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Entrevista

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ENTREVISTA PARA O JORNAL EXPERIMENTAL ENFOQUE VICENTINA

Repórter Virginia Machado

Entrevistado: Dr. Ricardo Herbert Jones

Formação e tempo de atuação na área

Trabalho atendendo partos há 32 anos, mas sou formado há 30. Terminei minha residência médica há 28 anos, em 1987, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Já atendi por volta de 2 mil partos dentro do modelo humanizado. Faço parte da ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento – no Brasil, e sou apoiador de várias instituições em nível nacional e internacional de defesa do parto humanizado.

Doutor, quais as principais dúvidas que uma mulher tem quando entra em seu consultório?

As pacientes que nos procuram para atenção ao parto normalmente têm dúvidas quanto aos significados do modelo “humanizado”. Muitas ainda confundem este tipo de atenção com parto domiciliar. Para tanto eu costumo dizer que a humanização do nascimento se assenta sobre um tripé conceitual:

  1. O protagonismo restituído à mulher, sem o qual estaremos apenas “sofisti­cando a tu­tela” imposta milenarmente pelo patriarcado.
  2. Uma visão integrativa e interdisciplinar do parto, retirando deste o cará­ter de “processo bi­oló­gico”, e alçando-o ao patamar de “evento hu­mano”, onde os aspectos emocionais, fisiológicos, sociais, culturais e espirituais são igualmente valorizados, e suas específicas necessi­dades atendidas.
  3. Uma vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências, dei­xando claro que o mo­vimento de “Humanização do Nascimento”, que hoje em dia se espalha pelo mundo in­teiro, funciona sob o “Império da Razão”, e não é movido por crenças religio­sas, ideias místicas ou pres­supostos fantasiosos.

Com isso a maioria das dúvidas fica atendida, pois elas percebem que não há uma relação necessária entre o conceito de “parto humanizado” e o local onde ele será realizado. Isto é, o parto pode ser humanizado ou não, independente se for no hospital, numa casa de parto ou no domicílio. Como afirmamos há mais de 20 anos, a humanização do nascimento é uma ATITUDE de respeito ao protagonismo da mulher, à visão integrativa e interdisciplinar e à medicina baseada em evidências. Para maiores esclarecimento leia em https://orelhasdevidro.com/2015/04/21/coincidencias/

O senhor como médico, percebe um aumento do número de mulheres jovens grávidas?

Não, exatamente o oposto. A idade da primeira gestação está por volta dos 30 anos. Hoje em dia são raras as pacientes de classe média que engravidam antes dos 30 anos. A imensa maioria das minhas pacientes de consultório se encontram na “quarta década”, entre 30 e 40 anos.

Quais as principais mudanças que o corpo feminino sofre durante a gravidez? E quais as principais mudanças psicológicas?

Todo o organismo da mulher – a mente e o corpo – se prepara para a gestação. Suas mamas aumentam, a circulação se altera, a quantidade de glóbulos vermelhos aumenta, o sangue circulante aumente por volta de 50% (principalmente o soro, o que produz uma “anemia fisiológica”), a bexiga fica mais sensível, os pés incham pelo aumento de líquido, o intestino fica mais lento pela ação dos hormônios e as mamas podem começar a produzir “colostro”, que é um precursor do leite extremamente rico em nutrientes, e que alimentará o bebê nos primeiros dias de vida. Para além dessas alterações fisiológicas ocorrem várias modificações gerais como sensibilidade aos cheios e gostos, alterações na temperatura corporal, sensações diferentes, desejos alimentares estranhos e muita sensibilidade emocional. Todas estas alterações são heranças de milênios de transformações adaptativas das mulheres ao período gravídico, e devem ser encaradas como fenômenos normais que as ajudam a superar os desafios das mudanças rápidas de seu corpo e suas emoções.

Qual a importância do parto normal para a mãe?

Diminuição dos riscos para a mãe e o bebê e uma preparação de ordem física, emocional, psicológica e espiritual para os desafios da maternagem. Como dizia a antropóloga Bárbara Katz Rothmann, “Parir não é apenas fazer bebês, mas fazer mães fortes e capazes para suplantar os desafios da maternagem”. Para além disso, o parto normal mantém a mulher na rota da fisiologia, o que a capacita a amamentar seu filho com mais facilidade. Esta atitude – amamentação livre – é o maior indicador de saúde para a criança na primeira infância. Se não fosse útil para tantas coisas, o parto normal já seria suficiente apenas por estimular um dos maiores elementos positivos de prevenção de doenças jamais criado: o leite materno.

Para o senhor como médico, porque acha que muitos profissionais optam pela cesárea?

A opção pela cesariana sem justificativas de ordem clínica ou psicológica produzem muitos problemas no mundo inteiro. Como pode ser visto pelas pesquisas relacionando morbimortalidade das alternativas – parto normal x cesariana – as cesarianas sempre produzem números piores. Além disso elas amplificam os problemas da saúde da mulher, em especial as questões relativas à sua saúde reprodutiva. Evitar o abuso de cesarianas é uma questão de saúde pública.

As discussões sobre parto humanizado se tornaram mais comuns, principalmente após a modelo Gisele Bündchen ter o filho dentro de uma banheira. Em casos de mulheres de comunidades carentes, como debater o parto humanizado?

Casas de Parto em São Paulo e Rio de Janeiro que pertencem ao Sistema Único de Saúde possuem piscinas próprias para aa atenção ao parto na água. Portanto, não existe nenhuma relação entre condições econômicas e partos humanizados (na água ou não) que não sejam ultrapassadas com criatividade e poucos recursos. Muito mais importante do que isso é vontade política, pressão social e força de vontade para imprimir as necessárias mudanças.

Uma das minhas entrevistadas foi maltratada por uma médica após se negar a lavar o cabelo depois de ter feito cesariana. Quais os principais mitos que as mulheres têm em função da gravidez?

Os mitos são explicações de causalidade que surgem em função de fatos cuja causa é de difícil explicação. Quando faltam palavras para determinar a origem de um fenômeno, os mitos são chamados para ocupar este lugar. Por outro lado, os mitos não são eternos; eles se modificam à medica que o conhecimento avança, dando lugar a novas mitologias que nos aliviam a tensão e a angústia do desconhecido. Os mitos de Deuses e Demônios deram lugar às mitologias contemporâneas ocidentais, como a “transcendência tecnológica”, que acredita que qualquer ação comandada pela tecnologia é superior e mais segura do que uma determinada pelo humano. Assim cabe à razão e à ciência desfazer lentamente os mitos que povoam ainda o imaginário social. Entre os mitos que existem na gravidez a maioria é feita por curiosidades, como o formato da barriga e o sexo do bebê, as azias e a criança “cabeluda”, as luas e o desencadeamento do trabalho de parto. Entretanto, alguns se mantém sem nenhuma clara evidência, como as proibições de lavar o cabelo depois do parto, pois estaria ligado à loucura. Esta mitologia era muito comum há 40 anos, mas hoje pouco se houve falar nas pacientes de classe média, com amplo acesso à informação. Portanto, desfazer os mitos é também função dos profissionais, sempre respeitando os referenciais e crenças de suas clientes.

Como o senhor acredita ser possível combater a violência obstétrica?

Com informação e justiça. Pacientes devem ter livre acesso às ouvidorias dos hospitais e aos conselhos profissionais para que possam relatar casos em que sua autonomia, liberdade e protagonismo foram ofendidos, assim como os casos de maus tratos ou desobediência às leis, como a negativa de aceitar acompanhantes no percurso do parto. Informação e disseminação de conhecimento sobre os direitos reprodutivos é o único caminho, mesmo sendo o mais longo e trabalhoso.

Uma pesquisa, divulgada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo, apontou que uma em cada quatro mulheres já sofreu violência obstétrica. Porque o senhor acha que isso acontece no Brasil?

Falta de conhecimento de seus direitos básicos como cidadão e como pessoa em situação vulnerável, como uma grávida em trabalho de parto no hospital. Uma certa arrogância histórica de profissionais com formação que é insuficiente e falha – muitas vezes – nas questões da ética e uma complacência do setor público com as violências cometidas em instituições com poucos profissionais e excesso de clientes.

Quais principais dicas/conselhos o senhor daria para mulheres que estão grávidas, principalmente aquelas cuja gravidez não foi planejada?

Informe-se. Procure seus direitos. Encontre outras mulheres que estão gestantes e crie grupos de discussão e debate em sua comunidade: na Igreja, na escola, no clube de mães ou no posto de saúde. Procure profissionais ou hospitais que tenham assumido um compromisso PÚBLICO e explícito com a humanização do nascimento. Converse com médicos, enfermeiras e doulas sobre as possibilidades de parto humanizado na sua cidade, bairro ou distrito. Fale com o(a) vereador(a) da cidade (ou os deputados e senadores, em um contexto mais estadual e nacional) para a implementação de LEIS de estímulo à humanização do nascimento, como fiscalização do direito ao acompanhante, lei que protege as doulas, leis sobre violência obstétrica, etc.

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Nova Era

Renascimento

ACOG – American College of Obstetrics and Gynecology – a mais importante associação americana de obstetras, mudou sua posição em relação à assistência ao parto conduzida por enfermeiras obstetras fora do hospital. A partir de agora este tipo de atenção é aceita para as mulheres de baixo risco. Ainda não fez o mesmo em relação ao parto domiciliar, mas também não apresenta nenhuma justificativa para que os “partos em casa” não sejam igualmente contemplados.

Mas qual a razão para esta mudança histórica?  Bem, várias. Uma delas se relaciona aos custos. Um parto em hospital custa entre 30 e 50 mil dólares (entre 90 e 150 mil reais). O custo de uma enfermeira não passa de 3 a 7 mil dólares (9 a 21 mil reais) num atendimento fora do hospital. Diminuir custos é sempre importante para equilibrar as finanças de países que lutam com déficits crescentes em seu orçamento de saúde, como os Estados Unidos (e o Brasil, igualmente). Outra razão é que este orçamento é de quase 3 trilhões de dólares por ano, mas apesar de todo este investimento os EUA ocupam o lugar 26 em mortalidade infantil e o 60 em mortalidade materna, atrás de todos os outros países do chamado “primeiro mundo”. Em 1987 o número de mortes maternas era de 6/100.000 e hoje está em 28/100.000, num crescimento assustador.

Estes números são muito baixos em termos absolutos, mas o crescimento relativo nos óbitos nos obriga a repensar um modelo de assistência tecnocrático que nos oferece péssimos resultados. Por último (mas as razões não se esgotam por aqui) a publicação do NICE na Inglaterra no final de 2014, recomendando partos em casa e em casas de parto a partir dos resultados de uma extensa pesquisa chamada “Birth Place” – que comprova a excelente qualidade destas opções – deixou a obstetrícia americana defasada e sem reação.  Era imperiosa uma alteração de atitude a partir do novo cenário que se desenhava no mundo inteiro.

Esta mudança histórica terá óbvias e previsíveis repercussões em todos os países que orbitam o modelo médico dos Estados Unidos. Já não será mais possível aceitar a arrogância e a desinformação de chamar atenção em Casas de Parto de “violência obstétrica”, como se ouviu de algumas autoridades médicas. Será necessária uma revisão dos postulados que sustentam a atenção centrada na figura dos médicos e nos hospitais, até porque toda a atenção ao parto no nosso meio era baseada na confiança depositada no modelo da “matriz” americana.

Para os que lutam pela liberdade de escolha, a visão integrativa e interdisciplinar do parto e uma medicina baseada em evidências,  este é um grande momento. A partir de agora já será possível ver um futuro muito melhor para as gestantes, ao se oferecer a elas uma gama maior de alternativas comprovadamente seguras.

Veja o documento aqui:

http://www.nightingalebirth.com/nestingblog/acog

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Local de Parto

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Terminei de escrever uma entrevista para Fernanda Canobel, querida aluna do último Curso de Doulas em Campinas, a respeito de diversos aspectos relacionados à humanização do nascimento, assim como o espectro de atuação das doulas no novo cenário de atenção ao parto que se descortina para o Brasil. Creio que num futuro próximo possamos ver este trabalho da Fernanda, que ainda conta com a contribuição de outros profissionais. Vou publicar, apenas como “teaser” uma resposta que dei que parece ser absolutamente necessária. Esta semana fiquei sabendo que um professor de medicina de Porto Alegre disse que eu era um defensor do “parto domiciliar” (e não da humanização, que ele chamou de “animalização”), mas com isso tentava afirmar que esta defesa servia como um rechaço ao “parto hospitalar”, como se eu estivesse julgando as opções que as mulheres fazem de parir em uma maternidade. Por isso eu creio ser importante responder a esta questão, para não deixar dúvidas sobre a questão “local de parto”.

P – O parto domiciliar é melhor que o hospitalar?

R – Não, em hipótese alguma. É necessário reverter esta lógica “universalista” para uma lógica “subjetiva”. Seria o mesmo que perguntar “Música erudita é melhor do que música popular?”. A resposta seria a mesma para ambas as perguntas: “Depende de quem ouve e de quem está parindo!”. Para algumas mulheres, a tecnologia em abundância oferece uma sensação de proteção e conforto durante o processo de parto, em função do mergulho que as sociedades ocidentais fizeram na “mitologia da transcendência tecnológica”, que afirma que tudo que é tecnológico é superior à alternativa que a natureza oferece. Para outras, a tecnologia pode ter um efeito contrário, e se tornar elemento opressor para um evento natural e fisiológico. Para as primeiras os hospitais são os melhores lugares para receberem seus filhos. Para as outras, a própria casa, ou uma casa de parto, seriam ideais. Os sistemas, públicos e privados, de atenção ao parto devem prover as mulheres com TODAS as opções possíveis, para que elas possam parir com o máximo de segurança. Para aquelas que desejam parir em um hospital (no momento, a gigantesca maioria), há que providenciar atenção, humanização, vagas suficientes e suporte técnico. Para as que desejam as Casas de Parto, é necessário construir centenas, talvez milhares pelo país afora, e capacitar esta atenção com profissionais bem treinados, equipamentos corretos e um sistema ágil de transferência. Para os partos domiciliares, precisamos primeiramente respeitar os profissionais que atendem as pacientes que assim desejam ter seus filhos, sem ameaças e perseguições, mas com controle e aprimoramento técnico, principalmente no que diz respeito aos critérios de seleção para o parto domiciliar.

O discurso do professor se baseia em sua visão pessoal do nascimento como evento perigoso e que só pode ser cuidado adequadamente por cirurgiões, especializados nas piores tragédias que podem acontecer. Eu respeito esta visão, mas creio ter o direito de oferecer uma mirada alternativa. Acredito na capacidade intrínseca da mulher de gestar e parir com segurança, e vejo isso se repetir milhares de vezes todos os dias, mesmo nas condições mais adversas. Não desmereço a importância de termos cuidados com os eventos dramáticos, mas sei que podemos fazer muito pela sua diminuição com uma atitude mais branda em relação à atenção. Os perigos que o nobre professor menciona são em grande parte gerados pelo próprio sistema misógino e insensível de atenção que ainda existe em muitos lugares, de forma inconsciente, como parte da ideologia machista de nossa sociedade. Mas, sua posição como professor, faz com que sua particular visão sobre o nascimento seja captada por “osmose” pelos alunos, que de forma acrítica replicam os conceitos recebidos. Por esta razão é que a obstetrícia atual mantém-se insensível (apesar de muitos avanços, é importante admitir) às questões do protagonismo e a autonomia, que são assuntos do terreno da ética, e que nos países europeus do oeste – e mesmo nos Estados Unidos – já foram absorvidos pelos profissionais como obrigações inquestionáveis e direitos inalienáveis dos pacientes. Aqui ainda estamos numa fase muito autoritária, mas que apenas terminará quando as mulheres reivindicarem o papel que lhes cabe no processo: o protagonismo pleno no nascimento de seus filhos, com o auxílio de profissionais que respeitem esta posição.

Eu francamente não me importo de ver a humanização ser chamada de “animalização”, até porque não deixamos mesmo de ser “animais”, e pela mesma razão nunca achei errado o Michel (Odent) convocar o movimento para “mamalizar” o parto. Entretanto, o professor usou a palavra “animalizar” na tentativa de desmerecer os esforços pela humanização do parto. Por outro lado, a nossa “falta de defesa” – e o fato de que assumimos nossa “animalidade” e reconhecemos que muito temos a aprender com a “etologia do parto” (o estudo do comportamento animal aplicado ao processo da parturição) – já serve como uma boa resposta. Muitas vezes o silêncio esclarece mais do que um milhão de palavras. Somos MESMO animais, e temos nossas pegadas muito distantes: no barro cambriano dos oceanos quentes e na poeira das estrelas que nos aguardam. Se somos anjos e desejamos voar, também somos bichos e queremos dormir placidamente no colo da natureza.

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