Arquivo da categoria: Pensamentos

Tô nem aí

“Vejo muitas manifestações agressivas nas redes sociais clamando aos 4 ventos o quanto não se importam com a opinião dos outros. O nome disso é “denegação”, que é quando suas palavras traem seu conteúdo profundo e subconsciente.

Quem precisa deixar claro que “não estou nem aí para o que falam”, na verdade está “MUITO aí” para a opinião alheia. A verdadeira indignação se traduz em atos ou silêncio. A exaltação da desimportância é a prova mais óbvia da relevância.”

James Cobburn, “Voyage to the Wild West”, ed Barroque, pag 135.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Pelé…. e Maradona

Até quando o Maradona morre o foco volta a ser o Pelé e de novo aparece a nossa incapacidade de aceitar um ídolo e herói negro para um país racista. É difícil aceitar o Pelé, não?

Acho curioso que o Pelé não pode ser referência por causa de seus erros humanos, mas a madame branca que apoiou a pedofilia pode…

Nada a ver com drogas ou “vidaloka” de um ou pela postura política à direita do outro. Pelé é criticado porque ousou ser um Rei preto num pais racista. Maradona pôde fazer filhos com todo mundo e dar porrada na mulher, mas não é negro. Aqui falam exaustivamente do “reconhecimento da filha” apenas para facilitar o ódio que sempre tiveram do Pelé pela cor da sua pele. Preto desaforado, metido…

Pelé deu declarações à esquerda no passado, mas assina camisas para presidentes de direita hoje, e por isso não é perdoado. Toda a cocaína e o álcool de Maradona, assim como as violências domésticas, recebem nosso perdão porque, afinal, ele “parece” ser um rei, e não alguém que algumas poucas décadas atrás era açoitado por um deslize qualquer.

Pelé nunca será perdoado pelo crime de ser negro.

Maradona não foi nem uma quarta parte do que Pelé foi em campo, não teve metade da sua genialidade com a bola nos pés, mas teve muito mais consciência social e muito mais engajamento nas lutas pelo povo da América Latina, e por isso merece também estar no Panteão dos gênios da raça.

Salve Maradona, salve Pelé, salve Fidel e Simón. Viva Che, viva Rosa e Ataualpa… e longa vida à unidade Latinoamericana.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Racismo invisível

“PM nega motivação racista ao espancar o sujeito no Carrefour”.

O grande erro das análises sobre a morte no Carrefour continua sendo achar que a motivação racista se refere somente aos possíveis conteúdos CONSCIENTES, quando em verdade tem a ver com a estrutura social que INCONSCIENTEMENTE direciona nossas ações.

É exatamente por isso que temos um racismo invisível, até com aparência de cordialidade – ou democracia racial – porque ele está embebido na arquitetura social mais profunda, longe das luzes da consciência. Mas o fato de ser inconsciente o torna ainda mais difícil de combater. Como a violência obstétrica: quanto mais invisível, mais poderosa.

É muito difícil para muitos entender como funciona o racismo estrutural porque não percebem que nossas decisões percorrem um caminho que se situa abaixo da linha do consciente. É ali no breu do inconsciente, no escuro dos sentimentos mais primitivos e onde a luz da razão não encontra espaço, que estas escolhas são feitas.

Para entender o racismo estrutural é importante despir-se da arrogância racionalista e reconhecer a origem das nossas decisões. Somente esse mergulho nas emoções mais ancestrais nos permitirá entender porque os negros morrem nas mãos da polícia ou de seguranças enquanto aos brancos é reservado um espaço de civilidade protetiva. Os corpos negros, como se diz, são corpos “castigáveis”; violar e maltratar as carnes pretas ainda é um ato impune.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

O Bagaceiro Reaça

Depois de velho eu fui obrigado a testemunhar o nascimento de um personagem que poderia ter sido descrito por Nelson Rodrigues: o “bagaceiro reaça”.

Ele é pobre, muitas vezes desempregado e faz bicos ocasionais. Vive da pensão da mãe, com quem mora, mesmo tendo mais de 40 anos. Já teve algumas mulheres, mas abandonou a todas. É grosso, machista, misógino e, mesmo tendo aquela pele mais escura adora fazer piadas racistas (jura que é branco e que seu avô era alemão), porque são “brincadeiras entre amigos”.

É bolsonarista raiz. Mesmo já tendo várias entradas na chefatura por pequenos delitos – como punga, furto, violência doméstica e desordem – acredita que bandido bom é “bandido morto”. Adora a polícia batendo – nos outros – e faz o mesmo com os filhos pequenos. Acha que o comunismo é coisa do diabo. Vai na Igreja, paga dízimo quando tem algum, faz promessa prá Santo, toma passe no terreiro, vota sempre em empresários e gente rica, pois eles sabem como “cuidar de nós”.

Esse personagem apareceu de forma resplandecente nas últimas eleições. A mídia conseguiu convencer esse sujeito de que a sua miséria é fruto de sua falta de ambição ou de fé, e não de uma conjuntura que o maltrata desde o berço. Não há consciência alguma de classe: acredita ser um um ente sem vínculos; o que vale é o “cada um por si”.

A esquerda precisa voltar a falar com esse sujeito. Ele foi entregue para a direita mais atrasada e alienada. Usaram sua frustração para alavancar uma utopia neoliberal que se mostrou fracassada, mas que aqui ainda embala os sonhos de popular através da religião exploradora da fé e da propaganda massiva contra qualquer modelo meramente justo e distributivo.

Acredito que a tarefa da esquerda é ali, no seio do proletariado mais abandonado, para resgatar nestes o sonho de uma sociedade mais equilibrada e justa.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Gente tóxica

A dura verdade é que “afastar-se das pessoas tóxicas” passa a falsa mensagem de que somos carneirinhos mansos e ingênuos de quem lobos tóxicos se aproximam, produzem transtornos e causam dor. Ou seja: o problema não somos nós, são os outros.

Mentira. Somos todos tóxicos, egoístas, interesseiros ao mesmo tempo em que somos fontes de luz e afeto. Não há ser humano sem sombra. Somos feitos de “silêncio e som”, como diria Lulu Santos.

Muito ouvi falar na minha infância da lenda “um bom rapaz que se envolveu com más companhias”, como se não houvesse sintonia entre aqueles que se encontram. A história era contada como “uma alma pura maculada pela influência maléfica de espíritos primitivos”. Pura fantasia indulgente.

Ora, é fácil entender que se as companhias tóxicas desaparecessem como por encanto, em poucos minutos outras apareceriam por pura atração. Como aquele casal que se separa e depois cada um encontra alguém parecido com seu antigo amor… em seus piores defeitos.

Sempre erra quem acha que resolve os seus problemas ajustando ou eliminando os outros. Não, o único modo de mudar o mundo ao seu redor é transformando a si mesmo para, com isso, mudar também os que lhe seguem.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Voltar ao passado

Penso muito em voltar no tempo. Fico imaginando às vezes me concentrar até entrar em transe, aparecer em uma data do passado e mergulhar nela, como no filme “Somewhere in Time”. O problema é pensar em qual data eu gostaria de chegar.

Algumas vezes penso em retornar instantes antes de fatos traumáticos, mas outras vezes volto à escola, à infância, à minha casa no interior. Tipo, para falar com meu avô que morreu quando eu tinha três anos, ou reencontrar minha mãe e minha avó Irma. Também para rever a turma da rua ou os amigos da escola. Voltar naquele momento especial e ter coragem de dizer algo que não falei – por medo. Mas também voltar para ficar calado quando disse alguma bobagem que magoou alguém.

Essas viagens sempre me oportunizam pensar “como seria se…”, mas, mesmo que fosse possível ajeitar alguns erros do passado, uma viagem no tempo seria uma angústia brutal. Fico imaginando encontrar a mulher da minha vida e dizer a ela as palavras que sempre achei que deveria ter dito, só para depois perceber que o segredo de sua paixão foi mesmo ter sido bobo, tolo e desajeitado. E se dessa vez ela não me quisesse? Perderia instantaneamente meus filhos e netos e passaria a eternidade imaginando em que outra barriga teriam nascido.

Eu seria um perdido, vagando pelas ruas, imaginando encontrar em outros corpos as almas que perdi. A volta ao passado seria um martírio infinito, uma coleção de dores e tristezas. Uma “saudade do que nem cheguei a ser“. Talvez sejamos feitos dos próprios erros que cometemos, e mesmo os piores deles constroem o que somos hoje. Perdê-los talvez signifique retirar de nós a nossa própria essência.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

Harmonização facial

Depois de ver a propaganda de uma profissional que modificava o rosto de Frida Kahlo, retirando seu “defeitos”, eu fiquei me questionando qual o sentido de “harmonizar” a cara de alguém? O que significa deixar uma face mais “harmonizada”? Ter nariz grande é um “defeito”? Boca pequena é “feio”?

Não serão estes tão somente eufemismos usados para deixar as caras das pessoas mais uniformes? Tipo…. todo mundo parecido, com as mesmas características, queixo, bochechas, orelhas, etc…

Vale a pena? Não seria melhor ensinar as crianças a valorizar suas características mais pessoais e mostrar que isso produz um diferencial?

O dia em que houver engenharia genética suficiente para escolher as características de quem vai nascer e – pior – como vão se desenvolver suas feições durante a vida, que cara as pessoas escolherão? Se você escolher o George Clooney ou Natalie Portman poderá ter certeza que haverá milhões de sujeitos iguais a você perambulando pelo mundo. George e Natalie seriam “figurinhas fáceis” e muito provavelmente perderiam o valor no mercado. Que vantagem haveria em ter uma beleza “comum”, podendo ter uma feiura singular?

Talvez, nesse mundo pós apocalíptico, minha cara teria, finalmente, o crédito merecido. Feia, mas única.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Chupacabras

Menas mãe porque fez cesariana“, “só é mulher quem tem filho“, ou ainda “mãe de verdade só quem teve parto normal” são os chupacabras da atenção humanizada ao parto.

Ninguém ouviu, ninguém falou, não há testemunhas mas todo mundo conhece “a vizinha da amiga de uma prima que ouviu de uma doula.. ou uma médica. Não, acho que foi uma enfermeira no posto, quem sabe, mas pode ter sido daquela mulher que teve parto normal. Não tenho certeza, vizinha, mas isso é um horror, né não?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Fim de festa

É verdade isso… Um dia você sai com seus amigos para jogar bola, soltar pipa, brincar de correr pelas ruas do bairro, tomar um sorvete no bar do seu João. Dão risadas, conversam, fazem “cabo de guerra”, se abraçam, trocam figurinhas e jogam bolinha de gude. Quando a noite se aproxima voltam todos para casa, sem se dar conta que aquela foi a última vez que todos compartilharam sonhos, alegrias e esperanças.

Talvez seja melhor que a gente não saiba, senão esse derradeiro encontro seria difícil de aceitar. É bom que estes laços se desfaçam sem que a gente perceba, para que o fim da infância não seja marcado por uma lembrança tão triste.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Falsos consensos

Infelizmente o padrão na atualidade não é a confrontação de ideias, o contraditório e o respeito pelas visões discordantes mas o cancelamento, a perseguição pelas posturas, os abaixo-assinados com pedidos de demissão, a difamação, as pressões pela punição severa e a destruição sumária da reputação.

Pouco ou nada importa que o alvo da ira de agora seja alguém que durante décadas esteve ao lado da “nossa causa”; basta uma única posição discordante e você é jogado na lata de lixo, descartado, aniquilado e humilhado publicamente.

Esse sistema de terror faz com que, diante de casos públicos conhecidos e muito publicizados, aqueles que tem uma visão diferente da massa enfurecida se calem, com medo dos ataques e das violências virtuais. Reina um silêncio constrangedor nas redes, criando a falsa impressão de unanimidade. Tornou-se comum que, nos agora raros encontros pessoais, algumas pessoas sussurrem entre si: “eu não vejo dessa forma e não concordo, mas não posso falar sobre isso publicamente pois serei executado se disser o que penso”.

A tirania do senso comum faz vítimas todos os dias nas redes sociais. Quem escreve sabe que uma mínima palavra descontextualizada pode acender o estopim de uma reação violenta e cruel.

Minha opinião? No futuro próximo vai acontecer um fenômeno de reação a isso. A intolerância de alguns grupos será vista como realmente é: um sistema cruel de silenciamento, cujo objetivo é forjar consensos na marra e através da violência virtual. Por fim, as pessoas vão se voltar contra estes ativistas que se escondem por trás das belas causas para melhor espalhar opressão e despotismo.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos