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Fantasias

Ela contou algumas histórias sobre seu cotidiano, suas insônias, as dores nas costas e o antigo refluxo que a incomodava. Depois falamos de seus sonhos, do casamento recente e do desejo de ter um filho. Eu escutava e só desviava ocasionalmente o olhar para anotar uma passagem que fosse significativa. Após algum tempo ela olhou direto em meus olhos e, depois de uma pausa, me disse:

– Isso é um pouco pessoal, mas preciso falar de uma coisa sobre o meu casamento.

Larguei a caneta sobre o papel, ajustei o óculos sobre o nariz e cruzei os dedos sobre a folha rabiscada. Entendi que a consulta dava um giro importante, talvez chegando ao ponto que a tinha originado.

– Claro, disse eu, pode falar.

Ela baixou o olhar por alguns instante e depois começou a falar sem erguer os olhos.

– É o meu marido. Acontece que ele é muito possessivo. Eu diria que ele é até grosso. Não deixa eu sair com minhas amigas e controla meus vestidos. Não gosta que eu me comporte de forma muito alegre em público. Ciumento, muito. Não suporta que alguém se reporte a um ex namorado meu. Controla meus horários e cobra qualquer mínimo atraso…

– Alguma violência?

– Não!! Jamais!! Nunca me bateu ou qualquer coisa parecida com isso. Ele é – e sempre foi – um perfeito cavalheiro. Nem levantar a voz ele faz comigo. Eu também não aceitaria qualquer tipo de violência comigo. É só esse comportamento controlador dele, constante…

– Bem, mas você já pensou em dizer a ele que poderia pedir ajuda? Existem diversas formas de abordar esse comportamento, e muitos homens apenas repetem em sua vida madura o….

– Não Ric, você não entendeu. Não acho que ele precisa procurar ajuda. Não é esse o problema…

– E qual é?

Ela esperou um pouco antes de responder, e soltou as palavras como se estivesse a fazer uma confissão.

– O problema… é que eu gosto. Eu adoro um homem me tratando assim. É algo que me excita.

Bem, se há algo que aprendi foi não me intrometer na fantasia sexual de ninguém. Se há consentimento e respeito tudo é válido entre adultos. Apenas sorri e lhe disse que a mim não cabia julgar os laços eróticos que unem as pessoas. Ela sorriu satisfeita, como que aliviada por sentir-se livre para amar seu marido do seu próprio jeito.

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Sobre Mulheres e Posições

Mais de 30 anos já se passaram de quando eu resolvi enfrentar o modelo obstétrico do hospital universitário em que fiz residência e coloquei as gestantes para parir de cócoras. Certamente que esta atitude – apesar de ter sido tolerada – era tratada com desdém e aversão. Um dos professores me disse que “partos de cócoras eram para índios, e só funcionavam em sua própria cultura“, da mesma forma como “acupuntura só funciona para japoneses“. Minhas lembranças da residência, como se pode perceber, não são de um local de livre circulação de ideias, informações e profundidade de conceitos.

O rechaço às posições verticais daquela época poderiam ser interpretadas hoje como resultado da falta de pesquisas que mostrassem as vantagens do parto em posição não-litotômica. Essa visão, entretanto, não resiste a uma análise mais profunda, em especial quando se analisa o fato de que a posição de litotomia (deitada de costas, pernas levantadas e presas) é uma invenção moderna e que nunca se comprovou superior às variantes verticais usadas em praticamente todas as culturas humanas.

Hoje em dia mais de 91% das mulheres no Brasil (Nascer no Brasil – 2012) continuam a parir seus filhos em posições horizontais, uma imagem fiel dos partos que testemunhei há 30 anos em minha residência médica, e que tanta indignação me causou. As últimas 3 décadas de comprovações científicas sobre a superioridade das posições verticais e sobre a livre escolha fizeram QUASE NADA para modificar o ensino médico e as opções que as mulheres tem para o nascimento de seus filhos, pelo menos no que diz respeito à posição.

Fizemos avanços na lei do acompanhante, na presença de doulas, na diminuição das episiotomias, na ambiência, nas Casas de Parto, na disseminação do parto domiciliar planejado como opção válida e segura mas ainda não foi feita nenhuma mudança considerável na posição de parto. Por quê?

Creio que a resposta para essa dúvida recai sobre elementos profundamente inseridos no inconsciente. A paciente deitada, abaixo da linha dos olhos do médico, em posição constrangedora e com as pernas abertas é a própria imagem da submissão em que ela se encontra diante do poder autoritativo do médico. Atentem para o fato de que esta posição só foi disseminada após a entrada dos médicos-homens no cenário do parto; antes disso as gravuras e estatuetas antigas sempre mostraram parteiras no mesmo plano ou mesmo abaixo da mulher a quem auxiliam. Por que essa mudança ocorreu e por qual razão se mantém apesar de todas as evidências que nos provam sua inadequação e mesmo o inegável prejuízo para mães e bebês?

Minha tese é de que o parto deitado é um reforço psíquico subliminar que auxilia o poder médico a manter sua dominação sobre o corpo da mulher. O parto deitado, posição clássica de litotomia, estabelece a assimetria de poderes que ajuda o profissional a se sentir no comando e envia uma mensagem de inferioridade para a mulher que está parindo. Por esta razão, e não pela falta de informações ou provas científicas, é que esta posição ainda é disseminada nos hospitais de ensino e utilizada na assistência a 9 de cada 10 mulheres parindo neste país. Muito mais do que representa objetivamente, ela é plena de um simbolismo patriarcal de dominação, e por essa razão resiste aos ventos do tempo e da verdade.

Muitos outros mamíferos utilizam essa posição para informar submissão a um elemento dominante no grupo. Os cães, tanto quanto os lobos, costumam se deitar e oferecer o ventre para o chefe da matilha para demonstrar sua subserviência. Este tipo de atitude está associada às estruturas hierárquicas dentro de grupos de animais que se organizam desta forma, como cães, lobos, hienas, etc. Isso reforça a tese de que essa imagem ativa elementos muito profundos do inconsciente, e por este fato é tão significativa e resistente.

A posição de parir é uma das mensagens mais fortes e intensas da iconografia do nascimento, e por isso mesmo é tão difícil de ser modificada. É provável que a mudança na ergonomia do parto será a última barreira a ser rompida, exatamente porque ela carrega essa simbologia dissimulada, mas que afeta a forma como o patriarcado se expressa nas ações de médicos e na dominação sobre o corpo das gestantes. Negamos às mulheres grávidas o “produto social” que carregam no ventre, e por isso ainda insistimos em controlar esse evento e obstruir sua autonomia.

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Vassalos

“Quando vejo pessoas comemorando um ato ilegal apenas porque lhes favorece eu penso que este tipo de atitude explica muito da nossa realidade. Todavia, eu entendo porque os vassalos lutam com todas as suas forças pela manutenção dos privilégios dos seus senhores: eles acham que se os seus donos os reconhecerem pelo nome serão menos escravos do que os seus irmãos que se mantém anônimos. Sua fidelidade será, assim, recompensada.”

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Violência Homem

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Para meus colegas homens – que enxergam com tanto assombro e aversão a proximidade entre as palavras “violência” e “obstetrícia” – eu proponho que façam este singelo exercício de imaginação:

Vejam-se em um hospital escola em posição para um toque e avaliação da próstata. Depois de um bom tempo de demora entram o professor e seus 16 alunos. O mestre descreve seu caso como se você estivesse ausente, e como se sua única função no mundo fosse carregar uma patologia no corpo para oferecer aos alunos como aprendizado. Logo depois, sem pedir ou avisar nada, enfia os dedos no seu ânus, descrevendo jocosamente o que encontra, entre um e outro comentário de futebol. Depois disso, pede para um aluno sentir a consistência da próstata, o que ele faz com mais vagar. Depois um segundo, um terceiro e um quarto. Quando você escuta o quinto aluno colocar as luvas, resolve perguntar se está certo ser tratado dessa forma. O nobre professor se indigna e diz, com rudeza, que aquele é um hospital escola, e que você DEVE isso aos alunos. Você concorda, em termos, mas tenta argumentar que existem formas mais dignas e respeitosas de fazer isso, mas é interrompido. Explicam-lhe, finalmente, que é assim ou nada. “Se você quer o atendimento tecnológico que temos a oferecer então deve se calar. Caso não queira, nada podemos fazer para lhe ajudar”.

Você baixa os olhos e se submete. Por medo. Engole em seco e permite, mais uma vez, ter seu corpo invadido e sua dignidade desmerecida.

Pensou? Talvez só assim seja possível a você enxergar porque se calam as mulheres diante das ameaças, explícitas ou dissimuladas. Talvez só passando por uma experiência assim você possa aquilatar a dor da humilhação e da violência. Não é por pouca coisa que as mulheres recalcam essa dor em suas almas.

Enquanto continuarmos a aceitar este tipo de violência contra mulheres todas as outras continuarão a ter sentido. Por outro lado, quando extinguirmos o parto violento, as outras formas de agressão passarão a ser cada vez mais inaceitáveis.

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