Arquivo da categoria: Pensamentos

Beijo gay

images-26

Entrei em uma breve treta sobre o fato marcante do primeiro beijo gay em uma animação Disney. Encontrei muitas opiniões de “direita”, criticando a “ideologia de gênero” (que até eu tenho críticas à fazer) e dizendo as coisas de sempre como “sinal dos tempos”, “absurdo”, “frouxidão parental”, “plano macabro”, etc. Eu normalmente não dou bola para argumentos violentos, radicais ou claramente fascistas porque estas pessoas sinalizam, desde o enunciado, que o objetivo NÃO é debater, mas impor uma visão de mundo que não aceita contraditórios, pois :tal perspectiva se assenta sobre uma “Verdade” monolítica e impenetrável. Entretanto, resolvi responder a proposição de uma senhora que falou sobre “sexualização precoce”, que é um tema muito importante e atual, sobre o qual já pensei bastante e até escrevi.

Uma coisa é um baile onde crianças de 7 ou 8 anos de idade dançam músicas que simulam atividade sexual com outras crianças,  ou cantam músicas cujas letras estimulam tapinhas, agressões, promiscuidade e abusos. Não precisamos debater essa ponta do espectro; quase todos os profissionais acreditam que avançamos demais e que algo precisa ser feito para barrar está inserção extremamente precoce das crianças no universo do sexo.

Todavia, a imagem na animação da Disney foi de um beijo, que parece nos mostrar um gesto pleno de carinho, intimidade e afeto. Por que tanta angústia?

Essas crianças realmente poderão ficar traumatizadas e se tornarem gays se testemunharem afeto entre pessoas do mesmo sexo.” 

Sério que uma criança fica sexualizada precocemente ao ver “beijo”? Crianças não sabem o que é beijo? Por acaso não são beijadas ou não assistem novelas? Seus pais não se beijam?

Ah, mas é um beijo entre dois homens. Então podemos parar com a falácia da “sexualização precoce”, porque o que incomoda de verdade é o afeto entre pessoas do mesmo gênero. Mas eu pergunto: vocês acham mesmo que é essa exposição à realidade (sim, eles existem) que determina a orientação sexual de uma criança? Acham que confrontá-las com a diversidade sexual do mundo adulto fará com que elas se decidam pelo homoerotismo? Vocês acreditam que essa simples experiência é capaz de mudar algo que está profundamente enraizado na estrutura mais primordial do sujeito?

Eu creio que nem vocês acreditam nisso. Acho mesmo que não é o olhar das crianças que os incomoda, mas o olhar que vocês mesmos tem sobre isso. O que verdadeiramente tortura é a insegurança sobre nossa dualidade sexual e nosso temor de enfrentá-la. Por isso fingimos que um beijo entre dois homens sexualiza precocemente as crianças, quando na verdade apenas desnuda a nossa criança interna, temerosa e indecisa. 

Privar crianças da verdade, diante de suas PRÓPRIAS demandas, nunca foi um caminho adequado para o desenvolvimento de pessoas saudáveis.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Visitas Íntimas

detentos-revista

Existem maneiras de avaliar o nível espiritual de um lugar, desde uma cidade a um país. Costuma-se dizer que se pode medir pela capacidade de cuidar dos mais frágeis: as minorias, as mulheres, as crianças, os deficientes e os idosos. Nesta curta lista eu apenas acrescentaria os prisioneiros. Nenhuma sociedade pode-se dizer verdadeiramente civilizada e justa enquanto o sistema prisional for um “depósito de lixo humano”. Se não formos capazes de guardar uma porção, por pequena que seja, de nossa compaixão para os que erraram não poderemos nos considerar minimamente civilizados.

Escrevi isso porque é incrível o número de pessoas que se ofendem com as visitas íntimas dos prisioneiros. Acham que o exercício da sexualidade só deveria ser exercido pelas “pessoas de bem”, as que estão fora do cárcere. Bem, não vou falar minha opinião sobre o que eu considero como “pessoas de bem”, mas o fato de ser esse o nome do jornal da KKK já dá uma pista sobre a minha opinião. Entretanto, a questão destas visitas é humanitária e prática.

Quando você diminui a tensão sexual masculina a violência dentro das prisões cai dramaticamente. Os casos de estupro em presídio desabaram com a instituição das visitas de esposas e companheiras. Acima de tudo, um prisioneiro não pode ser tratado como um animal. A sexualidade privada leva a neurose. Freud estudou a histeria em sociedades onde as mulheres tinham COMO REGRA esta privação sexual, e o resultado era a somatização e a histeria. Se achamos indigno o cerceamento da liberdade sexual das mulheres, por que deveria ser diferente com prisioneiros? Some-se a isso uma cultura falocêntrica e o acúmulo de testosterona e temos um barril de pólvora nas penitenciárias. Sem sexo, desumanizados e privados da liberdade, por que razão não se comportariam como animais ferozes enjaulados?

Visita íntima devolve calma e tranquilidade ao ambiente terrível de uma penitenciária e, mais que isso, oferece um pouco de amor próprio e dignidade ao prisioneiro.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Corpos mutantes

Sem querer ditar regras, mas me permitindo o assombro estético, quem criou a ideia de que pernas com musculatura hipertrofiada em mulheres é algo bonito? Por que uma anomalia produzida em laboratório e que não pode prescindir de drogas anabolizantes virou o padrão estético nas passistas do Carnaval? Por que as mulheres procuram tanto se aproximar da forma física clássica – muscular, dura, forte, intimidadora – masculina? Qual o sentido CULTURAL dessa masculinização estética? O que a forma dos corpos femininos tem a ver com a sociedade em que vivemos?

Homens produzem essas pernas fortes pelo trabalho árduo e pela testosterona anabolizante que produzem. Mulheres quase nunca produzem estas formas naturalmente. Uma perna assim numa mulher é puro artificialismo. Se me permite comparar, é como um homem com seios. A atividade muscular dos homens sempre foi muito mais intensa que a das mulheres. A questão hormonal também é relevante. Somos muito mais musculosos e testosterônicos que as mulheres e isso não é um valor cultural, mas biológico. Um homem musculoso é visto nas estátuas da Renascença, mas NUNCA houve mulheres hipertrofiadas na arte e estes corpos nunca foram admirados como agora. O que houve?

Me parece ser mais do que o poder de produzir  diversidade. É uma tendência das modelos e das mulheres em escolas de samba, mas trata-se de um modelo totalmente artificial – como os dos homens – mas tem um recado a dizer para a cultura. Essa é a pergunta, e não apenas uma questão de diversidade e poder de escolha. Quando as mulheres esmagam seus pés na China ou esticam seus pescoços na Ásia isso nos informa de um valor cultural, uma mensagem da cultura que nos leva aos valores mais profundos de uma sociedade. Não é um fato aleatório, mas uma constatação de dezenas de mulheres da TV que resolvem viver às custas de hormônios e alimentação artificial. Essa é a pergunta que faço à cultura: o que vocês querem dizem com isso?

Em tempo…. não me interessam as escolhas pessoais. Essas estão acima de qualquer debate. Entretanto, uma pessoas fazendo uma tatuagem escrita “Apocalipse” é uma escolha pessoal, mas se centenas de adolescentes resolvessem fazer o mesmo então podemos procurar por um valor (ou um temor) inscrito no campo simbólico e que nos atinge a todos. Da mesma forma não discuto o direito de uma mulher modificar seu corpo dessa forma, mas me questiono onde ela vai buscar esse padrão e porque ele influencia a tantos.

Mais uma vez: que isso tem a nos dizer?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Comédia

gargalhada

Quem já passou por esta experiência: você assiste uma comédia e quando termina acha que ela é sem graça, as situações são inverossímeis ou clichês, que o filme foi superestimado, que os atores estavam mal nos papéis, que o roteiro desanda do meio para o fim, etc.. Em suma, um filme medíocre.

Aí você encontra uma pessoa que te pergunta “É aí, você assistiu o filme X?“. Você responde que sim, e enumera todas as falhas que acha existirem na película.

Daí a pessoa diz: “Mas cara, eu simijei vendo o filme de tanto que eu siri!!! Lembra da cena que o cara fez aquilo, e a mulher respondeu aquela outra coisa, que os dois se encontraram e o amigo perguntou pra ele se ele sabia e….”

Conforme a pessoa vai contando você começa a rir lembrando do filme e, subitamente, encontra a comicidade que existia nele, mas que estava escondida, longe do seu entendimento. Imediatamente o filme se transforma, se transmuta e você começa a dar gargalhadas lembrando das cenas. A compreensão do humor não veio diretamente do filme, mas da narrativa que alguém faz dele sobre sua experiência prévia.

Pois é…. já passei muito por isso. Quando minha filha Bebel me conta as comédias eu enxergo graça onde nunca tinha visto antes…

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Carnaval e mídia

Não sei quanto a vocês – e reconheço que não tenho autoridade nenhuma para falar desse tema – mas eu perdi totalmente a vontade de ver os desfiles das escolas de samba, e isso há muitos anos. E não tem nada a ver com as gambiarras que são feitas com os carros alegóricos e nem com as antigas conexões das Escolas de Samba com a contravenção e o “jogo do bicho”.

O que eu curtia era o espírito de carnaval que transformava o pobre favelado em artista, permitindo a ele uma noite de sonho, como passista, porta-bandeira ou maestro supremo de uma bateria. O sonho se tornava mais incrível quando na quarta feira a carruagem se transformava em ferro velho, as roupas de príncipe em roupão da fábrica, os vestidos de lantejoulas em uniforme de gari e todo mundo voltava às suas vidas duras e difíceis.

Hoje em dia vejo o desfile de gente branca em carros alegóricos e as câmeras da TV focando nos artistas profissionais que trabalham nas novelas da TV, nos turistas estrangeiros que pagam para desfilar ou nos jogadores dos times cariocas. O desfile não é mais do povo e o que resta a ele é a figuração. Quem vale mesmo é o artista global, que nem sabe onde fica a comunidade, mas recebe um email com a letra do enredo para ensaiar em casa.

Assim profissionalizado o carnaval perdeu todo o encanto que poderia ter.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Derradeira hora

por-do-sol

“No derradeiro bater de pálpebras, na luz diáfana e fosca da última mirada, no som abafado das vozes em despedida, no cheiro agridoce da sala asséptica, quando o bip da máquina desenhar uma linha triste de despedida e sobrarem apenas poucos segundos para o fechar das cortinas estas serão as cenas que impregnarão a minha retina cansada: bebês brotando para este mundo de luzes, mães chorando, pais desabando de emoção, o abraço dos avós, o sorriso em lágrima das doulas, o reconhecimento das enfermeiras e o sentimento de gratidão pela honra de ser testemunha do milagre da vida.”

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Montanha

images-8

“Na minha vida houve momentos tão belos que se tornaram instantes de pânico, pois de tão lindos pareciam o clímax de toda uma existência, a partir dos quais não faria mais sentido existir. É como escalar uma montanha invisível; num dado momento você olha para trás e vislumbra a paisagem esplendorosa atrás de si. Extasiado com o que vê fica paralisado, pois parece não haver mais sentido em continuar a subida.”

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Títulos

Uma pausa para o esporte “bretão“:

Depois dos títulos “mundiais” por fax inaugurados pelo Palmeiras agora alguns torcedores de clubes (não por acaso atravessando fase de vacas magras) inauguram outra modalidade: o confisco do título alheio por e-mail.

Tais aficionados insistem no tal “título mundial FIFA” como sendo o único válido, o único “legitimamente” conquistado, quando o universo inteiro reconhece há décadas os títulos obtidos antes da FIFA encampar a competição. Essa estratégia fala mais do desespero de torcedores de clubes que atravessam crise sem precedentes do que um argumento válido para questionar estas conquistas.

Ora, sejamos justos. Para tirar os títulos de grandes clubes como Grêmio, São Paulo, Flamengo e Santos (assim como Boca, Real Madri, etc) precisa mais que um e-mail. Seria preciso apagar todos os livros de história do futebol, todos. Não poderia sobrar uma única página sequer, pois se encontrarem uma só nota sobre o assunto já será possível lembrar de Miller, Raí, Zico, Nunes, Pelé, Coutinho, Renato, De León e tantos outros heróis que tornaram verdade o sonho de fazer de seus clubes os maiores do mundo. Seria igualmente necessário arrombar todos os museus de todas as sedes de clubes para arrancar de lá os vistosos troféus e apagar da memória de todos os fatos relacionados a estas épicas e gloriosas conquistas.

Essa tarefa é impossível de se concretizar, além de ser abjeta e tola. A história não se apaga: se aprende com ela e se tenta imitar. Para aqueles novatos nestas conquistas aprendam com quem tem essa faixa pendurada há mais de 30 anos: ninguém se torna maior tentando diminuir os adversários. A grandeza ocorre pelo oposto, quando ao exaltar a conquista de todos nós nos tornamos maiores, pois a nossa vitória também é contemplada.

Obrigado

Na foto, Eurico Lara, goleiro e mito.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Silêncio

images-36

“O silêncio é o momento mais sagrado de uma análise. Cultiva-se através do aprendizado duro e da intimidade com nossos próprios limites e dores. Entretanto, rompê-lo demanda coragem e sabedoria. A fala do analista é um caminhar às escuras em uma loja de cristais.”

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Dengue asiática

Dengue asiática

A dengue de Xiaoping o deixou muito Mao. O grande problema é que ele a adquiriu de um simples Beijing. Por esta razão tome cuidado. Caso encontre alguém com essa doença, não Tóquio, porque é sempre possível o karatê e não ser visível. Esperamos que este alerta não fique Confúcio e que medidas sejam tomadas.

Lembre-se sempre:

“If you can’t understand this message, Gengis Khan”.

Espero que esse comentário a judô você.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos