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À espera de Emma

Diante do cenário luminescente de matizes multicoloridos do céu ele se despiu do último cigarro, fazendo a brasa vívida brilhar contra a paisagem avermelhada dos bancos do bar. Da primeira baforada surgiu a frase entrecortada pela fumaça.

– Se há algo que não podemos controlar, Benny, é o ouvido alheio. Nada nos garante que o coração de quem ouve poderá compreender o que falamos, muito menos o que se esconde no vão das palavras. Como saber se a frase solta não vai encontrar um oceano de contextos na mente do outro? É verdade irmão, o ressentimento é uma capa que ao mesmo tempo em que nos protege sorrateiramente nos corrói a alma.

Sentado à sua frente Benjamin colocou uma colher a mais de açúcar no café fazendo o tilintar da colher entoar um dueto com os carros que passavam na rua. Seu olhar estava fixado na porta do bar na esperança de que Ethel viesse finalmente encontrá-los. A ansiedade pelo encontro enchia o bar acanhado de silêncios que, misturados com o aroma de café passado, traziam a todos a dor pesada de muitas nostalgias. Benjamin descolou o olhar da porta e sorveu o primeiro gole de café. Enquanto absorvia o amargor adocicado da bebida fitou Mark ainda com a xícara tocando os lábios.

– Se ela entendeu dessa forma não há nada que você possa fazer, disse. Não adianta se martirizar. Se ela se magoou com aquelas breves palavras não cabe a você se culpar. Você sabe como são as mulheres…

Mark sorriu pela primeira vez.

– Não, irmão. Nunca saberei.

Faça uma imagem com esse texto O tilintar dos sinos da porta de entrada anunciaram a chegada de Emma. Benny sabia que seu rosto na primeira imagem denunciaria seu propósito e o que ocorreria nas próximas horas. Vestia-se sobriamente e carregava uma sombrinha nas mãos. Seu olhar procurava a dupla que a aguardava até que finalmente atingiram em cheio os pupilas contraídas de Benjamin.

– É ela Benny?, disse Mark sem ousar virar o corpo.

– Temo que sim. Esteja preparado e boa sorte, brother.

Barry Wiedeman Harris, “The Portrait of the Devil”, Ed. Canvas, pág 135

Barry W. Harris foi professor de literatura medieval na Universidade do Novo México. Escreveu vários livros relacionados aos conflitos sociais derivados da imigração. Como homem de esquerda, foi membro do Partido Socialista da América e, quando do seu desmembramento em 1973, manteve-se filiado ao Comitê Organizador Socialista Democrático. Seus livros e crônicas abordam de maneira ácida o racismo e o preconceito de classe dos “WASPs” (White Anglo-Saxon Protestant) em contraposição aos sonhos e esperanças das comunidades latinas que vivem nos estados limítrofes da fronteira mexicana. Casou-se com Julieta Morejano, de ascendência Guatemalteca, e teve dois filhos, Pedro e Enrique. Morreu em 1998, vítima de um câncer de tireoide.

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Maçaneta

A cafeteria jogava sobre nós seus vapores de café enquanto Max ajeitava o cabelo cada vez que aproximava a boca da xícara. Tive ímpetos de dizer-lhe, pela milésima vez, que já era hora de cortar seu cabelo. Max mantinha o mesmo penteado desgrenhado de quando estava na faculdade, mas agora os fios de cabelos brancos estavam em franca vantagem contra os originais. Logo me dei conta de que este comentário seria apenas mais uma tolice minha; criticar os cabelos de Max era uma intromissão em um assunto absolutamente privado. Pior, temo que sua resposta seria: “respeite seu lugar de fala, careca”. Dizer-lhe para cortar o cabelo seria o mesmo que pedir para Salvador Dali aparar o bigode, ou para Einstein pentear seu cabelo. Não se mexe em marcas tão fortes de uma personalidade. Ainda prefiro o incômodo de vê-lo ajeitando o cabelo insistentemente do que correr o risco de ver seu espírito questionador e inquieto esvair-se no chão de um barbeiro

– Eu sei do que falas, Ric. Se o que move estas pessoas. Sei como sofrem e porque é tão complexo o perdão. Sei também que, por mais que estas pessoas sejam confrontadas com a realidade, tal encontro não é capaz de produzir nenhuma transformação significativa. O que se obtém de forma irracional e afetiva não pode ser extirpado pela razão.

– Sim, eu compreendo, e me resigno. Sei que não há muito o que dizer diante de uma construção emocional tão poderosa. Não se joga fora uma bengala de uma hora para outra. O ódio e o desprezo servem como potentes apaziguadores da alma quando a dor é intensa e sobre ela não existe consolo possível.

Max jogou-se para trás na cadeira e ficou me olhando fixamente por alguns instantes. Nunca entendi exatamente o sentido destas paradas abruptas, o enquadramento do corpo como a preparar um bote seguido de um movimento rápido para frente em que arrojava seu corpo sobre a mesa e dizia algo sem tirar seus olhos dos meus. Funcionava como um script preestabelecido do qual ambos sabíamos como funcionava.

– Eu já te falei a história de Dulcinéia? Não a namorada de Dom Quixote, uma outra, muito mais triste.

Neguei com a cabeça, sem desviar os olhos de Max. Ele sabia que eu não desviaria o olhar até o final de sua narrativa. Max domina a arte de criar suspenses e contar histórias.

– Dulcinéia era uma mulher triste. Era casada e tinha três filhos. Eu a conheci nos primeiros anos depois de sair da residência em um ambulatório da prefeitura.  Nos primeiros quinze minutos da consulta ela me contou as mentiras previsíveis que as pessoas contam na frente do médico, como um teatro tosco de olhares cruzados, histórias escolhidas, pausas, palavras sonegadas, atos falhos e enganos.

Interrompi Max abruptamente com a mão espalmada à frente.

– Para lá, Max. Não venha me dizer que as pessoas procuram médicos para mentir. Você não pode reduzir as consultas a interrogatórios, como se os pacientes estivessem acossados por um agente da lei, procurando encontrar as palavras menos incriminatórias, buscando subterfúgios para não dizer a verdade.

– Caro Ric, você descreveu muito bem como funciona uma consulta. Este encontro está regulado pelas necessidades humanas, por suas dores e medos e pelo nosso sentido de urgência. Entretanto, o que o paciente nos traz como demanda, como queixa e como sofrimento, é tão somente a parte visível de um gigantesco Iceberg. Aquela pontinha branca que desponta da imensidão aparentemente calma do oceano é apenas uma fração minúscula do que se esconde por debaixo das suas águas plácidas. Infelizmente, o que aparece como gelo na superfície deveria ser o guia para a descoberta da massa gigantesca que o sustenta. O que o paciente traz como queixa deveria ser um sinalizador para que um cuidador isento de preconceitos pudesse investigar o que se esconde por debaixo da superfície do seu discurso dissimulador.

Como eu um flash milhares de pacientes, palavras, histórias, gestos, expressões e sorrisos passaram diante dos meus olhos confirmando a tese de Max. Havia muito mais do que a nossa vã observação era capaz de apreender em um encontro breve e tímido. Os pacientes escondem, até de si mesmos, um tesouro de emoções escondidas debaixo de grossas capas de proteção e o adoecimento, qualquer que seja, enfraquece essas barreiras e nos oferece a oportunidade única de encontrar o que se esconde por “debaixo do véu que nos separa do meramente manifesto aos sentidos grosseiros”. Repeti para Max a frase que ele havia me dito há muitos anos e pela qual tinha uma certa afeição. Sim, Max se afeiçoava a frases como alguns tem paixão por cães e gatos. Pedi que continuasse a história de Dulcinéia.

– Permiti que Dulcinéia continuasse a contar as naturais mentiras enquanto nutria a esperança de que ela fizesse a “manobra da maçaneta” que é tão comum nesses casos.

Pedi que continuasse, mas com o compromisso de descrever a tal manobra mais tarde.

– Dulcinéia era triste, como já lhe disse. Tinha olhos azuis profundos e frios. Seu rosto era magro e seu corpo esguio. A pele era de um brancor ofuscante, onde ressaltava o azul de suas veias delicadas decorando de mármore a face interna de seus braços de cera. Seus gestos eram delicados, mas seu olhar para mim dizia muito mais do que suas pequenas mentiras. Ela carregava uma dor que não cabia em suas palavras, que não aparecia em suas queixas e que devia estar dormindo nos porões úmidos e escuros do inconsciente. Tentei buscar alguma Dulcinéia em meu arquivo de imagens, mas preferi que a descrição pormenorizada de Max me ajudasse a criar uma nova. Siga, Max.

– Em um determinado momento, e não recordo exatamente porque a conversa chegou a este ponto, suas mãos se espalmaram sobre o granito da mesa e ela me disse com uma voz dura: “Eu sei o que é sofrer por um erro!

Max, depois de uma breve pausa – ele conhece como contar histórias com seus altos e baixos e esperando o momento certo para encaixar as palavras da narrativa – continuou.

– Preferi ficar em silêncio. Havia naquele momento um instante raro nos encontros adornados de puerilidades que somos obrigados a testemunhar. Uma vaga do oceano chocou-se contra a torre gelada que aparecia altiva no meio do oceano de placidez, e com isso descobriu uma porção maior do iceberg que a sustentava. Ali estava algo verdadeiro, uma emoção clara e forte; uma dor que não se conteve e mostrou sua face.

Esperei mais alguns momentos de silêncio e ela resolveu continuar. Disse-me que sua irmã foi vítima de um erro médico há muitos anos, e que este fato acabou por fazê-las desconfiar de todos os médicos com quem consultou desde então. Um médico do Pronto Socorro foi o responsável pelo sofrimento terrível que se abateu sobre sua pequena irmã, na época com sete anos. A dor produzida naquele momento de sua vida jamais a abandonara e ela não se sentia capaz de perdoar aquele que tanto mal havia causado à sua irmãzinha e à toda sua família. Aguardei sem nada falar pelo seu relato, pois via que ela estava tocando uma parte dolorosa de sua vida, um momento de profunda dor e angústia. Ficava claro que deveria ser algo de muitos anos passados, mas a emocionalidade da descrição mostrava que a dor ainda era atual, apesar da distância de décadas que a separava do evento.

A tudo eu ouvia com atenção, mas meu coração disparava quando eu sentia na própria carne as emoções contidas no relato de Max.

– Que idade você tinha quando isso ocorreu? continuou Max em seu relato. Ela respondeu que tinha 16 anos quando sua irmã sofreu o grave acidente. Ela era uma irmã “temporona”, a mais mimada, a mais amada, a mais querida por todos na família. “Um anjo que a vida presenteou a todos nós”, disse ela.

Olhando seus olhos úmidos perguntei se ela desejava falar sobre esse caso, caso isso pudesse lhe trazer algum conforto ou consolo. Ela respondeu que sim com a cabeça, como que a desejando economizar palavras que lhe custavam a sair da boca rósea de lábios finos, que mais pareciam uma linha a cruzar transversalmente o rosto.

Foi um erro terrível do médico, disse ela. Ela foi atropelada quando voltava para casa de um passeio e levada imediatamente ao hospital. Chegou lá muito mal, entre a vida e a morte. Sofreu várias fraturas, em vários ossos, e chegou no Pronto Socorro inconsciente. Foi internada e começaram a fazer cirurgias. Uma depois da outra; nem lembro quantas foram feitas no período em que estivemos no hospital, lembro apenas que foram muitas. Ossos, hemorragias internas, reintervenções, drenos, soro, sangue, anestesias. Depois as complicações, os antibióticos e as febres. Ela foi desenganada várias vezes, os médicos foram perdendo as esperanças.

Dulcinéia continuava sua descrição da tragédia de ver uma irmã lutando contra um infortúnio, que não apenas se apossou de sua saúde, mas acabou levando consigo o brilho dos olhos azuis de sua irmã. Ela prosseguiu em sua narrativa.

Eu rezava todos os dias e fazia todas as promessas. Chorava copiosamente nos corredores do hospital. Não conseguia aceitar que uma criança sofresse tanto, alguém que jamais fez qualquer ato ruim contra ninguém. Agarrava-me a tolas crendices e palavras de estranhos, todas bem-intencionadas, mas essencialmente vazias. Subitamente, algo aconteceu. Em princípio não quis acreditar pois não queria me agarrar a falsas esperanças. A febre cedeu, os rins voltaram a funcionar, as cirurgias não mais supuravam, a respiração parecia melhor e mais calma. Até seu rosto voltou a se parecer com a menina alegre e vívida que todos conheciam. Chorei demais de alegria, mas ainda mantinha minhas orações e meus pés no chão.

Os dias se seguiram e ela aparentava franca recuperação, e depois de mais de dois meses internada pela primeira vez os médicos usaram a expressão “alta hospitalar”. Conseguia sair do quarto na cadeira de rodas e, apesar das dores, ensaiava alguns sorrisos com as brincadeiras das enfermeiras e dos médicos. Meu coração exultava de alegria e esperança. O dia finalmente chegou. Apesar de ainda restrita à cama e com muitos cuidados o médico nos procurou e avisou que daria a alta no dia seguinte. Ela precisaria de controle cuidadoso e muita atenção. Estava se alimentando com cuidado, havia perdido muito peso, não podia fazer nenhum esforço. Passei a noite no hospital aguardando para levar minha irmã de volta para casa no dia seguinte.

Então sobreveio a sombra que nunca mais me abandonou, disse ela com uma voz pausada e grave. Durante a noite minha irmã pediu um copo de suco de laranja. Solicitei a enfermeira que lhe fosse dado, já que iria para casa na manhã seguinte e havia passado o dia inteiro tomando uma dieta líquida; devia ter sido  apenas um esquecimento do médico. A enfermeira voltou com a informação de que ela estava sem dieta. Insisti com a enfermeira de que ela estava com sede e precisava beber algo “energético”, e ela respondeu que ligaria para o médico de plantão para saber se ele liberava o suco, diante do fato de que pela manhã ela iria para casa. A autorização do médico foi dada. Ela bebeu seu suco, me deu um beijo de boa noite e dormiu. Nunca mais falei com minha irmã. Na manhã seguinte ela se sentiu mal, ficou com falta de ar, reclamou que estava difícil respirar e logo depois pude ver que estava ficando pálida. Chamei a emergência e ele foi imediatamente removida para a UTI. Ainda pela manhã, uma enfermeira conhecida voltou para o quarto onde eu aguardava informações, me deu um abraço e chorou comigo, avisando que minha irmã havia morrido. Não havia causa conhecida ainda, e só com o tempo poderiam descobrir.

Fez uma pausa para secar as lágrimas e levou as mãos ao rosto. As emoções de tantos anos voltavam como se tivessem ocorrido há poucos dias.

Que Deus a houvesse levado no dia em que morreu, Dr Max. Que tivesse ela ficado no chão, sem vida, atirada no asfalto quente da rua, mas porque foram me dar as esperanças de ter minha irmã de volta para depois ser arrancada dos meus braços assim? Não foi difícil entender que a culpa era o suco de laranja. Sim, doutor, deram a ela um suco que não poderiam ter liberado. Deram para ela um “veneno” que a matou. Foi um erro grosseiro do médico por ter liberado um suco que não devia ter recebido.

Max pausou a narrativa nesse momento e voltou a colocar o corpo para trás, encostando a vasta cabeleira na parede atrás.

– O que você disse a ela Max? Acredita mesmo que aquele suco de laranja poderia estar implicado no que me parece uma embolia?

– O que eu penso não importa muito, Ric. A dor dela era verdadeira e a melhor resposta que eu tinha a lhe dar era o meu silêncio. Ela continuou sua triste história.

Processei o médico. Virei uma fera. Contratei um advogado que imediatamente encampou a minha causa. Levei o caso ao conselho de medicina. No dia da audiência eu o encontrei, alguém que eu jamais havia visto mas que odiava do fundo do meu coração. Ele se levantou e me cumprimentou constrangido, mas certamente foi capaz de ver as faíscas de ódio que saíam dos meus olhos. Sem saber o que falar, ele se limitou a dizer, sem raiva ou indignação, apenas com uma espécie de assombro.

– Por que está fazendo isso comigo?

Não consegui lhe responder tudo o que tinha em minha cabeça pois meu advogado me puxou pelo braço e pediu que eu sentasse e me acalmasse. Foi a única vez que o vi em minha vida.

Perguntei a ela o que havia acontecido com o caso e ela respondeu com uma risada de sarcasmo.

Ora, Dr Max, você sabe muito bem o que houve. Simplesmente nada. O conselho de medicina disse que não havia prova alguma de má conduta diante de um caso tão grave como o dela e encerrou o caso. Cheguei a pensar em levar adiante e processá-lo em todas as instâncias, mas meu advogado disse que a visão do conselho era muito forte, os juízes são muito incompetentes para entender casos médicos, haveria um desgaste ainda maior para a família e os custos subiriam, etc. Aceitei seu conselho e virei essa página, mas a minha dor e a minha indignação jamais terminaram, e sei que vou morrer com elas.

Fiquei olhando para aquela paciente sem saber o que dizer, sem ter como ajudá-la e sem poder debater sobre um caso que lhe trazia tanta dor, mais de 25 anos passados. Tinha vontade de lhe falar que não acreditava que o suco de laranja tivesse qualquer participação no óbito, que o mais provável era uma embolia, o que seria um diagnóstico provável diante de tanto tempo imobilizada e das fraturas que teve. Mas, de que adiantaria mexer nessa ferida sem ser capaz de lhe oferecer uma luz qualquer, e sem ter condições de trazer razão para um caso em que havia um domínio total das paixões? Disse apenas que sentia muito por tudo que havia acontecido e que ela podia contar comigo sempre que tivesse o desejo de contar uma história que compõe o tecido sutil de sua vida. Ela sorriu, secando uma última lágrima dos olhos azuis. Levantou-se e dirigiu-se à porta. Neste instante, sem saber exatamente o porquê, resolvi lhe fazer a derradeira pergunta. Em verdade, creio que a fiz apenas para tentar me solidarizar com sua dor, ou para encher de palavras o pequeno trajeto que separava a mesa onde estávamos até a porta.

– Como ela foi atropelada?, disse eu.

– Ela desceu do ônibus e atravessou a rua sem olhar. Soltou-se e correu para a calçada à frente, mas foi atingida por uma motocicleta em alta velocidade e arremessada há mais de 20 metros de distância.

– Soltou-se?, perguntei eu sem refletir

Dulcinéia colocou a mão na maçaneta e, olhando levemente para trás, respondeu

– Soltou-se da minha mão, Dr Max. Era eu quem havia saído com ela para passear. Foi de minha mão que ela se desprendeu.

Meu olhos se arregalaram diante do fim da história. Olhei para Max como a entender a manobra que ele me havia anunciado.

– A maçaneta, Max…. agora eu entendi.

Max ajeitou seus cabelos caóticos mais uma vez e sorveu o último gole de seu cappuccino. A brisa sombria entrava pelas frestas da porta à frente enquanto os sons da noite nos convidavam a um abraço e um até breve.

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Acusações

acusacao

Eu acredito ser justo que mulheres comentem atendimentos em que se sentiram mal atendidas, lesadas, desrespeitadas etc, inclusive dizendo o nome do profissional quando isso ocorrer em grupos fechados. Por outro lado sou contrário aos linchamento virtuais de profissionais para quem não se dá direito de defesa. Sempre que escuto essas histórias eu digo “é, pode ser, mas gostaria de escutar a outra parte“. Entretanto, nas poucas vezes que isso aconteceu, fiquei impressionado com as diferentes histórias apresentadas quando ambos os lados tem a oportunidade de se expressar .

Um exemplo: Uma apresentadora de TV foi demitida e escreveu uma dura carta acusando os diretores pela sua demissão. Fiquei bravo com eles. Hoje surgiu a versão dos diretores que a demitiram. Fiquei puto com ela. Qual a versão verdadeira?

Toda mãe sabe parir e todo bebê sabe nascer” são tão somente palavras de ordem que fazem sentido no furor do ativismo. Na vida real há problemas, intervenções necessárias, cesarianas e todo tipo de merda possível, que em boa parte das vezes não tem a ver com a violência do profissional, mas com o uso adequado de sua arte para oferecer segurança às mães e aos bebês. Muitas vezes esses pacientes sofrem pela fantasia exagerada que criam sobre seus partos e não por uma real falha do profissional que as atendeu.

Para ser justo é preciso escutar com a razão, e não apenas com o coração.

Entretanto, o que eu afirmo em nada invalida a existência de violência obstétrica, que quanto mais invisível é mais intensa se apresenta. A descrição das pacientes NUNCA deve ser desconsiderada, ao mesmo tempo que não se pode desconsiderar a fala dos profissionais. A experiência nos oferece a oportunidade de entender que um parto não depende apenas dos cuidadores. Eles são uma parte fundamental do processo, mas não podem garantir nenhum resultado. Infelizmente muitas mulheres acreditam que as equipes de atenção humanizada podem solucionar bloqueios de ordem psicológica e emocional, alguns deles com mais de 30 anos de construção.

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Fúria

Ele voltou o olhar para ela logo após seu desabafo. Dos olhos dela fugiam faíscas luminescentes de indignação. Não havia nenhum ensejo de paz enquanto o corpo de Adélia se projetava à frente e seus lábios cuspiam dor e ressentimento. Não pensou sequer em dar o abraço que ela tanto precisava; naquele momento de dor seus braços seriam os polos magnéticos opostos ao dela. Limitou-se a falar.

– Como poderia eu retirar-lhe o ódio, único alimento possível para sua alma sofrida? A mim não cabe criticá-lo, Adélia, apenas permitir que sua energia se gaste lentamente, como o fogo que se vai quanto mais incandesce. Impedir sua raiva é ignorar o quanto ela ainda lhe protege. Sua cólera cega lhe resguarda do seu maior medo: a culpa. Enquanto você carregar seu ódio com tanto cuidado e tratar dele com tanta ternura, sua culpa se manterá adormecida.

Lançou para Adélia seu derradeiro sorriso, e deixou para ela uma pergunta, da qual se seguiu um silêncio.

– Que direito tenho eu de despertar o monstro da sua culpa? Como permitir que o silêncio dos seus ódios faça acordar o mal que tanto esconde? Como roubar a muleta que lhe sustenta, Adélia?

Adélia ofereceu apenas o vazio como resposta.

Babette, “Adélia e outros contos”, ed Paris, pag, 135

Babette foi um escritor francês, nascido em Lyon em 1910, tendo morrido em Montpellier em 1991, em decorrência de um câncer. Na verdade, esse era o pseudônimo de Jean Michel Garrot, um jornalista e ex militar do exército francês, que escreveu por muitos anos para jornais e revistas femininas com o pseudônimo “Babette”. Foi um dos mais conhecidos escritores franceses da primeira metade do século XX. Entretanto, apesar da fama e da razoável fortuna, podia passear despreocupadamente por qualquer cidade francesa, já que sua identidade só foi revelada pouco antes de morrer. Começou escrevendo para o diário vespertino Journal de Lyon, respondendo perguntas de mulheres sobre casamento, filhos, educação e até moda. Sua formação em jornalismo, na Sorbonne, havia lhe garantido uma escrita elegante e sofisticada. Durante muitos anos manteve a sua coluna no jornal e algumas revistas femininas, até que Babette/Jean Michel resolveu se aventurar pela literatura. Para isso começou a escrever o que se convencionou chamar “pornografia feminina”, que são histórias românticas, cheias de reviravoltas, com ciúme, desconfiança, traição e a redenção amorosa que, via de regra, ocorria no epílogo de suas novelas. Passou a publicar no formato de “pocket books” nas bancas de jornal, com o nome genérico de “Babette” seguido do nome da história específica, como se fossem os capítulos de uma imensa série de narrativas. O sucesso foi rápido, e imediatamente se tornou a literatura preferida de meninas adolescentes que corriam às bancas quando havia o lançamento de uma nova edição. Babette se tornou extremamente popular e 230 exemplares foram publicados desde que o folhetim se iniciou, sendo traduzido em inglês, espanhol, alemão e italiano. As histórias eram repletas de elementos clássicos da fantasia feminina: jovens militares, homens da aristocracia, sogras invejosas, patrões maldosos, jovens pobres de bom coração e ricos perversos e traiçoeiros. Durante anos a identidade de Jean Michel foi mantida como um segredo pela sua editora, que tratava este mistério como uma peça de marketing. Em 1978 uma mulher chamada Isabelle Marie Deschamps afirmou que havia escrito as novelas de Babette, tendo alguns minutos de fama na TV francesa. Todavia a farsa durou pouco tempo, pois provou-se que ela era uma farsante, o que foi confirmado pela editora Paris, dona dos direitos autorais. A verdadeira identidade de Babette foi revelada no programa “Un nuit a Paris”, para o famoso apresentador e jornalista Maurice Lefévre. Num domingo à noite em 1988, Babette apareceu por detrás de uma cortina num estúdio de televisão e a França inteira se surpreendeu com a figura de um homem de 70 anos de idade, baixa estatura, cabelos brancos e usando óculos, que durante décadas cativou com sua escrita a atenção das meninas da França e de vários países de língua francesa. Na entrevista, Jean Michel disse que, apesar de gostar das vantagens do anonimato, era hora de revelar o segredo tão bem guardado. Naquele mesmo ano ele recebera o diagnóstico de um câncer pulmonar que, por fim, o levaria à morte poucos anos depois, e por isso achou que era o momento adequado de se revelar. Quando questionado sobre de onde retirava material para tantas histórias escritas respondeu que os anos que trabalhou como colunista de assuntos femininos no Journal de Lyon colecionou milhares de cartas de leitoras sobre seus assuntos pessoais, suas dúvidas, suas angústias e seus medos, mas também de seus sonhos, alegrias, conquistas e fantasias. “Meus livros são a mistura das histórias de milhares de mulheres, cujas vidas estão nas personagens dos meus livros, como peças de um quebra cabeças imenso e complexo”, disse ele. Jean Michel foi casado com Augustine Garrot e teve 4 filhas: Marie Claire, Dominique, Josephine e Arlene. Morreu em 1991, e está enterrado no cemitério de Montpellier.

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Responsabilidade e Culpa

culpa+2

Uma das confusões mais comuns que vejo no mundo das redes sociais é entre os conceitos de “responsabilidade” e “culpa“. Isso gera discussões e até exclusões, como muitos já foram vítimas. Por isso creio ser importante clarificar o que estes termos pretendem, para que fiquem bem assimilados.

Podemos dizer que os negros não tiveram culpa pela escravidão, e nem os gays pela exclusão e preconceito. Nenhuma dessas condições é feita por escolha do sujeito. Entretanto, é responsabilidade dos negros e dos gays mudar sua realidade. Ninguém vai carregá-los no colo, o que seria estúpido e indigno. Somente eles podem protagonizar suas lutas e sua busca por espaço e reconhecimento. Esse protagonismo é deles.

Isso não implica que sujeitos como eu, branco e heterossexual, não possam ser estimuladores de uma nova realidade inclusiva para negros e homossexuais. Faz parte das nossas tarefas eliminar as diferenças possíveis. O mesmo pode ser dito das lutas femininas e em especial pela dignificação do Parto. Não é culpa delas a situação objetualizante e coisificante, mas é responsabilidade delas – com o auxílio de todos nós – a retomada do protagonismo.

Espero que isso ajude a descomplicar esta confusão semântica.

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A Culpa é dos Outros

julgamento

Meu filho, porque você comeu o bolo que estava aqui em cima? Mamãe falou que estava quente e não era para comer!
A criança faz cara de choro e aponta para o irmão.
– Mas o  mano também comeu!
A mãe põe as mãos na cintura e o encara com olhar de falsa brabeza:
– Meu filho, desde quando apontar a culpa nos outros diminui o seu erro?

Quem não passou por esta cena?

Apenas quem não teve infância, ou uma mãe zelosa para apontar o certo e o errado para um filho. Pois surpreendentemente, este tipo de lógica usada pelo garoto ainda é muito frequente nos discursos que vejo sobre temas relativos à mulher. Analisem apenas estes dois fatos atuais:

O aborto passa por uma fase de intenso questionamento e avaliação por parte da sociedade civil. Evidentemente as mulheres – seu corpo e sua autonomia – são os mais visados. Parece que a sociedade ocidental patriarcal acende um sinal vermelho sempre que as liberdades femininas são acenadas, mesmo as mais sutis. As antigas estruturas falocêntricas da cultura parecem se abalar diante de qualquer iniciativa que ofereça às mulheres uma liberdade maior para a escolha de seus destinos e para gerenciar com autonomia a sua vida. Por serem elas “matrizes” tendemos a entendê-las como contêineres fetais que carregam algo que é, acima de tudo, nosso.  As mulheres ainda estão longe de garantir o pleno protagonismo de seus corpos.

Entretanto, quando li os primeiros escritos atuais sobre o aborto fiquei um pouco surpreso com o conteúdo de vários deles. Ao invés de testemunhar uma chuva de argumentos em favor da liberdade de escolha,  enfocando a questão de saúde pública envolvida, as mortes evitáveis de mulheres ou a falha dos sistemas policiais de obstaculizar o aborto clandestino no mundo inteiro,  eu me deparei com argumentos ao estilo o “aborto do homem“.

Esse argumento se baseia no fato de que milhões (ao que parece 5 milhões) de crianças não tem o nome do pai na sua certidão, e que isso seria um “aborto de pai“. Quando eu vi essa ideia pela primeira vez eu pensei: “Caraca, o que tem a ver uma coisa com a outra? Porque um pai abandonar um filho é o mesmo que não permitir que ele venha a nascer? Estão tentando comparar maçãs com brócolis! Qual a razão para criar mais culpados nesta equação?“.

Ainda não consigo aceitar que um pai fugir de suas responsabilidades pudesse ser comparável ao aborto, o impedimento de um nascimento. Ambas as situações são problemas sociais que precisam ser atacados: o aborto clandestino e a falta de presença e/ou suporte do genitor no cuidado com seus filhos. Entretanto, o aborto não passa a ter uma compreensão melhor se nós encontrarmos falhas – inquestionáveis – nas condutas masculinas relacionadas à criação de filhos! O argumento do “aborto do pai” em NADA ajuda a descriminalizar ou legalizar o aborto, apenas usa a mesma retórica da criança que comeu o bolo ainda quente. E isso, ao meu ver, apenas exalta uma culpa feminina que tem vergonha de se expressar, da mesma forma como o menino que comeu o bolo sente-se culpado e tenta exonerar esta culpa apontando para o irmão. Não é necessário criar mais culpados para libertar as mulheres do jugo do patriarcado e oferecer-lhes autonomia. O aborto do pai é um erro retórico que apenas atrasa o debate.

Outro cenário: um adolescente toma 30 “shots” em uma competição de quem suportava mais bebida alcoólica em uma festa de “bichos” de uma universidade paulista. Em consequência da intoxicação aguda por álcool ele vem a falecer. A sociedade consternada se pergunta: De quem foi a culpa? Universidade? Cultura?  Sociedade? Família?” Alguém insinua a estúpida e extemporânea pergunta: “Onde está a mãe desse menino que permitiu que isso acontecesse?

Para uma mulher enlutada pela mais dura das dores, a mais cruel das tristezas, o silêncio quebrado pelo soar de um telefone na madrugada, não poderia haver nada pior do que ser acusada por esta tragédia. Posso apenas imaginar a dor amplificada de uma mulher que perde o filho e depois é açoitada por acusações infundadas e absurdas.

Ora, muitas dessas tragédias ocorrem a despeito de todos os esforços que fazemos para que elas sejam evitadas. Eu sou pai e avô, além de ser tio de dezenas de sobrinhos “capetas”, e já tive minha cota de sustos e pânicos. Apontar o dedo para uma mãe nestas condições é mais do que injusto; ultrapassa todos os limites da crueldade. Fazer isso é desconsiderar as circunstâncias e contextos, as forças do grupo e as necessidades de expressão do ego em uma época tão complexa da vida como a adolescência.

Eu mesmo já bebi em uma festa da faculdade. Tomei todas, apenas para saber do que se tratavam as alterações de consciência que eu testemunhava no hospital de Pronto Socorro. Saí cambaleando da festa em direção à minha casa, e no meio do caminho caí. Perdi todos os meus documentos (e só soube dias depois), mas fui socorrido por um gentil passante que me ajudou a entrar em um táxi. Mas poderia ter sido assaltado, esfaqueado, atropelado. Poderia ter morrido por uma dessas tragédias que estão no jornal de hoje.

Seria justo culpar a minha mãe – ou o meu pai!!! – por uma bebedeira juvenil de um menino que antes disso nunca havia bebido, e que depois disso nunca mais se embriagou?

Certo, é estúpido e injusto oferecer esta conta para uma sofrida mulher pagar. Mas diante dessas acusações eu esperava uma defesa aberta da maternidade, um pedido de consciência sobre estes casos, uma solicitação de ponderação sobre os múltiplos elementos que levam a estas tragédias. Eu queria apenas serenidade e menos apontar de dedos. Entretanto, sou obrigado a ler algumas matérias cujo argumento principal é: “Ah, estão acusando a mãe do adolescente? Mas e o pai? Porque não falam dele?

Essas pessoas realmente acreditam que esta mulher terá menos peso a suportar se direcionarmos esta carga para seu marido? Acreditamos mesmo que a dor de uma perda como esta fica menos dolorida se acrescentarmos INJUSTAMENTE outros culpados? A angústia que uma mulher sofre por optar por um aborto fica menor quando sabemos que os homens também fraquejam e abandonam filhos?

Por quê o discurso de algumas feministas (a minoria) insiste nesta dicotomia infantil? Porque não investir em desculpabilizar as mulheres que escolhem pelo aborto ou oferecer aconchego e abraços para uma mãe cujo filho se foi numa brincadeira trágica de faculdade? Porque é necessário atirar a culpa para os “inimigos”, os homens?

E porque, afinal, continuamos a escolher os homens como inimigos quando o patriarcado e o machismo é que deveriam ser os verdadeiros alvos?

Quando me perguntam porque as modificações na sociedade são tão lentas no que diz respeito aos direitos das mulheres eu sempre respondo que enquanto as mulheres aceitarem este discurso equivocado as conquistas continuarão lentas.

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