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Reencontro

Para os outros somos tão somente a imagem pálida e imprecisa do fantasma que carregam consigo e projetam sobre nós. Tudo em nós já existia, em semente, em nossos amores. Todo encontro é, em verdade, um reencontro.

Eugene Carriére, “Freud and Madame Bovary in a Train to Viena”, ed. Edmonton, pág. 135

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O bolor do pão

Igor Sidorov, preso na brutal prisão siberiana de Tobolsk pela recusa em pagar os pesados impostos que ameaçariam a própria sobrevivência de sua família, encontrou seu companheiro de cela Fiódor Vasilev, um dos presos mais antigos de Tobolsk. Este era um homem de feições rudes, cabelos e barba negra, testa olímpica e nariz bem desenhado. Seu encarceramento foi causado por assoviar a Internacional Socialista durante uma parada marcial da Guarda prussiana, considerado como um desrespeito e uma atitude conspiratória contra o Czar e sua família. Igor puxou a cadeira à frente de Fiódor parecendo angustiado. Este manteve-se atento ao pedaço de jornal que tinha à sua frente.

– Tovarish Fiódor, sabe das notícias do “salão”?

“Salão” era como se referiam os presos à sala contígua ao escritório do diretor, um amplo ambiente de parede de pedras cortadas, escuro e frio, onde o diretor recebia de forma ameaçante os recém-chegados na famosa prisão czarista.

– Nada me foi dito, Igor. Se tens algo na me falar, desembuche ou me deixe desfrutar o jornal e o bolor deste pão azedo, cortesia de Nicolau.

– O diretor Petrov foi deposto, tovarish. Demitido. Afastado por ordens diretas do Czar. Dizem que essa atitude tem a ver com o escândalo das bebidas e a relação disso com Viktor Gruchenko. Corrupção, troca de favores. Nicolai me disse que do setor norte é possível observar as carruagens e a guarda postada em frente ao portão principal. Nosso martírio pode estar chegando ao fim, Fiódor. As torturas, os espancamentos, as mortes terão um fim!!

Com os olhos marejados de emoção, agarrou os braços do amigo e os sacudiu, imaginando ser possível injetar-lhe ânimo através dos dedos descarnados que seguravam a roupa suja e puída do companheiro. Fiódor, tomou a última gota de chá e retirou com a ponta dos dedos a mancha esverdeada que cobria seu pedaço de pão. Olhou seu amigo no fundo de seus olhos negros e falou com voz pausada:

– Esse pão não fica menos infectado apenas por tirar o bolor que o cobre; isso apenas diminui nosso nojo do visível, mantendo intacto o universo invisível de impurezas que o contaminam. Tirar um diretor corrupto apenas nos oferece a ilusão de um benefício, o espaço de alívio entre o horror de agora e o próximo espancamento. Porém, a dura realidade é que se mudam as moscas para que a merda permaneça intacta. Cruzou as mãos sobre a mesa de madeira escura e, ainda olhando firme nos olhos de Igor, completou:

– Não se deixe enganar pela ilusão dos sentidos mais grosseiros, tovarish. Somente teremos paz quando não houver mais prisões e não houver mais injustiça, e não apenas por melhorarem a índole dos nossos carrascos.

Levantou-se e saiu a caminhar em direção à porta. De longe, Igor ainda pode escutar a música que Fiódor assobiava. Sem dúvida, a Internacional.


Bóris S. Gregoriev, “ночь волков” (A Noite dos Lobos), ed. Vostok, pág. 135

Bóris Sergueievich Gregoriev é um escritor russo dedicado aos romances históricos, em especial aos acontecimentos do final do século XIX que culminaram com as revoluções proletárias de 1905 e 1917, a queda do Czar e a execução de sua família. O livro “A Noite dos Lobos” trata da prisão de fuga de prisioneiros da famosa prisão de Tobolsk, onde esteve também preso o escritor Dostoiévski. No livro um grupo de prisioneiros políticos, liderados por Fiódor Vasilev fogem da prisão para criar uma brigada de conspiracionistas anarquistas para a derrubada do Czar. Esta intentona anárquica recebeu dos historiadores a alcunha de “A Noite dos Lobos”, que acabou de forma fatídica no “massacre da Catedral de São Basílio”, com a morte de todos os participantes, mas com o desaparecimento de seu líder, Fiódor Vasilev. Sua figura mítica de revolucionário suscita dúvidas até hoje, e para muitos historiadores sua reaparição no cenário das disputas teria sido constatada por várias testemunhas durante a revolução de 1917, existindo a forte suspeita de que ele se tornou um dos principais conselheiro militares de Trotsky. Boris Gregoriev nasceu em Petrogrado em 1942, escreve em várias revistas culturais e é casado com Olga Gregorieva, com quem tem dois filhos, Ivan e Natália.

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Diplomas vazios

Gente que estuda, se forma, que entra na universidade, faz mestrado e doutorado pode ser muito mau e muito cruel. Pode até ser burro em muitas coisas, mas será tudo isso com bons modos à mesa. Não há nenhum ganho de caráter com o prolongamento dos estudos, apenas sofisticação intelectual envolvendo uma boa ou má personalidade.

Jeffrey Burns, “No public connection”, ed. Warren, pág. 135

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Heróis

Receber uma avalanche de críticas, ver antigos amigos tomando distância, perder a respeitabilidade até de seus pares, ver a promessa de sucesso se esvaindo pela contrariedade de produz em todos ao seu redor. Beber o vinho do desprezo e comer o pão da incompreensão: essa é a receita do herói, a marca inquestionável de todo sujeito que decide pela fidelidade a si mesmo, defendendo suas próprias ideias. Para todos aqueles que almejam o reconhecimento em vida, o sucesso merecido, a glória e o poder que dela emana, e que não são fortes o suficiente para suportar o peso da originalidade, aceitem sem queixas o destino da mediocridade.

Ronan de Lafayette, “Souvenirs d’un clochard de génie” (Memórias de um vagabundo genial), ed. Foche, pág. 135

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Feliz ano novo

Ao raiar do ano que surge, parece que as histórias do mundo subitamente se tornaram claras à minha frente. Todos os detalhes, as filigranas, o colorido de cada emoção, os contextos e seus cheiros. Foi como se, ao se fechar meu corpo, minha alma pudesse subitamente voar sem restrições. Hoje, no parapeito da janela do quarto, ouvi pela primeira vez o trinado de um “asa de cera”1. É como se o som banal de um pássaro a me desejar um feliz ano novo fizesse sentido pela primeira vez, e sua melodia magicamente pudesse me tocar o espírito, como antes sempre pareceu impossível. Foi Andropov2 quem me disse, com sua característica falta de humor, que as perdas carregam ganhos invisíveis aos olhos desarmados, da mesma forma como os ganhos nos impõe perdas que custamos a perceber. Agora reconheço o quanto havia de sabedoria em suas simples palavras.

Perdi tudo o que mais valorizava, mas apenas agora percebo que ganhei a plena noção da grandeza da vida. Meu corpo imóvel agora é objeto de cuidados, uma prisão onde habita minha mente, agora liberta. Como presente inesperado, hoje encontrei a chave para Shermak3 e o significado último da renúncia de Natália4. Um encanto súbito que já estava desistindo de encontrar. Parece mesmo que um portal se abriu à frente, ou talvez sempre estivera aberto, mas meu corpo grosseiro impedia a passagem para um mundo de clareza. Percebo que só agora essa avalanche de pensamentos sobrecarrega de imagens e sentidos as minhas ideias. Espero que o ano que começa me permita curar as feridas que teimam em cobrir o que resta desse corpo. Agora vejo o quanto ainda há para escrever, para dizer, para gritar. Que eu tenha as forças que meu desejo demanda.

Ygor Petrov, “Ensaios, cartas e escritos menores”, org Serguei Petrov, ed. Baltic, pág 135

Ygor Ivanov Petrov foi um escritor, romancista e ensaísta russo, nascido em Petrogrado (atual São Petersburgo) em 9 de fevereiro de 1881, no mesmo dia da morte de Fiódor Dostoiévski, que também exerceu grande influência em sua obra. Com forte caráter revolucionário e marxista, escreveu na juventude vários artigos de caráter político, em especial com críticas a Nicolau II e sua corte, o que lhe valeu um mandado de prisão pela Okrana, a polícia política do Czar, e uma inexorável fuga para Londres. Lá escreveu seu primeiro romance, “Sob o gelo do Volga”, que conta a história de amor entre Ekaterina e Nikolai ambientado na decadente e faminta Rússia czarista. Depois desta estreia na ficção escreveu “Chuva de Fogo”, “Vidas de Vidro” e “O Tocador de Balalaika”, todos no exílio londrino.

Foi em Londres, com 23 anos, que conheceu Vladimir Ilyich Ulianov conhecido para a posteridade por Lênin. Em 1903, encontrou-se com o grande revolucionário e outros marxistas russos, quando na ocasião criaram o Partido Social-Democrático dos Trabalhadores Russos. Ygor percebeu a cisão entre os bolcheviques (majoritários) aliados de Lênin que defendiam a ação revolucionária e os Mencheviques que se postavam a favor de um movimento reformista. Imediatamente colocou-se ao lado do grande líder, o que lhe custaria várias represálias e a própria morte prematura com apenas 40 anos durante a guerra civil.

Voltou para a Rússia com Lênin em 1905 e passou a colaborar com vários jornais de cunho revolucionário. Em 1910, com 30 anos, escreveu sua obra mais reconhecida, “O Legado de Gannibal”, que tratava da história dos negros influentes na corte de Nicolau II. É dito que este livro valeu elogios do próprio Lev Tolstoi que, já velho e frágil, morreria neste mesmo ano.

A carta de ano novo, ditada por Ygor Petrov apenas 18 meses antes de sua morte, foi escrita no hospital após ter sido ferido por um tiro durante a guerra civil russa que o deixou paralisado do pescoço para baixo. No período que se seguiu ao ferimento jamais conseguiu deixar o hospital, até sua morte por septicemia. Lá conheceu Jack Reed, o jovem que escreveu “10 dias que abalaram o mundo” e puderam trocar ideias sobre o futuro da revolução que apenas se iniciava. Ygor morreu pouco mais de um mês após a morte de Jack, mas neste período de confinamento conseguiu terminar dois de seus mais importantes livros, “Mar Gelado” e “As cartas de Bóris”, ditados para sua secretária Ivanova. Morreu em 18 de novembro de 1920, em Moscou.

1– “Asa de cera” é um pássaro muito comum na Rússia ocidental. Tem uma bela plumagem e uma crista marrom chamativa em sua cabeça. Seu canto é o murmúrio “svir-ri-ri-ri”, que muito se parece com o som de uma flauta tocada, com tom agudo e repetitivo.
2- Andropov era o comandante de sua divisão na guerra civil contra os Mencheviques e seu parceiro desde os tempos de exílio na Inglaterra.
3- Shermak era o navio do romance “Mar Gelado” que tinha como centro narrativo o dilema moral do comandante Ivan Gruchenko entre o ideal e a sobrevivência de seus homens, sintetizada na sua frase antológica dirigida aos marinheiros reunidos no convés do Poseydon: “A honra e a liberdade valem mais do que estes blocos de gelo que nos prendem”. Essa história foi posteriormente transformada em filme pelo cineasta Alexei Bakov.
4- No romance “As cartas de Bóris” Natália era a amante de Dimitri Ustalov, prefeito da cidade de Vyborg que escondeu a gravidez e fugiu para Irkutsk, às margens do lago Baikal, na Sibéria, para que sua gestação não destruísse a reputação do seu amado. Lá nasceu Vladimir (uma pouco sutil homenagem a seu camarada Lênin) que, sem o saber, combateria o próprio pai na revolução russa.

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Hora Marcada

Oi amor
Não dava pra você chegar
Um pouco antes
Da gente se ver?
Assim, se você chega
Antes, da hora marcada
A gente senta e conversa
Antes de se encontrar…


Suzaneuka Matsouri, “Escritos hiperbólicos”, ed. Matraka, pág. 135

Suzaneuka Matsouri é o pseudônimo da poetisa boliviana Adelita Gonzales Gutierrez, nascida em Cochabamba em 1953. Filha de agricultores cocaleiros ela passou uma infância de privações e perdas, como a morte trágica de sua irmã em um incêndio, fato que a marcou por toda sua infância. Fez o curso primário em uma escola rural e foi trabalhar na cidade como cozinheira, doméstica, arrumadeira em uma rede de hotéis e numa fábrica de colchões. Com 20 anos de idade se casou com o militar Adolfo Gutierrez, cabo do exército boliviano, com quem teve 3 filhos. Já com 40 anos escreveu seu primeiro livro de poesias, baseados na sua vida bucólica no interior e sua infância entre rios, plantações, animais e natureza. Esse livro foi muito bem recebido pela crítica, e acabou lhe garantindo o prêmio Poetisa Revelação da associação de escritores da Bolívia – algo que lançou seu nome para o mercado editorial. Suas obras posteriores foram focadas no amor, nas perdas, no ressentimento e, sobretudo, na paixão. “Escritos Hiperbólicos” é o primeiro livro no qual aborda a paixão sob um prisma caracteristicamente erótico, abusando de referências sexuais e instigantes para a imaginação de seu público, prioritariamente feminino. Depois desse livro ainda escreveu “Sob o olhar de Aquiles”, e o recentemente lançado “Narciso e outros contos”, que foi sua primeira experiência com o romance de ficção. Mora em Cochabamba com o marido e seus três filhos. Juan, Oscar e Giselda.

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Quinn’s Caffee

Garrett resgatou o cigarro perdido no bolso do casaco amassado e olhou-o como quem tenta descobrir se ainda presta. Pediu ao barman uma caixa de fósforos e acendeu seu último, anunciando que não se demoraria. Deu duas baforadas e o deixou repousando entre os dedos, enquanto tamborilava no balcão uma música que ele cantava solitariamente em sua própria cabeça, produzindo pequenas ondas no scotch à sua frente. Depois de uma pequena pausa, voltou seu olhar para Elsie e falou com a voz rasgada pelas duas carteiras diárias de cigarro.

– Não seja tola, garota. Não é a justiça que lhe move, Elsie, é o ódio. Você adora se enganar com sua caridade, sua postura superior e sua defesa dos oprimidos. Mas sua bondade não passa de uma grosseira encenação. Sua justiça é uma farsa, tão bem montada que engana a todos, menos o seu velho Garrett.

Elsie deixou que uns poucos segundos passassem, o suficiente para escutar a máquina de café girar seu motor na mesinha à frente do barista. Repousou suas mãos no guardanapo à frente e olhou Garrett por cima dos óculos de aros redondos.

– Nada do que eu lhe diga o fará mudar de ideia, não é? Você me julga por si e acredita nessa mentira porque é a matéria que lhe constitui. Não consegue enxergar para além dos seus limites. Você é um velho patético, Garrett. Não passa de um bêbado, uma fraude.

Garrett não segurou uma risada, misturada com uma tosse carregada.

– Sua arrogância nada mais é do que uma metástase do seu ressentimento, darling. Infelizmente não há sinceridade no amor que você pensa dedicar aos desvalidos, sequer um real desejo de que eles abandonem o mundo de privação que os sufoca. Ele é puro teatro, mas você finge tão bem que engana a si mesma. Sua caridade é a fantasia traiçoeira do desprezo que nutre pelo mundo. Quando confrontada sua essência se reduz a isso.

Apontou o dedo indicador para o cinzeiro à frente onde as cinzas do cigarro repousavam indiferentes e amorfas. Garret se levantou e acenou para o barman, deixando o local sem dizer mais nada.

Austin MacKay, “Into the Depths of Nothing”, ed. Parliament, pag 135

Austin Phillip MacKay é um escritor escocês, nascido em Iverness em 1965. Estudou artes dramáticas e literatura na University of Aberdeen, onde passou a viver após concluir seus estudos secundários. Filho de um ator de teatro e uma enfermeira, dedicou-se muito cedo a escrever sobre ficção científica, uma de suas maiores paixões (além do Celtics). Seu primeiro livro foi lançado em 1990 e se chamava “When there is Only Dust” (Quando houver apenas pó), uma distopia que combina ficção científica, catastrofismo, futuros caóticos e pessimismo escocês. Foi bem recebido pela crítica de seu país, recebendo um prêmio pela obra, o “Booker Prize”, premio escocês de literatura na categoria jovem escritor. Também colaborou com inúmeras revistas especializadas em contos de ficção, como “UFO Scott”, “Outer Paradise” e uma que ele mesmo criou com o novelista Noel Burr “SOS to Earth”. Em “Into the Depths of Nothing” (Nas Profundezas do Nada) Austin conta a história da relação tempestuosa entre dois cientistas responsáveis pelo “Projeto Nova Vida”, uma força tarefa internacional de colonização de outros planetas. Garrett é um cínico, alcoolista, depressivo e gênio projetista da NOAH, nave que carregará milhares de pessoas para a colonização de um planeta que ainda mantém condições de habitabilidade. Elsie é a executiva que está responsável pela gigantesca seleção de passageiros que terão o direito de embarcar nessa missão. Os embates entre ambos se dão na contraposição do idealismo romântico de uma e o pragmatismo depressivo do outro. Na tensão desses encontros se forma a conexão magnética entre ambos, que os coloca em contraponto diante da tragédia que se avizinha. Austin é casado com Leslie Thorpe e tem 3 filhos: James, Cameron e Alba. Mora em Edimburgo – Escócia.

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Normose

Nesta vida posso ser acusado de muitas coisas, menos de ter sucumbido à tentação da normalidade.

Dimen Berpa, “Dilemas da Guerra sem Fim”, ed. Paleo, pág. 135

Dimen Kaleb Berpa é um historiador e militante da causa da independência do Curdistão. Nasceu em 1950 em Batman, no Curdistão turco. Filho e neto de militantes pela liberdade do Curdistão, seu avô Berzend Berpa foi líder das tropas curdas na revolução de 1927, na região do Monte Ararat, ocasião em que foi preso e acabou morrendo nas prisões turcas quando da supressão da revolta em 1930. Seu pai, capitão Meiwan Berpa, foi combatente na revolta armada que culminou com a criação da efêmera República de Mahabad, em 1946, mas esta insurreição igualmente fracassou (apesar do reconhecimento da União Soviética) e o território voltou para o domínio iraniano. Dimen estudou história na universidade em Diabaquir às margens do rio Tigre mas jamais abandonou a militância herdada por seu pai e avô. Escreveu vários livros sobre o Curdistão, incluindo-se “História do Curdistão Turco”, “Areias sobre Gaziantep”, e um livro sobre as guerras de independência do nação curda, “Dilemas da Guerra sem Fim”. Dá aulas de história na Gaziantep University e viaja o mundo fazendo palestras sobre a liberdade e a soberania do seu povo.

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Tempo

A culpa das falibilidades humanas, para além dos valores cultuados pelo sujeito, também se situa no tempo em que estas se expressam. Somos produto dos contextos, da cultura, das circunstâncias e das múltiplas pressões que provém do entorno. Estabelecemos com o mundo uma relação dialética: atuamos sobre ele e o modificamos, enquanto somos também por ele comandados. O machismo, a misoginia, a intolerância com a diversidade dos nossos pais e avós eram falhas onipresente em seu tempo, assim como a ganância, o capitalismo, o carnivorismo e a tolerância com a miséria são pecados de nossa época.

Culpar os personagens do passado por não possuírem a clarividência que não era de sua época é cair na sedução do anacronismo. “As virtudes são dos homens os pecados de seu tempo”, já dizia meu pai sobre a necessária condescendência com as falhas morais de figuras do passado. “Lembre que um dia, em pouco tempo, você será julgado pela mesma régua. Seja compreensivo com a falhas de outros tempos. Estes, para quem apontas o dedo, não ganharam do mundo a mesma luz que você recebeu para iluminar o caminho”, explicava ele. Olhar para a história – recente ou distante – e censurar os personagens do passado é como olhar para um bebê e dizer: “Como pode ser tão tolo a ponto de não saber sequer andar ou falar?”.

Bertrand Epstein, “Time after Time – ethics and behavior in medieval times”, ed. Labirinth, pag. 135

Bertrand Epstein é um historiador neozelandês de origem judaica nascido em Tauranga, em 1965. Fez seu estudos na Bethlehem College, e posteriormente cursou a Victoria University of Wellington, formando-se em história. Tornou-se professor de História Antiga nessa universidade em 1990, época em que publicou seu primeiro livro, baseado em sua tese de doutorado sobre a sexualidade dos Césares, chamado “Pink, glitter and lipstick – sexuality in the court of the Roman Empire”, escrito em parceria com Edmon Shapke. Tem uma vasta produção científica e muitos artigos publicados sobre os costumes mundanos das populações medievais, a exemplo de outros autores como Georges Vigarello (O Limpo e o Sujo), Jacques Le Goff (A Civilização da Europa Medieval) ou Norbert Elias (O Processo Civilizatório). Mora em Wellington com sua mulher Anne e seus filhos Jeremiah e Maritza.

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Desatenção

Mais uma vez eu estava saindo do Bazaar sem comprar o que tinha em mente. “Não temos seu número”, disse a simpática vendedora. Ok, pensei eu. Afinal, para ser bem franco, eu não tinha mesmo nenhuma necessidade de comprar nada, muito menos um “tênis para longas caminhadas” em promoção. Bastou a menina da loja me dizer que não poderia satisfazer meu impulso consumista e um alívio tomou conta de mim. Melhor assim. Volto para casa de mãos vazias, mas com a consciência limpa.

Ao dobrar o corredor da cafeteria em direção ao estacionamento eu percebi meu colega Tarik sentado sozinho em uma mesa, absorto com seu celular nas mãos. Encontrei Tarik há muitos anos, ainda na faculdade, e fui o responsável direto pela sua entrada no nosso grupo de trabalho. Conhecia seu serviço e gostava de sua dedicação e iniciativa. Achei, desde o início, que ele poderia somar no trabalho que estávamos iniciando e acreditei que sua presença poderia acrescentar dinamismo aos nossos projetos.

Desviei meu caminho da saída e me dirigi à sua mesa.

– Tarik, tudo bem? Como vai?

Ele me olhou com surpresa, mas de forma pouco expressiva. Eu me sentei à sua frente enquanto ele me dava um “olá” sem muito esforço. Animado pelo encontro fortuito eu lhe disse:

– Eu precisava mesmo conversar contigo rapidamente sobre o que pretendemos fazer no departamento. Estamos com planos importantes e gostaria muito de saber sua opinião e sua posição sobre o que decidiremos na próxima quarta-feira.

Tarik me olhou impassível por alguns instantes e após esta pausa disse:

– Ok, aguarde um instante. Vou buscar o café.

Levantou-se da cadeira e dirigiu-se à cafeteria à frente. Passados alguns instantes ele voltou com uma bandeja que continha uma xícara de café. Olhou-me nos olhos e disse:

– Bem, o que você queria mesmo me dizer?

Foi naquele momento, quando me dirigiu a pergunta, que eu entendi o que, até então, eu havia sido incapaz de perceber. Imediatamente tudo passou a fazer sentido e fui tomado por grande constrangimento. Literalmente eu não sabia o que dizer ou fazer. Por certo que ali estava mais um gigantesco erro meu: uma arrogância imensa e uma profunda incapacidade de enxergar por detrás do meramente aparente à visão desarmada. Fui envolvido por uma nuvem escura de desapontamento, uma vergonha súbita e constrangedora. Baixei o olhar e o fixei mais uma vez no café, seus matizes de marrom e negro, seu vapor hipnótico e seu odor cativante.

– Nada, Tarik, nada. Não era nada. Olha, eu falo com você outra hora, talvez na quarta-feira, antes da reunião. Preciso sair agora. Foi um prazer lhe ver. Mande um abraço para Laila.

Estiquei a mão e cumprimentei Tarik antes de sair. Senti em sua mão um aperto frouxo. Olhei para ele à minha frente e pensei: “Que tipo de pessoa poderia comprar uma única xícara de café ao conversar com um amigo e tomá-la sozinho, sem qualquer constrangimento?”

A resposta era simples: alguém que tinha por mim profundo desprezo. Agora estava explicada a reação de Tarik ao me ver: ele estava claramente constrangido com minha falta de percepção dos seus sentimentos. Eu nunca havia percebido o ódio que Tarik nutria por mim, e o quanto ele me desconsiderava como colega. Estivera ali, por todos esse tempo, e eu nunca fui capaz de enxergar.

Por muitos anos depois desse dia continuei sentindo o gosto amargo da vergonha ao me lembrar de tamanha desatenção. Infelizmente ela aparece com mais frequência no momento em que fixo meus olhos em uma xícara fumegante de café.

Aisha Boukhalfa, “Oásis de Ideias”, ed. Sextante, pág 135

Aisha Boukhalfa é uma escritora argelina nascida em Batna, em 1975. Fez seus estudos em Argel na Benyoucef Benkhedda Universidade de Argel, tendo se graduado em jornalismo em 2005. A partir de então tem se ocupado com o movimento feminista argelino, a participação no partido Comunista da Argélia e seu trabalho como doula atendendo partos nas cidades de Argel, Blidas e Boumerdas. Por seu ativismo feminista e seu trabalho como doula ela acabou se tornando cronista, e suas histórias acabaram se transformando em livro. “Oásis de Ideias” é uma coletânea de histórias sobre suas experiências, em especial com o trabalho com gestantes em um país onde os direitos reprodutivos e sexuais continuam muito defasados quando comparados com a Europa ocidental. Suas crônicas são distribuídas através do seu blog pessoal e do Facebook. Mora em Argel e é casada com o enfermeiro Omar Boukhalfa, com quem tem uma filha nascida de parto domiciliar chamada Iasmin.

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