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Flerte

Conheço mulheres simpáticas e extrovertidas que se deram muito mal nessas situações por causa de uma cultura patriarcal – mas também pela ignorância de alguns em reconhecer sinais.

Uma mulher que ri das suas piadas não está “dando mole”; ela apenas tem bom humor e está alegre. Não tome essas atitudes como “abertura”. Aprenda a ler sinais corporais e de linguagem antes de se arriscar.

Esse tópico é maravilhoso. Muitas vezes eu me coloquei nessa situação de pensar como uma mulher pode se postar diante destas situações. É realmente muito difícil diante dos códigos sociais que existem dentro do patriarcado, o modelo ainda vigente.

Pois vejam; dos homens se cobra iniciativa. Cabe a eles dizerem que desejam sair com a moça, namorar com ela, transar com ela. Claro, isso está mudando, mas muito lentamente e de forma insidiosa. O padrão ainda é esperar dos homens tais proposições.

Acontece que a iniciativa masculina é ilusória. Mesmo entre as fêmeas de antropoides existe a regra de “permitir” a iniciativa. É aqui que cabe o termo “deu mole”. “A mina deu mole e aí eu cheguei“. Portanto a iniciativa parte delas, mas a primeira palavra é deles.

Mas o que significa isso? Para muitos homens é atenção na sua fala, um sorriso, as risadas depois de uma piada, o olhar fixo, etc. Muitos homens interpretam isso como interesse e como uma abertura para proximidade, e muitas vezes é isso mesmo. O problema é que estas atitudes podem simplesmente resultar de genuína alegria, gentileza, simpatia e respeito à fala do interlocutor. Não abertura, apenas atenção.

Como diferenciar? Bem, não tenho nem experiência com isso, mas posso dizer que é saudável desconfiar. “Nahh, ela está só achando engraçado. Nada a ver. Ela é muita areia pra essa caminhonete velha“. É essencial ter calma, espera e cuidado. Observe outros sinais e não confie em apenas um único sinalizador.

Verdade, mas também é verdadeiro que não existe encontro amoroso sem risco. Desde que não haja grosseria ou violência, eu acho que arriscar é sempre válido.

Isso me faz lembrar do meu colega Rufus* (nome fictício) que apaixonou-se perdidamente por uma residente, sendo ele um mero doutorando. Escutou, sem querer, quando ela disse a uma colega que gostava de uma determinada cantora, durante uma conversa na cafeteria. Ao saber disso, ele saiu correndo do hospital, comprou o CD e lhe deu de presente. Ato contínuo, declarou-se. Recebeu imediatamente uma resposta rude e dura. Foi “colocado no seu lugar”, sem dó ou piedade.

Rufus me encontrou no almoço com o CD nas mãos (a cantora era Simone) e disse uma frase muito interessante:

– Acabou, Ric. Acabou tudo.

O curioso é que nada acaba sem ter começado. Nunca houve uma real relação, mas tão somente uma fantasia. O que havia terminado não era o romance, mas o sonho. Ou, no caso dele, o delírio.

Todavia, apesar da diferença entre os dois ser gigantesca (imagina algo como eu e a Carol Proner) ele teve a coragem que eu considero indispensável para qualquer relacionamento. Não há como abrir mão dessa iniciativa. Passei a admirar muito o Rufus após esse aparente fracasso.

O grande dilema se esconde nos limites tênues dessa postura. Simplesmente criminalizar a iniciativa masculina não faz sentido, mas talvez seja importante educar as pessoas para que possam ler adequadamente as sinalizações que as mulheres mandam – ou a ausência delas.

Mas não se iludam: declarar seus sentimentos é sempre um grande risco, o que torna a paixão algo tão desafiador.

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Causas

“O totalitarismo nos ensinou que um passo seguro para a desumanização é quando sua ideologia – seja ela qual for – atropela e destrói indivíduos na sua caminhada. Quando a vida e a honra de alguém valem menos que uma idéia é porque esta é apenas ilusoriamente positiva. Mentir em nome de uma causa, por mais nobre que esta seja, nunca ajudou a construir nenhuma obra de valor.”

(Sir) Watson Doherty, “The Chambers of Birmingham”, ed. Peebles, pág. 135

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Paixão e Imperfeição

“O apaixonamento só é possível diante do reconhecimento de alguma imperfeição no objeto de nossa paixão. Mesmo que sutil e quase imperceptível, é exatamente esta imperfeição que oferece humanidade para quem se ama, sem a qual esse encontro se torna impraticável.

– Amo-te porque consegui enxergar nas tuas imperfeições a perfeição que nos completa.’

Katherine Hobbard, “Full Spectrum – Why we fall in love”, Ed. Tanassis, page 135

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Futebol

O futebol carrega em seu âmago uma brutal e incontornável contradição. Se futebol fosse encarado como as mulheres gostariam (ok, um exagero que serve apenas para este debate) ele seria arte pura. O problema é NINGUÉM vai ao estádio para ver arte; vai para ver guerra. Queremos gladiadores carregando nossa bandeira. “Meio a zero de mão já me serve“, diz o apaixonado tresloucado torcedor enrolado na bandeira. Esse futebol em que todo mundo é civilizado prenunciaria a MORTE do futebol como nós o conhecemos.

Todo dirigente sabe que o torcedor precisa ser domado, controlado, cerceado em sua volúpia clubística …. mas não tanto. Se ele for domado a ponto de RACIONALIZAR o futebol ele acorda do seu sono futebolístico e começa a questionar porque paga 1 milhão por mês para um cara chutar uma bola. Futebol enquanto esporte de massas só (sobre)vive da NOSSA neurose. Ela é um torpor, um inebriamento, uma catarse irracional e poderosa. Civilizá-lo é matá-lo.

No jogo Brasil x França na copa em que perdemos de 1 x 0 para eles o jogador Roberto Carlos confraternizava com Zidane antes da partida no túnel de acesso (eram colegas no Real Madrid) e jamais foi perdoado por isso. Ser um pouco cordial é aceitável, mas ninguém suporta ver amizade entre as pessoas que lutam por nós. Essa é a contradição inerente desse jogo e o futebol se equilibra entre a razão e a paixão. É mesmo como o amor… precisa ser racional para não haver arrependimentos e tragédias, mas se passar da conta morre estrangulado pela própria racionalidade insossa.

O futebol europeu é, via de regra, odiado pelo torcedor da geral, o sujeito que se exalta agarrado ao alambrado. Esse gosta da animalidade do grito, da lama, do sangue, da raiva e da conquista, mas também da depressão, da tristeza e dos sonhos de um porvir radiante.

Tratar o futebol como “arte” – para gente sofisticada e educada – determinaria o fim da paixão que torna o futebol o que é. Futebol é como o amor: se você traduz a paixão em palavras ou ideias racionais ele se desfaz como poeira diante dos seus olhos. Para mantê-los – o amor e o futebol – é necessário reconhecer que o universo em que habitam está muito distante do mundo dominado pelas nossas vãs filosofias.

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Paixão

Paixão

Do outro lado da rua escuto uma briga de casal. Os decibéis eram tantos que pensei chamar a polícia. Escutei apenas pedaços de desespero e fragmentos de rancor. “Chega“, “não chegue perto do meu filho“, “vá embora“. Tudo muito dolorido. A voz dele era mais forte e raivosa, mas a dela não ficava muito atrás. Muita dor, raiva e angustia.

Em outras palavras, pura paixão.

Sim… o que eu escutei foi amor. Degenerado e doente, caótico e violento, mas feito da mesma energia que une os amantes desde que o mundo se criou das cinzas de nossa animalidade. Paixão intensa, na sua forma enferma e destrutiva, mas por trás disso amor deturpado.

“Paixão vem do latim passio, cuja tradução seria algo como “sofrimento, ato de suportar”, de pati, “sofrer, aguentar”, do grego pathe, “sentir ”. Com o tempo, entretanto, lá pelo século XIV, ela passou a designar também “forte emoção, desejo”, e mais tarde ainda, “entusiasmo, grande apreço, predileção”. (Wikipédia)

Como canta João Bosco: “Quem quer viver um amor, mas não quer suas marcas qualquer cicatriz. Ah, a ilusão do amor, não é risco na areia desenho de giz“.

A paixão é sempre dor e sofrimento. Os sons da noite passada nada mais eram do que a paixão em megafonia, o amor em sua versão trash, o desejo rechaçado que retorna como mágoa e dor. Porém, não consigo deixar de ver – e ouvir – nesta cena o mesmo gemido e a mesma languidez dos amantes envoltos na energia inebriante que um dia os uniu. O que era amor tornou-se ódio; o que era desejo tornou-se dor.

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