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Virgindade

A Revista POP, com Rita Lee e Marcucci (criador da banda Rádio Taxi) na capa, mostra um aspecto interessante da minha juventude: em 1978 ainda havia espaço para debater “virgindade”. Ora, não se debate mais virgindade porque não é mais necessário; sobre esse tema não há mais um tabu como outrora. Na minha juventude era possível até cancelar um casamento pela noiva não ser virgem. Havia constrangimento sobre a vida sexual das meninas naquela época, e só por isso era preciso escrever artigos e matérias em revistas populares. Hoje o fenômeno é outro: uma onda neoconservadora liderada por denominações cristãs e voltaram muitas regras da minha época estimuladas pelo pentecostalismo, que é uma doença social da nossa era.

Eu vivi essa época. Virgindade era um assunto debatido inclusive em programas de TV, e até chamavam pessoas da Igreja como debatedores. Já na época eu me perguntava, olhando o jovem clérigo discursar sobre a importância de chegar “pura” ao altar: que se pode esperar do “padre eterno que nunca foi lá” falando sobre esse assunto? Que sabem eles daquilo que dá dentro da gente que não devia, que é feito estar doente de uma folia?

Havia uma perspectiva muito prevalente no discurso da classe média: a vantagem de “esperar” para ter relações só no dia do casamento, entrar na igreja de branco, ser pura, imaculada, etc. mas é claro que essas determinações eram direcionadas apenas às mulheres. Aos homens a iniciação sexual era incentivada, assim que houvesse possibilidade; isso diminuiria o risco de ser “bicha”. Muitos homens dessa época relatam os traumas desse tipo de violência. Na escola uma colega desapareceu das aulas e suas amigas me disseram que estava grávida. Depois do nascimento do bebê ela visitou as antigas colegas na escola e levou as fotos do casamento. Perguntei porque o vestido era rosa e todas me olharam como se tivesse dito uma enorme bobagem. “Ela não casou virgem, seu burro!!”, disseram elas sussurrando e fazendo gestos para eu fechar minha boca. Sim, até esse tipo de constrangimento era comum para as meninas.

Esse tipo de constrição sobre o exercício da sexualidade das mulheres gerava no imaginário masculino uma divisão de classes: havia aquelas “para casar”, as intocáveis, e aquelas para transar – as outras. Tive amigos da época que tinham uma noiva virgem e uma outra namorada com quem transavam. Quando questionei a um deles se achava certo, respondeu que achava justo, pois “precisava aprender com alguém” para ser “bom de cama” no casamento. Tive amigas, que agora estão com 70 anos, que casaram virgens. Uma delas me contou que havia muito controle, muita pressão, e mesmo os namorados tinham medo de exigir uma “prova de amor”. Sim, pois se ela cedesse aos seus avanços, quem garantiria que não cedeu antes para outro? Como saber se não seria infiel depois? Das mulheres era cobrada uma fidelidade à virtude.

Ainda havia muita gente que defendia essa ideia e exaltava a “honra feminina”, mas os anos que se seguiram foram lentamente sepultando essa questão nas culturas ocidentais. O debate foi aos poucos desaparecendo e talvez o que ainda resta é o tabu da monogamia – que  igualmente vai se tornando cada vez mais frágil. Apesar disso, até agora não descobri um modelo que seja mais seguro (não necessariamente melhor) do que o casamento, pelo menos no que diz respeito aos filhos. O futuro dirá se esse mito vai resistir.

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Mãe

Se existe amor, diria Sigmund Freud, este é o amor de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados. Assim, se o amor é um idioma que transita entre nós, é porque ele nos foi ensinado desde muito cedo, quando adentramos, através dela, nesse mundo. A fissura bizarra da ordem cósmica produziu o vazio incurável do desejo, e no centro dessa revolução no destino planetário estava você, mãe.

Parabéns pelo seu dia.

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Inovações

Eu lembro muito bem da chegada do telefone à minha casa no início dos anos 70. Antes disso qualquer comunicação precisaria ser pessoal. Um episódio curioso ocorreu em 1962, quando da morte do meu avô. Nós morávamos em uma cidade chamada São Leopoldo, que está para Porto Alegre assim como o ABC está para São Paulo. No dia da morte meu tio teve que pegar um bonde até o centro de Porto Alegre, ir até a rodoviária e de lá pegar um ônibus intermunicipal até São Léo. Chegando à rodoviária pegou um taxi até nossa casa, na rua São Paulo, quando então deu a triste notícia à minha mãe. O processo inteiro levou toda a manhã, algo que hoje em dia fazemos instantaneamente.

Meu primeiro celular também foi marcante, porque a ideia de andar e falar ao mesmo tempo era inacreditável. Recebi o telefone na antiga CRT e pediram que aguardasse uma hora até que o sinal fosse estabelecido. Fui até um orelhão (quem lembra?) e solicitei a Zeza que ficasse tentando me ligar, até conseguir. Depois de mais de uma hora o telefone tocou quando eu estava caminhando na frente da prefeitura. Foi uma emoção incrível.

Assisti TV colorida no inicio dos anos 70, e lembro da festa da uva, em Caxias, quando foi transmitido o primeiro jogo à cores no Brasil. No dia da festa as pessoas se aglomeravam na frente das lojas para assistir as cores dos uniformes de Grêmio e Caxias. Claro que a transmissão era um horror se comparada às transmissões 4K por fibra ótica, ainda cheia de “fantasmas”, mas quem se importaria com isso diante do eflúvio de cores e tonalidades inéditas na TV?

Talvez os telefones celulares e as TVs a cores sejam menos marcantes do que a sensação fantástica que desfrutamos há pouco tempo, mas que já foi incorporada ao nosso cotidiano. É curioso pensar que há pouco mais de 90 anos quase ninguém podia tomar um banho quente em sua casa. Antes da invenção do chuveiro elétrico (por um brasileiro, aliás) todos os banhos eram gelados ou frios, inobstante a temperatura na sua casa. Hoje em dia ninguém consegue mais imaginar como deve ter sido a emoção de tomar um banho quente pela primeira vez. Nossos corpos facilmente se acostumam com estas inovações e as incorporam como “naturais”, como se fossem privilégios que sempre estiveram ao nosso alcance.

Entretanto, se alguém me contasse há 30 anos que no início do século XXI eu poderia escrever um texto como esse em um visor com teclas e que dezenas de pessoas ao redor do planeta o veriam instantaneamente, eu diria…

“Conta outra, vai…”

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Holofotes

Algumas personalidades da mídia que estão envolvidas com a crise climática atual vêm a público dizer que, no trabalho de ajuda às vítimas da enchente no Rio Grande do Sul, o Estado “só atrapalha” e o que está funcionando é o trabalho valoroso dos voluntários, em especial o pessoal de jet-ski. Fazem isso para valorizar seu próprio esforço, mas por certo que usam esse discurso para igualmente atacar o governo Lula. Bem o sabemos o quanto de base é invisível à vista desarmada, e por isso é preciso trazê-lo à luz. O cidadão comum percebe com facilidade a mão que entrega o sapato, a camisa, o cobertor, a água limpa e a comida, e para ele vão todos os agradecimentos e as homenagens, Entretanto, não consegue enxergar, sem um pouco de atenção e boa vontade, a longa linha de atores que garantiu a realização desse ato de solidariedade: o doador, o motorista, o veículo de transporte, o local onde colocamos os flagelados, a organização, a turma da limpeza, a logística, o apoio dos governos, etc. Na sociedade do espetáculo vale menos um cheque de 50 bilhões do que um garotão de jet-ski.

Ao lado de toda esta mobilização para ajudar as famílias atingidas pela tragédia, a competição dos influencers sobre quem está “ajudando mais” é um dos efeitos colaterais mais asquerosos da tragédia. O auxílio de personalidades não é ruim, mas quando é feita apenas para gerar publicidade – ou para atacar o governo – se torna um caso de polícia. Essa função é primeiramente do Estado, e o governo Lula está agindo de maneira exemplar para tratar as questões mais emergenciais, e já está absolutamente claro que muito da propaganda sobre a iniciativa pessoal de jogadores de futebol, artistas diversos, personalidades, ex-BBBs, surfistas e tem como objetivo principal criar a fantasia de que o governo nada faz. A torrente incessante de fake news, tratando a iniciativa federal como incompetente ou maléfica, prova que para a extrema direita fascista o sofrimento do povo pode ser usado como ferramenta política para atacar o atual governo.

É preciso enxergar para além do meramente manifesto para ser justo em cada avaliação. Para toda estrela de cinema exaltada e aplaudida existem centenas de pessoas nos bastidores e escritórios que financiam e dão suporte ao seu trabalho; para cada cirurgião salvador existe uma enorme equipe de trabalhadores da saúde na retaguarda, sem os quais o trabalho de cura seria impossível. O mesmo ocorre em toda ação de assistência. Cuidado com aqueles que, estando na ponta da linha de acão e sob as luzes dos holofotes, reclamam para si a exclusividade dos elogios e aplausos.

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Fracassos

Em 1955 o ator britânico Charles Laughton decidiu investir na carreira de diretor de cinema após uma frutuosa carreira como ator. O filme escolhido foi “The Night of the Hunter” (O Mensageiro do Diabo, no Brasil), um filme sombrio sobre um pastor de uma igreja (Robert Michum) que nas horas vagas era um cruel assassino em série. O filme foi baseado na história real de um sujeito chamado Harry Powers que se aproximava de viúvas e as matava para ficar com seu dinheiro.

O filme, com suas explícitas referências ao expressionismo alemão, foi um estupendo fracasso de público e crítica. A década de 50 foi uma época de ferrenho macarthismo e controle restrito sobre “obscenidades”; o filme foi desaconselhado por um parecer da “Legião da Decência” (National Legion of Decency) pela forma como retratava o casamento. Tanto nas bilheterias quanto na crítica americana conservadora o filme desabou, deixando um rombo imenso nos cofres da United Artists. Em razão desse retumbante insucesso Charles Laughton desistiu da ideia de dirigir e morreu de câncer 7 anos mais tarde, com apenas 63 anos de idade.

Creio ser essa história relevante apenas porque, décadas depois do seu lançamento em 1955, este filme se tornou cult, tratado como um clássico do cinema, reverenciado e citado por diretores do porte de Spielberg, Scorsese, Spike Lee, os irmãos Cohen e Guillermo del Toro. Em 2017 o “Cahiers du Cinema” o considerou o segundo maior filme da história. Existem referências a esta película até em “O Grande Lebowski“. O que é interessante neste “case de fracasso” é que ele mostra que muitas vezes um trabalho não reconhecido e desprezado quando do seu lançamento não carece necessariamente de qualidade, apenas está adiante do seu tempo. Em verdade, como já diria Nietzsche, este é o grande teste: qualquer coisa que obtenha sucesso imediato poderá ter grandeza, mas dificilmente será transcendente. Para ser algo perene, como a obra de Van Gogh, é necessário que o impacto inicial da obra venha a machucar os sentidos, fazendo doer os olhos e torturar os tímpanos, pois estas são as dores de parto de uma nova perspectiva estética, moral, ética, filosófica ou científica.

Einstein dizia que, ao ser confrontado com uma nova ideia e ela não lhe parecer de imediato absurda, é melhor esquecê-la, pois ela carece do impacto necessário para os grandes saltos da humanidade. Assim também com as novidades corriqueiras que nos atingem todos os dias; mesmo quando parecem tolas, inconsequentes ou equivocadas, talvez estejam apenas anunciando o porvir, aguardando pacientemente que estejamos preparados para elas.

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Impeachment?

Vou deixar bem clara a minha posição: não existe ninguém que lamente mais a eleição do governador Eduardo Leite para o governo do Estado e Sebastião Melo para a prefeitura de Porto Alegre do que eu. Ambos são representantes do que existe de mais atrasado em termos políticos: o neoliberalismo privatizante, o descaso com as populações mais carentes e periféricas, o desprezo com o meio ambiente e uma pauta cosmética, sem profundidade e sem atingir os pontos nevrálgicos da nossa sociedade. O preço a pagar pela eleição desses liberais privatistas estamos vendo agora: uma inundação que poderia ter seus efeito profundamente minorados não fosse o despreparo para as tragédias anunciadas, em especial no que diz respeito à capitalização de instrumentos do poder público para evitar e minorar os efeitos do desastre ou encurtar o sofrimento daqueles atingidos.

Por estas razões, surge aqui no Rio Grande do Sul a ideia de uma GLO. Sim, exatamente: existe um “zum-zum” no ar de que seria possível solicitar uma garantia da lei e da ordem e, através desse artifício constitucional, retirar os governador do seu posto. A partir daí seria designado algum representante do governo federal para assumir esta posição. Como as responsabilidades do atual governador na crise parecem ser bem severas e documentadas, esta GLO serviria para tornar mais diligentes as ações para a restauração da normalidade.

Quero deixar claro que me oponho veementemente a esta proposta, mesmo afirmando que sou oposição a este governo e que reconheço as responsabilidades dos mandatários atuais na crise grave das inundações. Entretanto, a frágil democracia brasileira precisa interromper este ciclo de impedimentos extra eleitorais de seus representantes. Não é aceitável que todo o presidente seja confrontado – desde o primeiro dia de mandato!! – com a ameaça de impeachment, em especial quando vemos que a imensa maioria destes movimentos são oportunistas, sem base legal, de caráter golpista e com o objetivo de ascender ao poder sem a necessidade de eleições. O mesmo devo dizer para governadores e prefeitos. Maus governantes merecem ser defenestrados nas urnas e apenas crimes de responsabilidade bem documentados poderiam retirá-los dos seus cargos. O impeachment de Dilma deveria ter nos ensinado que um congresso venal e corrupto como o que temos há várias legislaturas vai agir contra as leis e contra a constituição se assim for do seu interesse.

Ou seja: uma ação dessas no Rio Grande do Sul – mesmo que fosse necessária, algo que não estou convencido – abriria as portas para novos atentados golpistas. A vítima óbvia da próxima intentona golpista será a esquerda!! O presidente Lula será alvo de um ataque ainda maior por parte da direita rancorosa e, como bem o sabemos, não é difícil encontrar desculpas para um golpe, como ficou comprovado na fantasia das “pedaladas fiscais” do governo Dilma. Por isso, acredito que precisamos suportar esse governo neoliberal e derrotá-lo nas urnas; acreditar no congresso ou – pior ainda – na justiça burguesa é um erro que a esquerda não pode mais aceitar.

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Madonna

Esse comentário nada tem a ver com música, coreografia, showbiz, festas ou qualidades musicais, muito menos sobre a adesão de Madonna à Cabala. Este texto não trata de budismo, judaísmo, cristianismo ou qualquer religião ou culto. O texto, entretanto, trata do sionismo, que é uma vertente racista do fascismo, uma expressão de excepcionalismo e supremacismo nacionalista. Madonna, aliás, jamais se converteu ao judaísmo, mas é uma admiradora da Cabala, corrente mística da religião judaica, e adotou o nome hebraico Ester; em Israel, a cantora é chamada de “Rainha Ester”. Ela poderia até ser espírita, e nada haveria a mudar neste conteúdo, porque nossa preocupação deve ser com a vinculação dessas figuras públicas com o colonialismo e o imperialismo. Minha intenção é deixar claro que não é admissível colocar a Madonna como ícone progressista apenas porque ela sofre ataque dos bolsonaristas homofóbicos; esse erro identitário não pode mais ser tolerado.

Nos tempos atuais é muito comum personalidades da música defendendo a pauta dos excluídos e a favor de minorias (gays, negros, indígenas, trans, mulheres, etc.) ao mesmo tempo em que apoiam o imperialismo e regimes fascistas como Israel. Não acredito que Madonna seja pessoalmente uma fascista (nem Barbra Streisand, Gal Gadot, Natalie Portman, The Rock, Seinfeld, etc) mas ela falhou no teste fundamental para ser considerada de esquerda: o apoio ao horror racista e supremacista de Israel. Por outro lado é preciso denunciar este tipo de cooptação, porque parece que a esquerda não compreendeu ainda a armadilha.

Primeiramente, vou deixar bem claro que sou a favor de distanciar o artista de sua arte, e por isso me permito curtir Monteiro Lobato, Michael Jackson, Pablo Neruda e Nana Caymi, todos devidamente cancelados pela tendência atual de buscar, no passado de figuras proeminentes da cultura, falhas morais ou agressões às identidades que ora defendemos. De minha parte, não acho que os erros – mesmo graves – de intelectuais e artistas podem necessariamente destruir sua obra. Portanto, não há absurdo algum em curtir Like a Virgin, dançar com sua música e se reunir em Copacabana para celebrar sua arte. Todavia, isso é bem diferente de tratar Madonna como um ícone para uma nova sociedade. Madonna nunca foi de esquerda, e nem seria justo cobrar isso dela. Afinal, ela deixou claro que é A material girl living in a material world. Seria tolo cobrar dela algo mais elaborado no que diz respeito aos direitos humanos. Ela é uma artista talentosa e de sucesso, que ganha milhões com sua arte; nenhum erro nisso.

Alguns poucos estão falando do equívoco brutal que é colocar Madonna ao lado da esquerda. Breno Altman deixou claro que Madonna é uma sionista que defende não apenas Israel e o sionismo, mas até mesmo o indefensável primeiro ministro Netanyahu – absurdo que também se manifestou entre os senadores americanos que escreveram uma nota em sua defesa. Ela tem plena adesão ao discurso racista que dá suporte enfático ao colonialismo branco e europeu de Israel e mostra desprezo pelo povo palestino. Que haja gente de esquerda comemorando essa personalidade, apenas pela sua vinculação aos grupos identitários, diz muito da infiltração fascista dentro da própria esquerda. Colocar Madonna dentro da nossa trincheira para atacar os homofóbicos e pervertidos bolsonaristas tem um nome bem conhecido, usado em homenagem à uma história muito antiga de uma guerra entre gregos e troianos.

Madonna é uma representante dos valores imperialistas do partido democrata e uma sionista da linha de frente; é uma representante do sectarismo identitário criador de divisionismo na classe trabalhadora e dissemina o “pinkwashing” tão conhecido de nós, o mesmo que tenta apresentar Israel como um paraíso para os gays. Tudo mentira, como sabemos; Israel tem uma violenta polícia de costumes e possui na sua população uma homofobia raiz tão intensa quanto o racismo e a xenofobia entranhados em sua cultura.

Portanto, muita calma nessa hora. Madonna, pelos seus valores, posturas e ideias, está muito mais próxima do bolsonarismo do que de qualquer grupo de esquerda. O apoio ao colonialismo racista e ao apartheid de Israel é a régua moral dos nossos tempos. Não há como ser um sionista apoiando o massacre de crianças em Gaza e ao mesmo tempo colocar-se ao lado da esquerda. Podemos aceitar que Madonna é reaça, uma agente do imperialismo disseminando suporte ao colonialismo, mas você não precisa ter vergonha de dançar sua música.

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Acasos

Na verdade, a lei que explica a fama da Mona Lisa pode ser aplicada a vários outros fenômenos humanos, dos quais nos afastamos ou aproximamos muitos menos em função de sua essência e muito mais pelas circunstâncias, a mais das vezes, aleatórias. Não tivesse sido roubada na aurora do século XX, e numa época de extremado fervor nacionalista, talvez ela fosse menos conhecida do que algumas pinturas de Vermeer ou Botticelli. Foi o acaso que a tornou a pintura mais conhecida do planeta – não suas qualidades artísticas.

Por isso a mantenho minha tese sobre o cristianismo, uma religião criada nos confins mais insignificantes do Império Romano, cuja disseminação no mundo ocorreu muito mais pelas circunstâncias geopolíticas de sua implantação no Império Romano do Oriente do que por sua essência e seus ensinamentos – e o mesmo se aplica ao Cristo, um personagem mítico surgido dessa confluência de fatores. Poderia também citar Tiradentes como exemplo de herói esquecido e que foi ressuscitado pelos interesses geopolíticos do fim do segundo Império. Sua figura heroica e crística serviu aos interesses da burguesia e dos militares, ávidos para criar um símbolo dos ideais republicanos. Desta forma, não fosse pela proclamação da República e ele se manteria totalmente esquecido. Por mais que isso nos cause angústia, o sucesso e o fracasso de personalidades e ideias estão conectados a elementos absolutamente aleatórios e fora do nosso controle.

Não fosse por um meteoro a exterminar os grandes répteis há 60 milhões de anos os mamíferos ainda seriam desprezíveis e rastejante roedores, e nada do que conhecemos por humanidade teria chance de existir. Não fosse por Galatto e Mano seria professor de educação física na rede estadual (essa só para os gremistas).

Veja mais sobre esse tema interessante aqui.

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Abobados

A atual enchente de Porto Alegre é a maior da história já registrada, superando a enchente de 1941, que ficou tão famosa e ainda presente no nosso imaginário. Curiosamente as enchentes, distantes entre si por 83 anos, começaram nas mesmas datas, nas chuvas de final de abril. Estamos ainda tentando salvar vidas e abrigar famílias que perderam tudo. Amigos queridos tiveram suas casas invadidas pelas águas e nada puderam fazer. Sequer foi possível trazê-los para a Comuna, pois as vias estão interditadas.

Toda a solidariedade para que muito ou tudo perdeu. Toda a ajuda para quem está sem casa, sem suas roupas, sem comida. Para alguns só podemos dizer “que se vão os anéis e fiquem os dedos”, mas para outros nem isso. Esperamos que as águas venham a baixar para ser possível contabilizar o estrago e iniciar a reconstrução da cidade. Espero que esta seja a principal lição a aprender: a tese do Estado Mínimo defendida pelos reacionários da direita deste Estado provou-se uma tragédia. A defesa Civil descapitalizada, a falta de manutenção das bombas, a dificuldade de bombeiros e agentes da defesa Civil são consequências diretas de uma visão política que descapitaliza, enfraquece e empobrece o poder público.

Várias personalidades se ofereceram para ajudar. Jogadores de futebol até abrigaram atingidos pelas chuvas em suas mansões, mas isso – apesar de louvável – mostra a falha do Estado em oferecer estes serviços. Não cabe aos cidadãos comuns a realização destas tarefas; elas são responsabilidade do Estado, organizando e promovendo as ações para salvaguardar a vida de todos. Aqui, entretanto, é proibido apontar as falhas gritantes de financiamento da Defesa Civil e a falta de previsão para a catástrofe que há muito estava anunciada porque isso serviria para “politizar a tragédia”. Imaginem se o Lula e o PT estivessem à frente da prefeitura e do governo do Estado o quanto estariam batendo, mas como os mandatários são apoiadores do Bolsonaro estão sendo protegidos

Diz a lenda que em 1941 muitas mulheres grávidas ficaram ilhadas e sem condição de receber assistência no parto. Com isso teriam dado à luz crianças com problemas mentais, dando origem à uma expressão típica da nossa cidade: o “abobado da enchente“, usada quando queremos, jocosamente, criticar alguém que fez uma tolice. É evidente que o termo era usado para desqualificar as mulheres que tinham seus filhos sem o auxílio de médicos, assim como tratar a ação dos obstetras como “salvadora”. Bem sabemos o quanto isso está longe da verdade. Há uma outra versão que relaciona o termo ao surto de leptospirose, uma relação direta das enchentes e o contato com a espiroqueta dos dejetos de ratos, mas ainda acredito mais na primeira versão.

Porém, sobra uma verdade invertida nessa história. Na realidade, as enchentes não são capazes de produzir “abobados” como expresso no dito popular. Pelo contrário: por tudo que pudemos ver até agora, “são os abobados que produzem as enchentes”, conduzidos por uma ideologia fracassada que destrói a estrutura de serviços públicos em nome do fortalecimento da classe burguesa, cujo único objetivo é o lucro.

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Coco

Eu acredito que Coco (ou “A Vida é uma Festa”) é, disparado, o melhor filme da Disney/Pixar. Eu já assisti umas dez vezes com os meus netos. A história é toda lógica, bem construída, coerente e trata com leveza da questão da morte e da memória. Enfatiza a importância do perdão e o significado da família. Um filme maravilhoso.

Existem muitas formas de analisar este filme, e a mais natural é apreciar a linda homenagem feita ao México e a cultura deste país. Entretanto, eu gosto de analisar outro aspecto relevante: sua teleologia espiritual. O filme descreve basicamente dois planos: o plano físico onde Miguel vive com sua família e o plano dos mortos ou espiritual, onde vivem seus antepassados mais próximos e recentes. Porém, os antepassados mais antigos, aqueles dos quais ninguém mais se lembra (como o tataravô do seu bisavô), acabam “morrendo” no plano dos mortos e indo para um lugar “desconhecido”, aparentemente sem volta. O filme deixa essa dimensão última como uma pergunta sem resposta. Há um personagem que, muito enfraquecido e desenergizado, acaba falecendo no plano dos mortos e tornando-se apenas uma luminescência (como se um corpo etéreo fosse dissolvido e sobrasse apenas o princípio espiritual). Para a mitologia do filme, isso ocorreria quando ninguém mais no plano físico se recorda deles e a eles presta homenagem no “día de los muertos”. Para alguns essa “morte” poderia ser entendida, se assim o quisermos, como a volta ao plano físico, no processo de reencarnação, segundo as concepções espiritualistas. Seria uma perspectiva bem razoável.

Já o plano dos mortos – onde estão os parentes de Miguel – seria como um “purgatório” católico ou o “umbral” dos espíritas. Ou seja, um plano imediatamente adjacente a este mundo, próximo em seus valores e conexões. O filme descreve também a possibilidade de algumas pessoas entrarem em contato com os mortos, como fez Miguel ao tocar o violão de Ernesto de la Cruz (o famoso músico do enredo) no dia dos mortos. Isso ocorre em condições especiais – como o “channeling” ou a mediunidade, que permitiria o contato entre os planos.

Outro ponto importante do filme é o personagem Dante, o cãozinho que acompanha Miguel no mundo dos mortos. O filme mostra que estes cães trafegam com naturalidade entre os planos, como se fosse um só, mostrando como os animais domésticos têm uma sensibilidade apurada às energias sutis do plano extrafísico, como é comum escutarmos no universo de crenças populares. Dante é um cão da raça Xoloitzcuintli, mais conhecido como Xolo. Seu nome só pode ser em homenagem à Dante Alighieri, poeta, escritor e político florentino que viveu entre os séculos XIII e XIV e escreveu a Divina Comédia, livro onde descreve sua aventura após atravessar o Aqueronte e adentrar o mundo dos mortos. O filme é muito respeitoso com a cultura mexicana, passando por “Lucha Libre” (sou apaixonado), Frida Kahlo, os Mariachis, Diego Rivera, seus grandes músicos, artistas, cidades, arquitetura e até a turma do Chaves em alguns cameos que aparecem rapidamente.

Como todo grande país, as metrópoles mexicanas acabam se amalgamando à estética das grandes cidades mundiais. Eu achei o “DF” parecido em gigantismo com São Paulo, apesar das óbvias diferenças. Porém, é nas cidades menores, conversando na rua – no meu caso com parteiras tradicionais – que podemos perceber a riqueza cultural deste país, suas idiossincrasias, seus dramas, assim como os problemas estruturais daquela sociedade, que são em vários aspectos semelhantes aos problemas que enfrentamos no Brasil. Minha amiga Robbie, que fez o trajeto Austin – Laredo – Nuevo Laredo, atravessando de carro a fronteira entre Estados Unidos e México dezenas de vezes (inclusive comigo), sempre dizia que entrar no México pela fronteira texana é uma gigantesca experiência cultural. Dizia ela (que é gringa raiz): “De um lado tudo é limpo, organizado e visceralmente feio; você cruza a fronteira e tudo passa a ser desorganizado, sujo e lindo”. Nesse aspecto, o México é mesmo um país irmão do Brasil – tán lejos de Dios y tán cerca de los gringos – mas eles ainda carregam a cruz dessa fronteira física. Nós, pelo menos, estamos geograficamente mais distantes.

Há poucos dias eu falava para os meus netos mais velhos (de 11 e 8 anos) da nossa viagem ao México em 2019, quando eles ainda eram bem pequenos. Queria que eles nunca esquecessem essa experiência para poderem voltar um dia e reviver aquelas experiências. Oliver, o mais velho, lembra bem de Chichén itzá, de Koba, de San Miguel de Allende, de Tepoztlán (e do Tepozteco) e da Cidade do México. O menor lembra apenas dos cenotes e Isla Mujeres. Mas eu sei que o México, mesmo que ainda não o percebam, tocou suas almas. Acho que, apesar dos aspectos instigantes da teleologia espiritualista do filme, essa é a principal razão por eu gostar tanto de “Coco” da Pixar: o filme foi muito feliz em mostrar a vastidão da cultura mexicana. Quando somos obrigados a escutar um demagogo idiota como Trump desmerecer os imigrantes do México isso me dá uma profunda tristeza, em especial por perceber a decadência gritante do Império americano e sua cultura consumista e a ignorância constrangedora que esse tipo de desprezo demanda.

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