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Bolsonaro e o bolsonarismo

Eu acredito que STF é o poder mais autoritário e imperial de todos, basta ver o que o Alexandre fez com a liberdade de expressão, algo que nem mesmo a ditadura teve a coragem de fazer. Por isso acredito que permitir que o STF governe o Brasil como tem feito é um desrespeito à própria constituição. A suprema corte esteve por trás de todos os golpes dos últimos 60 anos, sempre como serviçal para as elites financeiras. Dizer que o Alexandre está segurando o fascismo e garantindo uma barreira contra Bolsonaro é ingenuidade; ele provavelmente é mais autoritário e ditador que Bolsonaro, basta ver suas atitudes absurdas e ilegais contra o “Daniel do Whey”. No meu modesto ver, ele é um Bolsonaro com bom vocabulário e menos densidade capilar.

Reconheço a definição de corrupção como algo que envolve “roubo”, mas para mim dinheiro não é o que move os atos corruptos, mas a busca por poder. Dinheiro não é fim, é meio (a não ser para alguns malucos acumuladores). Além disso, negar que há dinheiro envolvido nas ações de magistrados é de inteira responsabilidade de quem se arrisca nesta informação, mas como não tenho qualquer prova disso creio que não é necessário sequer pensar nesta possibilidade.

Conheço a linha de raciocínio que distancia Bolsonaro dos poderosos do STF mas, respeitosamente, me oponho a ela. Não creio que estamos em um período de exceção com o bolsonarismo. Essa exceção se tornou evidente há quase uma década (quando estava parecendo inevitável uma nova vitória da esquerda nas eleições nacionais). Ela veio em 2013, com a despolitização planejada desde os Estados Unidos, com o lavajatismo, com os ataques à Dilma em 2014, o vale-tudo de Aécio, o impedimento de Lula como ministro, o golpe contra Dilma sem crime de responsabilidade, a prisão arbitrária de Lula, sua obstrução a participar da eleição e todo o período bolsonarista no governo. Em todos estes crimes contra a democracia esteve presente o STF, chancelando as ilegalidades e emprestando seu poder para que o arbítrio fosse estabelecido. Alguma dúvida disso? O STF foi GOLPISTA do início ao fim da crise atual do Brasil.

Portanto, o bolsonarismo é a culminância de um projeto de nação entreguista, agrário, subserviente, atrasado, capacho do Império e à reboque do progresso. Entretanto, esse desastre não se iniciou com Bolsonaro e sequer tenho esperanças de que vá acabar com ele. O STF é parte do desmonte do Estado brasileiro, dos ataques ao PT, da exaltação dos fascistas, etc. Tolos se deixaram enganar com a prisão de Daniel – e sua sentença criminosa e absurda – porque ele é um fascista abobalhado pelos esteroides. Não, a ação foi puro corporativismo do Imperador Alexandre apenas porque o STF foi atingido em sua honra.

Para mim é um erro brutal acreditar que Alexandre de Morais é diferente em essência de Bolsonaro, quando eles divergem apenas em detalhes. Em verdade, Alexandre é a continuidade de um projeto punitivista e autoritário, mas sem a boçalidade do atual presidente – o que torna tudo que faz muito mais perigoso. Esse era o projeto Moro: a mesma perversidade, mas com modos à mesa. O que existe de positivo em Bolsonaro é que sua personalidade doentia e sua estupidez aparecem à flor da pele.

Acreditar que existem liberais “limpinhos”, como Dória ou Moro foi o supremo equívoco que cometemos, e agora estamos errando de novo ao opor Alexandre “skinhead de toga” de Morais à Bolsonaro. São IGUAIS, a mesma porcaria autoritária que une o cortador de pés de maconha com o ex-milico subletrado e golpista.

E sobre os ataques aos “crimes de opinião” eu já acreditei que poderiam ter sentido porque num passado distante também pensei assim. Mas percebi que adotar medidas de censura sobre o pensamento é a receita para a tragédia. Uma ação desastrosa, antidemocrática, perigosa e que definitivamente atingirá esquerda, os progressistas, os comunistas e, finalmente, nós mesmos…. mas quando isso acontecer nós olharemos para o lado e veremos que aqueles que defendiam a liberdade de expressão estão todos presos por defendê-la….. e não haverá a quem apelar.

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Exijam o impossível

Uma verdade difícil de aceitar, mas extremamente importante para as esquerdas, é que Bolsonaro conquistou seu eleitorado com a promessa do antissistema. Os pobres do Brasil não votaram em Bolsonaro porque ele prometia a venda da Petrobrás ou de qualquer estatal; também não votaram para desinchar o executivo ou azeitar a máquina. As pessoas votaram porque Bolsonaro representava a revolta contra uma política que parecia não afetar em nada as suas vidas. Os escândalos, os roubos, a falta de leitos hospitalares e as escolas sem material continuavam acontecendo, e parecia uma boa ideia votar em alguém que prometia acabar com “tudissdaê“.

Enquanto a direita assumia uma postura proativa e de enfrentamento ao status quo, a esquerda perdia seu espírito revolucionário, acostumando-se com o exercício do poder. Perdemos as ruas, e compramos com facilidade – e docilmente – o discurso dos leftists americanos, que nada mais são do que que a direita domesticada pelo mercado. Os partidos de esquerda no Brasil aceitaram o palanque identitário que contaminou e destruiu o discurso de enfrentamento que sempre foi sua marca de ação social. Começamos a discutir pronomes e aceitar a censura como nossas bandeiras. O discurso dos “sentimentos ofendidos” começou a tomar conta do que antes era uma defesa aberta contra qualquer tipo de obstrução à livre expressão.

Ao invés de lutarmos pela melhoria da vida do trabalhador aceitamos de forma passiva a divisão do proletariado em identidades, que nada mais fizeram que tornar inimigos sujeitos igualmente precarizados, que deveriam estar unidos em uma mesma luta de libertação.

A mensagem revolucionária, antissistema, libertária e socialista precisa ser a voz do novo governo. Sem que a esquerda retorne para o caminho da confrontação, sem reativar a luta anticapitalista e sem depurar o identitarismo de suas fileiras será muito difícil sustentar um governo de esquerda eternamente prisioneiro da direita.

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Day After

Para os bons observadores existe um curioso e instigante paralelo entre a França ocupada pelas tropas nazistas e a ocupação do Brasil pelo Bolsonarismo. O mesmo colaboracionismo, a ablação da crítica, a falta de valores humanos e o passar de pano para tantos crimes cometidos. Vejo – ainda que estupefato – queridos amigos de outrora adotando a narrativa bolsonarista que apaga da memória as terríveis ameaças que um candidato da direita, chefe miliciano, fez à nação ainda em campanha. Eram promessas de vingança contra a esquerda, o desprezo pelos negros, o escárnio com a população LGBT, a “ponta da praia”, o desmanche dos direitos trabalhistas e da aposentadoria. Ninguém foi enganado: Bolsonaro entregou a encomenda de ódio e destruição que havia prometido explicitamente. E com essas promessas veio a destruição de conquistas civilizatórias, assim como o preço da gasolina, do gás, do dólar e o negacionismo assassino.

E tudo o fazem por uma brutal lavagem cerebral ao estilo da guerra fria, onde o inimigo é o “comunismo”, o “foro de São Paulo”, a tríade “Cuba-Venezuela-Coreia do Norte” – não por acaso 4 países que lutam contra o domínio imperialista – e usam da velha retórica do “Sim, está ruim, mas seria pior com o PT”, um truque de retórica usado no golpe de 64 para justificar as torturas e o fim da democracia, quando diziam que tudo era justificado para nos livrar de uma ditadura comunista – até mesmo uma ditadura militar. Porém, para fazer isso, esquecem de propósito que o Brasil decolou em todos os sentidos durante os governos populares da centro-esquerda petista, e afundou exatamente depois do golpe contra a presidente Dilma.

Eu também tenho curiosidade para saber onde estarão os bolsonaristas depois da queda do Império da Ignorância. Como vão explicar aos seus filhos e netos suas escolhas torpes, a adoção pela retórica do atraso e o elogio à violência? Como vão explicar sua postura miliciana, seu apoio a um judiciário corrompido e sua escolha pelo atraso e pela escuridão?

Como será o “day after” da queda do mito?

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Alianças

Tenho pensado muito no significado destas instituições internacionais de “ajuda” como a “Fundação Bill & Melinda Gates” e a “Open Society” porque entendo o quanto a injeção de dinheiro do capitalismo transnacional pode ser sedutor para os empreendedores sociais – no Brasil e no mundo todo. Muitos desses grupos – alguns deles eu conheci de perto – precisam desesperadamente de verba para levar adiante seus projetos. Esses patrocínios são, muitas vezes, a diferença entre a existência ou não uma ação social, e por isso mesmo são tão disputados.

Mostrar-se contra o recebimento de dinheiro (tanto quanto comer sabão em barra) é apanágio dos loucos, insanos e desmiolados. Questionar uma quantia de grana que pode auxiliar uma obra social honesta e necessária parece um ato sem sentido. Não?

Nem sempre. Perguntem aos defensores amamentação se aceitariam o patrocínio da Nestlé para algum projeto de estímulo ao aleitamento materno. Perguntem aos grupos da ecologia se uma verba da Monsanto seria bem vinda para recuperação de uma floresta. Que dizer do financiamento de um conhecido contraventor para uma campanha de um político? Eu poderia citar vários outros exemplos de empresas e indivíduos cujas ações mostraram-se tão profundamente danosas à sociedade a ponto de ser natural negarmos qualquer conexão com elas, mesmo quando o oferecimento de recursos não pressupõe qualquer contrapartida objetiva ou explícita. A diferença neste caso está que nós sabemos quem são essas empresas e não permitimos que um benefício em curto prazo possa manchar nossa reputação em longo prazo, ou empoderar ainda mais esses gigantes capitalistas.

A analogia que me ocorre é que aceitar este auxílio se assemelha a subir ao palanque com o MBL e a direita comportada. Se na superfície pode parecer benéfico para um objetivo imediato – forçar a saída do presidente fascista – quando investigamos em profundidade percebemos que poderemos estar abrindo espaço para a direita golpista que, por sua vez, tentará “manter o Bolsonarismo sem Bolsonaro“, culminando com a proposição de um nome nas eleições ligado ao neoliberalismo predatório, mas com bons modos à mesa. Não esqueçam que essa direita que agora brada contra Bolsonaro foi a Ficha 1 nos golpes sucessivos contra a nossa democracia.

Ligar-se ao capital abutre das instituições liberais filantrópicas significa aceitar que o capitalismo internacional e concentrador de renda continue a controlar a forma como o terceiro setor atua no país. Afastar-se desse dinheiro é uma questão de princípios, de independência e de autonomia. Pode trazer dificuldades em curto prazo, mas oferece a consciência limpa na longa caminhada.

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Religião anti corrupção

“Essa religião da limpeza ética e contra a “corrupção” vai continuar existindo até o dia em que ficar explícito e evidente para todos que esse combate moralista é tão falso quanto às pregações furiosas dos pastores cristãos contra a “obscenidade e a luxúria”. Em verdade a “cruzada contra a corrupção” sempre foi usada em momentos de crise do capitalismo. Foi usada por Hitler e Mussolini. Também contra Getúlio, Juscelino, Jango e agora para atacar Lula e o PT. No fundo ela tenta encobrir elementos inconfessáveis do inconsciente coletivo.

Aqui no Brasil, o sentimento racista que foi atiçado com a emergência – ainda que acanhada – das classes populares precisava de uma expressão política. Essa saída veio com o bolsonarismo, onde esse sentimento de exclusão social e racial poderia se expressar de forma travestida, com a roupa da virtude e da lisura na coisa pública. Não é a toa que o Bolsonarismo é mais forte e persistente no “Brasil branco” – Rio Grande do Sul e Santa Catarina – também a parte mais racista do país.

É fácil diagnosticar está falsidade no discurso anti corrupção quando vemos que todas as “outras” corrupções comprovadas que nos cercam não mereceram nenhuma atenção desses mesmos bolsonaristas. Aécio, Temer, Queiroz, Bolsonaros e mesmo a corrupção comprovada da Lava Jato não merecem uma batida sequer de panelas ou uma indignação de qualquer natureza.

Como diria o sociólogo Jessé de Souza, a raiz dessa perseguição às esquerdas é o fato de que elas ensaiaram combater – mesmo que de forma tímida – o verdadeiro mal desse pais: a desigualdade e a injustiça social. Para essa classe média branca e “remediada”, a ascenção dos pobres representa uma ameaça muito maior do que opressão dos ricos. Estes, no Olimpo do capitalismo mais cruel do planeta, acenam para a classe média com a ilusória ascenção meritocrática, tão enganosa quanto as benesses garantidas pelos pastores, prometidas aos dizimistas depois da morte.

É o racismo, nossa ferida mais profunda, o que nos permite aceitar tanta iniquidade e tanta injustiça. Enquanto essa chaga não for cauterizada continuaremos a matar negros e pobres como formigas.”

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