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Campanhas

No Brasil as campanhas que criticam a atuação de parteiras e doulas tem um endereço evidente: renovar a crença preconceituosa de que enfermeiras e obstetrizes oferecem uma assistência de “segunda classe”, aumentar o poder médico e deixar o campo livre para as cesarianas abusivas. Dá até para escutar alguns médicos dizendo às pacientes: “Vai querer mesmo arriscar ser abusada durante o parto ou quer marcar uma cesariana já?

O modelo atual deixa a cesariana absolutamente impune, enquanto o parto normal um pode significar um risco grave para o médico ou a parteira. Com um bisturi na mão os profissionais são intocáveis; com as mãos nuas estão desprotegidos.

A culpa não está em um lugar apenas; está disseminada na cultura e atinge pacientes e cuidadores. O signo é o medo e a cesariana um refúgio para as agressões. Cesarianas em alta significam o acionamento de uma cascata de eventos, que transitam da morbimortalidade materna e neonatal aumentadas até o desmame precoce. Por outro lado o respeito aos estudos que apontam o parto normal como superior podem ameaçar o bem estar e a própria continuidade do trabalho dos atendentes de parto.

É preciso entender o que este tipo de campanha significa e onde pode nos levar.

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Parteiros Infalíveis

Uma revista de grande circulação publicou matéria sobre uma famosa parteira nordestina e seu trabalho de várias décadas na atenção ao parto. A revista prestava uma homenagem oportuna e justa, mas não foi para mim nenhuma surpresa o fato de terem informado um número exagerado de partos atendidos por ela (6 mil) além de terem acrescentado uma fala que merece uma análise mais aprofundada: “Nunca perdi um bebê“, disse ela.

Fiz um comentário discreto aqui em casa a respeito da matéria, mesmo porque sabemos que é politicamente incorreto questionar um mito muito antigo da obstetrícia: o número de partos atendidos por parteiras e médicos. Nesse terreno podemos afirmar sem medo que todos mentem sobre os famosos “múltiplos de mil” (menos eu, que anotei todos os quase dois mil que atendi na minha carreira de 30 anos).

Ora, cabe uma consideração sobre os seis mil partos que a parteira informa ter atendido durante sua carreira, sem que tenha ocorrido nenhum óbito neonatal. É importante salientar que os melhores serviços europeus de obstetrícia têm mortalidade neonatal ao redor de 4/1000 nascidos. Uma parteira que tenha atendido por volta de 6 mil partos (número obviamente inflacionado) teria o direito de perder 24 bebês. Sim …. 24!! Este é um número maravilhoso para qualquer serviço de excelência neonatal do mundo!! Portanto, essa ausência de óbitos parece deveras estranha, mas sabemos o quanto é tabu questionar tais números.

O pior cenário é quando criamos uma redoma em volta dos eleitos e recebemos uma chuva de críticas pelo que consideram “ataques aos símbolos de um movimento”. Nesse momento chamam as Deusas para acusá-lo de não respeitar “as mãos  sagradas que apanharam tantos bebês”.

Pensem bem sobre o significado em longo prazo dessas declarações. Agora mesmo eu recebi uma homenagem da Assembleia Legislativa de SC. Imaginem o que teria de repercussão se eu recebendo a homenagem declarasse: “Eu agradeço as homenagens e espero que mais nenhum bebê venha a morrer enrolado no cordão ou porque passou da hora“.

Seria justo silenciar nessa hora só porque algumas pessoas do movimento de humanização gostam de mim ou para não “estragar” uma homenagem? Estou exagerando, por certo, pois esse estrago seria muito maior do que um simples número falacioso, mas é apenas para ficar claro que jamais será justo silenciar diante dos erros.

Um episódio me marcou muito nesse aspecto. Quando eu era residente houve uma homenagem no hospital pela passagem do dia da enfermagem. Falaram enfermeiras, médicos, administradores e por fim um político, presidente da assembleia. Ele teceu uma série de elogios óbvios e previsíveis e terminou com um espetacular “afinal vocês são nossos anjos de branco”.

Resultado: vaias da galera das enfermeiras. Mas como vaiar uma homenagem???? A razão, que eu concordei quando falei com elas depois, era afastar de forma veemente o estigma desprofissionalizante das “abnegadas serviçais angelicais”. Elas me diziam “nem vem com esse papo de anjo porque anjo não tem sexo e não ganha salário“.

Veja bem…. até eu achei exagerada e grosseira a vaia a uma homenagem, mas depois entendi perfeitamente e concordei com a manifestação pois ela levava em consideração o FUTURO da enfermagem como profissão, e não uma homenagem passageira. Respeitei o ato por ele significar o cuidado com o porvir profissional de meninas que sequer estavam ali, mas que seriam as futuras enfermeiras.

Nesse caso vejo da mesma forma. Acho que se a dona Prazeres é tudo isso que falam (e eu acredito) ela vai entender a correção que nós prontamente fizemos dos números irreais. Ela deixou um legado que ninguém tira, mas corrigir estas estatísticas serve para proteger as enfermeiras que labutam e enfrentam a inevitabilidade da morte todos os dias.

Não há dúvida que este é um problema recorrente: a mitificação e a idolatria. Por está razão eu falo há tanto tempo do risco de eleger – em qualquer setor da sociedade – elementos acima do “bem e do mal” para nos representar. Dona Prazeres merece todo nosso respeito e consideração, carinho e afeto, mas ela não está acima das Deusas da Probabilidade e nem dos Deuses da Estatística. Ela é uma pessoa apenas, devotada ao seu trabalho e à sua paixão, e não um ser divino que suplantou as leis da vida e da morte.

Aprender a aceitar críticas e reparos aos nossos ídolos – de Jesus a Lula, passando lá no meio por tantas parteiras e dona Prazeres – faz parte do nosso amadurecimento. Quem deseja fazer grandes transformações terá pela frente a tarefa de remexer em solo rígido, por muitos pisoteado, e isso nunca é feito sem críticas e ataques.

O grande problema dessas fantasias disseminadas no universo dos obstetras e parteiras é desnaturalizar a morte neonatal, como se a sobrevivência dos bebês dependesse unicamente da nossa capacidade, abnegação e compaixão. Essa perspectiva irreal torna toda morte neonatal uma tragédia, fazendo a culpa recair sobre o cuidador, que será visto como negligente e incompetente.

Babies die and shit happens“, já nos avisava Marsden Wagner, chefe do serviço Materno-Infantil da OMS para o leste europeu. Criar essa ilusão de excelência é péssimo para o trabalho de parteiras e médicos. A ilusão da infalibilidade é deletéria e produz efeitos nocivos. Criar uma aura de “erro zero” para os profissionais que atendem o parto pode produzir uma expectativa irreal sobre este trabalho, e a conta será inevitavelmente cobrada depois. Sem dó.

“A tolerância exagerada com nossos equívocos gera descrédito. Credibilidade é algo que se constrói em anos e se perde em 5 minutos”.

Essa postura onipotente poderá ter um preço muito alto. Uma vez vi o filho de uma paciente que havia falecido dizer para um colega médico a respeito do óbito de sua mãe: “Como assim morreu? Hoje em dia a medicina está tão avançada; como não houve cura para ela?“.

Quem brinca de Deus será odiado pelos desastres naturais“, como também dizia o mestre Marsden.

Aqui na província um velho professor (que não fazia plantões há mais de 30 anos) disse durante uma entrevista na TV local que atendeu “mais de 30 mil partos“, e disse essa baboseira com a cara mais impávida e serena. Não passa de um mentiroso e embusteiro. Quem trabalhou nessa área sabe que número de partos é tamanho de falo, com o perdão pela comparação grosseira. Todo garoto descreve proporções exageradas de si mesmo – sempre acima da realidade – mesmo porque poucos estão interessados em ver os “documentos comprobatórios”.

Todavia, é interessante notar que essa “ilusão de excelência” surgiu quando da confrontação do trabalho milenar das parteiras com o modelo médico hegemônico que se estabelecia, onde a morte se tornou palavra maldita e considerada uma falha. As parteiras, para quem a morte tinha outro significado, acabaram por adotar o paradigma da “morte-fracasso” que os médicos instituíram, o que é uma pena; lidar com a morte com mais naturalidade seria melhor para todos. Evidentemente que “encarar a morte como parte da existência” não significa abdicar da luta para manter a vida através da arte e da competência, usando de todos os meios para mantê-la, mas significa reconhecer que ela é nossa única certeza e nosso fim inequívoco.

Por mais que tentemos evitar sua presença obscura, a morte faz parte do nosso cotidiano e dos nossos pesadelos mais sombrios. Porém, só os tolos disfarçam o medo que dela sentem ou afastam dos olhos sua miragem. Um bom obstetra ou parteira sabe o gosto que a morte tem e já sentiu seu hálito gelado a lhe trespassar a pele e congelar os ossos.

“A idolatria faz mais vítimas que o ódio explícito. Aquela é cega para os defeitos, enquanto este para as virtudes. Entretanto, ainda é melhor um defeito exagerado do que uma perversão dissimulada. Quanto às virtudes, elas aparecem, mais cedo ou mais tarde.” (Eleanor Sinclair, “Just above the Rainbow”, Ed. Aleph, pág 135.)

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Mamiferizar

Apesar de eu mesmo me considerar um humilde discípulo de Michel Odent a sua ideia de “desumanizar” o parto e de “mamiferizar” o nascimento será a grande discordância que terei com sua obra. Não há, no meu modesto ver, sentido em tornar o parto como ele ocorre entre os animais, mesmo entre os mamíferos.

Como diria Lacan, “a palavra matou o real” e é absolutamente impossível tornar o parto um processo “natural”, pelo simples fato de que é impossível abrir mão do mundo simbólico e voltar ao mundo da natureza. Mamiferizar seria assistir o parto dentro da realidade dos mamíferos, portanto, dentro da natureza de onde fomos sumariamente expulsos pelo acesso à linguagem, ao raciocínio e ao mundo simbólico. A metáfora bíblica da expulsão do casal primordial do paraíso – para toda a eternidade – deixa claro que a saída da natureza pelo acesso à razão nos impede de retornar para um mundo de perfeita harmonia – e submissão – com a natureza.

Não existe volta nesse caminho. O parto humano jamais voltará a ser “mamífero” ou “natural” pois que o acréscimo de neocórtex desenvolvido para nossa espécie – se pode ser diminuído momentaneamente, como no sexo – não poderá jamais ser abolido sem retirar de nós o que verdadeiramente nos constitui como humanos.

O parto humano só pode ser exercido dentro da contingência psíquica que nos estrutura, humano e formatado pela linguagem, jamais através de um retorno ao “paraíso perdido”.

Humanizar o nascimento é o caminho, mesmo que esse caminho seja respeitando – mas não copiando – nossa ancestralidade mamífera.

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Sobre Mulheres e Posições

Mais de 30 anos já se passaram de quando eu resolvi enfrentar o modelo obstétrico do hospital universitário em que fiz residência e coloquei as gestantes para parir de cócoras. Certamente que esta atitude – apesar de ter sido tolerada – era tratada com desdém e aversão. Um dos professores me disse que “partos de cócoras eram para índios, e só funcionavam em sua própria cultura“, da mesma forma como “acupuntura só funciona para japoneses“. Minhas lembranças da residência, como se pode perceber, não são de um local de livre circulação de ideias, informações e profundidade de conceitos.

O rechaço às posições verticais daquela época poderiam ser interpretadas hoje como resultado da falta de pesquisas que mostrassem as vantagens do parto em posição não-litotômica. Essa visão, entretanto, não resiste a uma análise mais profunda, em especial quando se analisa o fato de que a posição de litotomia (deitada de costas, pernas levantadas e presas) é uma invenção moderna e que nunca se comprovou superior às variantes verticais usadas em praticamente todas as culturas humanas.

Hoje em dia mais de 91% das mulheres no Brasil (Nascer no Brasil – 2012) continuam a parir seus filhos em posições horizontais, uma imagem fiel dos partos que testemunhei há 30 anos em minha residência médica, e que tanta indignação me causou. As últimas 3 décadas de comprovações científicas sobre a superioridade das posições verticais e sobre a livre escolha fizeram QUASE NADA para modificar o ensino médico e as opções que as mulheres tem para o nascimento de seus filhos, pelo menos no que diz respeito à posição.

Fizemos avanços na lei do acompanhante, na presença de doulas, na diminuição das episiotomias, na ambiência, nas Casas de Parto, na disseminação do parto domiciliar planejado como opção válida e segura mas ainda não foi feita nenhuma mudança considerável na posição de parto. Por quê?

Creio que a resposta para essa dúvida recai sobre elementos profundamente inseridos no inconsciente. A paciente deitada, abaixo da linha dos olhos do médico, em posição constrangedora e com as pernas abertas é a própria imagem da submissão em que ela se encontra diante do poder autoritativo do médico. Atentem para o fato de que esta posição só foi disseminada após a entrada dos médicos-homens no cenário do parto; antes disso as gravuras e estatuetas antigas sempre mostraram parteiras no mesmo plano ou mesmo abaixo da mulher a quem auxiliam. Por que essa mudança ocorreu e por qual razão se mantém apesar de todas as evidências que nos provam sua inadequação e mesmo o inegável prejuízo para mães e bebês?

Minha tese é de que o parto deitado é um reforço psíquico subliminar que auxilia o poder médico a manter sua dominação sobre o corpo da mulher. O parto deitado, posição clássica de litotomia, estabelece a assimetria de poderes que ajuda o profissional a se sentir no comando e envia uma mensagem de inferioridade para a mulher que está parindo. Por esta razão, e não pela falta de informações ou provas científicas, é que esta posição ainda é disseminada nos hospitais de ensino e utilizada na assistência a 9 de cada 10 mulheres parindo neste país. Muito mais do que representa objetivamente, ela é plena de um simbolismo patriarcal de dominação, e por essa razão resiste aos ventos do tempo e da verdade.

Muitos outros mamíferos utilizam essa posição para informar submissão a um elemento dominante no grupo. Os cães, tanto quanto os lobos, costumam se deitar e oferecer o ventre para o chefe da matilha para demonstrar sua subserviência. Este tipo de atitude está associada às estruturas hierárquicas dentro de grupos de animais que se organizam desta forma, como cães, lobos, hienas, etc. Isso reforça a tese de que essa imagem ativa elementos muito profundos do inconsciente, e por este fato é tão significativa e resistente.

A posição de parir é uma das mensagens mais fortes e intensas da iconografia do nascimento, e por isso mesmo é tão difícil de ser modificada. É provável que a mudança na ergonomia do parto será a última barreira a ser rompida, exatamente porque ela carrega essa simbologia dissimulada, mas que afeta a forma como o patriarcado se expressa nas ações de médicos e na dominação sobre o corpo das gestantes. Negamos às mulheres grávidas o “produto social” que carregam no ventre, e por isso ainda insistimos em controlar esse evento e obstruir sua autonomia.

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Cócoras

Há exatos 35 anos iniciei a atender partos em posição vertical no hospital onde fiz residência. A reação dos colegas variava entre o escárnio debochado e a aversão explícita. As explicações que davam na época são usadas até hoje: “civilizadas são diferentes”, “só índias podem/aguentam”, “o períneo enfraqueceu pela vida moderna”, “mulher de cidade não fica acocorada e não sobe em coqueiro”, etc. Nenhuma dessas afirmações se baseia em evidências, mas ainda assim o parto continua sendo tratado da mesma maneira.

Trinta e cinco anos se passaram e o parto padrão em nossas maternidades – públicas e privadas – continua sendo nas posições que favorecem médicos e instituições, mas são profundamente inadequadas para mães e bebês. O poder é (ainda) mais importante do que as evidências.

“A história é geralmente dura com os covardes, mesmo quando poderosos, e via de regra generosa com os corajosos e ousados, mesmo quando vítimas daqueles a quem denunciaram”

Sergei Kalikowski, “Piratas do Gulag”, Ed Printemps, pag 135

Veja aqui o resumo mais recente sobre posições verticais no parto:

Texto de Gail Hart:

BIRTH TOPIC: WOW!

So… here’s a nice study of birth position. 100 women were randomly assigned to birth in lithotomy position – supine (on their backs) and 100 were delivered in the squatting position.

Look at the results:

1. Second and third degree perineal tears occurred in 9% of the lithotomy group, but none in the squatting group.

2. Forceps for delivery was twice as high in the lithotomy (24%) as the squatting group (11%)

3. There were two cases of shoulder dystocia in the lithotomy group, but none in the squatting group.

4. There were no cases of retained placenta in the squatting group, but 4% of the women supine had retained placenta and 1% had postpartum hemorrhage of more than 500cc due to uterine atony.

“”There was no significant difference in the apgar scores, foetal heart rate patterns or requirement of neonatal resuscitation.””

So, wow, that’s a heck of a lot of maternal benefit simply by changing to a more physiological delivery position. It is time to assign the Lithotomy Position to the Dustbin of History! Indeed, it is long past time!

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Poder e Evidências

O Poder vale mais do que as evidências.

Esta visão do processo fisiológico do parto vai perdurar enquanto o parto for classificado pelos homens, e a partir de suas perspectivas. Mas quando vejo este tipo de protocolo eu lembro que eu me insurgia contra esta imposição há 30 anos, e eu já fazia isso baseado nas evidências da época, e não em visões românticas ou pessoais.

O que mais me impressiona é que passadas três décadas de profundas revoluções, em especial no terreno da disseminação de informação, ainda temos uma visão OFICIAL de parto, disseminada em serviços universitários, que já era velha há 30 anos.

O que acontece com os donos do parto, que se negam a ver as mudanças na própria ciência e mantém uma visão depreciativa da mulher e suas capacidades? Trinta anos se passaram e o mesmo modelo se mantém.

Em verdade o que se expressa nesse papel são os últimos suspiros do patriarcado, uma forma de controlar a mulher cerceando sua liberdade e controlando um dos aspectos mais fundamentais da sua sexualidade.

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Nascer em Paz

“O nascimento em paz é uma força capaz de galvanizar energias transformadoras e produzir reverberações que atravessam gerações. Hoje já temos uma grande legião de pequenos que tiveram a oportunidade de vivenciar partos mais suaves e dignos e cuja vivência fará a diferença no futuro. Muito bom saber que existem obstetras, parteiras, doulas, pediatras e demais profissionais que conseguiram entender a amplitude e o significado dos primeiros instantes e dos primeiros anos para muito além da saúde física e do “silêncio dos órgãos”.

A estas pessoas – que ousaram olhar o parto com cuidado e delicadeza, rompendo a fronteira do “cuidado com as doenças” e olhando para cada gesto e cada palavra com responsabilidade – o meu profundo agradecimento. Estes profissionais estão ajudando na construção de uma nova humanidade, cujo imprint inicial será o do amor e do afeto, e não mais o da violência e do abandono.”

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Mitos ruidosos

Mitos que caem ruidosamente.

É curioso como o surgimento desses mitos médicos sempre coincidem com benefícios e privilégios para os setores que detém o poder. O mito da “segurança” superior da cesariana em várias circunstâncias (gestação a termo, cesariana anterior, pélvicos, gemelares) só consegue prosperar e florescer porque beneficia médicos e instituições. As vantagens do parto vaginal, em contrapartida, não conseguem se estabelecer com facilidade exatamente pela mesma razão: o parto vaginal agride o desejo e a própria formação tecnicista dos médicos.

Para a atenção a um parto múltiplas habilidades são requeridas, enquanto para uma cesariana bastam as qualidades técnicas. Mas, como os profissionais médicos detém o poder autoritativo, as evidências só produzem diferença quando reforçam este poder, e não quando se contrapõe a ele.

Veja aqui o estudo que demonstra a segurança de provas de trabalho de parto para gestantes com 3 ou mais cesarianas.

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Nomear e Apoiar

Creio que um dos principais problemas que permeia os debates sobre parto é confundir nomeação e suporte. Muitas mulheres e homens – e boa parte dos ativistas – ainda não entenderam que existem dois temas envolvidos nessa discussão e insistem em confundi-los.

É fundamental a importância de NOMEAR uma cirurgia abdominal, como uma cesariana, para conter seus abusos e combater sua banalização, que tantas vidas ainda coloca em risco e tantas frustrações gera nas mulheres. Por outro lado, e de forma concomitante, há a necessidade de APOIAR as puérperas em qualquer circunstância. Estas etapas são INDEPENDENTES, mas criamos a ilusão de que são uma só.

Infelizmente acreditamos que mentir – para mulheres ou crianças – é uma forma de acolhimento e carinho.

Assim sendo, podemos (devemos) nomear com precisão o que aconteceu com uma mulher que pariu e ao mesmo tempo lhe oferecer apoio empático e incondicional. Podemos usar a correta nomeação seguida de apoio, como em: “Você teve infelizmente uma cesariana mas lutou bravamente por dar o melhor ao seu filho”. Alternativamente você pode não nomear e apoiar, mas isso permite facilmente cair na banalização, como em “Tanto faz a via de parto o importante é mãe e bebê estarem bem.” Sabemos como isso é usado por cesaristas. Outra possibilidade é nomear e não apoiar, como em: “Você teve cesariana e nenhuma mulher é verdadeiramente mãe se não passou por um parto”, e sabemos o quanto de crueldade esta afirmação carrega. Finalmente, você pode não nomear e não oferecer apoio, de maneira igualmente cruel e infantilizante, como em: “Não importa como foi o parto, nada justifica toda essa sua manha”.

Continuar a confundir estas etapas não ajuda em nada nos debates, além de atrapalhar demais a discussão sobre os caminhos a seguir. Desconsiderar a importância da VERDADE e do SUPORTE – que NÃO SÃO excludentes – é grave e continua produzindo tristeza e rancor, cobertos por uma grossa camada de culpa. Tratar as mulheres como adultas já não é mais uma “opção”, mas um dever de todos nós.

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Consciência e mudança

Por debaixo de um ato qualquer existe uma construção social e inconsciente que nos impele às ações. Mesmo quando o ato nos parece incongruente existe uma lógica que o sustenta além da nossa rasa compreensão. O que os torna fortes e longevos é sua conexão com o desejo, e não com a razão.

A episiotomia ocupa um lugar no próprio imaginário feminino, que aceita tais mutilações como o “preço a pagar” por ser mulher e trazer seu filho ao mundo com segurança. O mesmo ocorre com as mutilações genitais na África, onde as próprias mulheres ainda aceitam esse destino como justo, talvez como culpa ancestral pela própria condição feminina, sempre ligada ao pecado e ao erro.

Na China nenhuma das alunas enfermeiras obstetras de diversas províncias chinesas realizava episiotomia de rotina. Ficaram escandalizadas quando falei da nossa taxa global de 56% (e de estados do centro-oeste com 70% de taxa de episiotomia). E isso em um país em que quase todos os partos são em litotomia. Para elas episiotomia é uma conduta estranha e violenta. Conseguiram manter a ideia de um períneo intocado mas infelizmente sucumbiram aos modismos ocidentais como parto deitado, máscara, esterilização, separação mãebebê, hospitalização, etc.

Mudar essa condição será possível quando trouxermos tal construção histórica à luz. A simples evidência de sua inutilidade e malefício (cujos estudos comprobatórios já contam mais de 30 anos) não é suficiente para erradicar uma prática violenta, por mais evidências apontadas. É preciso mais do que razão; é necessário consciência política e organização social para pressionar pela extinção das más práticas.

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