo-o na mão das elites financeiras. A luta contra o imperialismo e a colonização está ligada à necessidade de conter o poder obsceno captado por bilionários, cuja visão de mundo pode ser chamada de qualquer coisa – de visionária a apocalíptica – mas jamais democrática e ampla.
George Mguzue, “On the rise of a new order”, ed. Patch, page. 135
Em toda mobilização subjetiva no sentido da transformação haverá um deflagrador de origem primitiva, emocional; sexual em essência. Como dizia Dimitri*, as concepções de ordem intelectual jamais oferecem potência para mobilizar as energias criativas de um indivíduo. A real origem delas pode ser recôndita, inconsciente e inconfessa, mas uma busca apurada encontra a semente psíquica e erótica desses movimentos que, multiplicados por contextos e circunstâncias infinitos, produzem guerras, monstruosidades, o amor romântico, a cura das doenças e até a conquista do universo.
Edouard Davrigny, “The Inner Circle of Mystic Roots – The life and work of Dimitri Czerkow”, ed. Altumus Press, pág. 135
Edouard Davrigny é um escritor belga nascido em 1936 na cidade de Kortrijk, próximo à fronteira da França. Sua mãe era comerciante e seu pai professor de história na escola local. Fez seus estudos na França, tendo estudado psicologia na Sorbonne. Durante seus estudos tomou conhecimento da obra do místico ucraniano radicado na Rússia, Dimitri Czerkow, que no século XIX produziu uma extensa coletânea de livretos que poderiam ser considerados precursores da obra de Freud, não fosse que o mestre austríaco jamais poderia ter tomado conhecimento deles, já que somente foram descobertos em 1950 durante a construção da estação Komsomolskaya (Комсомольская) do metrô de Moscou, quando uma arca com manuscritos muito bem preservados foi descoberta sob uma das casas demolidas. Dimitri passou a ser estudado por vários pesquisadores e historiadores russos, mas nenhum deles produziu uma historiografia tão completa quanto a de Edouard Davrigny. Edouard escreveu vários livros sobre psicologia e participou de coletâneas de vários outros autores. Entre seus livros, o mais conhecido é “Psychologie et substances psychoactives”, também lançado pela Altumus Press.
* Refere-se ao místico ucraniano radicado na Rússia, Dimitri Czerkow, cujo livro “Inner Circle” de 1866 estabelecia as rotas, os rituais e os condicionantes para a elevação espiritual dos iniciados. Ficou conhecido pelo uso de substâncias alucinógenas derivadas de raízes de Eleutheria pragnatis nas suas atividades como místico e por sua devoção à divindade Gorratchin – uma mistura de bondade extremada e desinteressada com hipersexualidade dionísica. Acabou seus dias com distúrbios sérios da sanidade mental e foi enforcado por fraude fiscal.
Desconfie de todo justiceiro; atrás da luz fulgurante de justiça que ele traz à proa se projeta uma gigantesca sombra, cuja extensão não enxergamos, mas que, mais cedo ou mais tarde, aparece à nossa frente, em geral quando ainda estamos ofuscados pela luz.
Adm. Walter Scott, on “Writings on Faith and Fear”, ed. Walton, page 135
Walter Scott foi um militar americano nascido em Augusta, no Maine em 1911, que lutou na “Guerra da Coreia” (1950-1953), tendo recebido inúmeras condecorações por bravura. Foi um dos maiores críticos deste conflito, denunciando o genocídio promovido pelo exército americano na Coreia do Norte. Em seu livro de memórias “Writings on Faith and Fear” ele descreve a selvageria dos combates e as bombas jogadas sobre povoados pelos bombardeiros americanos, com imenso desprezo pela vida da população coreana. Segundo ele disse em uma entrevista em 1980, um pouco antes de sua morte por câncer linfático, o nome original do livro seria “The Dark Side of M.A.S.H.”, mas foi vetado pelos editores pelo enorme sucesso da série americana.
Não coloque sua vida nas mãos de ninguém, vivo ou morto. Beba de todas as fontes sem jamais deixar que qualquer visão de mundo, por mais justa e adequada que lhe pareça, o faça esquecer a infinita pluralidade de perspectivas. Nunca atue porque algum mestre iniciático assim o determinou, mas porque suas ações servem ao crescimento, ao bem comum, à vida e à própria humanidade.Seja fiel à si mesmo, mais do que a qualquer imagem ou ideia. Esqueça todas as idolatrias, pois que elas limitam teu escopo de visão sobre a realidade. Creia na verdade e desconfie de todos os seus mensageiros.
Amém
“Integram Sanctim opera Euphrasio”, Ed. Capitolium, pag. 135
Curiosamente, no contrafluxo do paradigma individualista, eu não gostaria de um comprar um tênis que fosse único, diferente de todos os outros, com a minha “marca pessoal”, um elemento de distinção no vestuário. Não acho justo colocar tamanha responsabilidade em um item externo, algo que pode ser comprado por alguns dinheiros e que apresenta muitas vezes uma falsa originalidade, pois que os pensamentos que habitam essa roupa “diferente” nada diferem do senso comum, tantas vezes escondendo ideias e posturas conservadoras e preconceituosas.
Pelo contrario; eu gostaria de usar uma roupa – incluindo um tênis – que me deixasse igual a todo mundo, que me fizesse desaparecer visualmente na multidão, que me tornasse igual à massa ao redor, assim oferecendo a oportunidade para que a minha fala e meu discurso fossem os elementos a expressar meu caráter único e distinto. Quando delegamos aos elementos exteriores a função de expor características subjetivas é porque admitimos que o interior se sente frágil ou incapaz para essa tarefa.
Menos roupas únicas e mais ideias originais e corajosas.”
Antoine Marcel-Dupré, “La pensée à la fin de la ligne. Haute couture, idées basses.” (Pensando no fim da linha: Alta costura, baixas ideias) Ed. Parnasse, pág. 135
Antoine Marcel-Dupré é um sociólogo francês escritor de várias obras de cunho didático na área da sociologia. Trabalhou na Ecole Parisienne d´Estudes de Sociologie durante 30 anos, e se aposentou um ano antes de morrer em 2017.