Arquivo da tag: bolsonarismo

Religião anti corrupção

“Essa religião da limpeza ética e contra a “corrupção” vai continuar existindo até o dia em que ficar explícito e evidente para todos que esse combate moralista é tão falso quanto às pregações furiosas dos pastores cristãos contra a “obscenidade e a luxúria”. Em verdade a “cruzada contra a corrupção” sempre foi usada em momentos de crise do capitalismo. Foi usada por Hitler e Mussolini. Também contra Getúlio, Juscelino, Jango e agora para atacar Lula e o PT. No fundo ela tenta encobrir elementos inconfessáveis do inconsciente coletivo.

Aqui no Brasil, o sentimento racista que foi atiçado com a emergência – ainda que acanhada – das classes populares precisava de uma expressão política. Essa saída veio com o bolsonarismo, onde esse sentimento de exclusão social e racial poderia se expressar de forma travestida, com a roupa da virtude e da lisura na coisa pública. Não é a toa que o Bolsonarismo é mais forte e persistente no “Brasil branco” – Rio Grande do Sul e Santa Catarina – também a parte mais racista do país.

É fácil diagnosticar está falsidade no discurso anti corrupção quando vemos que todas as “outras” corrupções comprovadas que nos cercam não mereceram nenhuma atenção desses mesmos bolsonaristas. Aécio, Temer, Queiroz, Bolsonaros e mesmo a corrupção comprovada da Lava Jato não merecem uma batida sequer de panelas ou uma indignação de qualquer natureza.

Como diria o sociólogo Jessé de Souza, a raiz dessa perseguição às esquerdas é o fato de que elas ensaiaram combater – mesmo que de forma tímida – o verdadeiro mal desse pais: a desigualdade e a injustiça social. Para essa classe média branca e “remediada”, a ascenção dos pobres representa uma ameaça muito maior do que opressão dos ricos. Estes, no Olimpo do capitalismo mais cruel do planeta, acenam para a classe média com a ilusória ascenção meritocrática, tão enganosa quanto as benesses garantidas pelos pastores, prometidas aos dizimistas depois da morte.

É o racismo, nossa ferida mais profunda, o que nos permite aceitar tanta iniquidade e tanta injustiça. Enquanto essa chaga não for cauterizada continuaremos a matar negros e pobres como formigas.”

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Sustentação

O que me entristece e preocupa não é o fato de que Bolsonaro seja racista, machista, homofóbicos e um completo incompetente, mas o fato de que tantas pessoas parecem não se importar com isso, sequer com o flagrante nepotismo da indicação de seu filho para a embaixada nos Estados Unidos. Para além disso, o que me espanta é o número de cidadãos que reconhecem a corrupção de Moro, Dalanhol, Gebran, Dodge, Fux, Barroso e até Toffoli, mas parecem não dar a menor importância para o fim da democracia. Pelo contrário, até celebram sua morte insidiosa.

Bolsonaro um dia deixará de ser presidente, assim como essas figuras do judiciário que dão suporte legal ao arbítrio; todavia, as pessoas comuns que apoiam o desmonte civilizatório no Brasil continuarão por aqui. Assim, fica claro que todos os gritos e marchas contra a corrupção que marcaram o país desde 2013 eram tão somente uma gigantesca cortina de fumaça a esconder nossas verdadeiras motivações inconfessas.

O que motivou essa população branca e de classe média contra os governos anteriores e seu desejo de “renovação” na política foi a ideia compartilhada com os votantes de Trump: “queremos nosso país de volta”. Um país onde todos saibam seu lugar, como sempre foi. Empregados e patrões. Ricos e pobres. Um país onde negro é negro, branco é branco, família é pai e mãe, meninos vestem azul e meninas rosa. Essas ilusórias certezas diante de um mundo de fronteiras incertas são as verdadeiras motivações que nos jogam nos cultos à personalidade e nas seitas, que são a melhor definição para o trumpismo e o bolsonarismo.

Assim como nos Estados Unidos somos herdeiros de uma nação cuja fratura formativa é a escravidão. Ela se manifesta de forma dissimulada na interação social, mas continua sendo a base de onde tiramos os nossos conceitos. Não é à toa que a “direita chucra” (para usar a expressão de Reinaldo Azevedo) costuma chamar os petistas e membros do MST de “vagabundos” , com o mesmo tipo de desprezo que tinham pelos negros escravos. Sem a cura dessa ferida seremos eternamente condenados a um destino violento, dividido e injusto.

Deixe um comentário

Arquivado em Política, Violência

O Sofá da Sala

Acabo de ler a nota do governo brasileiro – claramente inspirada pela corporação médica – que tenta impedir o uso do termo “violência obstétrica”, curiosamente na mesma semana em que o presidente, usando a mesma lógica, diz que “racismo é algo raro de ocorrer no Brasil”. A mesma tentativa tola de tirar o sofá da sala imaginando que assim o problema deixaria de existir.

O problema não é o termo utilizado, mas a “misoginia essencial” que permeia a atenção ao parto e nascimento, resultado de 100 séculos de modelo patriarcal a conduzir nossas vidas. Violência obstétrica existe sim – e dói.

Creio que não resta nenhuma dúvida dos interesses por trás dessa manobra; elas visam, em essência, a mudança de narrativa através da supressão de expressões consagradas. Estas são atitudes muito coerentes com o modelo revisionista que se pretende implantar no Brasil de hoje. Assim, não tivemos golpe em 64, mas “governos militares”. Dilma sofreu um “Impeachment” e não outro golpe patrocinado por grupos ressentidos, o que abriu caminho para outras aberrações jurídicas como prender o ex presidente Lula sem apresentar provas.

Desta forma sorrateira o Brasil inaugura oficialmente o uso da “novilingua” acreditando que assim fazendo exterminará como por encanto a violência física e moral a que são submetidas milhões de mulheres no país, algo que o termo – agora suprimido – sempre pretendeu denunciar.

Sabemos que tais iniciativas grosseiras e ofensivas fazem parte da cobrança da dívida que o bolsonarismo tem com a corporação médica. Esta corporação foi parceira de primeira hora nas manifestações golpistas de 2013-16, que culminaram com a queda de Dilma e a prisão de Lula, e posteriormente na eleição de Bolsonaro. Aqui mesmo no sul o sindicato médico já se apressou em mandar uma nota e um vídeo parabenizando o governo Bolsonaro pela proibição. Nenhuma surpresa.

Nada disso deveria nos espantar: a corporação médica mostra seu caráter reacionário de forma explícita desde o surgimento de canais na internet como Dignidade Médica, que disseminam todo o racismo, classismo, preconceitos de cor, raça e orientação sexual há muitos anos. Antes das redes sociais este fenômeno ficava restrito às salas acarpetadas de cafezinho dos hospitais. Agora… os monstros estão todos à solta.

Cabe a nós, ativistas da humanização, mostrar que o combate à violência obstétrica não é obra de “hippies”, “radicais comunistas” ou outras promotoras de “balburdia”, mas de um coletivo de pensadores e ativistas que se debruçam há muitos anos sobre o tema da violência de gênero no Brasil e no mundo. É digno de nota que inclusive elementos progressistas da própria corporação médica reconhecem a justeza do termo – além de sua consagração pelo uso – e entendem a necessidade de fazer algo a respeito dentro da prática cotidiana da obstetrícia, num exercício saudável de autocrítica e visão de futuro..

É importante que os ativistas, que sempre foram a locomotiva a puxar os movimentos articulados pela dignidade no parto e contra a violência obstétrica, se posicionem de forma vigorosa e contundente contra este tipo de iniciativa, denunciando o atraso em conquistas históricas por uma maternidade digna e segura que tal manifestação oficial significa.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto