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Eu (também) acredito em Woody Allen

Sobre Woody Allen

No mundo da pós verdade qualquer acusação que esteja de acordo com os linchamentos da época assume estatuto de verdade. Em certo tempo a moda era linchar judeus, agora os palestinos – e árabes em geral – são os escolhidos. No Brasil os petistas são o prato predileto. A partir de agora aos homens poderosos é lícito jogar qualquer infâmia pois quem teria coragem de duvidar? Se você criar uma acusação com um mínimo de lógica as provas tornam-se desnecessárias devido ao convencimento que se obtém com milhões de compartilhamentos em redes sociais. Quem pensaria em questionar um abuso cometido declarado em lágrimas por uma vítima que nos desperta empatia? Quem ousaria discordar do boato de que um político poderoso é dono da Friboi, possui uma mansão e um jatinho particular? Basta repetir indefinidamente, milhões de vezes, centenas de capas de revistas, milhares de memes e pronto… Nenhuma evidência se torna necessária.

O extermínio de reputações é uma praga contemporânea que se intensificou exponencialmente com a Internet. Ela dá um poder desmedido ao acusador, em especial se este fizer parte de um grupo minoritário e historicamente oprimido. Experimente questionar a veracidade de uma acusação (por mais forçada que seja) de racismo, homofobia ou machismo. O simples fato de você solicitar uma prova, ou pedir as fontes – para confirmar uma acusação tão grave – já o coloca na berlinda e o torna “cúmplice” da barbárie denunciada. Não há saída: ou você se associa à massa indignada ou sobe ao cadafalso junto com o acusado.

Eu sempre defendi Woody Allen porque acompanhei o caso quando aconteceu, no início dos anos 90. O relato da acusação me parecia absurdo, inverossímil, fantasioso, carente de provas e claramente calcado em vingança. O depoimento da menina parecia imerso no que depois se chamou de “Falsas Memórias” (veja aqui e também aqui), e totalmente desprovido de valor. Já as declarações de Woody Allen convenceram a mim e a todos os peritos envolvidos no caso e, por esta razão, o caso jamais seguiu adiante.

Fica claro que, se é lícito destruir a reputação de um artista famoso sem qualquer prova, nenhuma pessoa estará livre de ser destruído por estas ferramentas. Não esqueçam quantas mulheres na história foram destruídas e mortas por insinuações, que variavam de bruxaria, ninfomania até adultério. Sem provas. Pensem nisso antes de jogar a pedra.

Fico feliz de ler artigos (como este aqui) que colocam em ordem os sentimentos que sempre nutri contra essa perseguição imoral e perversa. Salve Woody Allen, e que seus detratores sejam punidos.

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Suicídio

O despreparo para lidar com a morte é uma das características mais dramáticas da formação médica ocidental. As dificuldade em lidar com o nascimento e com a autonomia dos pacientes lhe seguem. Entretanto, a morte é o maior tabu. Morte é fracasso, erro, fim. Perdemos todos, paciente e profissionais, derrotados pelo fantasma do fim. Morte mostra nossos limites e nossa falibilidade última. Não salvamos a todos e sempre haverá um truque do destino a nos trair.

O suicídio é onde testemunhamos essa incapacidade de forma mais gritante. Não aceitamos que alguém deseje se atirar no abismo do qual nos esforçamos para salvá-las. A nossa abordagem com os suicidas é, via de regra, baseada em julgamentos, em uma postura moralista e opressiva.

Um episódio ocorrido no Pronto Socorro, há 35 anos, foi relatado a mim por colegas de outra escala de plantões. Um colega estudante atendeu um sujeito que havia tentado o suicídio com um revólver de baixo calibre dando um tiro na própria boca. A tentativa foi frustra: a bala apenas transpassou sua bochecha. Diante disso, o colega do plantão disse ao paciente que aquele tinha sido “um trabalho mal feito”, e que o correto seria atirar de cima para baixo e com um revólver mais potente. O homem escutou calado enquanto tratavam do seu ferimento. Um mês depois o paciente volta ao pronto socorro tendo realizado o trabalho da forma correta. Ao saber disso o colega se defendeu dizendo que “poupou o trabalho de muita gente”.

Os aspectos psicológicos da atenção médica sempre foram negligenciados durante a minha formação. Mais do que isso: qualquer tentativa de abordá-los era vista como “fraqueza”, falta de “seriedade acadêmica” ou “frescura”. Em se misturando os dois temas – autonomia do paciente e morte – o buraco era gigantesco, um vazio de palavras, conceitos, preparo e, acima de tudo, empatia.

Encarar a morte dentro da vida e enxergar o suicídio como uma tentativa desesperada de escapar à dor é um grande desafio. Como a depressão, em especial, não aparece em nenhum exame de laboratório ou de imagem somos levados a desacreditar em sua própria existência, rotulando as dores da alma e os desejos de acabar com a vida como carências pontuais.

Nada poderia estar mais errado. A dor é real e corrosiva, a ponto da morte se tornar menos dolorosa que ela. Enquanto não houver preparo para a abordagem empática de paciente diante dos dilemas do aborto, do suicídio e dos transtornos mentais jamais conseguiremos oferecer o alívio e o auxílio que são as nossas tarefas mais primordiais e essenciais.

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Invasões Midiáticas

Marcel Proust viveu em uma Paris de profundas transformações. Ele testemunhou chegada da eletricidade, da água encanada e dos elevadores. Também viu a troca de bondes puxados a cavalo por carros a vapor e depois eletricidade. Estava na Cidade Luz durante a construção da Torre Eiffel na Exposição Universal de 1889 e na construção da primeira linha de metrô. Não há como duvidar do entusiasmo com a modernidade que inundava o coração dos habitantes de Paris.

Um relato, todavia, sempre me chamou a atenção em um texto de Proust sobre a introdução de uma tecnologia inovadora nos primórdios do século XX. Ele se referia à instalação das primeiras linhas telefônicas na cidade. Curiosamente, ao contrário de tantas outras inovações recentemente introduzidas – como a iluminação pública e os carros – o telefone foi recebido com reservas. Cabe a pergunta: como pode um artefato quase imprescindível no mundo contemporâneo ter sido introduzido na cidade mais mais culta e mais rica do mundo com desconfiança e tão pouco entusiasmo?

A resposta para essa pergunta não está tão distante da nossa compreensão. É fácil entender que o telefone era um artigo caro na época de sua disseminação, sendo apenas instalado nas mansões de pessoas muito abastadas. Nessas casas era comum aos visitantes se anunciarem a um mordomo que posteriormente perguntaria ao dono da casa da possibilidade de atendê-los; esse era o protocolo. Assim sendo, o telefone era visto como uma invasão aos domínios íntimos do domicílio. De posse de uma combinação de números qualquer um passaria a ter o acesso garantido, estaria apto a “entrar” na mansão outrora inexpugnável da elite parisiense. O telefone era visto, então, como uma “bugiganga de novos ricos”.

Hoje em dia o mesmo desconforto nos atinge, e pela mesma sensação de invasão. Repetindo o fenômeno do rádio – e depois da TV – que penetrou nos lares e em nossas consciências, as  redes sociais nos atropelam de informações e publicidades, invadindo nossos lares pelos olhos e ouvidos. A mesma retórica volta, recheada de augúrios catastróficos pela perda completa da privacidade. Talvez um dia isso venha a ser verdade, e um avanço tecnológico seja o portal para a nossa destruição. Por enquanto, com o acúmulo de experiências das quais somos sobreviventes no passado, cultivo ainda um saudável ceticismo.

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Irmão

Concordo…. um dos melhores presentes que uma menina pode receber na vida é a convivência com um irmão (sim, do sexo masculino).

Digo isso porque a experiência com o masculino e a forma de pensar dos meninos e homens vai oferecer a estas meninas-mulheres um antídoto contra o crescente preconceito – falso e artificial – que confunde masculinidade com opressão.  Uma relação saudável, mesmo que conflituosa, com o sexo oposto oferece às ferramentas fundamentais à compreensão empática do outro. Os sentimentos negativos de muitas mulheres contra os homens (e contra o masculino) repousam em experiências negativas ou mesmo na privação de contato com a forma específica de como funciona o pensamento e as emoções masculinas.

Estou falando nessa direção do vetor, mas inequivocamente funciona também para a direção aposta, quando homens são expostos desde cedo ao contato com suas irmãs. A falta dessa experiência primitiva cria o estranhamento – que facilmente se transforma em ódio – na relação com o outro, o diferente.

Aprendizado é bem diferente de boa convivência e muito distinto de dividir tarefas. Muito dos sentimentos negativos das mulheres em relação aos homens no mundo contemporâneo se dá pela falta de compreensão que elas têm de como pensam e sentem os homens. Por isso tantas mulheres dizem para os homens “mudarem” apenas porque não aceitam uma forma diferente de pensar e agir. Vejo isso com tristeza cada vez que uma mulher diz a dois meninos em suas brincadeiras “porque vocês dois vivem brigando?” simplesmente porque não entende a forma física como meninos se relacionam. Também quando olham para os maridos brincando de luta com os filhos e dizem “para que essa brutalidade?”

Ora… isso é a total incapacidade de entender o masculino e suas raízes ancestrais. Uma menina exposta a esse discurso e a corporalidade dos seus irmãos terá mais elementos para entender os homens e sua específica perspectiva de mundo. Pode até ser que se ressinta (quem não??), mas ao menos entenderá como é o funcionamento psíquico dos garotos.

Repito: direi o mesmo para os homens que tiveram irmãs e aprenderam com elas a olhar o mundo pelos seus olhos. Falo mais dos homens apenas porque sinto que as mulheres são mais arrogantes ao pensar que podem entender os homens, enquanto os homens parecem mais convencidos que, inobstante qualquer esforço, é impossível “entender” (e não compreender) as mulheres de forma completa. As diferenças do sexo e da gestação nos afastam de qualquer possibilidade nesse sentido.

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Zebras

Uma ideia que escutei em uma palestra do professor Jordan Peterson da Universidade de Toronto a respeito das zebras pode explicar o funcionamento de muitos dos grupos que participamos. As zebras tem listras que poderiam ser entendidas como “camuflagem”, produzidas pelo processo evolutivo para se esconderem dos predadores. Entretanto, é fácil perceber o quão inútil seria essa camuflagem no lugar onde elas vivem, a savana. Uma zebra pode ser vista a centenas de metros em contraste com a vegetação verde ou amarelada de seu pasto. Não parece ser razoável que o processo evolutivo determinasse esta função para as listras.

O leão, sim. O maior dos felinos tem um corpo camuflado que se metamorfoseia com o ambiente, ficando da mesma cor da grama seca.

Há alguns anos, o mistério das listras das zebras parece ter encontrado uma explicação. Estudiosos que investigavam o comportamento social destes animais tinham enorme dificuldade em acompanhar o seu comportamento individual porque, quando tentavam segui-las em seu trajeto, logo as perdiam de vista, confundidos pela semelhança com outros elementos da manada. A solução encontrada foi capturar os animais e colocar neles uma marca, uma pintura na perna ou um piercing na orelha, para que assim diferenciados pudessem ser identificados e acompanhados de longe.

O resultado foi surpreendente e dramático. Os animais marcados eram exatamente aqueles escolhidos pelos leões para serem atacados, e a conclusão óbvia era de que as marcas os deixavam mais facilmente identificáveis pelos predadores. Assim, perceberam que as listras da zebra funcionam como um elemento de confusão para os grandes felinos, e não de camuflagem com o meio ambiente circundante. Os leões perseguiam as zebras diferentes, as reconhecíveis, as que se destacam da paisagem hipnótica das listras.

Os humanos também se comportam assim. Assumimos posições ideológicas e discursos hegemônicos muitas vezes contra as nossas próprias crenças, mas movidos por um sentimento de auto preservação. Adotamos determinados discursos e práticas que nos garantem proteção pelos nossos iguais, pois uma opinião que destoa – ou desagrada – essa maioria pode nos colocar em evidência, levando a ataques tanto de dentro quanto de fora dos nossos grupos.

Assumir posturas contra-hegemônicas demanda coragem e sacrifício. Significa colocar em sua fala a marca da diferença e da afronta ao senso comum, o que torna o sujeito o alvo perfeito para os mais diversos ataques. Por outro lado, são exatamente estes sujeitos que, no relógio lento da cultura, produzirão os saltos quânticos de progresso, mesmo que às custas da dor e da segregação a que inevitavelmente serão submetidos.

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A Rosa

Eu escuto Gênesis, Yes, Chico Buarque. Sou velho. Não, eu não reparei em celulite e nem o rebolado de ninguém ultimamente, mas não é moralismo, é umidade. Quando se tem umidade avançada a gente fica exigente e chato. Como diria Brizola, “eu vim de longe”. Eu estava entrando na puberdade quando apareceu a banda Secos e Molhados com um cara que cantava com voz de mulher. Muito bizarro.

Sabem qual o nome original da banda? “Frescos e Molhados”, mas vetaram o nome para não chocar a sociedade conservadora dos anos de chumbo. Mas lá pelas tantas, vencido pela curiosidade, resolvi escutar o long play (eu avisei que era velho) e uma música me atingiu os tímpanos de forma dramática, deixando uma cicatriz melódica da qual nunca me recuperei totalmente. A música, cuja melodia é de Vinicius de Moraes, dizia assim:

Pensem nas crianças
Mudas, telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas, inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas, alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh! Não se esqueçam
Da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor, sem perfume
Sem rosa, sem nada

O cara que cantava era um magricelo “fresco”. Era assim que a gente chamava os caras afeminados, mais tarde chamados de homossexuais, isso tudo antes da eclosão da diversidade, a partir de quando eles ficaram perigosamente próximos. Nada pode ser mais perigoso para as nossas certezas do que a proximidade com o desigual. O respeito ao diferente não é inato; natural é o rechaço. O respeito é aprendido, por bem ou por mal.

Secos e Molhados poderiam ser um sucesso de verão, como tantos que passaram, e os rebolados do Ney estariam hoje nas coletâneas de bizarrices dos anos 70. Porém, havia mais do que trejeitos e performance, havia arte e transgressão, e talvez não haja mesmo arte transformadora que não se arrisque a ofender. Um camarada amigo meu dizia há tempos dizia “não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve, suave limpa, muito linda e muito leve. Sons e palavras são navalhas, e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém”

Talvez esses novos transgressores possam ser o portal de uma nova estética que nos oportunize rever conceitos e abrir nossas mentes. Por enquanto permitam-me ser um pouco cético até que surja uma Rosa de Hiroshima para me deslocar o queixo e deliciosamente estuprar os tímpanos.

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Presentes

Eu sempre achei a correria de presentes de fim de ano uma angústia maléfica, mais do que desnecessária, que se oferece às crianças. Não é segredo que as pessoas felizes não consomem. Sua realização pessoal e a harmonia de seus sentimentos não gera a necessidade de artifícios externos. Desta maneira,  o trabalho árduo dos publicitários é criar a infelicidade nos consumidores, para imediatamente lhes vender o remédio: “cargo”, a coisa, o produto.

Somos assim guiados por um hipnotismo social consumista que se inicia inoculando a sensação de impotência, falha e falta. O pior é que este padrão se inicia na infância, onde suas raízes são fincadas no solo fértil da personalidade nascente. Não existe nenhum consumista que não tenha o princípio do seu vício muito precocemente estabelecido na primeira infância. Por essa razão eu acredito que afastar as crianças deste tipo de ciclo vicioso de falta – saciedade – frustração é uma tarefa que cabe aos pais iniciar o quanto antes.

Nossa decisão – minha e de Zeza – de abolir os presentes de Natal, dia das crianças e até aniversário, tem uma história. Meus filhos foram os primeiros netos por parte dos meus pais e quando tinham uns 7 e 4 anos começaram a perguntar o que ganhariam de Natal. A partir disso se iniciou um “zunzum” por parte dos avós e das tias sobre quem daria o quê para quem. A Zeza notou que isso passou a ser, além de um assunto entre eles, uma fonte de ansiedade e expectativa.

Havia uma espécie de “cobrança” antecipada, como se as pessoas tivessem que pagar um pedágio pela alegria que o convívio com meus filhos lhes oferecia. Para além disso, havia um comércio velado. “Se você me der um presente eu lhe pago com uma demonstração calorosa de amor“. Quem resiste?

Porém, a pergunta que eu me fazia era: o que, em verdade, era “o presente”? Seria o brinquedo (afeto materializado) ou o amor encenado que eles nos ofereciam em troca? 

Zeza percebeu esse distúrbio e decretou, com seu jeito sempre meigo (irony mode on) de fazer essas comunicações: “Não quero nenhum presente para os meus filhos, senão não viremos à ceia”.

Sargentona… mas hoje acho que a sua decisão foi de profunda sabedoria. Ela sabia que essas atitudes nos pequenos geram comportamentos que muito dificilmente eliminamos na vida adulta. Ela intuía que precisava cortar o mal do consumismo pela raiz e assim fizemos.

Claro que meus filhos ganharam presentes na vida, até hoje, mas nunca determinados por uma data ou por uma obrigatoriedade. Se houvesse necessidade ou vontade isso seria feito, mas procuramos retirá-los o quanto antes de uma vida que ligava felicidade ao consumo de coisas.

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Não pude evitar

Esse livro é sobre um assassino que estuprava e matava a facadas senhoras idosas em várias cidades da América do Sul. “As véias abertas…” é um libelo em prol da pena de morte e em favor das medicações que controlam os sintomas da menopausa. Henriqueta, a protagonista, sofria de fogachos terríveis e que limitavam suas atividades quando consultou Dr. Mendoza Estibarriga, renomado ginecologista de Santa Cruz de la Sierra.

Todavia, jamais poderia imaginar que ao encontrá-lo encararia a morte de frente, pois ele era nada mais que a outra personalidade do famoso “estripador galante”, que deixava velhas senhoras com ventres abertos enquanto escutava música andina e tocava maracas. Um clássico de terror, suspense e folclore boliviano.

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Os Arquivos

Gideon Levy, israelense, jornalista judeu e ativista pela Palestina disse que, apesar da surdez de seus colegas em Israel para o drama palestino, mesmo assim ele não ousa esmorecer em sua luta por justiça, e que diante da aparente inutilidade de seus escritos, escreve para os “arquivos”. Estarão lá, sua vida, seus depoimentos, suas ideias e suas propostas. Um documento para a posteridade, para ser lido talvez após um século, mas um testemunho de luta e de fé.

Eu também escrevo porque sei que serei esquecido. Não tenho a menor dúvida da minha insignificância e da brevidade do tempo que me resta. Escrevo para os “arquivos”, para a ingênua miragem de um velho escriba de barbas brancas que um dia, escavando as profundezas da internet, descobrirá uma voz que se insurgia contra a indignidade da expropriação do nascimento.

Portanto, não é necessário ler, apenas permitam que se guarde.

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Pedradas virtuais

“Previsível. A falta do olhar endurece os ouvidos. Sem a presença do outro nossa fala perde o matiz; tudo fica preto ou branco. Por isso muitas pessoas usam a fala “já conheci ele pessoalmente e…”, porque esse contato humaniza o debate. Para as mulheres esse fato é mais dolorosamente verdadeiro. As mulheres têm um sistema de comunicação muito mais sofisticado em função dos milhares de anos traduzindo maneirismos e expressões sutis de bebês para entender suas necessidades. E isso, que sempre foi uma virtude, se torna um fardo num mundo de simplificações.

Pois exatamente porque a comunicação feminina é tão mais complexa e alimentada por sinais não verbais a internet se torna um tormento. Aqui “tome posse do roteiro de sua vida!!!”, ao não vir acompanhado de um abraço, um sorriso, uma lágrima doce ou uma expressão de acolhimento pode se transformar em dureza e grosseria. Para quem sempre viveu por milênios rodeada de informações sutis e subliminares sobre os seus afetos a escrita da internet é de uma pobreza assustadora.

No final sobram discursos carregados de ressentimento com direcionamento errado. Uma palavra mal colocada na tela fria acaba acertando nossa fragilidade e, num gesto impensado e inexorável, tornamos inimigo quem de nós meramente discorda e jogamos nossas dores e frustrações para alguém que sequer nos desejava mal. Usamos sujeitos ocultos do espaço cibernético como fantoches, amortecedores de nossas dores e receptores de nossa angústia.

Fogo, fumaça, carvão e terra arrasada. Depois a tentativa de reconstruir lembrando que, num tempo não muito distante, estávamos todos unidos na mesma dor e nos mesmos sonhos.”

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