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Batalha de La Plata 2

Foi épica a vitória gremista em La Plata contra o Estudiantes de La Plata por um a zero quando já estávamos com um jogador a menos.

O Grêmio tem uma história de jornadas épicas. Acho que o Juremir tem razão: “o Inter é lírico e o Grêmio épico”. É por essas partidas que o Grêmio é sempre o mais temido entre os times brasileiros; nem o Flamengo ou Palmeiras no auge do seus times milionários chegam perto da imagem que o Grêmio tem na América Latina. E essa forma de ver o Grêmio foi construída através de conquistas assim: na casa do adversário, com um a menos, tendo zagueiro ídolo lesionado, jogando a vida, com alguns bagres no time, na raça, na força e na camisa.

Não esqueçamos que o Estudiantes vinha de cinco vitórias seguidas, o estádio estava lotado e o time está prestes a disputar com o Boca a final da Copa da Argentina. Dizem os cronistas portenhos que este é o melhor time argentino da atualidade (o que mostra a crise no futebol deles). Além disso, o Estudiantes é o maior mandante da história da Libertadores. Jogar em La Plata é sempre um drama, um sofrimento que os argentinos conhecem muito bem.

E tem mais: o Grêmio ganhou jogando muito mais do que o adversário. Perdemos muitos gols e merecemos a vitória. Não foi uma vitória conquistada com um “gol achado”; não, foi o resultado de um futebol superior, organizado, com várias chances e imposição, tanto física quanto técnica.

Salve tricolor!!!

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Grilhões

Certa vez uma paciente me procurou com um pedido expresso para que eu “curasse seu útero”. Quando perguntei o que ele tinha ela me mostrou uma ecografia onde aparecia um pequeno mioma subseroso, menor do que dois centímetros.

– Estou com anemia, minhas menstruações são volumosas. Conversei com outro médico e ele me disse que o melhor seria tirar fora o útero. A explicação dele me convenceu pois pareceu correta e lógica.

– E qual foi a explicação que ele lhe deu?, perguntei.

– Ele apenas me questionou: “você ainda deseja ter filhos?”. Eu sorri e lhe disse que não, afinal estou quase com 50 anos e tenho filhos adultos. Ele então disse “O útero só serve para abrigar seus filhos ou acalentar um câncer”. Eu concordei; ele me fez ver que estou correndo risco de ter câncer sem ter qualquer vantagem.

Fiquei em silêncio observando minha paciente. Havia na sua expressão uma clara sinalização. Ela estava contaminada pelo medo, instilado pelo discurso do seu médico. Lembrei do famoso axioma sobre as guerras: “Se quiser um povo dócil, deixe-o apavorado. Quanto mais medo tiverem mais eles vão obedecer às ordens de um tirano travestido de salvador, por mais estúpidas que sejam suas determinações”. Da mesma forma, se quiser um paciente manso, obediente, “colaborativo”, deixe-o em pânico. Diga que se não fizer determinados procedimentos, tratamentos, regimes, etc. ele corre o risco de adoecer ou ter uma morte horrorosa, cheia de dor e padecimento.

O médico a quem ela procurou era um cirurgião. Por certo que para um sujeito com esta formação a cirurgia surge quase sempre como a solução para todos os males. “Se você é um martelo, todo problema é um prego”. Ora, nada mais óbvio: se você amputar seu útero – ou sua mamas – por certo que não terá como desenvolver um câncer nestas topografias. Mas seria esta a cura do câncer, ou apenas a retirada de um desconfortável sofá da sala?

O caso não apresentava justificativas para realizar uma histerectomia. O pequeno tumor benigno não estava envolvido em sua anemia limítrofe. O que ela tinha era uma síndrome característica da perimenopausa, um desacerto hormonal que levava à perda aumentada de sangue. Fiz a ela uma proposta simples e aberta: vamos tratar esta anemia, corrigir a menstruação, observar este mioma, usar alguns medicamentos homeopáticos e retornar em 6 meses para uma nova avaliação. Expliquei a benignidade do seu mioma e reforcei a ideia de que arrancar partes do corpo não é a melhor das alternativas, na imensa maioria das vezes. Ela concordou.

Entretanto, o que mais me impressionou foi a facilidade com que as mulheres aceitam a retirada do útero. Quando meu avô fez um tratamento para câncer de próstata, há muitos anos, uma das etapas era a orquiectomia (retirada dos testículos) para diminuir o aporte hormonal para o tumor. Na época ele tinha mais de 80 anos, e sequer lhe foi perguntado antes da cirurgia se “ainda pretendia ter filhos”. Na saída do centro cirúrgico o urologista comentou comigo que no lugar dos testículos foram colocadas duas esferas de silicone para diminuir o impacto emocional da “emasculação” causada pela retirada deles. Ficou claro que, para os homens, um testículo é mais do que um órgão que “faz filhos e câncer”; ele possuía um evidente valor simbólico, o mesmo valor que era sonegado ao útero. Ali estava um aspecto do “machismo” da medicina que era impossível negar.

A cirurgia mais realizada nos Estados Unidos é a cesariana, e logo depois dela, na lista de prevalência, está a histerectomia (retirada do útero), apesar de que estas cirurgias para miomatose terem passado por um considerável declínio nas últimas décadas. A medicina altamente tecnológica americana tem entre as cirurgias mais realizadas intervenções sobre o mesmo gênero e sobre o mesmo órgão. Se acrescentarmos a episiotomia (corte no períneo durante o parto) na equação veremos o quão poderosa é a crença de que o corpo das mulheres é algo que precisa ser monitorado, controlado, melhorado e consertado pela ciência médica, pois acreditamos que este organismo é intrinsecamente defeituoso, problemático, falho e traiçoeiro.

Mais chocante para mim é ver que, além dos interesses de uma cultura médica que desmerece o organismo feminino, existe uma aceitação tácita das próprias mulheres sobre a inutilidade dos seus órgãos. A forma como descrevem a menstruação (algo nojento, ruim, malcheiroso, etc) mostra como as especificidades femininas são mal vistas por muitas mulheres ocidentais. A maneira fácil como minha paciente aceitou a “inutilidade do útero” também foi chocante; como poderia um órgão que é chamado popularmente de “matriz” ou “mãe do corpo” ser tratado com tanta desconsideração. Por seu turno, o testículo é o símbolo da coragem e da determinação – precisa ter “culhão” para enfrentar tantos desafios. Por certo que este fenômeno é um efeito colateral do patriarcado, que desmerece o feminino em nome de uma ordem centrada nos homens, mas acredito que um contraponto muito mais intenso a essa perspectiva deveria ser disseminado entre as meninas.

Minha paciente fez o tratamento pedido, melhorou da anemia e o mioma se manteve estável. Voltou a algumas consultas com clara melhora. Depois disso ela se mudou com a família para o estrangeiro, para viver em outra realidade depois que ela e o marido se aposentaram. Mais de um ano depois da última consulta o marido, em visita ao Brasil, me procura no consultório pedindo um atestado, exames ou um documento dessa natureza. Na ocasião perguntei a ele como minha paciente estava, ao que ele respondeu:

– Ela está muito bem, mas ficou com vergonha de vir aqui. Ela acabou fazendo a cirurgia lá no exterior.

Não há como culpar uma paciente que faz suas escolhas diante da orientação ampla que recebeu. Posso criticar quem realiza cirurgias inúteis, mas não quem faz escolhas informadas. Este caso, entretanto, me ensinou que existem motivações escondidas no fundo da alma que nos levam a ações aparentemente tolas ou inúteis, mas que estão conectadas a elementos simbólicos e inconscientes. Estas pressões internas são, muitas vezes, muito mais fortes e poderosas que as orientações racionais que oferecemos aos pacientes. Ou como dizia meu amigo Max: “estes condicionantes são poderosos exatamente porque estão distantes da razão”. Isso também determina uma posição humilde para qualquer terapeuta: não é justo curar um sujeito para quem um tratamento – por mais justo e correto que seja – é visto como uma violência. É difícil aceitar uma realidade tão dolorosa quanto esta: para muitos sujeitos existe uma paixão inconfessa pelo sintoma. Curar-se significa libertar-se, mas quem de verdade deseja desfrutar de uma vida sem os grilhões que ao mesmo tempo que lhe aprisionam lhe oferecem segurança?

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Um pouco da história tricolor

O time do Hamburgo, vencido pelo Gremio em 1983 na Final do Campeonato Mundial (que colocava frente a frente os campeões da Libertadores e da Champions League), era a base da seleção alemã que jogou o mundial de 1982. Era um time cheio de craques, mesmo que nos últimos anos seja um time apagado na Alemanha. Uma característica das antigas Libertadores (as Libertadores “raiz”) era que, naquela época, apenas dois brasileiros podiam jogar este campeonato – campeão e vice do campeonato brasileiro (a Copa do Brasil só começou em 1989, e foi o Grêmio quem a venceu). O Grêmio entrou nesta Libertadores por ter sido vice campeão do campeonato vencido pelo Flamengo de Zico, Júnior, Adílio, Raul e Nunes em 1982. Compare com hoje: até 9 clubes brasileiros (como em 2022) podem participar de cada edição da competição. Naquela época era  muito mais difícil chegar a uma final mundial.

Lembremos também que o Grêmio foi campeão da Libertadores em 1983 jogando contra o campeão mundial de 1982, o Peñarol de Fernando Morena. Foi campeão depois em 1995 jogando na Colômbia contra o Nacional de Medellin, de Higuita, base da seleção que foi à Copa de 1994. Depois foi mais uma vez campeão na Argentina, em Buenos Aires contra o Lanús, time que desclassificou o poderoso River Plate no Monumental de Nuñes.

Ou seja: ganhamos de grandes times das três maiores praças futebolísticas sulamericanas: Uruguai, Argentina e Colômbia, duas delas fora de casa. A Libertadores que ganhamos em casa foi contra o campeão do Mundo, o Peñarol. Depois disso, disputamos 3 finais mundiais e só perdemos para o maior Real Madri deste século, de Ronaldo e Casemiro. Ganhamos do Hamburgo e empatamos com o Ajax.

Para comparar, o nosso coirmão jogou uma final caseira contra o São Paulo e outra contra um time mexicano, ambas no Beira Rio. Nem de longe se compara à epopeia das Libertadores do Grêmio, que teve até a “Batalha de La Plata”, quando houve derrubada de alambrado pela fúria da torcida Argentina e espancamento de jogador gremista no túnel quando se dirigia ao vestiário. Os colorados jogaram apenas uma final de campeonato mundial, e na outra disputa que participaram perderam ainda na semifinal para um time do interior do Congo, cuja cidade ninguém lembra qual é. Esse time congolês hoje está imortalizado, dando nome a um viaduto de Porto Alegre.

Sejamos justos…. basta comparar as histórias.

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Preconceito linguístico

Eu acredito que a gente precisa estar sempre atento quando oferece respostas na Internet. Certa vez vi alguém defendendo, de um bando de preconceituosos, uma dupla de homens gays casados que tinham adotado um filho dizendo: “Ahh, mas estes gays são ricos e andam de carro importado, enquanto você enfrenta um busão de madrugada”. Ou seja: para defender os gays de ataques homofóbicos usou o preconceito – igualmente pernicioso – contra os trabalhadores pobres que precisam de transporte público.

Por isso afirmo que o argumento usado por esse pai não foi adequado. Este jovem poderia dizer ao seu pai “Sou projetista de foguetes”, ou “Sou cirurgião”. Por acaso estas qualificações garantiriam a ele o direito de debochar da forma como uma pessoa simples fala? Este rapaz poderia ser uma pessoa importante, um político ou um empresário rico, mas isso não tornaria justo o escárnio com o qual tratou uma pessoa do povo. Ou seja; o pai trocou o preconceito linguístico pelo preconceito de classe.

Melhor seria explicar porque é natural se falar “pobrema” no Brasil por causa do “rotacismo” e a influência da língua Galega no surgimento do português, por volta do século XV.

“As pessoas letradas costumam, por puro e simples preconceito (ou seja, por falta de informação histórica, já que a ignorância é a principal fonte do preconceito), zombar de quem diz ingrês, praca e grobo, gostam de rir dessas palavras, mas não riem quando elas mesmas dizem cravo, fraco, grude, prazer. (…) Esse fenômeno se chama dissimilação. Também pode acontecer que um dos sons seja trocado por outro: o latim liliu- deu lírio em português, assim como o italiano colonello deu coronel. Não é fantástico estudar essas coisas? Eu pelo menos acho.” (Marcos Bagno)

Leiam mais aqui.

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Incertezas

Bitello foi vendido pelo valor de mercado; ninguém quis pagar mais por ele. Sim, desmancharam o ataque porque precisavam de uma venda para não afundar o clube. E vamos precisar de mais vendas. Gustavo Nunes é o próximo. Não gostaram? Então torçam para o Real Madri ou o Bayern de Munique que não tem problema de grana. João Pedro Galvão foi um excelente jogador, mas que não deu certo por aqui. Todavia, tudo no futebol é aposta. Borré até agora não fez gol e não jogou nada. Suárez deu certo; um fenômeno. Já Forlán (melhor jogador da Copa anterior) foi um desastre e um escândalo financeiro; para ele deu tudo errado. Até grandes jogadores naufragam.

Jogadores médios muitas vezes se sobressaem por causa do time. Paulo Nunes é um bom exemplo. Jardel era um “perna de pau” (ok, exagero da crônica) desengonçado, mas que deu certo – aqui e na Europa, um fantástico fazedor de gols. JP Galvão tinha nome, tinha mercado, era goleador e não deu certo, mas sabemos que não existem certezas no futebol. Quando foi contratado nós vibramos com a promessa de gols. Luan deu certo algum tempo, mas o alcoolismo destruiu sua carreira aos 26 anos. Como seria possível prever isso? Quem, em dezembro 2017, aceitaria sua venda? Hoje sabemos que seria o melhor a fazer. Errou o Corinthians ao comprar? Parece que sim, mas quando chegou ao clube foi tratado como o Salvador, o Messias.

Muitos acham que futebol se gerencia como um botequim, mas são milhões em jogo, além de pessoas, famílias, carreiras, a paixão da torcida etc. E no futebol sempre se aposta no alto risco. Quem acreditaria que Jean Pierre abandonaria o futebol aos 24 anos de idade? Quem acreditaria que Luis Suárez teria o comportamento aguerrido de um garoto recém saído dos juvenis? Quem apostaria que ele seria o maior fenômeno do futebol brasileiro em 2023? Quem acertaria que Douglas Costa seria uma brutal frustração?

Não há como adivinhar. Ou melhor: tem como acertar se você tem bilhões nos cofres e pode comprar o jogador cujo talento já foi comprovado sem destruir os cofres da instituição. Não é o caso do Gremio…

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Um poder que se protege

O Supremo Tribunal Federal vota por unanimidade contra a interpretação do artigo 142 da constituição que oferecia às forças armadas um poder “moderador”, podendo agir para estabilizar conflitos internos.

Bem, era de esperar que o STF não endossasse a tese das Forças Armadas como “poder moderador”. Afinal, qual o poder de Estado que votaria contra as suas prerrogativas e para diminuir seus próprios poderes? Porém, este é o mesmo poder que, há pouco tempo, votou pela prisão de Lula em segunda instância de forma contrária à constituição. Assim, se é possível comemorar a derrota dos golpistas, é preciso calma com o STF, pois que se trata de um poder historicamente interessado na manutenção do poder nas mãos da burguesia.

Assim como aconteceu na prisão criminosa de Lula, na primeira oportunidade o STF retorna à sua histórica posição conservadora, direitista e contrária aos interesses das forças progressistas e populares. Muita calma ao celebrar qualquer ação da suprema corte.

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Chuva

… e de repente as cores se modificaram. Um silêncio oco se apressou a sussurrar nos meu ouvidos que a tempestade dobrava a esquina e vinha bater à porta. De súbito o hálito frio da chuva trouxe às minhas narinas o cheiro do saibro molhado misturado com as folhas da laranjeira. Vou sentir saudades quando tamanha explosão de vida me for interditada. Guardarei o frescor destas gotas por sobre as rugas da pele como uma tatuagem colorida na memória dos sentidos.

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Empatia

Ficamos naturalmente horrorizados com o holocausto judeu na segunda guerra mundial ou com as circunstâncias terríveis para os habitantes da Ucrânia na atualidade. Para quem tem mais idade, os horrores causados pelos nazistas contra a população de judeus, ciganos, homossexuais etc. ainda estão em nossa memória, mostrando o poço profundo de maldade e miséria humana em que a humanidade é capaz de se envolver em busca de poder. Imagens desses desastres humanos, quando mostradas, ainda hoje causam imediata reação. É simples e natural sentir em nós mesmos o sofrimento a que foram (ou ainda são) submetidos aqueles que sofreram a perversidade de uma guerra. Entretanto, se houver uma consciência mais ampla das razões que nos fazem sofrer pela dor alheia, é forçoso considerar que tais dores são consideradas indignas e insuportáveis apenas porque as vítimas são brancas, falam nossas línguas e parecem muito conosco. É esse este espelho de nós mesmos que torna possível estabelecer uma conexão com elas. A semelhança permite que nos vejamos dentro de suas peles claras e europeias.

Por outro lado, para nós é fácil produzir uma capa de proteção contra o horror da opressão criando um isolamento emocional. Basta para isso que os martirizados sejam os congoleses – destruídos pelo Rei Leopoldo – quando são os milhões de chineses as vítimas – massacrados pelos japoneses – ou quando quem sofre são os vietnamitas, os coreanos, os afegãos e os sírios destruídos pelo Império americano, composto por brancos cristãos e tementes a Deus – como nós. Essa é a razão que nos faz chorar por uma falsa agressão contra mulheres israelenses mas não nos faz pegar em armas ao ver a brutalidade do holocausto palestino, a morte de milhares de mulheres e crianças, o bombardeio de hospitais, a morte de médicos, enfermeiras e jornalistas e a fome e a sede produzidas pelo sionismo.

Nossa empatia é por semelhança; temos afeto por golfinhos – que parecem sentir e agir como humanos – mas não por atuns, que vivem no mar e são tão grandes e bonitos quanto os golfinhos. Nossa simpatia é seletiva, e parece ser despertada apenas com gente parecida com a gente e por esta razão, para que a paixão de Cristo fosse dolorida em nossa própria carne, era preciso construir um Jesus loiro, caucasiano e de olhos azuis. Pouca importância seria dada a um preto revolucionário, anti-imperialista, revisionista judeu, se sua pele fosse morena e seu cabelo preto e enrolado. Foi preciso ocidentalizar o Cristo, torná-lo palatável para, só assim, ser consumido pelos consumidores europeus. . Isso pode ser visto de forma muito simples nas coberturas de guerra, tanto nos conflitos da Ucrânia, ode os jornalistas deixavam claro que as mortes aconteciam com “gente loira e de olhos azuis” e que por isso deveriam ser repudiadas, ao mesmo tempo em que mortes de israelenses ganham muito mais atenção – e impacto – do que as milhares de mortes que ocorrem há mais de sete décadas na Palestina, e que agora atingem sua face genocida mais explícita.

Enquanto nossa empatia for pela cor da pele – qualquer uma – e não pelo que existe de humano que habita em cada um de nós, não poderemos receber o nome de “humanidade”

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Cavadinha

O Internacional, clube de Porto Alegre, perdeu para o Juventude de Caxias a vaga para a final do campeonato gaúcho 2024 nas penalidades, após os empates em 180 minutos de disputa. O último pênalti do Inter foi cobrado por um garoto revelação, 23 anos, de “cavadinha”, o que deixou crônica desportiva e torcida furiosas. Na sequência o jogador Kelvi marcou e o Juventude fez a festa no Estádio Beira Rio.

É minha convicção que esse guri, o Robert Renan (nome característico de boleiro), por ser de fora e muito jovem, talvez não tenha percebido o que estava em jogo naquela disputa por penalidades máximas. Não era apenas uma semifinal de campeonato regional; era a esperança de tirar o Internacional de uma fila de longos 7 anos sem vitórias. Esse gauchão, para o Inter, valia o mesmo que o de 1977 para o Grêmio: um mundial de clubes. É possivel que, por não ser da aldeia, não entendeu a gravidade da situação. É isso que reclamam dele: a displicência e o descaso com o drama colorado.

Compare com o Luiz Suárez dando uma “cavadinha” na última partida pelo campeonato brasileiro do ano passado, contra o Fluminense no Maracanã. O Grêmio já ganhava o jogo – que não valia absolutamente nada – e a partida marcava a despedida de Suárez do Brasil e do Grêmio; também para o Fluminense a partida não passava de um apronto para o mundial. Para o avante gremista errar não significaria nada: o Grêmio ainda continuaria ganhando por 2 x 1 e ele se despediria após o jogo. Foi uma cobrança festiva, de despedida do Grêmio, do Brasil e do futebol competitivo de verdade. Foi sua derradeira partida como jogador de futebol (ele agora pratica “soccer”), e a cobrança do “penau” foi o espetáculo que se viu.

Já o pênalti contra o Juventude era vida ou morte para o Internacional. É essa a indignação do grupo de jogadores – há relatos de que, por pouco, não houve vias de fato no vestiário após a partida – e ainda mais indignante foi esta atitude para a torcida machucada e magoada do seu clube. Ele não conseguiu a empatia essencial para incorporar a angústia colorada pela busca de um título a tanto tempo sonhado. Faltou a ele a maturidade para entender o momento grave pelo qual o clube passa.

A culpa é do técnico que sequer sabia que ele já havia cobrado penalidades assim“, dizem alguns. Difícil dizer. O rapaz foi mesmo irresponsável. Mas uma coisa pode ser dita: o Inter ter um time com bons valores, jogadores caros e de renome, mas carece de jogadores da base. O Inter nos últimos anos deixou de ser “celeiro de ases”; todo mundo é estrangeiro. Isso dificulta o aparecimento de algo que eu valorizo muito: o boleiro que joga pela camisa, quem tem historia no clube e desrnvolve por ele gratidão e afeto. Não peço que sejam “amadores”, que joguem por amor ao time; isso acabou há 100 anos. Porém, creio que uma vinculação mais forte com o clube impediria uma atitude irrefletida como esta do Robert Renan, que atira o clube em mais um buraco difícil de sair.

Sim, mas ele é um garoto. Se eu fosse enumerar as tolices que fiz aos 23 anos seria um texto longo e enfadonho. Ele vai se recuperar e vai voltar a jogar em alto nível. Espero que essa queda o faça crescer como pessoa, cidadão e atleta, e que em sua vida colecione inúmeras vitórias.

Mas nenhuma contra o meu Grêmio.

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A Febre do Futebol

Eu lembro que na minha época de garoto, na virada dos anos 60-70, os salários dos jogadores da dupla Grenal eram semelhantes aos proventos de um médico ou advogado bem sucedidos; eram salários de classe média. Naquela época o dinheiro que circulava no futebol era pouco, mas a economia do país também era muito menor, uma fração do que é agora. Não havia ainda transferências de jogadores para a Europa, algo que só começou pra valer nos anos 80, com as vendas de Falcão para a Roma, Maradona para o Napoli e Zico para a Udinese – três grandes craques vendidos para times de segunda linha do futebol europeu. Lembrem que a grande seleção brasileira de 1970 tinha 100% de jogadores jogando no Brasil, inclusive o gremista Everaldo.

“Naquela época o futebol era muito mais humano”, como dizia meu irmão e saudosista profissional Roger Jones. Quando estava no colégio, todos os dias eu passava na frente do edifício onde moravam dois jogadores titulares do grande time do Internacional dos anos 70 ‐ Carpegiani e Tovar – que ficava na esquina da Av. Getúlio Vargas com a Rua Botafogo. Era (ainda é) um edifício simples, parecido com o que minha família morava algumas quadras adiante, no mesmo bairro Menino Deus que encantou Caetano Veloso. Na rua dormia o carro do Carpegiani, que era um “opalão” verde. Sim, nos anos 70 os carros dormiam na rua porque os edifícios mais antigos não tinham garagens. A gente conhecia o carro, passava por ele todas as manhãs no caminho para o Infante Dom Henrique, mas jamais pensamos em vandalizar, apesar de sermos gremistas. Esse ódio de torcidas ainda não tinha nascido, e o mais radical que existia era a flauta, o deboche e a galhofa, mas não a violência.

Outro fato curioso aconteceu quando eu já estava na faculdade. Ainda morando no Menino Deus, eu tinha uma namorada no Partenon. Aliás, a mais linda namorada que eu já tive, além de ser a única. Eu costumava pegar um ônibus, o T2, para ir na sua casa e, em uma dessas viagens, sentaram-se no último banco do T2 e logo atras de mim, dois jovens negros. Começaram a conversar e pelo conteúdo da fala percebi que eram jogadores do Internacional. Passados mais alguns minutos me dei conta que um deles era o zagueiro central titular do Inter que estava falando do interesse do Bahia em comprar seu “passe”. Hoje em dia, quando existem páginas dedicadas a descrever os carros impressionantes dos jogadores, é inacreditável pensar que há 40 anos um jogador titular de um grande clube pudesse andar de “busão”.

O futebol está passando por uma crise existencial muito grave, mas ela não se desenvolve em um vácuo conceitual. Ela é fruto da crise do capitalismo, que se manifesta em todas as dobras do tecido social. Os valores astronômicos pagos a jogadores – em boa parte atletas medíocres – e a eliminação do povo das arquibancadas das modernas arenas são uma demonstração clara da necessidade de alienar o gozo da vida a seus representantes, os heróis, gladiadores modernos, que usufruem – por nós – do gozo que nos é sonegado. Para isso pagamos valores obscenos, imorais e indecentes. Os jogadores não tem culpa disso, são apenas os vetores dessa nossa angústia, nossa insatisfação, nossa dor. “Se minha vida é um lixo, pelo menos meu time é campeão”, diz o torcedor padrão. Se não vejo sentido ou esperança na luta de classes, ao menos pagarei minha mensalidade para que minha equipe seja a grande vencedora.

Eu não acredito que a bolha do futebol vá estourar antes de uma grande crise global do capitalismo. Alguns países, como a Argentina, já saltaram na frente. Seus grandes craques já saem de lá muito cedo, empurrados pela crise econômica grave causada por esse mesmo capitalismo concentrador decadente. Não há dúvida que, mais cedo ou mais tarde, o mesmo vai ocorrer no Brasil e no mundo. O futebol também terá um choque de realidade da mesma forma como a “Febre das Tulipas” terminou na Holanda, e teremos valores circulando no futebol mais próximos da realidade do povo que o sustenta. Quem sabe no futuro os jogadores vão voltar a morar perto da sua casa e terão carros comuns na garagem.

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