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Amamentação – Bases Científicas

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AMAMENTAÇÃO – Bases científicas, 4ª. edição

Livro reúne 63 autores que escreveram 38 capítulos em quase 600 páginas.

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Tive a honra de escrever os capítulos sobre humanização do nascimento para a segunda, terceira e quarta edições desse fabuloso livro. “Amamentação e o Continuum da Humanização” é o segundo maior capítulo do livro, com 25 páginas. O maior capítulo é o que trata exatamente dos aspectos nutricionais, com 26 páginas, mas foi escrito por 6 colaboradores. Fico muito feliz que esse capítulo tenha marcado a minha despedida dos escritos médicos. Valeu o esforço e a dor de escrever.

Tenho muito orgulho de ter colaborado com essa obra magnífica para a construção de uma amamentação livre e respeitosa. Ler as palavras do mestre Cesar Victora nos oferece a certeza de que esta luta vale a pena, por maiores que sejam os sacrifícios e obstáculos. Assim como sentimos o perfume de flores plantadas por sonhadores que não mais estão entre nós, também na semeadura da amamentação e da humanização do nascimento jamais veremos as flores que brotação das sementes que hoje plantamos. Todavia, nada nos impede de nos regozijarmos com os tímidos brotos que surgem através do nosso esforço. Este livro é uma prova de que a paixão e a esperança vencem todas as barreiras que nos dificultam a caminhada rumo ao progresso.

Aos meus amigos Marcus Renato e Luiz Mussa Tavares, assim como Cristiane Gomes, um abraço especial pela coragem de enfrentar um sistema por vezes tão cruel e também pelo talento de reunir nesta obra tantos companheiros dedicados e competentes.

Ric Jones
Novembro 2016
Beijing – China

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PREFÁCIO do Dr. Cesar Victora*

Recentemente estive envolvido em uma ampla revisão sobre o aleitamento materno. Ao revirar minhas coleções de livros e separatas sobre o tema, iniciada nos anos 1970 (quando os arquivos em formato PDF estavam longe de existir), encontrei uma publicação clássica da Organização Mundial da Saúde, intitulada: Contemporary Patterns of Breastfeeding. Esse foi o primeiro estudo realizado em vários países sobre a descrição dos padrões de aleitamento em diferentes grupos populacionais. Seu organizador foi o pediatra sueco Bo Vahlquist, que faleceu antes da publicação do volume. Vahlquist inicia o seu prefácio com uma frase memorável: “Para todos os mamíferos, o ciclo reprodutivo inclui tanto a gestação quanto a amamentação; na ausência dessa, nenhuma espécie – nem sequer a humanidade – teria sobrevivido”. Incorporei a frase de Vahlquist no primeiro de uma série de dois artigos que publicamos recentemente na revista The Lancet. Nenhuma sociedade preconiza substituir o útero materno por um útero mecânico ou artificial, mas por outro lado usar fórmulas industrializadas em substituição ao leite materno se tornou rotina em grande parte do mundo. Essa prática resulta de uma profunda ignorância a respeito do diálogo biológico entre mãe e criança, que se inicia no útero e se prolonga durante os primeiros anos de vida por meio da amamentação.

“Amamentação – Bases Científicas” chega à sua quarta edição ocupando um lugar especial na biblioteca de todo profissional envolvido no cuidado de mães e crianças. Escrito por um amplo e competente grupo de pesquisadores e profissionais de saúde, sob a coordenação de Cristiane F. Gomes e Marcus Renato de Carvalho, o livro cobre todas as áreas essenciais que dizem respeito à amamentação: da biologia às políticas públicas, passando por uma série de capítulos de natureza essencialmente prática, de enorme utilidade para os profissionais envolvidos na promoção e no apoio ao aleitamento. Noto com satisfação a ênfase dedicada nesta quarta edição ao recém-nascido prematuro. A prematuridade, epidemia que assola nosso país, relacionada em grande parte à medicalização excessiva do parto, merece um cuidado especial dos profissionais de saúde para garantir o sucesso do aleitamento. O diálogo biológico a que me refiro acima é ainda mais importante para os prematuros, devido à capacidade de suas mães de produzir um leite especialmente formulado para essas crianças.

Termino este prefácio com três pensamentos:

O primeiro é que deveríamos deixar de falar em “benefícios da amamentação” e passar a mencionar sistematicamente os “riscos de não amamentar”. A amamentação é a norma de todas as espécies de mamíferos, e, portanto, devemos definir a ausência de amamentação como a anormalidade, ou seja, como o grupo de risco. Por exemplo, amamentar não aumenta a inteligência; de fato, não amamentar diminui a inteligência.

O segundo é que nosso nível de conhecimento sobre o aleitamento materno – tanto a composição do leite materno como o ato de amamentar em si – é ainda muito limitado. Os excelentes capítulos da Parte 1 do livro resumem o que atualmente se conhece sobre o tema, mas áreas de ponta na pesquisa básica fornecem a cada dia novas evidências sobre o diálogo biológico já mencionado. Amamentar tem efeitos epigenéticos e define o microbioma o recém-nascido, gerando efeitos permanentes sobre a saúde do indivíduo amamentado. O leite humano contém células-tronco, lisossomos, micro RNA, e muitos outros componentes sobre os quais ainda pouco se conhece – mas que certamente têm um papel importante para a criança. Em uma frase muito feliz, meu colega Simon Murch, coautor da série Lancet, afirmou que: “O leite materno é não apenas um aporte nutricional perfeitamente adaptado para o recém-nascido, mas também a mais sofisticada medicina personalizada que ele ou ela irá receber durante toda sua vida.

Terceiro, o livro enfatiza o papel essencial da sociedade em proteger, promover e apoiar o aleitamento, por meio de políticas públicas, de práticas dos serviços de saúde, de locais de trabalho favoráveis, da sociedade civil e do engajamento da população como um todo. Não é justo colocar a responsabilidade sobre a mulher, pois, sim um amplo apoio social, as tentativas de amamentar são frequentemente frustrantes.

Essa proposta está de acordo com o pensamento progressista sobre promoção da saúde: em vez de colocar a responsabilidade sobre indivíduos, entender o contexto social, cultural, ambiental, econômico e político que favorece a adoção e a prática de comportamentos saudáveis.

Finalmente, parabéns aos organizadores e colaboradores pelo sucesso obtido pelas edições anteriores, o qual será certamente repetido nesta nova edição.

*Cesar Victora é Professor na Universidade Federal de Pelotas

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Coração Partido

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“Cada dia que passa mais me convenço da profundidade das marcas que o parto deixa em quem é atropelado por sua voracidade. Em uma sociedade em que as escolhas frequentemente se resumem à suprema alienação da cesariana ou à violência obstétrica do parto vaginal, é triste reconhecer que qualquer destes caminhos produz inexoráveis cicatrizes. Basta que venha a chuva de uma lembrança, um comentário ou mesmo uma manifestação inocente e a cicatriz volta a pulsar.

Não importa que entre a marca no corpo e a fala que a ela se reporta tenham decorrido décadas, ela continua lá, atual, ardente e corrosiva. Não há corpo no qual esta ferida não deixe sua mancha, e não há tempo em uma única existência capaz de apagar seus efeitos.

Porque somos feitos de carne e desejo não é possível que se toque em um sem que o outro goze ou sofra.

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Atendimentos Privados

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O tema da assistência privada ao parto é tratado por nós nas redes sociais há no mínimo 17 anos. Minha experiência pessoal é que os poucos obstetras humanizados no Brasil não conseguiriam suprir a demanda de pacientes que acordaram para as vantagens de um parto digno. Quando vejo médicos que resolvem atender por convênios o resultado é arriscado, para dizer o mínimo: atendem uma demanda de 15 a 20 partos por mês. Com esse tipo de fluxo – que desrespeita o princípio da humanização dos cuidadores – a QUALIDADE do trabalho despenca. É impossível atender um parto quando o obstetra desumaniza-se, quando ele trabalha demais, está cansado, esgotado, com energias exauridas e com seu raciocínio prejudicado pelo acúmulo de trabalho. A solução seria atender um número limitado de pacientes, e para mim este valor chega a 4 – 6 por mês, que nos oportuniza um trabalho quase artesanal. Dá para cancelar consultório, atender sem angústia de tempo, indicar cesariana corretamente (e não porque está dormindo e/ou estafado), fazer visitas domiciliares pré e pós parto, atender o puerpério em domicílio (evitando que um bebê de 7 dias saia à rua para respirar escapamento de ônibus), demorar nas consultas etc. Tudo isso é impossível de fazer atendendo 18 partos por mês.  

Mas se você vai atender 6 e a demanda é de 15, quais os pacientes que você aceita e quais você nega? Sorteio? Quem chegou primeiro? Nesse modelo você acaba se tornando cruel com as pessoas que desejam um parto normal e não conseguem. Eu ainda acho que é mais justo que se aplique a velha “lei de mercado”, e ela se estabeleça como em qualquer outro lugar, para que as pessoas valorizem o trabalho do obstetra – sua dedicação, talento e tempo – e que esta seja a forma de escolha. Aliás, essa regra existe para QUALQUER produto no mundo, e com os profissionais que atendem parto não poderia ser diferente.  

Todavia, o debate esbarra no fato de que, seja qual for o sistema de escolha do médico – sorteio, valor do parto ou ordem de chegada – não há ainda como suprir a demanda, porque os obstetras humanistas, as enfermeiras e obstetrizes ainda são poucos, e porque os serviços públicos não tem interesse em transformar os seus atendimentos através de um protocolo de humanização. Estes serviços públicos (ressalvadas as conhecidas exceções) continuam sendo controlados por chefias anacrônicas com posturas corporativistas, que enxergam o nascimento como evento médico, controlado por eles, pela lógica da intervenção, e enxergando as mulheres como bombas relógio prestes a explodir. Os relatos das manifestações do CREMESP no último encontro de humanização do nascimento em São Paulo, onde sobraram manifestações velhas e preconceituosas sobre o parto humanizado protagonizadas por velhos obstetras, nos enchem de tristeza e vergonha. Mas, são estes os profissionais que controlam os serviços públicos, que resistem à entrada de enfermeiras obstetras e obstetrizes, que se negam a realizar mudanças simples como banquetas de parto, bolas, água e aparelhos de fisioterapia. Eles são os donos dos partos no Brasil e, em última análise, dos corpos das mulheres.  

A mudança nesse cenário NÃO se dará pressionando os poucos obstetras a fazer escolhas de Sofia, trabalhar de forma insana e desumana ou adotar uma postura franciscana, atendendo graciosamente seus pacientes. Não, esta é a parte em que a MASSA CRÍTICA é fundamental. Mulheres – e seus parceiros – caminhando unidos e EXIGINDO um atendimento digno e humanizado pelo SUS, tendo os médicos humanistas como parceiros nesta luta. Não há como manter as mulheres adormecidas, onde o papel do médico é se sacrificar por sua pobre paciente, ou um estado benevolente que resolveu – por conta própria – fazer uma Casa de Parto. Não…. essas coisas só ocorrem através de luta e de pressão popular. Mas ainda não conseguimos reunir 30 mulheres para aprovar uma lei de doulas em nossa cidade, como faríamos um “levante materno” para mudar as hierarquias e os modelos dentro de maternidades?  

Uma das soluções é acabar com esse paradigma que prevê a existência de um médico particular atendendo partos de suas pacientes privadas. Esse é um modelo falido e tem que acabar. Ele é responsável – entre outros fatores – pelas taxas abusivas e vexatórias de cesarianas no mundo ocidental, em especial nos países satélites dos Estados Unidos. Esse modelo iatrocêntrico, etiocêntrico e hospitalocêntrico (centrado no médico, na doença e no hospital) precisa terminar. O futuro nos reserva, em curto prazo, as Casas de Parto e os hospitais humanizados com trabalho interdisciplinar.  

Ainda falta vontade política e organização social, mas …. por que não podemos nos manter otimistas diante do tanto que já conquistamos?

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Cicatrizes

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A cesariana no século XX, com sua rapidez, relativa segurança e praticidade, permitiu que muitas vidas de mães e bebês fossem salvas. Entretanto, sua prevalência no mundo ocidental foi aos poucos aniquilando as habilidades que os responsáveis pela assistência desenvolveram nos últimos 2 milhões de anos. A facilidade e a impunidade para abreviar uma gestação através da cirurgia de extração fetal, aliadas à incapacidade de entender a complexidade do processo de parturição, levaram ao estado atual: cesarianas além de limites aceitáveis e partos violentos. Como nos lembra Gail Tully – a partir de um comentário de Lorenza Holt – mais acertado seria chamarmos de “falha de assistência” do que “falha de progressão”; de uma forma crescente estamos perdendo as habilidade essenciais para darmos conta das sutilezas deste evento.

Se nada for feito o século XXI pode assistir o fim do parto vaginal pela absoluta impossibilidade de encontrar profissionais capacitados para atendê-lo.

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Na antessala de Belzebu

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Na fila do inferno o secretário do Capeta anuncia:

– Por favor, advogados, cesaristas e vendedores de telemarketing, fiquem na fila de esquerda e aguardem a chamada. Vendedores de plano de saúde, pedreiros que faltam na segunda e empregadas que queimam o arroz, fiquem na fila do centro. Segurem o seu cartão verde na mão junto com o atestado de óbito e o cartão do SUS.

– E nós?

– Neonatologistas que afastaram bebês de mães e enfermeiras que atacaram doulas segurem seus cartões vermelhos e aguardem aqui que o Sr Belzebu vem falar com vocês em pessoa.

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Contágio

Coca Cola

No final do século passado um grupo de adolescentes na Bélgica toma Coca-Cola e começa a se sentir mal. Náusea, vômito, tontura, dispneia e ansiedade A partir desse fato de inicia uma busca pelas causas dessa “intoxicação”, que inclui pesquisa das folhas da planta de onde se produz a essência e, por fim, encontra-se uma alteração na formulação da bebida. Isso poderia encerrar a investigação, não fosse o fato de que um bioquímico afirmar que, mesmo havendo essa pequena alteração em um componente, seria necessário uma concentração mil vezes maior dessa substância para produzir qualquer dos sintomas relatados pelo adolescentes.

Mas se os sintomas eram reais e a concentração da substância insuficiente para causá-los, o que poderia produzir os sinais alarmantes que os jovens apresentavam?

A resposta, segundo Malcolm Gladwell, escritor e jornalista americano, seria um componente contagioso no comportamento. Não se tratava de uma substância venenosa ou uma partícula viral, mas uma ideia, um pensamento, o medo. Existem vários exemplos de fatos como esse, como crianças em creches tendo crises em frente à TV no Japão, o fenômeno mórbido de Jim Jones na Venezuela ou a “febre” das Tulipas na Holanda. O contágio não se dá a partir de uma entidade química ou biológica, mas a partir de elementos do “campo simbólico“, no fértil terreno das ideias.

O que podem nos ensinar tais fenômenos? Essencialmente ele nos falam do poder da comunicação pessoal e direta, por certo. Entretanto, também nos mostram que tal poder pode nos conectar para o mal – o sintoma, a dor, o desespero – mas também pode ligar as pessoas para o bem. Se essa conexão identificatória com o sofrimento e o sintoma alheio é capaz de construir uma onda de histeria do “nada” (biológico ou químico), também poderia induzir comportamentos solidários, saudáveis e construtivos. Para estes também há vários exemplos em distintos contextos.

Em relação ao parto e nascimento sempre me estimulei pela potencialidade das boas histórias contadas como importante elemento de contágio positivo. Vejo nelas a possibilidade da criação de “ondas de positividade“, e apenas por isso resolvi fotografar nascimentos: para criar “histórias visuais”. Por outro lado, quando leio ou escuto relatos de violência obstétrica relacionada aos partos, sempre tenho a sensação de que, mesmo reconhecendo a relevância destas denúncias, precisamos muito mais focar na luz do que na sombra.

Como eu dizia há alguns anos, o combate às cesarianas indevidas ou à violência obstétrica não deve ser nossa trilha principal, pois que ela se concentra na sombra da obstetrícia – anacrônica e violenta. Nossa proposta deveria se direcionar ao contágio positivo das histórias de sucesso, espalhando de forma viral a possibilidade de partos seguros e tranquilos, com plena autonomia das mulheres, com embasamento científico e um olhar abrangente sobre este poderoso rito de passagem.

A mudança do panorama da atenção ao parto vai ocorrer na medida em que o volume de histórias bonitas e poderosas ultrapassar um determinado “turning point“, um momento específico em que o respeito ao nascimento for naturalizado e toda forma de violência se tornar absurda. Para alcançar esse limite é preciso multiplicar essas descrições e fazer delas as imagens que usamos para colorir de realidade as nossas fantasias. Cabe apenas a nós criar esse psicosfera positiva no campo da linguagem.

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Próxima etapa

caneta

O próximo passo no movimento de humanização do nascimento é acabarmos com as “Notas Públicas” que jogam assuntos internos para o mundo exterior (leia-se, Redes Sociais). Mesmo que, ao analisar estas manifestações, eu encontre verdades e correções, eu ainda acredito que a via mais correta para resolver estas contendas seja uma discussão privada e sincera, onde os pontos de vistas possam ser expressados com honestidade e franqueza. Fui vítima de manifestações desse tipo no passado, e não vejo qualquer vantagem para um projeto, uma ideia ou um movimento pelo uso de manifestações marcadas pela autofagia. Ninguém ganha com isso; todos perdem.

No caso em questão a minha dor é ainda maior porque gosto e tenho laços de amizade e carinho por todas as pessoas envolvidas, em ambos os lados da controvérsia. Eu sinto, pela primeira vez na vida, a sensação de um menino que se martiriza ao assistir a briga dos pais e pensa: “Por que eles não conversam e se entendem? Por que essas brigas na minha frente? Eles deveriam se amar!!”

O que é pior, um dos pais sempre se aproxima e pede, de forma sutil e subliminar, que o pobre menino escolha um dos lados. Que crueldade!!

Espero que essa situação possa nos oportunizar um questionamento profundo de nossos valores e estratégias. Precisamos construir uma união mínima em torno de ideias compartilhadas, respeitando as diferenças pessoais e oportunizando o diálogo aberto entre aqueles que lutam por propostas semelhantes. Os que se posicionam contra a autonomia feminina, a visão interdisciplinar do parto e a adoção de protocolos baseados em evidência sempre festejam estas brigas intestinas; só os conservadores tem a ganhar. As mulheres e seus filhos, objetivo maior de nosso trabalho, são os que mais perdem com nossa incapacidade de resolver esses problemas de forma compreensiva, amorosa e privada.

Sonho com uma conversa conciliadora entre as partes, o que entendo ser difícil em um momento de sentimentos aguçados e honras feridas. Todavia, o que restaria da vida sem a possibilidade de sonhar?

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23 Fatos sobre partos em um Hospital na China

partos china

Primeiras impressões sobre a obstetrícia na China. Hospital Geral de Ju Lu, uma cidade média que está distante 1000 km da capital Beijing.

1- Não há homens atendentes de parto, e por questões claramente culturais. Médicas e parteiras trabalham lado a lado, mas em um ambiente 100% feminino.

2- Não há pediatras na atenção ao parto, mesmo em gestações de risco. Somente parteiras treinadas. Se existe algum problema a criança é levada para a unidade de neonatologia que fica ao lado. O mesmo se observa na Europa.

3- Icterícia neonatal se trata com:

  • Luz
  • Hidratação
  • Medicina Chinesa – um conjunto de ervas. Fiquei tão interessado que elas me deram uma caixa de presente com as ervas para icterícia neonatorum. Elas ficaram impressionadas com a excessiva (para elas) preocupação que temos com a bilirrubina.

4- Taxa de episiotomia 15%.

5- Partos deitados, posição tradicional, infelizmente. Esse é um modelo que precisa mudar. Ficaram vivamente interessadas em tentar oferecer posições alternativas.

6- Elas realizam parto na água, em uma sala especial, bastando para isso pagar uma taxa de 600 yuan – 300 reais. Usam uma banheira moderna, feita na “Dinamarca”. Gostam muito de atender partos assim.

7- Duas maternidades no mesmo prédio: uma simples e a outra SUPER sofisticada, mais chique que todas que já vi nos hospitais de Porto Alegre ou São Paulo (e eu estou agora em uma cidade menor do que Caxias do Sul – 400 mil habitantes). A maternidade chique tem modelo PPP (pré parto, parto e pós parto) que é usada por pacientes mais sofisticadas e que aceitam pagar uma conta mais alta. “Gente phyna da China”.

8- O sistema de saúde é sempre “meio público e meio privado”. Não existe atendimento grátis e universal. O governo paga uma parte sempre, mas o resto é com você. A paciente é quem escolhe se quer ir para a maternidade chique ou para a mais simples (que, no entanto, é bonita e funcional). Quando perguntei “e se o paciente não tiver como pagar?” as parteiras se olharam e responderam “elas pedem para a família ajudar”.

9- É curioso passar na frente dos banheiros nos corredores do hospital e sentir o cheiro forte de urina. Isso parece não incomodar ninguém nos restaurantes, aeroportos e/ou hospitais. Esse cheiro é o que mais me impressiona como visitante.

10- Enfermeiras ganham 3.000 yuans por mês quando são funcionárias iniciais. Com o tempo podem chegar a 4.000 yuans. Isso significa entre R$ 1.500,00 e 2.000,00 mensais, muito pouco para o padrão ocidental. Elas ficaram muito interessadas em saber quanto se ganha no Brasil por parto realizado, ou quanto ganham enfermeiras e médicos trabalhando em hospitais (o que é sempre difícil de responder).

11- Trabalhadores de saúde, como médicos e enfermeiras, ganham pouco e não tem acesso a uma vida plena de classe média. Quem ganha muita grana são os aventureiros do capitalismo nascente. Sempre, em qualquer lugar.

12- Eles têm genuíno respeito pelos “experts” estrangeiros. Minhas aulas de hoje lotaram e tivemos mais de 70 profissionais do hospital. Médicos, parteiras e até cardiologistas. Quando cheguei ao hospital para falar fui recebido na porta da frente pelo diretor médico do hospital que veio pessoalmente me cumprimentar. Ele fez questão de carregar minha pasta com o computador até a sala de conferências.

13- Eles têm muita vontade de aprender. Quando mostrei que, com pequenas adaptações, poderiam fazer partos verticais na cama da sala de partos, eles pegaram bloquinhos e começaram a fazer desenhos e anotações, inclusive o diretor administrativo do hospital que nos acompanhava.

14- Partos no setor público ainda acontecem em sala de parto, mas não há dificuldade alguma para adotar o modelo PP. Falei isso para elas e parece que entenderam. Prometeram tentar mudar o paradigma de “uma sala por vez”.

15- Ponto importante: apesar de não existirem doulas a família é aceita e convidada a ficar por perto durante TODO o trabalho de parto, na mesma sala e tomando chá. O marido pode acompanhar sua esposa quando ela vai para a sala de parto. Tive vergonha de explicar a elas nossa luta para ter doulas presentes nos partos hospitalares do Brasil.

16- As cesarianas são feitas pelas médicas e auxiliadas pelas parteiras. Não se usam dois cirurgiões em uma cesariana. Cesarianas são feitas no CO só em caso de emergência, caso contrário são feitas no centro cirúrgico.

17- Perguntei para a plateia na minha aula se havia alguém nascido de cesariana e só uma menina ao fundo levantou a mão, visivelmente envergonhada. Havia mais de 70 pessoas presentes.

18- Perguntei se alguma menina havia menstruado antes dos 12 anos e NENHUMA levantou a mão… (só havia 5 homens na sala). Quando perguntei o porquê um dos homens disse que a vida e a dieta na China são piores do que no Brasil ou nos Estados Unidos. Essa resposta apenas demonstra como os chineses tem uma visão deturpada e fantasiosa do Ocidente. A dieta normal dos chineses – muitos legumes, frutas, peixe, carne, nada de leite, pouco sal, quase nada de açúcar e sem refrigerantes – é MUITO melhor do que a dieta no Brasil e quilômetros à frente de uma dieta norte-americana.

19- A tese de que a menarca – início da vida menstrual – mais cedo nas meninas do ocidente se deve à dieta rica em gordura e à precocidade do estímulo sexual fica comprovada por essa minha tímida amostra de mulheres chinesas.

20- Perguntei quantas mulheres na sala já eram mães e umas 40 (mais da metade) levantaram a mão. Perguntei quantas haviam feito cesariana e NENHUM braço se ergueu. Ninguém havia feito cesariana. A China é um país que ainda não foi destruído pelo modelo ocidental dominado pelo medo e pelo ódio. Aqui podemos fazer um trabalho maravilhoso, pois não é preciso lembrar a elas como o parto normal é importante; elas nasceram assim e pariram seus filhos desta forma.

21- A taxa global de cesarianas no hospital (setores público e privado) é de 28%, tendo ao redor de 800 partos realizados por ano. Elas acreditam que esse número é muito alto, e está foi uma das razões para nos trazerem aqui.

22- O relacionamento de parteiras e obstetras é absolutamente colaborativo e amistoso. É emocionante de ver.

23- Existem bolas de Pilates em todas as salas de pré parto, mas na maternidade pública não tem chuveiro para as pacientes em trabalho de parto. Mostrei a elas que água (ou como chamo, “Aquamerol“) é essencial para o parto e elas anotaram nos seus caderninhos.


A taxa global é alta, mas Ju Lu é uma cidade pequena no interior da China. Em Beijing, a situação é certamente diferente, mas não creio que a alta taxa de intervenções seja pelo controle governamental. As razões para a atual situação são provavelmente as mesmas que ocorrem em outros países: medo de processos, tempo, dinheiro, poder, médicos desconectados com a realidade do parto normal, formação acadêmica tecnicista, professores velhos que não atendem parto, etc. Mas nessa cidade o modelo ainda é muito centralizado na fisiologia do parto.

Com exceção da estátua do Mao na frente do hospital, nada poderia ser mais capitalista do que esse modelo. Quando falo (com muito orgulho!!!) do nosso cambaleante SUS elas ficam abismadas e encantadas. “Tudo de graça?”, perguntam. Tenho vontade de começar a conversa com elas dizendo: “Bem, no meu país, a República Socialista Democrática do Brasil, o sistema único de saúde blá, blá, blá….”

s parteiras são umas gracinhas, gentis, sorridentes, tímidas e tem uma enorme vontade de aprender. Não tem vergonha de perguntar nada sobre parto, Brasil, salário, estilo de vida, filhos, etc. Por outro lado são reservadas ao extremo. Uma delas me mostrou uma foto no seu celular de um parto no hospital onde trabalha (bem longe, elas vieram de várias partes da China para o nosso workshop) em que aparecia o marido beijando a esposa logo após o nascimento do filho deles. Nada que a gente não se acostumou no Brasil, e não era nem “desentupidor de pia”; era quase um “selinho”. Todavia, no momento do beijo o seio esquerdo da mulher estava à mostra, enquanto segurava o bebê, e isso causou um certo desconforto, inclusive entre elas. Perguntei o porquê e elas deram aqueles risinhos envergonhados cobrindo a boca. “A China é muito conservadora, doutor“.

Na China as midwives são todas enfermeiras. Não há “obstetrizes” de entrada direta, como Ana Cristina Duarte ou Cristina Balzano Guimarães, ou como as parteiras da Holanda. Outro detalhe importante: não há subalternos no cuidado. Não existem técnicas ou auxiliares de enfermagem; todo o serviço é feito por elas, com exceção da nutrição ou da limpeza do local (a das pacientes também é com as enfermeiras).

As taxas de cesariana estão aumentando principalmente pelas grandes cidades, como Beijing. Lá o paradigma de atenção tenta copiar o pior modelo do mundo, o americano: sem parteiras na atenção e alta tecnologia. “High tech low touch”. Iatrocêntrico, etiocêntrico e hospitalocêntrico. Esse modelo nunca funcionou onde foi utilizado, pois desconsidera as dimensões emocionais e o suporte psicológico e afetivo que foi a marca do nascimento desde o surgimento de nossa espécie.

Elas se preocupam muito com bolsa rota e me perguntaram como atendemos. Disse que o meu critério é aguardar trabalho espontâneo por 24h e só depois penso em induzir. A maioria esmagadora entra em trabalho de parto nesse período. Elas me contaram que internam todas as bolsas rotas e quando perguntei ao porquê me disseram que era por medo de “prolapso”. Partos pélvicos são atendidos por cesariana. Percebi que as parteiras não têm treinamento para atendimento de pélvicos. Gêmeos apenas se o primeiro for cefálico e o segundo for pélvico. A explicação para isso ficou “lost in translation“.

Elas investigam espessura da parede uterina por ultrassom para atender VBAC. Expliquei que não fazemos isso no Brasil por não haver evidências de que possa prevenir rupturas. Não fazem versão externa para pélvicos e nem sabem técnicas, posturas, exercícios, homeopatia ou acupuntura para tratar essas posições.

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Conceito de humanização

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“Humanização do nascimento é uma atitude que emerge da mudança conceitual surgida nas últimas décadas sobre o verdadeiro papel da mulher na sociedade, considerando-se os seus direitos reprodutivos e sexuais e reconhecendo suas inatas capacidades de gestar e parir com segurança. Surge através do reconhecimento das inquestionáveis violências institucionais que as mulheres sofrem no período gravídico-puerperal e a responsabilidade que advém desse conhecimento para quem se ocupa da atenção a elas.

Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher, tratá-la com dignidade, oferecendo uma visão integrativa – fugindo do modelo objetualizante e biologicista – e oferecendo um cuidado baseado em evidências atualizadas. É tarefa dessa geração de homens e mulheres que se interessam pela temática abrangente do nascimento mergulhar nesses conceitos e garantir às mulheres a atenção que elas merecem, para o bem de toda a humanidade.”

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Banho

banho hospital

Eu costumava dizer para não dar banhos em bebês recém-nascidos no hospital há mais de 20 anos, em especial quando ouvi pela primeira vez as teorias da preservação do biota do recém-nascido e a semeadura de bactérias “do bem” que a criança receberá ao nascer.

Em 2009 fui fazer uma palestra em Orlando, Flórida, no congresso do Healthy Children’s Center for Breastfeeding. Logo depois de falar fui procurado por um simpático senhor que se apresentou como o professor Lars Hanson, catedrático da universidade de Gotemburgo – Suécia. Ele parecia estar muito impactado e entusiasmado com as imagens de partos verticais que eu havia apresentado na conferência. Disse que isso era muito importante em função das questões microbiológicas envolvidas. Eu fiquei surpreso com a afirmação e disse que, até então, essa posição me parecia adequada porque facilitava o nascimento de bebês pelo aumento das “conjugatas”, os espaços ósseos da bacia, mas que não conseguia compreender nenhuma vantagem de caráter imunológico para o bebê.

Ele sorriu e me fez uma pergunta com um simpático sotaque nórdico bem carregado, cujo conteúdo lembro até hoje:

– Caríssimo amigo. Você já percebeu que todos os mamíferos superiores tem o introito vaginal próximo do ânus? Nunca se perguntou o porquê de tal proximidade?

Fiquei sem saber o que dizer, pois nunca havia pensado que essa proximidade pudesse ter algum propósito.

– Pense doutor… quando um bebê está para nascer, ainda no invólucro amniótico, ele se encontra em um ambiente estéril. No momento em que se encontra fora do útero, e rompida a bolsa que o envolvia, será imediatamente colonizado por bactérias. Mas… quem chegará primeiro na corrida para ocupar o espaço da superfície da pele desta criança?

– Bem, disse eu, imagino que sejam as bactérias maternas, se for um parto vaginal. Eu também penso que são bactérias para as quais o sistema imunológico da criança já está razoavelmente preparado pelo próprio convívio entre mãe e bebê.

– Mais do que isso, meu jovem, continuou o simpático professor. Ela será colonizada por enterobactérias (bactérias que vivem no intestino), que cobrirão a superfície corporal do bebê com bactérias anaeróbias – frágeis à presença de oxigênio – mas que protegerão o bebê contra os microrganismos maléficos do ambiente hospitalar por ocupar os espaços da superfície. Além disso, esse bebê vai deglutir as bactérias do sistema digestivo da mãe e colonizará seu próprio com bactérias maternas. Essa “semeadura” fará um amadurecimento adequado do seu sistema digestivo e neurológico. Desta forma, a proximidade dessas estruturas é benéfica para o ser que chega a este mundo, e funciona como uma “capa protetora” de bactérias maternas. Lavar a criança logo ao nascer é um absoluto equívoco, pois vai retirar dela a proteção microbiana e colocar em seu lugar patógenos potencialmente perigosos, pois cultivados em ambientes hospitalares.

– Faz sentido, respondi, e é provável que o processo de adaptação dinâmica que leva à evolução das espécies mamíferas nos colocou desde milhões de anos passados diante dessa condição: os recém-nascidos são banhados com elementos de colonização bacteriana materna, que os protegem do meio ambiente, ocupando o espaço dos elementos potencialmente perigosos e nocivos do local onde nascem.

– Exatamente, meu rapaz. Por isso que as posições verticais, em especial as de cócoras que você mostrou na sua apresentação, facilitam sobremaneira esta estratégia. Essa é a maneira mais fisiológica e saudável de nascer, e por isso mesmo a “esterilização” do ambiente de parto – o períneo – é tão inadequada. Para que haja saúde é fundamental que a criança seja semeada com os elementos do sistema digestivo de sua mãe.

Fiquei vivamente encantado com as palavras do mestre. Recebi como presente seu livro “Immunobiology of Human Milk: How Breastfeeding Protects the babies” (veja abaixo), o qual foi muito útil para escrever meu capítulo nas últimas três edições do livro de Marcus Renato de Carvalho e Luiz Tavares “Amamentação – Bases Científicas”, pois me mostrava que muito mais do que os elementos nutricionais e afetivos relacionados com a amamentação havia uma importante faceta microbiológica muito esquecida pela ciência médica no que diz respeito ao contato do bebê com a mãe, imediatamente depois do parto.

A perspectiva centenária de Koch-Pasteur, que demoniza as bactérias e venera os ambientes estéreis, está em seu ocaso. Muitas pesquisas estão sendo feitas para mostrar a importância de um biota – conjunto de seres vivos que nos compõem – saudável e o quanto o parto normal pode influenciar positivamente nessa condição. Muitos anos depois desse encontro revelador com o professor Lars Hanson eu pude assistir ao documentário “Microbirth” e pude constatar todas estas teses confirmadas pela ciência contemporânea.

A frase mais chamativa do filme é “Você é feito do que a sua avó comeu“.

Fantástico, não?

http://www.llli.org/llleaderweb/lv/lvaugsep05p88.html

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