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Cerimônia de Casamento

Acabo de chegar da igreja onde assisti um casamento católico tradicional. Lindo, emocionante, charmoso. Todo mundo se apertando dentro da roupa. Mulheres segurando lencinhos e homens desengonçados com seus paletós e suas calças justinhas. Nenhuma mulher era mais baixa do que eu, mas a mágica se escondia por sob os vestidos longos. Os homens riem, as mulheres choram.

Um espetáculo de exaltação da sexualidade, a começar pela porta central da igreja, que só abre nas núpcias, como um colo uterino a receber as sementes em forma de nubentes. A encenação máxima do mais importante dos rituais humanos, que representa a promessa de continuação da espécie.

Cada passo, cada fala, cada personagem, toda a ordem, cada sorriso tem um papel importante na celebração do patriarcado.

PS: Eu coloquei esse texto exatamente como contraponto ao que eu imaginava que alguém escreveria. Isto é: a resposta a uma pergunta ainda não havia sido feita. O que eu vi nesse casamento foi um ritual de reforço do patriarcado e que é TOTALMENTE feito pelas mulheres – e para elas. TUDO é construído em torno da figura central: a mulher e sua importância fundamental na estrutura social humana.

A forma poderosa como ela é apresentada seduz mesmo as mais resistentes críticas. Por isso que, ao escutar tantas queixas das mulheres fico perplexo ao ver que esse ritual do patriarcado sobrevive essencialmente pela luta das mulheres em mantê-lo de pé. Em um mundo onde as mulheres conquistam espaço e criticam a opressão a que são submetidas pelo machismo é curioso – talvez paradoxal – que o ritual mais poderoso para a supremacia do patriarcado seja mantido vivo exatamente por aquelas que se sentem oprimidas por ele.

A tese é simples: os valores profundos de uma cultura de expressam através de seus rituais. Através dessa “regra” fica claro perceber que contextos (culturas) belicosas tem rituais violentos; culturas fraternas e justas tem rituais mais ligados ao congraçamento e à igualdade. Culturas machistas encenam rituais que valorizam o homem. Não há nenhum feminismo (entre todas as suas expressões) que não veja no patriarcado a origem da assimetria de poderes entre os gêneros. Esse sistema de 100 séculos ainda domina a estrutura social apesar dos sinais claros de sua decadência. De todos os rituais que servem como pontos de proteção e exaltação do patriarcado o casamento religioso é o mais forte e o mais importante por sua simbologia. Sendo assim, deveria ser preservado e protegido por quem retira alguma vantagem desse modelo decadente e opressor, mas o que se vê é EXATAMENTE o oposto: o casamento é totalmente edificado em função das mulheres sendo por elas controlado, gerenciado e conduzido.

Um um casamento é uma encenação. Ele REPRESENTA outras realidades que não são explicitadas no texto  por isso ele é um RITUAL. Um ritual precisa ser repetitivo, padronizado e simbólico. Portanto ele ESCONDE dos sentidos seus significados mais profundos. O casamento é um reforço do patriarcado em todos os ângulos que se olhe, basta olhar em profundidade e não apenas na superfície.  Além disso o casamento não tem NENHUMA ligação obrigatória com o amor. NENHUMA. Se quiser ver um exemplo disso assista o casamento do século entre o Príncipe de Gales e Diana. Não havia amor e mesmo assim o ritual se manteve de forma integral. O casamento por amor é uma invenção muito recente na história da humanidade, e tem menos de 200 anos. Os casamentos sempre tiveram função social e por isso tinham solidez. Esses contratos tinham uma clara função de produção e procriação, e não havia nenhum compromisso afetivo entre as partes. Ainda é assim em muitos lugares do mundo.

Pior; o acréscimo do amor nas relações maritais foi numa tragédia para esta instituição, e acredito que o casamento – por causa desse detalhe – nunca vai se recuperar desse golpe e voltar a ter o prestígio de outrora.

Aliás… Eu também sou contra o “casamento gay” enquanto RITUAL. Puxa… a sociedade inteira considerando o casamento uma instituição fora de moda e sem sentido e os gays querendo revitalizar a “união abençoada por Deus”? Que coisa mais cafooooona!!!! E diga-se de passagem que sou a favor de que as uniões gays tenham as MESMAS garantias legais das heterossexuais, mas acho que o “casamento” (enquanto ritual) é um retrocesso (mas um direito que não discuto). Sim o casamento gay (alguns que vi no Youtube) produz a mesma representação patriarcal que os heterossexuais tentam mudar ou abolir, por isso que eu considero algo ultrapassado.

O casamento não precisa ser “machista”, mas inegavelmente simboliza os mais importantes valores do patriarcado

O casamento com todos os seus símbolos ainda é o sonho de muitas mulheres, mas enganam-se os que pensam que isso tem a ver com informação, cultura ou estudo. O casamento ainda é um sucesso em todas as classes sociais.

A cerimônia só não é celebrada por elas no catolicismo. Ainda…

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Youtubers

Uma coisa chata e repetitiva: os jovens YouTubers. Todos usam o mesmo formato, fazem o mesmo estilo de edição, falam do mesmo jeito, mendigam para gente se inscrever no canal e usam o mesmo humor debochado. Parece que todos contrataram o mesmo roteirista. Outro problema é fazer vídeos sobre assuntos que desconhecem por completo.

Esses dias assisti um cara que é um youtuber famoso por ser ateu e atacar os fundamentalistas. Acho até digno, importante até, mas aí ele resolve fazer um vídeo sobre “porque odeio o PT“, cheio de incorreções e análises rasas, mas querendo que as pessoas acreditem que ele parte de uma uma posição “isenta”.

Não há problema algum em atacar o PT. Algumas críticas são essenciais e até podem ajudar o próprio PT a se “recriar”. Entretanto, na primeira frase do seu comentário ele diz: “cresci num ambiente em que fui ensinado desde cedo a odiar o PT“. Podia ter parado ali, mas me obrigou a assistir mais 15 minutos de tentativas ingênuas de provar uma isenção tão inexistente quanto impossível.

Eu acho que os “comentaristas jovens” da Internet se depararam com uma ferramenta poderosa e ainda não perceberam o quanto é fundamental ter embasamento para tratar de assuntos complexos.

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Ratinhos

Um teste que vi em um filme há muitos anos e nunca mais esqueci.

Você visita um restaurante para provar aos seus amigos que ele não tem condições de higiene. Subitamente vê um camundongo andando por entre as mesas. Faz um gesto para pegar o celular e fotografar, mas o camundongo se assusta e entra em uma fissura da parede. Você viu, mas não conseguiu fotografar, o que seria a prova inequívoca.

Então você tem uma ideia: no dia seguinte passa em um terreno baldio próximo e captura um camundongo com uma armadilha. Coloca no bolso e vai até o restaurante. Põe o bichinho no chão e discretamente o fotografa.

Pronto. Ali estava a prova. Claro, não era o mesmo camundongo mas que diferença faz? Não havia dúvida alguma em seu peito sobre a existência de um camundongo(s) no restaurante. Sem a prova não haveria como mover uma ação e o restaurante sujo permaneceria funcionando. Usar o outro ratinho serviu a um fim nobre: a saúde de todos. Não havia prova…. mas havia uma convicção pessoal muito forte.

Os fins justificam os meios?

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Fidelidade

Talvez reste como única infidelidade aquela que parte do engano da alma. Eu costumava brincar com meus amigos fazendo-lhes uma pergunta capciosa, apenas para analisar (e me divertir)  com os malabarismos lógicos para se adaptar a uma ou outra alternativa.

Sei que essa é uma pergunta muito mais dramática quando feita aos homens, até porque sua sexualidade objetual lhes oferece uma possibilidade muito maior de exercer a posse sobre o corpo da mulher, o que é respaldado pelo machismo contemporâneo. O domínio sobre o corpo alheio, resumido a objeto, é muito mais uma questão masculina do que feminina. De qualquer forma, respondam, mesmo que apenas em pensamento.

–  Diante destas duas opções, e sendo obrigado a escolher uma delas apenas, qual seria a menos dolorida e cruel? Saber que sua mulher lhe foi infiel, mas sempre o amou e desejou OU saber que sua mulher SEMPRE lhe foi fiel, mas passou toda a vida ao seu lado desejando, sonhando e fantasiando com alguém que não era você?

O que os homens me disseram variou no tempo. Quando eu fazia essa pergunta há 30 anos os amigos diziam que o corpo precisava ser só deles; esse era o acordo, e a mente delas era impossível de controlar. Hoje em dia os homens tendem a falar mais da alma, e eu atribuo isso à lenta degradação dos valores do patriarcado. Não só o tempo social mudou, produzindo mais limites sobre o desejo de posse sobre o outro, mas a idade do interlocutor também parece ser um fator importante.  Quanto mais jovem mais importância se dá ao controle do prazer alheio; conforme a idade avança mais significativa é a fidelidade afetiva, aquela que vem da alma e não do corpo.

Qual das fidelidades lhes é mais cara, a do corpo ou a da alma?

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Beijo gay

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Entrei em uma breve treta sobre o fato marcante do primeiro beijo gay em uma animação Disney. Encontrei muitas opiniões de “direita”, criticando a “ideologia de gênero” (que até eu tenho críticas à fazer) e dizendo as coisas de sempre como “sinal dos tempos”, “absurdo”, “frouxidão parental”, “plano macabro”, etc. Eu normalmente não dou bola para argumentos violentos, radicais ou claramente fascistas porque estas pessoas sinalizam, desde o enunciado, que o objetivo NÃO é debater, mas impor uma visão de mundo que não aceita contraditórios, pois :tal perspectiva se assenta sobre uma “Verdade” monolítica e impenetrável. Entretanto, resolvi responder a proposição de uma senhora que falou sobre “sexualização precoce”, que é um tema muito importante e atual, sobre o qual já pensei bastante e até escrevi.

Uma coisa é um baile onde crianças de 7 ou 8 anos de idade dançam músicas que simulam atividade sexual com outras crianças,  ou cantam músicas cujas letras estimulam tapinhas, agressões, promiscuidade e abusos. Não precisamos debater essa ponta do espectro; quase todos os profissionais acreditam que avançamos demais e que algo precisa ser feito para barrar está inserção extremamente precoce das crianças no universo do sexo.

Todavia, a imagem na animação da Disney foi de um beijo, que parece nos mostrar um gesto pleno de carinho, intimidade e afeto. Por que tanta angústia?

Essas crianças realmente poderão ficar traumatizadas e se tornarem gays se testemunharem afeto entre pessoas do mesmo sexo.” 

Sério que uma criança fica sexualizada precocemente ao ver “beijo”? Crianças não sabem o que é beijo? Por acaso não são beijadas ou não assistem novelas? Seus pais não se beijam?

Ah, mas é um beijo entre dois homens. Então podemos parar com a falácia da “sexualização precoce”, porque o que incomoda de verdade é o afeto entre pessoas do mesmo gênero. Mas eu pergunto: vocês acham mesmo que é essa exposição à realidade (sim, eles existem) que determina a orientação sexual de uma criança? Acham que confrontá-las com a diversidade sexual do mundo adulto fará com que elas se decidam pelo homoerotismo? Vocês acreditam que essa simples experiência é capaz de mudar algo que está profundamente enraizado na estrutura mais primordial do sujeito?

Eu creio que nem vocês acreditam nisso. Acho mesmo que não é o olhar das crianças que os incomoda, mas o olhar que vocês mesmos tem sobre isso. O que verdadeiramente tortura é a insegurança sobre nossa dualidade sexual e nosso temor de enfrentá-la. Por isso fingimos que um beijo entre dois homens sexualiza precocemente as crianças, quando na verdade apenas desnuda a nossa criança interna, temerosa e indecisa. 

Privar crianças da verdade, diante de suas PRÓPRIAS demandas, nunca foi um caminho adequado para o desenvolvimento de pessoas saudáveis.

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Visitas Íntimas

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Existem maneiras de avaliar o nível espiritual de um lugar, desde uma cidade a um país. Costuma-se dizer que se pode medir pela capacidade de cuidar dos mais frágeis: as minorias, as mulheres, as crianças, os deficientes e os idosos. Nesta curta lista eu apenas acrescentaria os prisioneiros. Nenhuma sociedade pode-se dizer verdadeiramente civilizada e justa enquanto o sistema prisional for um “depósito de lixo humano”. Se não formos capazes de guardar uma porção, por pequena que seja, de nossa compaixão para os que erraram não poderemos nos considerar minimamente civilizados.

Escrevi isso porque é incrível o número de pessoas que se ofendem com as visitas íntimas dos prisioneiros. Acham que o exercício da sexualidade só deveria ser exercido pelas “pessoas de bem”, as que estão fora do cárcere. Bem, não vou falar minha opinião sobre o que eu considero como “pessoas de bem”, mas o fato de ser esse o nome do jornal da KKK já dá uma pista sobre a minha opinião. Entretanto, a questão destas visitas é humanitária e prática.

Quando você diminui a tensão sexual masculina a violência dentro das prisões cai dramaticamente. Os casos de estupro em presídio desabaram com a instituição das visitas de esposas e companheiras. Acima de tudo, um prisioneiro não pode ser tratado como um animal. A sexualidade privada leva a neurose. Freud estudou a histeria em sociedades onde as mulheres tinham COMO REGRA esta privação sexual, e o resultado era a somatização e a histeria. Se achamos indigno o cerceamento da liberdade sexual das mulheres, por que deveria ser diferente com prisioneiros? Some-se a isso uma cultura falocêntrica e o acúmulo de testosterona e temos um barril de pólvora nas penitenciárias. Sem sexo, desumanizados e privados da liberdade, por que razão não se comportariam como animais ferozes enjaulados?

Visita íntima devolve calma e tranquilidade ao ambiente terrível de uma penitenciária e, mais que isso, oferece um pouco de amor próprio e dignidade ao prisioneiro.

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Corpos mutantes

Sem querer ditar regras, mas me permitindo o assombro estético, quem criou a ideia de que pernas com musculatura hipertrofiada em mulheres é algo bonito? Por que uma anomalia produzida em laboratório e que não pode prescindir de drogas anabolizantes virou o padrão estético nas passistas do Carnaval? Por que as mulheres procuram tanto se aproximar da forma física clássica – muscular, dura, forte, intimidadora – masculina? Qual o sentido CULTURAL dessa masculinização estética? O que a forma dos corpos femininos tem a ver com a sociedade em que vivemos?

Homens produzem essas pernas fortes pelo trabalho árduo e pela testosterona anabolizante que produzem. Mulheres quase nunca produzem estas formas naturalmente. Uma perna assim numa mulher é puro artificialismo. Se me permite comparar, é como um homem com seios. A atividade muscular dos homens sempre foi muito mais intensa que a das mulheres. A questão hormonal também é relevante. Somos muito mais musculosos e testosterônicos que as mulheres e isso não é um valor cultural, mas biológico. Um homem musculoso é visto nas estátuas da Renascença, mas NUNCA houve mulheres hipertrofiadas na arte e estes corpos nunca foram admirados como agora. O que houve?

Me parece ser mais do que o poder de produzir  diversidade. É uma tendência das modelos e das mulheres em escolas de samba, mas trata-se de um modelo totalmente artificial – como os dos homens – mas tem um recado a dizer para a cultura. Essa é a pergunta, e não apenas uma questão de diversidade e poder de escolha. Quando as mulheres esmagam seus pés na China ou esticam seus pescoços na Ásia isso nos informa de um valor cultural, uma mensagem da cultura que nos leva aos valores mais profundos de uma sociedade. Não é um fato aleatório, mas uma constatação de dezenas de mulheres da TV que resolvem viver às custas de hormônios e alimentação artificial. Essa é a pergunta que faço à cultura: o que vocês querem dizem com isso?

Em tempo…. não me interessam as escolhas pessoais. Essas estão acima de qualquer debate. Entretanto, uma pessoas fazendo uma tatuagem escrita “Apocalipse” é uma escolha pessoal, mas se centenas de adolescentes resolvessem fazer o mesmo então podemos procurar por um valor (ou um temor) inscrito no campo simbólico e que nos atinge a todos. Da mesma forma não discuto o direito de uma mulher modificar seu corpo dessa forma, mas me questiono onde ela vai buscar esse padrão e porque ele influencia a tantos.

Mais uma vez: que isso tem a nos dizer?

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Comédia

gargalhada

Quem já passou por esta experiência: você assiste uma comédia e quando termina acha que ela é sem graça, as situações são inverossímeis ou clichês, que o filme foi superestimado, que os atores estavam mal nos papéis, que o roteiro desanda do meio para o fim, etc.. Em suma, um filme medíocre.

Aí você encontra uma pessoa que te pergunta “É aí, você assistiu o filme X?“. Você responde que sim, e enumera todas as falhas que acha existirem na película.

Daí a pessoa diz: “Mas cara, eu simijei vendo o filme de tanto que eu siri!!! Lembra da cena que o cara fez aquilo, e a mulher respondeu aquela outra coisa, que os dois se encontraram e o amigo perguntou pra ele se ele sabia e….”

Conforme a pessoa vai contando você começa a rir lembrando do filme e, subitamente, encontra a comicidade que existia nele, mas que estava escondida, longe do seu entendimento. Imediatamente o filme se transforma, se transmuta e você começa a dar gargalhadas lembrando das cenas. A compreensão do humor não veio diretamente do filme, mas da narrativa que alguém faz dele sobre sua experiência prévia.

Pois é…. já passei muito por isso. Quando minha filha Bebel me conta as comédias eu enxergo graça onde nunca tinha visto antes…

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Carnaval e mídia

Não sei quanto a vocês – e reconheço que não tenho autoridade nenhuma para falar desse tema – mas eu perdi totalmente a vontade de ver os desfiles das escolas de samba, e isso há muitos anos. E não tem nada a ver com as gambiarras que são feitas com os carros alegóricos e nem com as antigas conexões das Escolas de Samba com a contravenção e o “jogo do bicho”.

O que eu curtia era o espírito de carnaval que transformava o pobre favelado em artista, permitindo a ele uma noite de sonho, como passista, porta-bandeira ou maestro supremo de uma bateria. O sonho se tornava mais incrível quando na quarta feira a carruagem se transformava em ferro velho, as roupas de príncipe em roupão da fábrica, os vestidos de lantejoulas em uniforme de gari e todo mundo voltava às suas vidas duras e difíceis.

Hoje em dia vejo o desfile de gente branca em carros alegóricos e as câmeras da TV focando nos artistas profissionais que trabalham nas novelas da TV, nos turistas estrangeiros que pagam para desfilar ou nos jogadores dos times cariocas. O desfile não é mais do povo e o que resta a ele é a figuração. Quem vale mesmo é o artista global, que nem sabe onde fica a comunidade, mas recebe um email com a letra do enredo para ensaiar em casa.

Assim profissionalizado o carnaval perdeu todo o encanto que poderia ter.

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Derradeira hora

por-do-sol

“No derradeiro bater de pálpebras, na luz diáfana e fosca da última mirada, no som abafado das vozes em despedida, no cheiro agridoce da sala asséptica, quando o bip da máquina desenhar uma linha triste de despedida e sobrarem apenas poucos segundos para o fechar das cortinas estas serão as cenas que impregnarão a minha retina cansada: bebês brotando para este mundo de luzes, mães chorando, pais desabando de emoção, o abraço dos avós, o sorriso em lágrima das doulas, o reconhecimento das enfermeiras e o sentimento de gratidão pela honra de ser testemunha do milagre da vida.”

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