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Inquisição

Chorei lendo.

É longo; só leia se a injustiça e a violência dos poderosos machuca sua alma. Marx tinha razão e a história se repete como farsa. Também tem razão o articulista ao dizer que o objetivo dos fascistas não é destruir apenas a esquerda, mas as próprias conquistas civilizatórias da Revolução Francesa. A treva que se abate sobre o mundo é densa, mas seremos semente.

Calas hoje se chama Lula ou Luís Inácio. Melhor, os dois. Está preso nas masmorras de Curitiba sem nenhuma prova, apenas delações de torturados e a convicção de julgadores fanáticos. Tem a alma inocente como Jean Calas, e seus ossos quebrados pela injustiça. Moro é o inquisidor estúpido preconceituoso e cruel que receberá da história o repúdio, o nojo e o desprezo.

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Lula está preso, Voltaire está morto. Babacas!

Por Rogério de Campos, publicado em Le Monde Diplomatique Brasil

O caso Calas é uma das pedras fundamentais daquilo que tem sido chamado sistema democrático ocidental. Quando o Brasil se coloca como parte da vanguarda do processo regressivo que pretende destruir tal sistema e as ambições do Iluminismo (Estado Laico, educação pública, liberdade de expressão…), podemos dizer ser inevitável ter seu caso Calas, que, qual em rituais esotéricos, deve ser conjurado e revertido simbolicamente.


O magistrado David Beaudrigue estava convicto: o jovem Marc-Antoine Calas fora assassinado pela própria família. O pai, a mãe e um dos irmãos, e também a empregada Jeanne Viguière e um jovem amigo da família, Gaubert Lavaysse: todos que estavam na casa naquela noite do dia 13 de outubro de 1761 diziam que ao descer da sala de jantar, que ficava no primeiro andar, para o térreo, encontraram o corpo de Marc-Antoine no chão. Falou-se de um desconhecido misterioso que fugira, sem ser identificado. Falou-se de uma punhalada. Mas o médico retirou a gravata de Marc-Antoine e ali estava a marca no pescoço: o rapaz fora enforcado ou estrangulado.

Na cidade de Toulouse, no sudoeste da França, Beaudrigue era mais que um magistrado comum: era um capitoul, ao mesmo tempo investigador, promotor e juiz. Usando sua autoridade, naquela mesma noite mandou para a prisão todos que estavam na casa, inclusive o cadáver.

No dia 15, a verdade veio à tona: Marc-Antoine se suicidara. Seu irmão, Pierre Calas, e Gaubert Lavaysse o encontraram enforcado. Desesperados, chamaram o pai, Jean Calas. Os três desceram o corpo para o chão. A mãe, Anne-Rose, ficou assustada com os gritos e pediu a Jeanne que fosse ver o que acontecera. Só depois Anne-Rose foi até lá. Em meio ao desespero, Jean Calas ordenou a todos que não contassem a ninguém que Marc-Antoine se suicidara. Temia o castigo que era tradicionalmente imposto aos suicidas: seu corpo era amarrado nu a uma grade (a claie d’infamie), arrastado pelas ruas da cidade, apedrejado, até ser jogado no depósito de lixo da cidade.

Mas, apesar dessa confissão, o capitoul Beaudrigue continuava convicto: a família, com a ajuda de Jeanne e de Lavaysse, assassinara Marc-Antoine. Ordenou que todos continuassem presos. Outro capitoul, Lisle Bribes, aconselhou ao colega um pouco de calma e questionou a regularidade daquela detenção. Impaciente, Beaudrigue respondeu:

– Isso é comigo, o que está em causa é a religião (“Je prends tout sur moi. C’est ici la cause de la religion”).

Beaudrigue era católico. A família Calas era protestante.

O capitoul aparentemente acreditava nos boatos que começaram a correr pela cidade segundo os quais Marc-Antoine fora assassinado pela família porque desejava se converter ao catolicismo.

O quanto havia de fanatismo religioso em Beaudrigue é difícil de determinar. Durante alguns séculos, ele foi visto por historiadores como um magistrado rígido, cruel e intolerante. Voltaire o considerava tudo isso e também um patife, mas não tinha provas para esta última acusação. Em 1927, Anatole Feugère, professor da Faculdade de Letras de Toulouse, pesquisando nos arquivos da Corte de Justiça da cidade, descobriu documentos de um antigo processo que revelaram o quanto a intuição do filósofo estava correta: os velhos papéis demonstraram que Beaudrigue pouca coisa fazia que não motivada por subornos ou interesses pessoais. Recebia dinheiro de donos de salões de jogos e prostíbulos para fazer vista grossa. Tomava para si cargas de vinho apreendidas de contrabandistas e, santarrão, até promovia orgias em sua casa de campo. Em uma ocasião, usou sua autoridade para punir duramente o ex-amante de sua amante.

Mas, mesmo sem as descobertas do professor Feugère, seria fácil suspeitar das motivações de Beaudrigue para ser tão cruel com os Calas. O poderoso cargo de capitoul era uma conquista que se fazia no campo das relações políticas. O mais poderoso ministro da França naquele momento era o conde de Saint-Florentin, hostil aos protestantes. Beaudrigue trocava correspondência com Saint-Florentin. Além disso, a elite de Toulouse era totalmente católica e o poder judiciário em boa parte dominado pelos Penitentes Brancos (uma irmandade católica). Matadores de protestantes costumavam ser celebrados como heróis. Ser intolerante com hereges era ótimo para a carreira de um capitoul.

Em Toulouse, que fora uma das capitais da heresia cátara no século XII e depois um centro importante do protestantismo na França, o catolicismo teve que se impor a ferro e fogo. Contra os cátaros foram necessárias três cruzadas. Foi em Toulouse que são Domingos criou a Inquisição. E em 1562 aconteceu um grande massacre de protestantes, no qual foram mortas entre 3.000 a 5.000 mil pessoas. Na época, todos os protestantes sobreviventes foram expulsos da cidade. O aniversário do massacre, comemorado no dia 17 de maio, foi uma das principais festividades da cidade até o século XIX. Nesse dia, como retribuição à luta da cidade contra o protestantismo, o papa concedia indulgências a quem fosse rezar na catedral ou na igreja de Saint-Sernin, na qual se encontra uma peça de madeira entalhada que mostra um porco no púlpito com a legenda: “Calvino, o porco, pregando” (“Calvin le porc, prêchant”).

A Inquisição de Goya

Em 1761, a população de Toulouse era formada por 50 mil católicos e 200 protestantes. Que conviviam mais ou menos pacificamente. O comerciante Jean Calas tinha negócios com católicos, os Calas tinham amigos católicos e a própria Jeanne, empregada da família há mais de 20 anos, era uma católica fervorosa. Mas haviam aqueles católicos mais que fervorosos, febris. Corria pela região a história de que os protestantes haviam se reunido em um sínodo, na cidade de Nimes, no qual decidiu-se que os pais e mães eram obrigados a matar seus filhos se esses tentassem mudar de religião. E os boatos diziam que Lavaysse fora enviado à casa dos Calas para ajuda-los a executar o filho.

Por mais absurdo que isso pareça, foi justamente essa história delirante de uma conspiração protestante para matar Marc-Antoine a base da argumentação da acusação:

“Calvino diz que todos os filhos que violem a autoridade paterna, quer através do desprezo, quer da rebelião, são monstros e não homens. E que, portanto, Nosso Senhor ordena que sejam condenados à morte todos os que desobedeçam a pai e mãe. Calvino é de opinião que o filho rebelde e desobediente seja morto”.

Calvino, segundo a acusação contra os Calas, teria se baseado em Deuterônimo 21:18: “Se alguém tiver um filho rebelde e indócil, que não obedece à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e não os ouve mesmo quando o corrigem, então, seu pai e sua mãe pegarão nele, e o levarão aos anciãos da sua cidade e à porta do seu lugar, e dirão aos anciãos da cidade: ‘este nosso filho é rebelde e indócil, não dá ouvidos à nossa voz, é um devasso e beberrão’. Então, todos os homens da sua cidade o apedrejarão com pedras, até que morra”.

Os outros protestantes, de Toulouse e da região, ficaram escandalizados com tal acusação. Denunciaram que o suposto sínodo em Nimes nunca acontecera e que o documento em que Calvino exortara o assassinato de filhos rebeldes era falso. Mas Beaudrigue não lhes deu atenção. Ele tinha outra preocupação: se não havia qualquer prova de que os Calais haviam matado o filho era preciso ao menos provar que havia um motivo para que eles o tivessem feito, provar que Marc-Antoine de fato pretendia se converter ao catolicismo. E o capitoul não tinha nem essas provas. Tinha boatos e tinha sua convicção.

Beaudrigue decidiu então lançar uma “monitória”, uma espécie de chamamento para que pessoas que soubessem de algo sobre o caso aparecessem para depor. Pela monitória, se alguém soubesse algo e não se manifestasse estaria automaticamente excomungado. Em geral, as monitórias funcionavam: com medo de serem condenadas ao inferno, as pessoas que tinham alguma informação corriam para depor. Também em geral, as monitórias não costumavam especificar se queriam depoimentos a favor ou contra os réus. Não era o caso dessa emitida por Beaudrigue, claramente direcionada: queria ouvir quem soubesse algo da conversão de Marc-Antoine, das ameaças que os pais faziam a ele, de uma reunião em que se deliberou sua morte, daquela noite do dia 13 na qual “esta execrável deliberação foi executada, fazendo ajoelhar Marc-Antoine, o qual, pela surpresa ou pela força foi estrangulado ou enforcado” e, por fim, “todos os que saibam quem são os autores, cúmplices, implicados, aderentes deste crime, que é dos mais detestáveis”.

E aí apareceu de tudo, gente que viu Marc-Antoine em igrejas, rezando, e até uma moça que se dizia ex-protestante e que garantiu que o rapaz não só se convertera ao catolicismo, mas também a convertera (depois ficou claro que a história era fantasia da garota, que sempre havia sido católica).

Um exemplo de depoimento:

“Massaleng, viúva, declarou que sua filha lhe contou que o senhor Pagès havia contado à ela que M. Soulié havia contado a ele que a senhorita Guichardet contara a ele que a senhorita Journu havia dito algo a ela que a fez concluir que o padre Lerraut, um jesuíta, tinha sido o confessor de Marc-Antoine Calas”. O padre Lerraut foi convocado para depor e demonstrou que a história não era verdadeira.

Portanto, não havia provas e os testemunhos eram bem frágeis. Mas Beaudrigue tinha convicção e isso ele podia provar: ordenou que Marc-Antoine tivesse um pomposo enterro como mártir católico. Juntou-se uma multidão, vieram delegações de todas as ordens religiosas e todas as confrarias de penitentes. Ou seja, a hipótese de que Marc-Antoine tivesse se suicidado havia sido completamente descartada.

Condenados à morte na primeira instância, os Calas recorreram à segunda instância, que era a Corte de Justiça de Toulouse. Mas ali também não havia esperança: até porque diversos dos juízes eram da irmandade dos Penitentes Brancos. Um dos juízes chegou a dizer às duas filhas de Calais (que não estavam na casa no dia 13 de outubro, portanto não foram implicadas no caso): “Não tendes outro pai agora, senão Deus”.

Ainda assim, os juízes vacilavam: também tinham a convicção da culpa, mas viam que ela não estava demonstrada. Não havia provas. Então alguém teve a ideia de julgar e condenar Jean Calas separadamente. Acreditavam que ele, um pacato comerciante de 64 anos, não aguentaria as torturas que precediam a execução, muito menos encarar o cadafalso: iria confessar e entregar seus cúmplices.

Às quatro horas da manhã do dia 10 de março de 1762, depois de passar a noite na infernet (masmorra reservada aos condenados à morte) foi levado à câmara de torturas. Dois padres ainda tentaram convencê-lo a converter-se ao catolicismo, para assim salvar sua alma já que a vida estava perdida. Mas ele se recusou.

Beaudrigue o esperava na câmara e anunciou que aquele seria o último interrogatório. Calas foi torturado por horas, mas resistiu a todas as tentativas do capitoul de arrancar dele uma confissão. Por fim, foi levado para a praça de Saint-Georges, que já estava lotada pela multidão. O cadafalso estava montado. Jean Calas foi condenado a ser morto na roda, uma das mais cruéis formas de execução: a vítima é colocada sobre uma roda, seus ossos são quebrados e ela fica ali, às vezes sendo comida viva pelos corvos e aves de rapina, até que morra de dor ou que a autoridade tenha a misericórdia de dar o golpe final. Beaudrigue fez mais uma tentativa, pareceu vacilar em sua convicção e admitir que talvez outra pessoa tivesse assassinado Marc-Antoine:

– Calas, embora inocente, sabe talvez quais foram os autores do crime cometido contra a pessoa de Marc-Antoine?

– Não sei.

Calas ficou duas horas na agonizando naquela roda, até que o carrasco o estrangulou. Seu corpo então foi lançado a uma fogueira.

Conta-se que enquanto ele agonizava um padre chamado Bourges fez uma última tentativa de arrancar sua confissão. E o Calas respondeu irritado:

– Padre?! O quê?! Também acredita que se possa matar um filho?!

Talvez um tanto desnorteados com a inesperada firmeza de Jean Calas, os juízes liberaram os outros acusados dias depois. Pierre foi condenado a um simulacro de exílio perpétuo: foi levado para fora de um dos portões da cidade e então conduzido novamente para dentro da cidade, para o convento dos dominicanos onde ficou sob vigilância até o dia 4 de julho, quando fugiu.

Voltaire vivia do outro lado da França, em Ferney, na fronteira com a Suíça. Quando ouviu a história do protestante que matou o filho, chegou a fazer piada a respeito. O filósofo aceitava como fato que Jean Calas era um fanático que matou o filho porque este queria se tornar católico. Voltaire tinha tanto desprezo pela intolerância católica quanto pela protestante.

Mas um comerciante de Marseille, que vinha de Toulouse e estava de passagem por Ferney, contou a Voltaire a outra versão da história. O filósofo ainda assim, resistiu a acreditar que os juízes pudessem ter errado. Escreveu a um amigo que o crime de Calas lhe parecia pouco verossímil, “mas é menos verossímil ainda que os juízes, sem qualquer interesse, tenham feito perecer um inocente no suplício da roda”.

Voltaire começou uma espécie de investigação para chegar à verdade. Mandou cartas para amigos que podiam saber mais do caso. “Quero saber de que lado nesse caso está o horror do fanatismo”, diz em uma das cartas. Por fim, se convenceu da inocência de Calas. E iniciou a épica campanha para que a verdade viesse a público. Seu célebre Tratado sobre a Tolerância (Traité sur la tolérance à l’occasion de la mort de Jean Calas – 1763) é parte dessa campanha que alcançou a vitória no dia 9 de março de 1765, quando o Conselho Real, em Paris, reabilitou Jean Calas e sua família, que foi indenizada pelo rei. Exatamente três anos depois da sentença que condenou Calas à morte.

O ministro Saint-Florentin tratou de se desvincular discretamente do caso. Usou outra falha de Beaudrigue, em outro caso, como desculpa para destituí-lo. Beaudrigue enlouqueceu. Tentou suicídio duas vezes. Na segunda tentativa foi bem-sucedido.

Voltaire tinha 70 anos quando ouviu falar de Calas pela primeira vez. Já havia feito sua fama como filósofo. Mas o caso daquele comerciante de Toulouse revolucionou sua biografia: ele se tornou um herói, um campeão na defesa dos injustiçados. E se tantos bustos dele enfeitam bibliotecas até hoje é menos por causa de Cândido que por Calas. Nove de março de 1765 passou a ser o jour de gloire do iluminismo francês.

Para diversos historiadores, o caso Calas marca o início da campanha contra a pena de morte e contra a tortura. O caso virou o grande monumento ao princípio jurídico da Presunção da Inocência. Tal princípio já estava presente no Corpo do Direito Civil, de Justiniano: “Ei incumbit probatio qui dicit, non qui negat” (“Àquele que disse e não ao que nega incumbe à prova”), mas foi mais ou menos esquecido durante a Idade Média, que talvez tenha começado a acabar quando o cardeal e jurista francês Jean Lemoine escreveu “item quilbet presumitur innocens nisi probetur nocens” (“uma pessoa é considerada inocente até ser provada culpada”).

É também em 1765, ano da reabilitação de Calas, que William Blackstone publica Commentaries on the Laws of England com seu famoso ratio: “é melhor que dez culpados escapem à condenação que um inocente sofra”. Podemos pensar que isso foi coincidência, resultado da Inglaterra estar mais adiantada em seu caminho rumo à democracia. Mas é certo que é Calas quem está na memória dos autores da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) quando eles escrevem o artigo 9: “Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei”.

É claro que os Judiciários do mundo inteiro seguiram cometendo as injustiças que lhes são próprias. Mas a passou a existir aquela monumental referência do que é certo.

O caso Calas é, portanto, uma das pedras fundamentais daquilo que tem sido chamado sistema democrático ocidental. Assim, quando o Brasil se coloca como parte da vanguarda desse processo regressivo que pretende destruir tal sistema e as ambições do Iluminismo (Estado Laico, educação pública, liberdade de expressão…), poderia se dizer que era quase inevitável ter seu caso Calas, que, qual em rituais esotéricos, deve ser conjurado e revertido simbolicamente. Como se o caso precisasse ser refeito para que todas as consequências que teve possam ser revertidas. Então a tragédia de Toulouse volta a acontecer em Curitiba, na forma de farsa.

Como em Toulouse, o capitoul Sergio Moro não tem provas que sustentem a condenação de Lula. Moro, como Beaudrigue no passado, sequer consegue provar que há um crime. Existem os depoimentos, alguns delirantes, alguns maliciosos e interessados, alguns depoimentos, em Toulouse, arrancados à custa de ameaças de excomunhão, vários em Curitiba arrancados às custas de torturas (e não é tortura manter um cidadão preso por meses até que ele confesse a suposta culpa de outro cidadão?).

Mas há a diferença fundamental para o primeiro caso Calas: agora ninguém perde de vista de que se trata de uma farsa. Sabem disso tantos os juízes do Supremo que se colocam como reféns dos ritos quanto o colunista de jornal para quem a condenação faz justiça ainda que o Lula não seja culpado dos crimes que a motivaram. Sabe disso até mesmo o nerd boçal que repete eufórico “Lula tá preso, babaca!” e comemora a prisão como o fanático torcedor comemora um gol de mão.

Chega a ser injusta a acusação de hipocrisia feita aos protagonistas dessa farsa. Porque eles não prestam tal respeito à virtude. Tudo está à vista, porque precisa ser à vista: só assim serve como aviso. O que demorou, talvez, a ficar claro é que o objetivo, como já se viu, não foi apenas impedir o que aparentemente era inevitável: a reeleição do ex-metalúrgico. Mas impedir a possibilidade de eleição de um metalúrgico. Não apenas destruir o legado do PT, ou da Esquerda, ou do Getulismo, mas destruir também o legado da Revolução Francesa.

E nós, da periferia do capitalismo, que tínhamos várias razões para duvidar da pertinência do termo Civilização Ocidental, vemos a Democracia, que mal tinha posto os pés aqui, voltar para o navio e partir.

* Rogério de Campos é editor, tradutor e autor dos livros Revanchismo, Dicionário do Vinho (Prêmio Jabuti) e Imageria (Prêmio HQ Mix). Seu livro mais recente, Super-Homem e o Romantismo de Aço (Ugra Press, 2018) fala da relação do gênero super-heróis com o fascismo

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Mata!!!

Se eu fosse exposto à sanha justiceira de uma massa ensandecida, você me defenderia? Pense bem: ajudaria a colocar uns gravetos em solidariedade às mulheres e às crianças ou pensaria nas outras hipóteses (exagero, ilusão, mentira, fantasia)? Vou mais longe: se fosse um filho, marido, namorado, amigo, seu pai você teria o mesmo sangue frio e decretaria que “criança não mente” ou “não se duvida da vítima“? Ou diria “ah, mas esse caso é diferente“?

Eu não li nada sobre o caso de abuso da menina no avião além da manchete que é jogada na nossa cara pelas redes sociais. Em verdade eu me nego a ler sobre isso porque me dói pelas duas possibilidades: se for verdade e se não for. Se for um caso verdadeiro de abuso a descrição do que ocorreu me faz identificar com a indignação da família e com a sensação de impotência diante da violência cometida. Porém, se não for verdade, penso na dor terrível de sofrer uma acusação dessa gravidade sem ter cometido crime algum. Posso sentir ambas as dores e por esta razão me protejo ao não querer saber nenhum detalhe. Se alguém tiver curiosidade em entender como me sinto diante desses relatos assista “The Hunt”, um filme brilhante e sensível sobre uma acusação de pedofilia. Qualquer um que já tenha sido vítima de uma injustiça e sofreu julgamentos pelo “senso comum” poderá entender a minha angústia.

Já participei de perto de uma situação que ocorreu com um amigo de parentes meus. Uma menina acusou na policia o ex-namorado de abuso em uma situação aparentemente normal. O caso teve seguimento na justiça, não houve nenhuma prova substancial que sustentasse a acusação e nenhuma evidência de que o rapaz que tivesse agido com violência. Por isso foi absolvido. Essa foi a decisão do processo, mas nunca fiquei sabendo dos detalhes pelas razões que expus acima. Se houve ou não algum abuso é algo que ficará sepultado na memória dos dois envolvidos.

Entretanto, pude ver como as mulheres próximas apoiaram o rapaz diante da acusação. A irmã, a mãe, as amigas e outras mulheres próximas ofereceram a ele o apoio fundamental para suportar os ataques. Desta forma percebi que a adoção de uma postura de defesa irrestrita à narrativa feminina não é automática ou natural; outros afetos entram em pauta.

Quando vejo linchamentos assim (ou desejos de justiciamento) sou sempre tomado de uma espécie de pânico, talvez por coisas bem pessoais e subjetivas. Consigo entender o mal que um abuso pode causar à uma criança, uma mulher e sua família, mas já vi tantas injustiças sendo cometidas pelo “fenômeno de boiada” que sempre temo que esse possa ser mais um sujeito destruído pela ânsia de linchamentos causados por uma raiva esparsa que se concentra em um sujeito, como ocorre com o menino que rouba seu celular e é espancado à morte por uma multidão que encontra nessa catarse de ódio uma espécie de alívio para suas tragédias pessoais.

Diante de uma acusação dessa gravidade  como o abuso sexual, eu jamais correria a dizer que o sujeito é culpado sem ter plena certeza disso. A possibilidade de atingir um inocente me paralisa. A ideia de sacrificar alguém que nada fez apenas por sentimentos de raiva e indignação me causam profundo horror. A sensação é semelhante àquela de quando algo desapareceu da sua casa e todas as suspeitas recaem sobre a faxineira negra e pobre. A possibilidade, mesmo minúscula, de não ser ela a culpada pelo desaparecimento me impede de tomar qualquer atitude acusatória, pois para mim é simples e fácil me identificar com a dor de ser acusado desta forma, ainda mais por gente poderosa contra a qual não se tem chance alguma.

Tentem enxergar essa história pelo outro lado. Procurem imaginar-se na outra ponta do dedo em riste. Mais uma vez: nada sei do que houve nesse e em outros relatos. Não sei qual a narrativa da mãe ou quais as provas que ela possui. Este é apenas um desabafo diante do monstro de indignação que se forma, cujos olhos ficam muitas vezes embaciados pelo calor de uma raiva justa, mas que não raro acusa e destrói inocentes.

Posso, todavia, afirmar que se a acusação fosse contra um amigo dileto eu correria para lhe defender, mesmo correndo o risco de “quebrar a cara”. Prefiro mil vezes errar por proteger meus amigos de uma possível injustiça do que ser fiel a conceitos abstratos e, assim, acabar por permitir – por ação ou omissão – que um afeto seja levado à fogueira.

Alguns argumentos deste debate me deixam com muito medo. Tipo “a mulher nunca é escutada“, ou “o depoimento dela não vale nada“. Ora, isso é verdadeiro na maioria das situações, mas ninguém pode ser julgado por ser homem ou por vivermos em um mundo machista. Precisa haver provas concretas de que um crime foi cometido, caso contrário haverá um caos jurídico onde qualquer acusação é tomada como verdadeira apenas por ter sido feita por um sujeito que pertence a um grupo oprimido. Lembrem que há poucos séculos as bruxas eram julgadas assim. Diante de um mal social qualquer os dedos eram apontados para elas, de forma imediata. Talvez tenha sido a partir daí que eu desenvolvi minha aflição.

Eu reconheço o sentimento de pessoas que acham que a solidariedade a uma causa (as mulheres, as crianças, o fim da impunidade, etc.) se sobrepõe à dor de alguém que pode estar sendo injustiçado. Eu entendo está atitude, mas só de pensar sinto calafrios.

Podemos então aceitar como verdade que qualquer ação peremptória de acusação é errada, seja ela dirigida ao suposto autor ou quando dirigida à queixosa. Mas eu defenderei a inocência de qualquer um até prova em contrário e trânsito julgado. E não sou eu que defendo esta posição; a própria evolução civilizatória escreveu este preceito de presunção de inocência nas constituições.

Como eu disse, defendo qualquer pessoa que está sendo acusada e se julga inocente, exatamente porque ela É inocente…. até se provar o oposto. Defender um homem só porque ele é homem é tão errado quanto defender uma mulher por ser mulher, ou uma criança por ser assim. Isso é preconceito. Eu não me identifico com os homens e não faço para eles defesas peremptória, mas me identifico com o sujeito – homem ou mulher – que vê a horda sequiosa de sangue se aproximar com a lenha e a gasolina sem que sua voz possa ser escutada.

Exemplo: um negro rouba um celular e tem várias testemunhas. Ele se diz inocente. O juiz o absolve porque nessa sociedade “ninguém escuta os negros”. Sério???? Seria lícito a um juiz falsear a realidade para contrabalançar a injustiça social histórica contra os negros????

Existe um preconceito histórico contra as mulheres e uma desconsideração da fala das crianças. Entretanto, não se conserta estes erros milenares criando outras injustiças ou oferecendo às mulheres uma voz que não possa ser contestada. Está errado. Não são a polícia e o juiz que vão consertar os preconceitos deixando de agir dentro da lei. O fato de crianças e mulheres serem desconsideradas nesta sociedade é um problema cultural que precisa ser resolvido…. pela cultura, e não pela justiça!!!

Quero apenas que as pessoas que o julgarem o façam sem preconceitos contra ou a favor, e que a verdade prevaleça. Espero que essa menina esteja bem e ouso esperar que o próprio acusado também fique bem. Se for inocente que consiga suportar os ódios que recebe; se for culpado que possa suportar o castigo merecido e que isso sirva de lição para o que resta de sua vida.

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Acusações

acusacao

Eu acredito ser justo que mulheres comentem atendimentos em que se sentiram mal atendidas, lesadas, desrespeitadas etc, inclusive dizendo o nome do profissional quando isso ocorrer em grupos fechados. Por outro lado sou contrário aos linchamento virtuais de profissionais para quem não se dá direito de defesa. Sempre que escuto essas histórias eu digo “é, pode ser, mas gostaria de escutar a outra parte“. Entretanto, nas poucas vezes que isso aconteceu, fiquei impressionado com as diferentes histórias apresentadas quando ambos os lados tem a oportunidade de se expressar .

Um exemplo: Uma apresentadora de TV foi demitida e escreveu uma dura carta acusando os diretores pela sua demissão. Fiquei bravo com eles. Hoje surgiu a versão dos diretores que a demitiram. Fiquei puto com ela. Qual a versão verdadeira?

Toda mãe sabe parir e todo bebê sabe nascer” são tão somente palavras de ordem que fazem sentido no furor do ativismo. Na vida real há problemas, intervenções necessárias, cesarianas e todo tipo de merda possível, que em boa parte das vezes não tem a ver com a violência do profissional, mas com o uso adequado de sua arte para oferecer segurança às mães e aos bebês. Muitas vezes esses pacientes sofrem pela fantasia exagerada que criam sobre seus partos e não por uma real falha do profissional que as atendeu.

Para ser justo é preciso escutar com a razão, e não apenas com o coração.

Entretanto, o que eu afirmo em nada invalida a existência de violência obstétrica, que quanto mais invisível é mais intensa se apresenta. A descrição das pacientes NUNCA deve ser desconsiderada, ao mesmo tempo que não se pode desconsiderar a fala dos profissionais. A experiência nos oferece a oportunidade de entender que um parto não depende apenas dos cuidadores. Eles são uma parte fundamental do processo, mas não podem garantir nenhum resultado. Infelizmente muitas mulheres acreditam que as equipes de atenção humanizada podem solucionar bloqueios de ordem psicológica e emocional, alguns deles com mais de 30 anos de construção.

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