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A Estatueta

Martyn pediu uma cerveja e dois copos ao garçom e ajeitou-se na cadeira do restaurante, como que a procurar espaço para poder dizer o que queria.

– Terry, você lembra da minha queda na cozinha, não? O hospital, a mancha roxa, o seu colega médico mal educado, a minha bronca. Pois eu lembro muito bem, parceiro, inclusive da sua gentileza em me buscar em casa na madrugada. Nunca pude lhe agradecer o suficiente por isso.

Ensaiei um “que é isso, amigo é prá essas coisas”, mas ele me interrompeu com um tapinha no braço.

– Era mentira, Terry. Era tudo mentira. Hoje resolvi lhe contar a história toda. Não fique bravo comigo, tenho certeza que você vai entender as minhas razões para ocultar a verdade.

Mentalmente minha memória viajou dez anos para trás, e pousou exatamente no dia em que, no início da madrugada, Martyn me ligou pedindo socorro.

O ponteiro maior do relógio já havia completado quase uma volta inteira depois da meia noite quando o telefone berrou nos meus ouvidos enquanto eu saboreava Nabocov na cama. Por sorte Ellen continuou dormindo sem se impressionar com a estridência do aparelho. Seu sono pesado era uma lenda conhecida por toda a sua família. No dia em que o mundo acabar ela só vai acordar do outro lado da vida. Imaginei que se tratava de uma chamada do hospital, mas eu não estava de sobreaviso.

– Terry, preciso de ajuda. Não é uma emergência, mas preciso que você venha aqui em casa agora.

– Martyn, é você? Alguma coisa que eu deva me preocupar?

– Um acidente doméstico, não precisa se preocupar tanto, mas não há como lidar com isso sozinho. Você pode vir aqui? Tipo, agora?

– Claro, claro. Fique aí. Espere só eu me vestir.

Martyn é meu amigo de infância, talvez meu único grande amigo. Crescemos juntos, e frequentamos as mesmas escolas apesar de eu ser mais velho uma meia dúzia de anos. Seu irmão, Mark, foi meu colega de escola, na mesma sala de aula, mas ele acabou se afastando de mim pelas derrapagens que a vida dá. Não foi o caso com Martyn. Fizemos muitas coisas juntos, torcíamos pelo mesmo clube, festas, conversas, bebedeiras, filosofias… mas também porque tínhamos uma perspectiva de vida igualmente sombria e pessimista. Nossas sombras eram carregadas com as mesmas tonalidades de cinza.

Martyn era casado com Anna, uma mulher inteligente e ambiciosa. Trabalhava na Bolsa de Valores e era uma espécie de expert em alguma coisa que ela um dia me explicou, mas não guardei na memória. Minha cabeça de cirurgião não tem nenhum contato com o mundo do comércio, valores, poupança, ativos, lucros. Em verdade, sequer o dinheiro exercia qualquer atrativo especial para mim. Minha mulher Ellen reclamava que eu poderia ganhar muito mais com as minhas cirurgias se tivesse um pouco mais de habilidade para cobrar, mas não há dúvida que nessa área sempre fui um fracasso.

O prédio onde Martyn morava não ficava mais do que 15 minutos de distância. Quando cheguei lá ele estava parado na rua, na frente do edifício. Achei estranho que ele não ficasse dentro de casa esperando minha chegada, mas talvez não quisesse acordar Anna. Quando parei o carro ao seu lado na rua percebi que ele abriu a porta de forma um pouco estranha. Deduzi que havia machucado o braço

– Então Martyn, o que houve? Foi algo no braço?

Ele deu um meio sorriso.

– Você sabe o quanto consigo ser desajeitado quando quero. Fui pegar algo na prateleira da cozinha e desabei do banquinho que coloquei para subir. Bati com o pulso na borda do balcão. Já faz umas duas horas, mas agora a dor apertou e eu temo que tenha quebrado algo.

– Posso ver?

Meu amigo levantou com cuidado a manga da camisa e pude ver uma grande mancha que coloria de roxo a parte inferior do seu braço direito. Era grande, e mostrava que algum vaso havia se rompido.

– Martyn, não sou ortopedista, mas sei que isso aí é uma fratura. Sua religião faz alguma restrição a amputações?

Martyn sorriu do meu característico humor negro. Em seguida explicou que não pensava me chamar mas não conseguia nem segurar a chave do carro, quanto mais dirigir até o hospital.

– Não sabia o que fazer, então resolvi lhe chamar. Sei que só mesmo um outro idiota como você entenderia minha patetice.

Rimos um pouco e lembramos de alguns fatos engraçados que passamos juntos na escola. Martyn, entretanto, parecia mais sério do que de costume, mas acreditei que sua face circunspecta era o reflexo da dor que por certo estava sentindo.

Ao chegarmos ao hospital não tardou em ser atendido. Pedi para entrar junto e me apresentei como médico. Aquele era o hospital em que eu fizera minhas primeiras cirurgias, meus primeiros atendimentos de emergência há mais de 20 anos. Ainda guardava nas narinas o cheiro das salas de clínica, onde o odor de sangue e vômito se mistura com os desinfetantes poderosos utilizados. Martyn explicou para o plantonista da ortopedia o que havia ocorrido. Este, depois de um breve exame físico, pediu uma radiografia.

Alguns minutos depois ele voltou com a radiografia e, com um sorriso no rosto, anunciou:

– Muito bem Sr. Martyn, sua travessura foi premiada. Conseguiu o que desejava: uma fratura no rádio distal. Agora o senhor vai ficar alguns dias sem fazer os deveres da escola.

Martyn fuzilou o médico com os olhos e disparou:

– Quem sabe o senhor se mete com a sua vida, seus pacientes, e me deixa em paz? Quem é você para vir aqui debochar de mim? Vá fazer piadas para a sua turma!!

Segurei o braço do meu amigo e o puxei para trás. O ortopedista ficou perplexo e balbuciava coisas como “hei, eu estava só brincando, calma, desculpe”. Coloquei Martyn sentado em uma cadeira próxima e fui falar com meu colega médico.

– O que há com seu amigo? Não sabe brincar?

Expliquei que ele deveria estar com dor e que o desculpasse. O médico fez um muxoxo e disse que ele seria transferido para uma sala ao lado onde colocariam uma tala, mas que deveria procurar uma clínica em uma semana para o gesso definitivo. Entregou-me uma receita de analgésicos, despediu-se e saiu caminhando pelos corredores do hospital.

Perguntei a Martyn o que tinha acontecido e por que dera aquela resposta.

– Ahh, desculpe aí Terry, mas não aguento esses seus colegas. São uns arrogantes, metidos a besta. Ficam fazendo piadinhas com os desastres que acontecem com as pessoas. Agem como se fossem superiores, como se fossem adultos rodeados de crianças travessas; eles são os infalíveis enquanto nós somos os tolos e idiotas.

Pedi que tivesse calma, e ele deu de ombros. Caminhamos até o estacionamento e pegamos o meu carro. Já passavam das 3h e eu tinha que atender o ambulatório pela manhã. Ele ficou em silêncio até chegarmos no seu edifício. Quando estacionamos na frente ele olhou para cima pela janela do carro, para saber se havia luz no apartamento.

– Não quero acordar Anna, Terry. Obrigado por tudo. Não sei o que dizer e nem como lhe agradecer. Falamos depois. Boa noite e durma bem.

Dirigi e voltei para casa. Entrei no quarto e Ellen permanecia dormindo. Lolita teria que esperar mais um dia para que eu voltasse a me ocupar dela.

A lembrança dessa cena permaneceu adormecida, num canto da gaveta de memórias, e foi despertada apenas agora pelas palavras de Martyn. Já haviam se passado dez anos da cena.

– Foi a estatueta e não uma queda do banquinho numa travessura na cozinha, Terry. E por trás da estatueta estava Anna.

Pedi que explicasse melhor.

– Foi Anna, Terry. Foi apenas mais um acesso de fúria contra mim. Durante anos eu havia me acostumado às suas agressões, e colocava na conta da vida estressante que ela tinha na Bolsa de Valores. Aquele dia havia sido especialmente ruim para ela. Perdeu dinheiro e clientes. Estava frustrada. Eu fui pegar pratos para a gente jantar e um deles escorregou da minha mão e caiu. Era um prato que havia ganhado de sua mãe no enxoval do nosso casamento. Aquilo a enfureceu. Passou a gritar como se fosse a maior tragédia da sua vida. Quando tentei acalmá-la passou a mão na estatueta que estava na sala e a jogou contra o meu rosto. Sabe aquela meia face pedindo silêncio? Essa mesma. Tive tempo apenas de me defender com a mão. Ela se assustou com o som do objeto batendo contra o meu braço, mas mesmo assim nada disse e se trancou no quarto. Fiquei mais de uma hora sentado na sala esperando a dor passar, e só então resolvi ligar para você. Eu até pretendia lhe contar, mas não queria que você me julgasse e muito menos que tivesse sentimentos contra Anna. Bem sei o quanto você gostava dela e não desejava que esse acidente se tornasse uma barreira entre vocês.

Eu apenas escutava e não me atrevia a dizer nada. Martyn continuou.

– Essa não foi a primeira e nem a última agressão que sofri. Sequer foi a mais dolorosa. As violências morais eram muito piores e muito mais cruéis. Eu tinha vergonha daquele comportamento dela mas, como uma boa vítima, acreditava que eu tinha culpa, que deveria ganhar mais, não quebrar coisas, ser mais impositivo no trabalho ou ser mais romântico. Sei lá… a gente não sabe exatamente o que nos falta, mas acredita carregar essa culpa, pelo menos em parte.

Martyn continuava seu relato e eu não ousava interrompê-lo.

– As violências eram diárias e eu não sabia o que fazer. As brigas continuaram até eu descobrir do caso que ela teve com Peter. Essa foi a gota d’água, e foi quando eu fui até sua casa e pedi para dormir lá por uma noite. Na semana seguinte nos separamos.

– Sim, lembro bem que você anunciou o fim do casamento e me pediu para não insistir ou tentar contemporizar. Percebi que algo de muito sério havia ocorrido e resolvi oferecer apenas a minha mão para ajudar.

– Esta foi a derradeira violência, mas as brigas foram um problema que perdurou a exata extensão do nosso casamento. Depois disso nos separamos, eu casei de novo e nunca mais a vi. Queria lhe dizer mais uma vez obrigado pela sua compreensão, por não ter insistido com perguntas quando eu não tinha condições para responder. Obrigado por ter ficado em silêncio ao meu lado; significou muito para mim. Eu nunca falei disso para ninguém, e por razões óbvias. Um homem apanhar em casa é algo vergonhoso em uma cultura machista. Nunca falei para ninguém desses fatos, e jamais ameacei Anna com essa verdade, mesmo quando ela tentou me tomar um dinheiro indevido em nossa separação. A minha vergonha era tanta que nenhum dinheiro pagaria isso.

Eu continuava a olhar para Martyn para entender o significado dessa confissão. Não acredito em casos de violência e abuso onde não exista a participação de ambos na construção do enlace doentio, e no caso de Martyn não poderia ser diferente. Mas por certo que ele era a parte frágil do casal, o espírito mais dócil e submisso. No seu caso ficou bem claro como a questão física – aparte de ser importante – não é o único determinante para os casos de violência, inclusive física. Agora, depois da separação de Martyn e Anna (por quem eu até nutria amizade e afeto), ficou bem mais clara a verdadeira imagem de Anna. Em minha mente ela era uma perversa de funcionamento neurótico, com um longo histórico de perversão e abandono na família. Afastada de ambos os pais foi criada pela avó, que também recebeu seu quinhão de maus trator por parte dela. O que ela fez com Martyn durante os anos em que estiveram casados teve características de pura crueldade. Até hoje, sempre que penso em Anna, imediatamente me vem à mente a personagem de Juliette Binoche que contracena com Jeremy Irons no filme “Perdas e Danos”. Um filme brilhante e sombrio, que eu sempre lembro, mas não consigo rever. As histórias de mulheres agressoras não são muito exploradas em um mundo infestado de machismo, e numa cultura violentamente patriarcal a escuridão que emana da agressividade masculina eclipsa a sombra da violência feminina.

Martyn recebeu as garrafas da mão do garçom que imediatamente as abriu. Serviu meu copo e saboreou um pouco da cerveja, enquanto olhava para a rua cinzenta que aos poucos perdia os últimos raios de sol. Violências domésticas com “sinal trocado” é um tema que eu tenho contato há muitos anos por causa de alguns textos que li e por inúmeras histórias de consultório. No ambiente feminino em que circulei durante décadas o tema é tabu. Falar de “misandria” é como falar de “racismo reverso”; quando eu tocava no assunto a reação variava do escárnio à fúria, em especial perto de colegas feministas. Entretanto foram tantos os casos de abuso contra homens que eu acabei por me interessar pelo tema. Apesar de ser um assunto que me atrai reconheço que no contexto em que vivemos este será por séculos um assunto “marginal”, mas não menos doloroso.

Toquei no ombro de Martyn e disse com meus olhos o que ele já sabia: “Conte comigo sempre, parceiro. É para isso que servem os amigos”.

William F. Prescott, “So down there I can’t even see” (Tão lá em baixo que nem consigo ver), ed. Panacea, pág. 135

William Francis Prescott é um escritor, ensaísta, jornalista e produtor teatral americano nascido em Westbrook no Maine em 1965. Filho de um pastor protestante e uma enfermeira ele começou a escrever desde muito cedo para os jornais da escola. Em 1983 foi estudar na University of Maine em Augusta, onde cursou jornalismo. Logo depois da graduação casou-se com Lorraine Madison, e mudaram-se em 1995 para Nova York para trabalhar na Revista New Yorker como assessor de Roger Angell, quando então começou a se dedicar à reportagem esportiva, especialmente o Baseball. Pelos contatos na revista tornou-se amigo de Woody Allen, uma amizade que perdura até hoje. Escreveu seu primeiro livro de ficção, “Até que horas posso ficar?” em 1998 que logo se tornou um sucesso de público e de crítica, para posteriormente fazer carreira na Broadway, tendo sido estrelado por Patrick Wilson no papel do coronel Samuel Bakerston. Seu segundo livro, também uma comédia dramática, foi “Azul não lhe cai bem”, onde narra as desventuras de uma vedete do teatro de revista que se envolve com um cirurgião plástico apenas para conseguir uma cirurgia de mamas por preços módicos, mas percebe que seu namorado é um traficante de drogas cuja clínica médica é apenas uma fachada. Seu terceiro livro foi “Tão lá em baixo que nem consigo ver”, que é seu único livro de contos, recolhidos de histórias verídicas que colheu enquanto jornalista no New Yorker. Mora em Washington com sua esposa Lorraine e os filhos Jeremia e Alicia

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Poder e Perversão

Durante o atendimento a um parto hospitalar acabei por indicar uma cesariana. Depois de uma certa relutância, entreguei os pontos diante de uma longa parada de progressão. Saí da sala de partos e me dirigi ao posto de enfermagem para solicitar que um anestesista fosse chamado ao hospital. Sim, a mesma corporação médica que condena partos domiciliares por “falta de recursos” para atendimentos emergenciais acha natural que um centro obstétrico possa funcionar sem anestesista de plantão e que este seja chamado apenas diante de uma necessidade.

Fica fácil entender porque os obstetras daquele hospital – via de regra desinteressados pelo atendimento ao parto normal – preferem marcar cesarianas a correr o risco de precisar encontrar um anestesista às pressas.

No meio do caminho entre a sala de pré-parto e o balcão das enfermeiras encontro uma anestesista do centro obstétrico. Eu a conhecia há alguns anos e sabia ser uma pessoa, digamos, “difícil”. Essencialmente rude e insensível, muitas vezes grosseira. Já havia ocorrido atritos anteriores com algumas colegas, mas apesar de saber que não gostava de mim e das propostas da humanização do nascimento, nunca havia acontecido, até então, qualquer desavença comigo.

Ao cruzar com ela no curto corredor percebi que estava de saída do hospital, após atuar em uma cesariana agendada. Resolvi perguntar a ela se poderia ficar e atender a cesariana que eu estava a indicar, pois se tratava de um caso de parada de progressão no qual a paciente estava com muitas dores.

A resposta dela não esqueço até hoje. Sem me olhar direto nos olhos ela falou: “Não atendo essas pacientes de vocês, pacientes humanizadas. Procure outro anestesista”.

Eu fiquei chocado e estarrecido. Ela virou as costas e saiu do hospital sem dizer mais palavras. Corri para o posto de enfermagem e chamei outro anestesista, mas a cirurgia não ocorreu antes de ter se passado mais uma hora, com a paciente suportando contrações dolorosas e inefetivas. A insensibilidade daquela médica, que resolveu descontar a raiva que tinha de mim sobre uma pobre paciente, foi algo inacreditável, tamanha a perversidade. Uma triste lembrança do quanto uma posição de poder pode ser destrutiva.

Mas afinal, por que tanto ódio? Fiquei sabendo que semanas antes esta médica havia discutido com a paciente de uma colega por detalhes sobre uma analgesia de parto. Teria ficado furiosa com a gestante ao ver que esta questionava demais tudo o que lhe era determinado. Disse à minha colega obstetra que essas pacientes eram “doutrinadas” para a rebeldia e para desobedecer as ordens médicas. Em sua mente a culpa, por certo, era dos obstetras “humanizados” que as condicionavam a desprezar as orientações dos demais profissionais.

O ataque era direcionado à humanização do nascimento, mesmo fazendo uma paciente de vítima. Essa médica via em nós uma afronta à sua autoridade. Por esta razão, não deveria causar surpresa a onda de ataques e perseguições aos obstetras humanistas do Brasil. Qualquer perspectiva médica que minimamente valorize a autonomia dos pacientes será vista como perigosa e terrorista. Médicos humanistas – de qualquer área – são vetores de desordem e desequilíbrio, ao oferecerem aos pacientes uma perspectiva mais ampla e justa sobre seus direitos.

Hoje tudo está ainda mais explícito. No momento em que a corporação médica, através dos seus órgãos representativos, se associa ao fascismo explícito do governo, muitas personalidades anteriormente ocultas sob uma capa de civilidade acabam desvelando sua arrogância e violência.

Paulo Freire foi perseguido por ensinar brasileiros a ler, oferecendo a eles autonomia e uma consciência alargada sobre a complexidade do mundo que os cerca. Médicos que ensinam aos pacientes seus direitos e suas escolhas serão perseguidos e tratados da mesma forma punitiva. Não deveriam nos espantar estas agressões, apenas nos estimular à mobilização, à indignação e à luta

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Tire o teu

tiroteio

“Muda-se a forma, mantém-se o conteúdo. As manifestações da exploração do homem pelo homem se transmutam e fantasiam, exatamente para manter sua essência intocada. O homem se disfarça, muda seus rostos e jeitos, para continuar sendo o lobo do homem”. (Max)

No meio de um cochilo aguardando minha paciente chegar acordo com uma salva de estampidos. Em alguns minutos a confirmação: tiroteio no estacionamento do hospital. Um assaltante morto e dois feridos presos. Da janela basculante envidraçada que enxerga o Guaíba consigo ver o burburinho e a ação dos policiais.

Confusão, correria, curiosidade mórbida e múltiplas versões do mesmo fato. Mas o pior são os comentários. Os da Internet eu ainda posso não ler, mas os que passam ao meu lado não posso evitar de ouvir.

Da janela do centro obstétrico podemos ver o corpo estendido no chão. “Menos um” diz um passante. “Só falta a emergência atender”, indigna-se outra, negando aos feridos qualquer migalha de comiseração. Por que será que as pessoas se amarguraram tanto nos últimos tempos? A morte de um menino é realmente algo a se comemorar?

Eu me resigno e fico quieto. Se resolver questionar as comemorações pelo óbito do qual somos todos testemunhas e cúmplices, posso acabar sendo a próxima vítima.

Tristes tempos…

PS: E depois do tiroteio nasceu Beatriz… Que venha em paz. Que não se contamine com a psicosfera carregada que hoje se abateu sobre esse lugar. Siga seu caminho cheio de luz e fuja das trevas que teimam em nos perseguir.

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De Ponta Cabeça

1 – A queda

Trabalhava eu em um hospital militar de Porto Alegre há mais de 20 anos. Eu, e um pequeno grupo heterogêneo de obstetras, trabalhávamos no ambulatório e fazíamos cobertura para os partos que ocorriam no centro obstétrico. Esta pequena unidade hospitalar possuía um grupo maravilhoso de enfermeiras obstetras que atendiam o plantão obstétrico, muitas delas hoje são professoras de enfermagem na universidade federal. Minha opinião é que – grande novidade – o plantel de enfermeiras era muito mais qualificado do que os obstetras que lá atendiam; alguns francamente desinteressados, outros cesaristas tecnocráticos e apenas um criticava o modelo cesarista e tinha um vívido interesse em atender de forma humanizada e com base em evidências. Naquela época encontrei um destes médicos numa praia catarinense sentado em uma cadeira de praia olhando fixamente para o mar. Era um obstetra cinquentão e solteiro que morava com sua mãe. Imediatamente me veio à lembrança a imagem de um personagem riquíssimo da literatura mundial, o compositor austríaco Gustav von Aschenbach, imortalizado por Dirk Bogarde no filme “Morte em Veneza” de Luchino Visconti (baseado na obra homônima de Thomas Mann). Talvez seu olhar perdido no oceano fosse, em verdade, uma busca angustiosa pela estética perfeita nas formas andróginas de um Tadzio insular.

Pois neste hospital as enfermeiras obedeciam uma regra muito restritiva: só poderiam atender um parto, mesmo em emergência, se houvesse um médico ao seu lado para se responsabilizar. Certamente que o diretor do hospital – um cirurgião geral militar absolutamente arrogante – jamais aceitaria (ou compreenderia) a excelência do trabalho das enfermeiras obstetras para o atendimento ao parto eutócico. A regra era baseada na desconfiança essencial de uma corporação sobre o trabalho da outra, mas estamos falando de um fato ocorrido há mais de 20 anos. Sejamos um pouco condescendentes.

Pois o fato que ficou em minha lembrança até hoje ocorreu por causa de um parto de emergência. Na verdade ele me foi relatado pela enfermeira que o protagonizou, e tenho em minha memória apenas as cenas imaginadas, construídas por sobre o seu relato.

Durante o seu plantão noturno a enfermeira recebe uma paciente atendida no ambulatório do hospital em pleno trabalho de parto. Encaminha-a para a sala de exames e descobre dois fatos que seriam a base de todo o caso: a dilatação estava completa e o bebê estava sentado. Sendo ela uma boa enfermeira e parteira de vocação, apenas sorriu para a paciente enquanto explicava a situação, deixando clara a ela que o bebê nasceria em alguns minutos. Imediatamente correu para o telefone e ligou para o obstetra de sobreaviso. Este disse que estava saindo imediatamente de casa mas, como morava na zona norte, levaria 30 minutos – na melhor das hipóteses – para chegar ao hospital que ficava no outro extremo da cidade.

Não haveria tanto tempo, e a enfermeira bem o sabia. Ela mesma teria que atender o parto de um bebê na posição pélvica completa. Entretanto, lembrou da normativa do hospital de só atender partos na presença de um médico e lembrou que o único plantonista daquela noite era o Dr. Fagundes Mayo (nome fictício), pneumologista e intensivista, que estava no andar de cima de plantão na UTI. Imediatamente ligou para o setor e convocou o médico a assistir ao parto junto com ela.

– Preciso mesmo ir?, perguntou ele, visivelmente contrariado.

– Sim doutor, são as normas, desculpe.

Mais uma contração e a ponta branca da nádega apareceu no introito. A mãe estava de cócoras com as mãos atrás apoiadas no solo, por sobre um campo esterilizado azul que a separava do chão. Sua face estava coberta de gotículas de suor, que coalescendo, escorriam pelos sulcos de seu rosto jovem.

A sala de parto possuía uma curiosa construção. No canto do acanhado aposento havia uma escada espiral que foi construída para produzir um acesso direto e rápido para o andar de cima, onde ficava a UTI. Era por ali que o Dr Fagundes desceria para acompanhar o parto que a enfermeira atendia. Cada contração que se finalizava e a enfermeira olhava para o alto da escada, aguardando a chegada do médico, não porque esperasse qualquer tipo de ajuda real, mas apenas para não quebrar as normas da instituição e receber uma reprimenda imerecida.

Outra contração forte e a nádega saltou para fora da vagina, pipocando como um cubo de gelo que se solta da forminha que colocamos no congelador. O tempo agora se contava em minutos apenas. A cabeça da enfermeira virou-se mais uma vez para o alto da escada espiral, mas nada do plantonista aparecer. Mais uma contração e o corpo todo do bebê surgiu, sendo contido apenas pelos braços que se mantinham ainda enclausurados.

Foi nesse exato momento em que ela escutou os passos apressados do Dr Fagundes descendo os primeiros degraus da escada. Após o primeiro giro ele parou e ficou paralisado observando a cena.

Talvez as poucas experiências do meu colega fossem com partos um pouco mais “normais”. A visão de um bebê “sem cabeça”, uma espécie de alien disforme brotando de uma vagina, rodeado por gritos e suores, foi demasiada para a curta experiência de um pneumologista de formação. Com o olhar fixo na imagem e ainda tentando entender que parte do corpo se apresentava diante dos seus olhos, seu cérebro escolheu a forma mais simples de lidar com a situação. Simplesmente apagou.

Do alto da escada o jovem médico caiu desmaiado, rolando abaixo em total apagamento sensorial, para o pavor da enfermeira e da paciente.

Talvez o assombro da queda tenha sido frutuoso, pois o susto ofereceu à paciente o influxo final de adrenalina necessário para a expulsão. “Ploct“. O bebê veio ao mundo de olhos arregalados e repousou imediatamente no colo da mãe. Nunca uma enfermeira ofereceu um bebê à sua mãe com tamanha rapidez, mas neste caso foi pela existência de um outro “paciente” a atender. De pronto acolheu o colega de plantão, que aos poucos se recuperava sem nenhum trauma importante ou evidente. Claro, um pouco da sua onipotência saiu arranhada, como evitar?

“Desculpe, desculpe… não sei o que me deu. Perdão, acho que foi alguma coisa que eu comi no refeitório do hospital”.

Sim, a comida, eterna culpada universal das nossas fragilidades. Das náuseas gravídicas aos nossos mais recônditos e inconfessos temores.

Uma lástima que hoje em dia os médicos reconhecem os minúsculos tumores e cistos em imagens borradas de ultrassons e tomografias, mas a vida pura, viva, intensa, pulsante e misteriosa escapa-lhes à compreensão. Um bebê nascendo não poderia ser algo espantoso para um profissional que jurou dignificar a vida em todos os seus momentos. Mas o mundo da tecnocracia oferece o distanciamento e a objetualização de quem nos procura, e os corpos animados se transformam em figuras impressas em papel ou gráficos complexos, onde cada ponto é uma vida que se vai, ou uma que acaba de chegar.


2 – A Lição

Com 21 anos de idade, imberbe e extasiado com as lições que o mundo me oferecia, eu cumpria um ritual cansativo mas empolgante: todas as sextas feiras cumpria meu plantão de 24h no hospital de uma cidade vizinha, na função que na época era chamada de “interninho”.

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Um “interno” era um estudante de medicina, entre o segundo e o quinto ano, que cumpria funções braçais, simples e por vezes extenuantes no hospital. Cabia a nós fazer suturas nas cabeças de bêbados brigões, repetir prescrições de internações sem sentido, preencher guias de internação, avaliar pulso e temperatura de pacientes, liberar a dieta e até fazer constatação de morte quando algum velhinho partia para o mundo espiritual no meio da madrugada. É claro que a maioria dessas atividades seriam vistas com outros olhos hoje em dia, mas estou contando uma história do início dos anos 80, com três décadas a nos separar.

Em uma oportunidade fui chamado no meio da madrugada para fazer a constatação de óbito de uma senhora de quase 100 anos que estava no hospital só para fazer esta passagem. Acordei assustado com o telefone do quarto e saí caminhando ainda com os olhos fechados. Não havia tempo para dormir, e no dia seguinte ainda teria que pegar um ônibus intermunicipal para chegar à minha cidade e voltar às aulas. Caminhei a passos trôpegos até o andar de cima, onde ficava a enfermaria de clínica médica. Atravessei o corredor às escuras e me deparei com três enfermeiras postadas à porta do único quarto com as luzes acesas. Elas apontaram para dentro do aposento e eu adentrei nele com uma certa solenidade.

Reinava o silêncio.

Entrei no recinto e pude ver as 5 ou 6 camas ocupadas com senhoras muito velhas que dormiam em sono profundo. Na minha frente, na primeira cama à esquerda, uma senhora tinhas os olhos fundos e a boca aberta. O rosto pálido denunciava emagrecimento pronunciado e a degenerescência do corpo. Ainda no umbral da consciência, tentando me desvencilhar do sono mórbido, segurei sua mão e resolvi cumprir o ritual que me acostumei a realizar nestas situações.

A morte é uma passagem, penso eu. Mais do que o abandono da carne, o espírito que dela se desprende passa por um rito, um fenômeno energético a conduzir o desligamento do invólucro material. Tinha eu, na época, a ideia de que este momento deveria ser ritualizado para que pudesse ser marcado, não apenas para o benefício da alma que partia, mas também para as almas que ficam, nós mesmos. Para entender a vida, sempre repetia Max, é necessário buscar compreender a morte.

Segurei sua mão e disse algumas poucas palavras, que se perdem na brisa gelada das memórias distantes, mas que certamente seriam algo como “Espero que neste momento em que sua alma se separa do corpo estejam contigo os amores que cultivou por sua passagem terrena, e que seja recebida como uma filha que volta ao convívio dos seus. Espero que, do lado de lá, a recepção seja calorosa e afetiva, para que os que aqui ficam não se sintam tão tristes ao saberem do reencontro feliz com as pessoas amadas que te esperam”.

É possível que fossem estas as palavras que eu diria, mas a verdade é que não pude dize-las como desejava. Segurei a mão da pálida paciente e, mal terminando de dizer a primeira frase, a “defunta” abriu os olhos e gritou, um grito estridente, que me deixou em pânico absoluto. Ainda com os olhos arregalados ela me olha fixamente e pergunta:

– Doutor, o que o senhor faz aqui? O que houve comigo? Alguém me ajude!!

Sem entender nada olho para a porta e encontro três enfermeiras dobrando-se em gargalhadas silenciosas. Seguravam as panças tentando se conter e uma delas, acocorada ao solo, ria e se contorcia sem parar. Uma outra, mais caridosa, apontou o dedo para outra cama, onde a verdadeira falecida se encontrava deitada, já fria pela morte que havia ocorrido alguns minutos antes da minha chegada.

Sem saber o que dizer, e tentando tranquilizar a paciente, eu apenas continuei falando como se estivesse ali para uma “ronda de bem aventuranças” na madrugada. Permaneci segurando sua mão e disse que minha presença ali era apenas para me assegurar que as “mocinhas” estavam bem e dormiam tranquilas. Sua boca repleta de vazios sorriu para mim, fechou os olhos e voltou a dormir, enquanto eu me dirigia à verdadeira paciente para constatar o óbito.

Enfermeiras sacanas… elas me pagam, nesta ou em outra vida…

Mas nem era essa a história que eu queria contar. Entre as atividades rotineiras dos internos estava o auxílio em cirurgias. Foi neste hospital que eu dei meus primeiros pontos, minhas desajeitadas suturas e minhas absurdas episiotomias. Não havia nenhum controle rígido sobre esta atividade. Estudantes com cara de criança, como eu, entravam despudoradamente para auxiliar cirurgias em hospitais, mas é importante lembrar que alguns poucos anos antes eram as auxiliares de enfermagem, com quase nenhum treinamento, quem realizavam estas funções.

Uma tarde durante meu plantão sou chamado ao bloco cirúrgico para auxiliar em uma cirurgia de “urgência”, assim me foi dito. “Uma cesariana, corra aqui!!”, disse pelo telefone a freira mal encarada, a chefona superior do bloco cirúrgico. Lá fui eu escada acima. Troquei de roupa em segundos e quando entrei na sala de cirurgia encontro a paciente deitada na cama, ostentando um barrigão reluzente por sobre a mesa de operações.

– Vai, menino. Escova essas mãos. O Dr. Wenceslau já vai chegar e precisamos operar agora, imediatamente!! disse quase gritando a enfermeira chefe.

Corri para a larga pia da sala contígua e me escovei o mais rápido que pude. Terminei exatamente quando o Dr. Wenceslau apareceu, com cara de cansado. Ainda tive a oportunidade de lhe perguntar a razão da cirurgia e da emergência, mas ele não teve tempo de responder. Enquanto eu me dirigia de volta à sala de cirurgia escutei um grito agudo e estridente. Mais dois passos, e já dentro da sala, percebi que o grito veio de uma menina da enfermagem, e não da paciente.

A cena ficou embaralhada na minha cabeça, pois eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Aproximei-me da paciente e perguntei à enfermeira o que ocorria, e foi neste momento que a técnica de enfermagem levantou o lençol que cobria as pernas da paciente, escancarando a inesperada cena.

Com os joelhos levantados e ainda deitada na mesa cirúrgica a paciente tinha metade de uma criança dentro de sua vagina, e a outra metade repousando sobre o lençol da mesa. Entretanto,  a metade que eu podia ver era a metade de baixo; era um bebê pélvico que estava nascendo.

Já com as luvas calçadas, automaticamente segurei o corpo do bebê, mas sem saber o que fazer a seguir. Com 21 anos de idade eu jamais havia presenciado um parto assim, quanto menos dado assistência a um. No afã de fazer algo tracionei levemente o bebê em minha direção e percebi que algo trancava a progressão do restante do corpo. Logo em seguida ao meu gesto mais brusco ouvi um grito vindo de outra sala: “Não puxe!!!”

Era o Dr. Wenceslau que ainda estava se escovando. Da porta, e ainda esfregando a escova nos braços pintados de iodo, ele continuou a me orientar:

– Seja gentil. Puxe o corpo do bebê para um lado e com a outra mão libere sem fazer força o braço do lado oposto. Muito bem. Agora, com a mesma delicadeza faça do outro lado. Certo. Continue, só falta a cabeça. Agora é a parte final, e você precisa ir com calma. Levante o bebê em direção à mãe… devagar, muito bem… Isso !!

Pronto, o bebê havia nascido. Assustado e extasiado eu havia atendido meu primeiro bebê pélvico, que foi salvo da cirurgia por uma coincidência e pela insistência inconsciente de uma mãe em parir seu bebê numa velocidade superior à pressa dos profissionais. Também foi minha primeira experiência com “tele conferência”, muito antes da invenção da internet. As orientações da sala de escovação me ajudaram a cumprir minha função simples, mas essencial, de ajudar um bebê a nascer.

Não sei se ainda ensinam alunos de medicina a atender partos pélvicos. Hoje em dia o medo é tão grande que esta habilidade aos poucos se desfaz. Reconheço que nos últimos 30 anos as técnicas de atenção às apresentações pélvicas mudaram substancialmente, e percebo que o bebê daquela tarde foi assistido de um modo que hoje em dia não se justificaria. A nádega da mãe apoiada na mesa, o excesso de intervenções do “médico”, a manobra de levantar o bebê estão todas defasadas, mas na ocasião era o melhor que se sabia, e o melhor que pude fazer.

Espero que a nova geração de médicos tenha uma vivência mais próxima dos desafios que um parto nos apresenta, e que eles não sejam resolvidos da forma bruta e simplista da cirurgia. Preservar o nascimento de forma livre é um projeto ecológico e essencial para preservar o que de humano existe em nós.

3 – Função Paterna

Maria Clara me procurou já no início de sua gravidez buscando uma experiência mais natural para seu parto. Professora de história na universidade local, casada com um artista plástico “avant-garde”, ela queria que seu primeiro filho fosse trazido ao mundo de uma maneira suave e tranquila, para que o início desta vida pudesse ser o melhor possível. Dona de um temperamento enérgico e agitado ela parecia o centro estelar do casal, em volta do qual um marido carinhoso, mas apático e tímido, gravitava, com circunvoluções lentas e pacienciosas. As consultas eram sempre guiadas por ela; ele apenas sorria e mantinha-se silencioso. Com seus cabelos ora verdes, ora roxos, pintados como forma de trazer a arte ao seu semblante, ele se limitava a concordar com as determinações firmes de Maria Clara. Ela era a empoderada protagonista de uma história escrita por ela.

Cabelos verdes

O pré-natal seguiu sem maiores sobressaltos até que na consulta da 36ª semana confirmou-se o que há algumas semanas estávamos suspeitando: a sua pequena filha teimava em permanecer sentada, pélvica, com o dorso à direita e a cabecinha, como um pequeno abacate, repousava logo abaixo das costelas. Como Maria Clara era de compleição magra foi fácil constatar a posição alterada, que a ecografia posterior apenas confirmou.

– Podemos tentar fazer uma versão externa, suave e tranquila, para tentar mover a pequena. Que achas?

Ela olhou para o marido que me observava ao seu lado, mas ele nada disse, apenas deu de ombros. Em seu olhar ele parecia dizer “se for para ajudar, porque não?”. Expliquei a ela que a versão só poderia ocorrer se fosse absolutamente suave, o bebê estivesse desencaixado e não causasse nenhuma pressão ou dor. Ela aquiesceu e deitou-se na mesa de exames.

Algumas poucas e delicadas trações foram suficientes para perceber que ela não cooperaria. Estava por demais tensa e preocupada. Não entendia bem o que havia ocorrido e a ideia de fazer um bebê girar massageando sua barriga lhe pareceu invasiva. Assim que pressionei a cabeça do bebê em sentido anti-horário ela aumentou o tem da voz e disse:

– Não quero! Pode parar. Estou nervosa, não tenho condições de continuar. Deixe que ela fique na posição que escolheu. Desculpe.

Expliquei a ela que não deveria se desculpar e que aquela era apenas uma tentativa. Sem uma cooperação plena de confiança nenhuma tentativa prosperaria. O marido continuava em silêncio, observando nossa conversa. Disse, finalmente, que poderíamos continuar tentando com moxabustão, homeopatia, rebozo e exercícios. Pedi que voltasse na semana seguinte para conversarmos e me despedi.

Uma posição alterada sempre suscita uma série de questões. O percentual é de 4 a 6% de bebês que permanecem pélvicos até o final do ciclo gestacional, mas a pergunta que sempre me fiz foi: eles têm alguma razão para escolher esta postura? Será coincidência ou haverá alguma causalidade recôndita a guiar seu posicionamento? Sentar-se, de braços cruzados sobre o colo uterino é uma determinação fetal, ou um ordenamento materno? Se pudermos “viajar” para mais além, haveria um conluio secreto entre ambos para que aquela posição imprimisse um destino especial, conhecido apenas por ambos?

Porque um bebê insiste em colocar-se de costas para o mundo? Talvez eu jamais tenha a resposta para estas perguntas.

Nas semanas seguintes houve pouca modificação. Maria Clara voltava a cada consulta convencida de que nada havia se modificado. Dizia que, se houvesse uma mudança de posição, ela certamente acabaria sabendo. Entretanto, sua gestação mantinha-se plácida, tranquila, serena e imóvel. Nenhuma diferença visual, e os batimentos cardíacos continuavam a ser percebidos como um tropel de cavalos bem acima da cicatriz umbilical. Era teimosa a menina, mesmo diante dos nossos exercícios, tratamentos e súplicas.

Com 39 semanas de gravidez Maria Clara, entre decepcionada e constrangida, veio me comunicar sua decisão.

– Ricardo, não tenho condições de passar por um parto deste tipo. Falta-me a coragem. Minha família, com exceção do meu marido, não me apoia sequer para um parto normal. Quando souberam que o bebê estava sentado queriam me internar na hora e operar. Foi uma dificuldade explicar que tudo estava bem e que eu ia manter o meu pré-natal como havia planejado. Entretanto, ter a minha filha nessas condições está para além das minhas forças e minhas capacidades.

Olhei para seu marido que permanecia em silêncio. Minha pergunta silenciosa e insistente era se a sua atitude era de respeito à autonomia que ela requisitava para si ou apenas um desinteresse. Havia um “respeito aos espaços” ou uma falta de aptidão para questionar e opinar sobre uma questão que parecia lhe fugir ao controle?

Resolvi perguntar a ela sobre sua decisão.

– Maria Clara, existe alguma coisa que eu possa dizer para lhe demover da decisão de partir para uma cesariana?

Ela mais uma vez olhou para o marido, que por sua vez permaneceu imóvel.

– Não. Esta é a minha decisão.

Estimular o protagonismo tem este preço. Se você realmente quer promover a autonimia plena precisa estar preparado para as decisões que não lhe agradam. Entretanto, como negar à uma paciente que seja honesta com seus limites? Como assumir como meta o protagonismo restituído a elas sem pagar o preço – por vezes muito alto – da decepção? Como ousar subverter a ordenação centenária que coloca o médico em posição superior sem correr o disco de encontrar pelo caminho uma escolha que não lhe parece sensata?

Não há como fazer uma omelete sem quebrar os ovos.

– Ok, se não há o que dizer, quem sabe ainda exista espaço para planejarmos a sua cesariana da melhor maneira possível. Um parto pélvico planejado apenas pode ocorrer com a plena aquiescência e colaboração da mãe. Não há, dentro da humanização, espaço para imposições deste tipo. Bem sabemos o quanto um corpo pode se fechar e combater a própria fisiologia, seja por uma contrariedade consciente ou por um medo que brota do território obscuro das emoções inconscientes. Entretanto, creio que uma cesariana seria menos danosa se o bebê pudesse ao menos dar seus sinais de nascer. Assim teríamos o nascimento de sua filha na data que ela determinou, e não no momento que seria melhor para os outros. Que acha da ideia de sua filha escolher a data do seu aniversário?

Ela pela primeira vez sorriu durante aquela consulta. Olhou para o marido que, como de costume, concordou com a ideia.

– Como seria? perguntou-me.

– Quando começarem as contrações me chamem. Elas não precisam sequer ser fortes o suficiente para dilatar o colo, basta que sinalizem o início do trabalho de parto. Como é seu primeiro filho espera-se que este processo leve algumas horas, portanto teremos tempo de ir para o hospital, chamar a equipe e fazer a sua cirurgia. O que lhes parece?

Concordaram com a ideia sem questionar. Ficou combinado que tão logo as primeiras contrações chegassem o chamado seria feito e a equipe se encontraria no hospital para ajeitar os pormenores da chegada de sua filha.

Não se passaram mais do que alguns dias até que recebi o telefonema de Maria Clara me avisando que havia percebido umas frágeis e esparsas contrações, além da perda de uma gota de sangue, percebida após urinar.

– É o momento, disse eu. Podemos ir para o hospital. Arrume suas coisas que eu chamarei a equipe. Nos encontramos lá.

Imediatamente liguei para meu colega anestesista Marco, parceiro de décadas. Avisei que se tratava de uma cesariana por apresentação pélvica e que podíamos ir para o hospital agora, para evitar que ela tivesse contrações sem necessidade. Ele concordou de imediato e eu arrumei as coisas para ir ao hospital.

Nessa ocasião houve uma coincidência curiosa. Quando estacionei meu carro no apertado estacionamento do hospital percebi que um carro fazia o mesmo ao meu lado. Pois era Marco, o anestesista. A piada óbvia não pôde ser evitada: “Se tivéssemos combinado isso nunca aconteceria”. Caminhamos lado a lado pelos corredores e pegamos o elevador até o terceiro andar, onde fica o centro obstétrico.

Quando a porta do elevador se abriu fomos surpreendidos por gemidos vindos do CO. Ao escutá-los ainda tive a oportunidade de brincar com meu colega e dizer “Pelo menos algum parto normal vai ocorrer neste hospital hoje”. Estávamos em um dos hospitais líderes de cesarianas na cidade, que já na época ultrapassava os 80%. Poucos médicos ainda ousavam atender partos normais por lá, e hoje em dia o número diminui de forma marcada, aproximando-se tristemente de zero.

Apertei a campainha do centro obstétrico ainda conversando alegremente com Marco. A enfermeira abriu a porta rapidamente, e sorriu ao me ver.

– Graças a Deus o senhor chegou doutor. A sua paciente está muito ansiosa. Não para de gritar e disse que está com muita contração.

– Minha paciente quem?, perguntei eu

– Ora, a Maria Clara. O senhor não pediu a ela que viesse para cá? Ela está em franco trabalho de parto e disse que tem vontade de fazer força!!

Não é possível. Eram dela os gemidos que ouvimos do corredor! Eu havia falado com ela havia menos de uma hora, com leves contrações espaçadas e frágeis. Não poderia ter progredido de forma tão rápida e intensa em poucos minutos. Eu precisava avaliar para confirmar o que estava acontecendo.

Ao lado esquerdo da porta de entrada ficava a sala de exames, para onde as pacientes iam para o exame inicial e a avaliação dos sinais vitais, e de lá se dirigiam para a sala de pré- parto e parto. Abri lentamente a porta e pude ver Maria Clara transtornada, segurando a mão de um silencioso marido de cabelos verdes. Quando me viu, gritou a todos os pulmões.

– Porque demorou? Estou com muita dor! Quero a minha cesariana agora! Nós combinamos a cirurgia, você concordou! Não me deixe esperar mais, por favor!

O marido parecia atônito e não ousava falar, talvez com medo da reação de sua histriônica esposa. Olhou para mim timidamente, e de forma educada perguntou se poderíamos dar seguimento ao nosso acordo inicial.

– Claro que sim, o anestesista está aqui comigo. Tudo foi rápido demais, você recém tem uma hora de trabalho de parto. As contrações surgiram de forma inesperada, intensas e frequentes. O anestesista já está pronto, do lado de fora desta porta. A nós basta apenas passar para a sala de cirurgia, chamar meu auxiliar e avisar a neonatologia. Isso não ultrapassa uns poucos minutos. Tente aguentar firme.

Ela ainda esboçou um “mas vai demorar?”, mas enquanto ela ensaiava esta queixa eu e seu marido a levantamos da maca onde estava e a levamos caminhando até a entrada da sala cirúrgica. Entretanto, antes que pudéssemos fazer isso, ela parou para mais uma contração, e pude ouvir o som inconfundível da guturalidade, a conexão sonora grave entre a glote e o colo uterino, o som das expulsões que antecipa os nascimentos.Surpreso pelo som que acabara de ouvir, segurei sua mão com firmeza e pedi que parasse.

– Espere, entre na sala de parto, disse eu. Preciso avaliar imediatamente onde está o seu bebê.

Colocamos Maria Clara na cama de lençol branco e acendemos a luz. Pedi à enfermeira uma mão de luva para realizar o toque vaginal. Esperei por menos de um minuto pela próxima contração e, quando a nova onda surgiu, pude avaliar o que acontecia no íntimo de suas contrações.

Uma nádega pequena cobria inteiramente a cavidade vaginal. A dilatação tsunâmica havia se completado em minutos, e a descida do bebê foi espetacular. Afastando-se os lábios vaginais já era possível vislumbrar a bolsa protusa e a nádega pálida que se escondia por detrás, no aquário de bolsa, vérnix e água.

Levantei os olhos para o casal e lhes disse, sem pestanejar:

– Não há como segurar. Este bebê vai nascer. Está dentro da vagina, e nada mais o segura. Não há tempo, e muito menos razão, para se fazer uma cesariana. Sua filha vai nascer dentro de instantes.

Maria Clara me olhou com olhos de pavor. Fitou os olhos do marido e depois os meus. Colocou-se de joelhos na cama e clamou aos céus:

– Por favor, Ric, faça alguma coisa. Uma criança não pode nascer assim!! Ela vai ficar presa, vai entalar, vai sofrer!! Eu não quero que ela venha ao mundo desta forma! Nós havíamos combinado que você ia me operar, e eu fiz tudo o que foi combinado. Eu não tenho culpa da velocidade, mas você pode resolver isso. Por favor, me opere, agora!!

Olhei para os olhos de Maria Clara e tentei, da forma mais calma do mundo explicar as características emergenciais do caso.

– Acho que você não entendeu. Não se trata de querer ou não operar. Não se trata muito menos de cumprir ou não o acordo anteriormente firmado. Sua filha vai nascer em instantes, basta que você solte o corpo e a ajude. Ela está praticamente saindo. O anestesista está ali, do lado de fora, mas até levar você para o bloco e operar ela já estaria nos seus braços.

Aponto para a porta da sala de parto onde Marco estava nos acompanhando pela fresta. De lá ainda pôde dizer “estou aqui se precisarem de mim”.

Depois disso mais uma contração e pude constatar o “sinal do bochecho”, que é como chamo a apresentação que empurra o períneo fazendo duas “bochechas” ao lado do óstio vaginal. Não adiantou muito a minha fala, e antes que a próxima contração chegasse ela despejou seu derradeiro esforço de capitulação.

– Você me enganou! Disse que faria a cirurgia e está me enrolando. Eu não mereço ser tratada assim, quero minha filha!!

Finalmente, a cartada final. Virou seu rosto para a esquerda e olhando duramente para o marido disparou sua queixa mais grave, entre gritos, gemidos e choro.

– E você não faz nada? Está me deixando aqui sofrer e não diz coisa alguma, nenhuma palavra, nenhuma defesa? Estou lidando sozinha com toda essa contrariedade e de você não recebo nenhuma ajuda. Quando é que você vai…

– Cale-se. Fique em silêncio por um minuto apenas. Pare de falar e concentre-se no que você tem a fazer. Eu mesmo vi que nossa filha está saindo. Ela vai mesmo nascer agora. O Ricardo está certo, e isto é o melhor a fazer. Confie e pare de tagarelar sem parar! Chega de choramingos inúteis e vazios. Faça força e feche a boca!

Depois disso apenas o silêncio, que durou a eternidade de alguns poucos segundos.

Sim, eu não poderia falar isso; jamais teria esse direito. Os gritos severos vieram do seu esposo, o mesmo que se mantivera quieto por todo o tempo, e cuja voz eu havia escutado não mais do que meia dúzia de vezes durante todo o pré-natal.

Imediatamente, como se fosse banhada por uma cachoeira de sensatez, ela silenciou. Olhou para mim e depois para o marido. Fungando e secando o rosto umedecido pelas lágrimas, perguntou:

– Então vai nascer mesmo? Devo fazer força? Vai dar tudo certo?

– Claro, dissemos os dois. E vai ser agora.

Ela reconheceu a chegada da contração e pela primeira vez vi seu corpo relaxar e entregar-se à força de seu útero. Solta dos arreios da tensão de seu corpo, que se contrapunham às forças expulsivas, e seu bebê pôde finalmente escorregar pela vagina. Mais uma última força e o desprendimento da cabeça foi suave e tranquilo.

– Nasceu!! gritou ele, e de sua garganta veio um grito trancado há muito tempo. Sua cabeça voltou-se para cima e começou uma mistura incompreensível de lágrimas, choro e gargalhadas ruidosas. O homem do cabelo verde extravasava de alegria pela tensão concentrada de um parto cuja rapidez desafiou toda a nossa paciência e sangue frio.

Ela aconchegava seu bebê ainda com estranheza. Nem 15 minutos haviam se passado desde que chegamos, e ela já estava com sua menina no colo. Ria e chorava, olhava para os primeiros lamentos de sua filha, limpava-lhe o rosto e acariciava seus cabelos. O marido a abraçou e ambos choraram em uníssono uma grande vitória sobre o inesperado.

Por quase duas décadas este parto ocupou meus pensamentos, e acho que nele existem vários temas que podemos perseguir. O que mais me estimula é a atitude inesperada e firme do marido. Em verdade, creio que sua ação forte e impositiva, estabeleceu um limite para o descontrole de sua esposa. Ao meu ver, este foi o fator essencial que permitiu o nascimento na contração seguinte. Não fosse o tom, a voz e a sua autoridade e ela continuaria numa espiral de desconfiança, medo, angústia e tensão, exatamente os elementos que estavam impedindo a progressão do parto e o nascimento.

Muito se diz da função paterna, o estabelecimento de limites, aquilo que constitui o pai em uma relação. Pois para mim, a ação súbita, inesperada e firme daquele pai, selou de forma intensa e duradoura a sua função na vida daquela criança. O grito primal fez um dueto com a voz forte e decisiva do pai, e juntos formaram a harmonia de sons que culminou em um nascimento vitorioso.

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Excelência no SUS

 
A qualidade oferecida na assistência ao parto pelo hospital Sofia Feldman, de Belo Horizonte, é tão grande que as pacientes PRIVADAS e que possuem planos de saúde estão voltando seus olhos para o trabalho lá oferecido, trocando as paredes de mármore e os “vidros de plasma” das maternidades “cinco estrelas” pela excelência do atendimento humanizado e baseado em evidências de uma maternidade 100% SUS. Esta e outras iniciativas de sucesso (como as Casas de Parto, igualmente disputadas pelas pacientes de alta renda) nos mostram que o setor público está MUITO à frente do privado no que concerne à humanização do nascimento. A confusão que ainda existe no seio da classe média entre qualidade e luxo precisa ser desfeita para que alcancemos níveis superiores de atenção, tanto para as pacientes do SUS quanto para aquelas da saúde suplementar.
Faz algum tempo eu postei no Facebook uma frase que eu inventei (derivada de uma frase sobre carros e transporte coletivo) que dizia isso o mesmo: “País rico não é um país em que todos tenham excelentes planos de saúde privados, mas naquele em que seu sistema público é de excelência e bom para todos“.
Tão bons quanto a notícia foram os comentários das mulheres, logo abaixo. Muito legal de ver o empoderamento de gestantes que aos poucos começa a se consolidar. Lentamente, mas de forma consistente, vemos que as mulheres não são mais facilmente enganadas pelas aparências que os hospitais apresentam. Assim como as palavras difíceis, recheadas de jargões e ameaças não as assustam mais, as paredes marmóreas e as vistas privilegiadas dos hospitais de luxo não mais as seduzem. Estamos inexoravelmente evoluindo !!!
 Vejam
 Vejam aqui a reportagem completa em Veja BH

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