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Retrocesso Civilizatório

No final dos anos 70 eu fiz meu primeiro vestibular e, naquele ano, haveria uma novidade: a redação passaria a ser obrigatória no vestibular unificado. Durante o ano inteiro em que fiz meu curso preparatório só se falava de uma possibilidade de redação: as crianças. Todos diziam que esse seria o tema es colhido porque no ano seguinte havia sido determinado o “ano internacional da criança”. Todo estudante daquele ano tinha uma redação que tratava sobre a infância e seus desafios decorada na cabeça, caso esse fosse o tema escolhido. Eu, por certo também tinha. Todos ficamos frustrados quando vimos que a redação tratava de um tema bem distante: a celebração da diversidade com a multiplicidade de idiomas, costumes e hábitos trazidos pelos imigrantes. Entretanto, fiquei com a minha redação – ou pelo menos fragmentos dela – por décadas na minha cabeça.

Sempre gostei de crianças, e sempre fui fascinado por elas. Cheguei a pensar em me especializar em pediatria, mas percebi que gostar dos pequenos e tratá-los como médico são situações ocupam porções diferentes e distintas do cérebro. Por isso me ocupei das mulheres e das mães, e dos fenômenos relacionados ao nascimento humano.

Este ano voltei a fazer provas que incluíam a redação. Não mais o vestibular, mas o ENEM. Desta vez não fiz nenhuma preparação especial para a prova e sequer tinha um palpite. Entrei na prova de coração aberto para qualquer surpresa. Qual não foi minha surpresa ao perceber que o tema do ENEM era “Trabalho infantil”. Meu primeiro vestibular tinha essa “sombra”, e no meu último as crianças voltaram a ser o foco. O que eu achei interessante é que falar de crianças e de “trabalho infantil” é praticamente o mesmo, na medida em que um dos principais elementos civilizatórios foi a proteção da criança. Primeiro com o reconhecimento de sua existência, algo que apenas veio a ocorrer tardiamente, na virada dos séculos XVIII e XIX. Na minha redação citei Jean-Jacques Rousseau (1712–1778) que revolucionou a visão sobre a infância ao defendê-la como uma etapa autônoma e fundamental da vida, distinta do dos valores e contextos do universo adulto. Em sua obra Émile, ou Da Educação (1762), ele propôs a “educação natural”, que respeita o ritmo e as necessidades próprias da criança, marcando um divisor de águas na pedagogia moderna. Falei também do pensador brasileiro Paulo Freire, que via a criança como sujeito histórico e motor da cultura onde está inserida, afastando-se da perspectiva de Rousseau e sua “tábula-rasa”. Em sua pedagogia defendeu que crianças têm direito à palavra, ao lúdico e ao debate, sendo, portanto, protagonistas do seu aprendizado, e não sujeitos passivos da sua educação.

Fiquei feliz com minha redação, mesmo tendo escrito demais – o que sempre será um defeito meu. No entanto, achei que a maioria dos meus argumentos eram apenas “chover no molhado”, algo como debater a esfericidade da Terra ou a superioridade do parto normal sobre as variantes cirúrgicas. Infelizmente, a realidade é diferente e, desde que a onda obscurantista e fascista tomou conta do debate político e científico, somos levados a defender o óbvio, as verdades cristalinas.

O pré-candidato Flávio Bolsonaro, também conhecido como “Zero Um”, não apenas defende a descriminalização do trabalho infantil – como seu pai, que dizia se tratar de “algo que não prejudica as crianças” – mas deseja diminuir a maioridade penal para atingir até crianças de 14 anos, em casos especiais. Na mesma semana, a apresentadora Leda Nagle publicou uma declaração onde elogiava o trabalho infantil com a conhecida retórica de “meus pais me colocaram para trabalhar desde cedo, e isso moldou meu espírito”. Disse ela: “Fazia os deveres de casa no balcão do armazém e depois atendia fregueses, junto com meus pais, pesando arroz, feijão (que na época eram vendidos a granel) e fazia pequenas entregas. Tenho belas lembranças desta época. Éramos fortes, unidos e felizes, sem drama”. A direita sempre romantiza o trabalho infantil, mas nunca descrevem o rtabalho em uma carvoaria, numa mina ou cortando cana. Via de regra, se refere ao rtabalho no empreendimento dos pais.

Uma pessoa que fala de redução de idade penal – para qualquer delito – demonstra um profundo e arrogante desconhecimento do que seja o ambiente prisional. Imaginar um garoto de 14 anos dentro de uma galeria entre faccionados é uma imagem infernal e absolutamente desumana. “Ahhh, mas é criminoso, que pague!!!”…. bem, esse tipo de argumento já escutei muito na banda de lá, os fascistas e punitivistas raivoso, que acreditam que as penas cruéis tenham validade. Já eu, que sou abolicionista penal, creio que qualquer indivíduo que proponha um absurdo como esse deveria ser punido de forma exemplar nas urnas, e jamais concorrer a qualquer cargo público. Qualquer um que diga que uma criança de 14 anos deveria pagar seus crimes numa prisão comum, junto com adultos, não faz a menor ideia do que seja a vida num presídio, ou não se importa com a sobrevivência desses garotos. Ou então sabe o que isso significa, e por isso mesmo quer fazer da presença desses meninos a antessala do inferno, com a ilusão de que esse tipo de vingança possa trazer algum benefício social.

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Justiça veloz

O universo prisional oferece oportunidades para muitas reflexões, em especial para aqueles que pretendem fazer uso das experiências cotidianas para encontrar nelas sentido e propósito. O tempo ocioso entre os períodos de trabalho e a falta de contato com o mundo externo por meio das redes sociais oportunizam olhar para cada fato com mais cuidado e atenção.

Num determinado dia fui chamado pelo supervisor para avaliar um preso que estava machucado. Essa era a informação: sucinta, resumida e breve; nenhum outro detalhe me foi passado. Peguei meu aparelho de pressão e meu oxímetro e segui para o jumbo logo em frente à sala da supervisão, e quase ao lado do nosso ambulatório. Um “jumbo” é uma pequena cela gradeada que serve de entreposto entre as celas das galerias e algum outro lugar, que pode ser a sala da defensoria, a sala dos exames médicos, a ida até a UBS e até para aguardar a burocracia do Infopen (sistema de registro dos presos) para receber a tão aguardada liberdade.

No jumbo havia um corpo caído no chão. A imagem seria muito assustadora não tivesse eu trabalhado por alguns anos no Pronto Socorro. O preso estava sem camisa, descalço e vestia apenas a bermuda laranja do uniforme. Tinha não mais de 40 anos e um corpo forte. Mantinha-se gemente, com os olhos fechados e parecia não querer se mexer, com medo de sentir mais dor. Não havia nenhuma parte visível do seu corpo que não estivesse coberta sangue ou de machucados, arranhões e ferimentos de um vermelho muito vivo, como se houvesse caído numa trituradora industrial.

–  Os canalhas me pegaram na trairagem – disse, antes que eu lhe fizesse alguma pergunta.

–  Como eles te bateram?

–   Facões, pedaços de pau, chinelos, o acrílico quebrado das janelas. E com a mão mesmo. Não consegui me defender direito, fui pego de surpresa.

Percebi que os antebraços eram a parte mais sensível. Estavam em carne viva, pois foram os únicos escudos que ele teve para se defender.

– Ainda assim consegui deixar dois com nariz sangrando.

Artemus era seu nome. Segundo o que os guardas depois me contaram, ele era irmão do líder de uma das facções e teria se envolvido com a mulher dele enquanto estava na rua. Sim, a cunhada. Depois de ser preso, o líder traído deu a ordem para que recebesse uma “lição”. Envolver-se com a mulher de um apenado é algo muito grave para a ética prisional: mulheres são elementos críticos na relação entre os presos. Mexer com a namorada ou companheira de alguém – ou mesmo simplesmente olhar durante a visita – pode causar morte. A isso chama-se “chocar visita”, que é considerado delito grave. Por isso os presos trabalhadores – como eu – viram o rosto para a parede quando as visitas transitam pela galeria, num ritual patriarcal chocante.

Aquele corpo jogado ao chão do jumbo era o resultado de um processo jurídico informal: queixa, denúncia, inquérito, processo, sentença e na minha frente, deitado em posição fetal e gemendo, estava o cumprimento da pena. Para quem admira linchamentos e uma justiça “sem demora” esta era a cena perfeita.

Examinei o rapaz com o máximo de cuidado, pois não havia como saber se havia fraturas. Depois de uma breve avaliação não me pareceu ter qualquer osso comprometido, e nem um corte profundo e extenso que necessitasse uma sutura. A impressão que eu tinha é que haviam passado uma lixa de areia pelo corpo todo do rapaz, para não deixar nenhuma parte com pele íntegra. Pedi que se levantasse e o levei ao nosso ambulatorio para lavar os ferimentos com água e sabão.

Avaliei sinais vitais e avisei à supervisão que nenhuma outra medida seria necessária, a não ser a troca de galeria. Apesar do aspecto muito feio, com os lábios inchados, o maxilar edemaciado e inúmeros pequenos cortes pelo corpo não haveria necessidade de chamar uma emergência.

O guarda me disse que não era a primeira vez que esse líder fazia isso. Ele era a lei suprema na galeria, e oprimia todo aquele que se negasse a colaborar ou tivesse um comportamento por ele considerado inadequado. A lei na prisão é dura, violenta e monocrática.

No dia seguinte comentei a cena com meus colegas trabalhadores da galeria, explicando o espancamento encomendado sobre o Artemus. Todos me contaram episódios parecidos com esse de que foram testemunhas, e falavam da brutalidade que os caracteriza. Alguns, como Artemus, ainda conseguem se defender, e mesmo acertar alguns socos. Outros apanham em silêncio pois não tem condição alguma de oferecer reação. E os opressores são quase sempre impunes; o que fazer com alguém que já tem toda a vida pela frente trancado numa prisão?

–  A vitima desse espancamento era um homem forte, no auge do seu vigor físico. Agora imaginem o que ocorreria se o linchamento fosse com um garoto de 16 anos, caso eles fossem jogados dentro das galerias. Não sobraria nada. Garotos nesse ambiente seriam tratados como escravos, sem direitos, sem paz e sendo oprimidos constantemente. Na lei da selva eles seriam as presas – disse eu, tentando afastar da mente esta cena absurdo.

Meus colegas apenas suspiraram. José ainda me disse:

–  Qualquer um que diga que uma criança de 16 anos deveria pagar seus crimes numa prisão comum, junto com adultos, não faz a menor ideia do que seja a vida num presídio, ou não se importa com a sobrevivência desses garotos. Ou então sabe o que significa essa barbárie, e por isso mesmo quer fazer da presença desses meninos na prisão a antessala do inferno, com a ilusão de que esse tipo de vingança possa trazer algum benefício social.

Concordei com a fala do José, e percebi que apenas aqueles que mergulham nesse oceano de dor, sofrimento, culpa, remorso e rancor tem condições de entender plenanente o que acontece entre esses muros.

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Maioridade Penal

Criança presa 1

Existe uma “direita raivosa” (não me refiro a ninguém em especial) que pensa que a solução dos problemas da sociedade está numa visão moralizante, como se a humanidade se dividisse entre “bons” e “maus”. Uma espécie de moralismo fascista que acredita que eliminando os maus teríamos uma sociedade melhor. Isso gera uma série de atrocidades, principalmente porque nega a importância da própria estrutura social na geração de tais discrepâncias. Em verdade, os meliantes de hoje poderiam ser vistos como “resistentes” de uma guerra social, onde a maior parte dos recursos lhes é sonegada, e onde seu quinhão – a parte que lhes cabe neste latifúndio – nunca é entregue. Achar que seu extermínio ajudaria a sociedade é uma ingenuidade ou uma manobra interesseira.

Enquanto eles acreditarem que o sujeito é mau não vão perceber o quanto a sociedade é madrasta“.

Esta direita raivosa adora linchamentos e justiçamentos. Deve dar um prazer imenso ver um jovem de 16 anos apodrecendo numa prisão, enquanto a sociedade – fábrica de meliantes – mantém sua produção inalterada e a pleno vapor. Criar a injustiça e depois “limpar” os miseráveis da nossa vista é a maior prova de que nossa sociedade está doente.

Sempre que eu leio a historia desses meninos “bandidos” eu penso que provavelmente faria o mesmo que eles se minha vida tivesse sido regida pelas mesmas circunstâncias e contextos. Como Terêncio afirmo que “o que é humano não me é estranho“. Existe muito mais semelhanças entre um criminoso brutal e o filhinho de papai, bem alimentado, boa escola, pais presentes, afeto e necessidades supridas. Retire essa história dadivosa e sobrará apenas um humano desnudo, igual a todo outro, criminoso ou não. Dividir os humanos por uma essência “boa” ou “má” esquecendo-se da arquitetura social subjacente que os produziu é um crime contra a humanidade, uma perda de tempo e energias, que poderiam ser mais bem utilizadas na construção de uma sociedade justa e equânime.

Nas minhas peregrinações pelas redes sociais eu percebi que as mulheres eram majoritariamente  a favor da redução. Evidente que isso é apenas uma observação, e não tem valor científico. Mas sinto uma tristeza ao  constatar a queda desses mitos: o amor materno, o amor incondicional e a doçura essencial. Não… aparentemente elas amam os seus, acima de tudo. Os outros filhos, os deserdados da vida, os filhos das putas, esses que apodreçam nas cadeias infectas. Obrigado senhoras, por mais esta lição.

O que  penso ser relevante observar é que, de quem eu mais esperava sentimentos nobres e amorosos foi de onde vieram os comentários mais violentos. Quanto à ideia de diminuir a idade penal em si pouco resta a dizer. Mas as teses moralistas de uma parte da direita nacional – a mais raivosa – ficam evidentes. A ideia moralista e ingênua (minha opinião) é de um essencialismo pueril e preconceituoso: a divisão da sociedade entre “bons” e “maus”. Para completar a proposta de que, eliminando-se aqueles “maus”, sobrariam apenas os bons, ignorando a produção de criminalidade pela própria injustiça social. Esta tese nos obriga a acreditar que na Suécia os presídios estão sendo fechados por falta de prisioneiros porque os “suecos são bons em essência”, sem olhar para a distribuição adequada de renda e a dignificação do trabalho como fator civilizatório. Estamos colocando adolescentes para apodrecer na cadeia por esta visão estupidificante e tacanha da sociedade. E as mães, que na minha visão infantil seriam as guardiãs do amor e da compreensão, são as que mais aplaudem iniciativas que visam encarcerar meninos e adolescentes.

Mas não há nada a temer, senhoras; já sabemos que só pretos e pobres irão para lá. A senhora pode ficar tranquila: vamos limpar a sua rua dessa sujeira.

Veja o que acontece quando essa visão é levada às últimas consequências:

Criança presa nos Estados Unidos

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