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Liberdade, valor maior

Desculpe se isso soar antipático, eu concordo com a frase, mas não com seu contexto. Sim, eu acho a liberdade um valor superior à vida. Se a vida fosse superior à liberdade nenhuma revolução teria acontecido, pois todas as lutas humanas por liberdade ocorreram às custas das vidas de muitos mártires. Não fosse pelas lutas daqueles que lutaram pela liberdade e pelo fim da opressão e ainda estaríamos vivendo no feudalismo, divididos entre senhores e vassalos. Afinal, quem se arriscaria a morrer lutando contra esse sistema arriscando a própria existência?

Existem, sim, lutas que são superiores à nossa vida particular. São temas tão importantes para a humanidade que valem a pena o risco que se corre, até de perder a vida. A luta contra a opressão sempre ocorre no limite da nossa própria segurança.

E eu NÃO estou me referindo ao contexto da fala do ministro. Não quero debater o tema da obrigatoriedade ou dos passaportes aqui, mas estou falando em tese: existem lutas que são mais importantes que a nossa vida pessoal. Aceitar que viver é mais importante do que lutar contra a escravidão e a opressão é aceitar que nossa mera existência biológica é superior aquilo que nos torna humanos: a pulsão pela liberdade.

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Corações e Mentes

Quando eu estava no primeiro ano do ensino médio nossa professora de português nos levou ao cinema para ver um filme recém lançado que se chamava “Corações e Mentes”. Tratava-se de um documentário sobre a guerra do Vietnã, produzido um ano após a retirada das tropas americanas da Indochina e um ano antes da “Batalha de Saigon”, que selou o fim da guerra em 1975. Entre 1 e 3 milhões de vietnamitas perderam a vida nos combates, numa luta insana pelo direito de escolherem seu próprio destino após séculos de dominação estrangeira.

O filme me marcou profundamente pelas cenas de bombardeios, a crueza das torturas, o depoimento tocante dos soldados – que eram obrigados a despejar bombas sobre vilarejos – e tantas outras crueldades. Entretanto, nada me chocou mais do que a fala de um general americano chamado William Westmoreland – curiosamente seu sobrenome significa “mais terras para o oeste” – tanto é que suas palavras e sua expressão apática não me saíram da memória passados já mais de 40 anos.

A fala que tanto me impactou se situa no final do documentário. Em breves segundos ele dizia textualmente que “Os orientais não dão o mesmo alto valor à vida que um ocidental. Para eles a vida é abundante e barata. A filosofia do Oriente expressa isso: a vida não é importante”.

Para mim foi um choque, mas é possível entender perfeitamente as motivações desse general. Para quem pode determinar com um simples aceno de quepe a matança de mulheres e crianças em um vilarejo pobre da Indochina a única forma de suportar tamanha crueldade e covardia é criar a fantasia de que, aquilo que chamamos “vida”, para eles tem um valor menor. Assim, as lágrimas de uma mãe americana sobre o caixão do filho que volta morto da guerra têm muito mais valor do que aquelas vertidas por uma mãe oriental que carrega seu filho sem vida descarnado pelo Napalm. Desta forma, desumanizando o inimigo, é mais fácil cometer as mais brutais atrocidades, pois criamos uma barreira que nos impede o acesso à empatia. Tratamos os inimigos – incluindo seus anciãos, mulheres grávidas e crianças – como gado, ovelhas, para que o extermínio de suas vidas não nos cause dor, culpa ou remorso.

Quando eu presenciava alguém fazendo acusações criminosas contra os palestinos dizendo que usam os próprios filhos como “escudos humanos” – sem uma prova qualquer dessa barbárie – eu sempre lhes perguntava: “Se uma nação estrangeira viesse ocupar sua cidade você colocaria seus filhos na janela de casa para serem o alvo das balas inimigas?” e a reação era sempre um sonoro “NÃO“. Eu, então, questionava: “E por que acha que um palestino faria isso com seus próprios filhos?” e a resposta que se seguia cursava a mesma linha do General William Westmoreland: “Ora, apenas porque eles não são humanos como nós, não dão valor à vida dos seus filhos como nós damos”.

Para perpetuar os massacres covardes contra crianças, bebês e famílias inteiras em Gaza é necessário criar e disseminar um projeto de desumanização dessa população. Só assim a dor de sua carne em brasa se torna diferente da nossa, suas perdas ficam insignificantes e nossos atos monstruosos se tornam aceitáveis.

Chamar de “terroristas” os palestinos que lutam por sua terra, sua autonomia, sua liberdade e pelo fim do Apartheid é tão equivocado quanto usar a mesma palavra para descrever a Resistência Francesa e os Vietcongues, que fizeram exatamente o mesmo. Criar a falsa narrativa de desapego palestino à vida dos próprios filhos é uma covardia sustentada por uma farsa. O mundo precisa enfrentar o imperialismo e o colonialismo racista que nos asfixia, se é que ainda temos esperança de sobreviver enquanto espécie.

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