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Desumanizar

“A forma clássica de justificar nossa brutalidade é desumanizar a quem odiamos. Todos os genocídios da história usaram esta estratégia. Congoleses, judeus, palestinos,, armênios, chineses, todos foram tratados como indignos da condição humana. Aqui em nosso meio, para poder continuar odiando o PT é preciso insinuar que os petistas não são “pessoas de bem”, portanto não há problema algum em destruir, difamar e – por que não? – até matar. A forma como tratam o ex-presidente Lula é apenas um aspecto dessa desumanização”.

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Lobos invisíveis

Acabei sem querer caindo no texto de um advogado e piloto do Rio de Janeiro que comemora a morte do netinho de Lula. Não me surpreendeu, até porque congrega toda a psicopatia (e a conhecida fixação anal) dos seguidores da direita olavista. Entretanto, logo abaixo do texto havia um vídeo de um comentarista econômico do RS, Políbio Braga, que aparecia na TV no tempo que eu ainda a ligava. Pois o vídeo é absolutamente nojento e odioso, cheio de acusações sem fundamento e sem o menor respeito pela dor do ex presidente.

Isso evidencia algo que eu tinha observado há alguns dias: os psicopatas, os degradados e os disseminadores de ódio passeiam ao nosso lado todo dia sem que chamem nossa atenção. Guardam seu rancor e sua fúria escondida sob capas de hipocrisia, as quais tiram apenas em momentos de desatenção ou descontrole. Pois agora também percebo que estes personagens passeavam pelas nossas televisões exibindo sorrisos de sarcasmo e desprezo, sem que tivéssemos a chance de perceber.

Que Deus tenha piedade deles por tanta maldade.

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Pena Capital

O problema da argumentação daqueles que apoiam a pena de morte (e da turma que gosta de assassinatos legalizados) é que são fixados na figura do assassino (Freud explica) e não na população que é vítima da violência. Milhares de estudos sociológicos comprovam que não se modificam as taxas de criminalidade com medidas como esta, e mesmo assim insistem na ideia de matar quem comete crimes. Ora, por quê?

A resposta é óbvia. A razão para está fixação é que estes sujeitos também desejam matar, como os criminosos, mas não o podem fazer. É um sentimento brutal e primitivo, uma sensação pessoal de vingança contra os que invadem seu espaço ou lhe tiram algo de valor. Infelizmente estas propostas quando executadas nunca mudaram em nada a insegurança da população e mesmo as mortes violentas. São inúteis e apenas adicionam mais mortes àquelas que já lamentamos. Elas apenas oferecem o prazer sádico de acrescentar uma morte legal às estatísticas.

A Pena de Morte tem o mesmo efeito da desastrosa “guerra ao terror” implantada pelos governos americanos. A ideia é a mesma: vamos destruir todos os malfeitores e a sociedade será dominada apenas por “gente de bem”. Mataram milhares dos – assim chamados – “terroristas”. Limparam o terreno e espalharam sangue por todo lado. Eu pergunto: que efeito isso produziu no terrorismo global?

O OPOSTO do esperado. Nunca houve tanta tensão, atentados, insegurança e violência. A guerra ao terror é um SUPREMO FRACASSO, assim como também o são as medidas de extermínio de negros e pobres submetidos a situações sociais deploráveis e que entram no crime pelas razões que tanto conhecemos. Sem atacar diretamente as RAZÕES para o terrorismo e para o crime tais medidas apenas reciclam terroristas e bandidos. Abrimos vagas para os novos sem entender porque se formam tão rapidamente.

No fundo o que temos é um processo exonerativo de raivas e frustrações acumuladas na sociedade desaguando numa prática medieval de assassinar aqueles à sua margem, sem nenhuma indicação de que esta sociedade se torne, por estas medidas, mais pacífica.

Pelo contrário, a exemplo do que aconteceu à luta contra o “terror”, só recrudescemos a matança.

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Um Corpo no Chão

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A xícara de café fumegante assistia silenciosamente ao meu lado a derradeira pirueta desconcertante da ginasta romena numa prova das Olímpiadas que passava na TV colocada ao fundo da cafeteria. Subitamente, um grito cortou o ar e fez a funcionária de cabelos oxigenados correr para a porta. Virando meu corpo em sua direção pude ver os derradeiros movimentos de um balé macabro.

Um rapaz bem vestido roubou a bolsa de uma mulher e saiu em disparada. O meliante, descoberto por um taxista que testemunhou a cena, acabou por fazer uma escolha da qual se arrependeria mais tarde. Entrou na rua errada e acabou alcançado por um passante e um motoboy. Cercado, levantou os braços, deixou cair a bolsa e se ajoelhou, ainda mantendo as mãos para o céu. O silêncio que se seguiu ao grito é substituído por uma profusão de vozes, berros e exclamações. Muitos correm para a cena, mas eu me limitei a me erguer da cadeira da cafeteria e, sofregamente, me dirigi à porta.

O motoboy, jaqueta de couro e botinas, simulou uma jogada de futebol americano. Ainda com seu capacete reluzente enquadrou o corpo forte e, como um “kicker”, desferiu um violento chute no corpo do rapaz. Pelo acúmulo de pessoas que agora envolviam a cena, não pude ver onde o impiedoso pontapé o atingiu. Escutei apenas um grito surdo, seguido de gargalhadas e comentários jocosos e histéricos. Mais de 20 pessoas agora cercavam o menino, cujo corpo desapareceu, envolto pela turba.

Passam-se alguns minutos e uma senhora tenta me explicar os detalhes do roubo, mas é interrompida por um senhor de uns 65 anos que, com um sorriso nos lábios, dispara: “Esse aí não rouba mais. Quebraram a perna dele. Chutaram a perna do ladrão até quebrar. Partiram ela no meio“, continuou o senhor. Era indisfarçável o prazer estampado em seu rosto ao relatar a pequena chacina, o linchamento que ofereceu um pouco de diversão às pessoas de bem que circulavam no entorno da cafeteria.

O povo continuava em volta, e por vezes era possível escutar os gritos do rapaz. As pessoas se amontoavam em torno do seu corpo roto, enquanto esperavam a polícia, paradoxalmente a única esperança que o pobre ladrão tinha de estancar o linchamento. A barbárie, entre gritos e sussurros, espreita em qualquer esquina, bastando para isso que o mundo lhe ofereça uma forma de pegar carona no ódio alheio.

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto a foto de um gol
Em vez de reza a praga de alguém
E um silêncio servindo de amém.”

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Assalto

assalto

Minha filha foi assaltada. Um rapaz roubou seu celular e saiu em disparada. Ela saiu atrás gritando histericamente até encontrar uma viatura da polícia. Os policiais a fizeram percorrer na viatura as redondezas do Parque da Redenção, onde ocorreu o roubo, até encontrarem o pobre ladrão.

Reconhecido por ela, foi recolhido ao Palácio da Polícia para o flagrante. Bebel conseguiu recuperar seu celular. Na marra e na coragem.

Onde foi que eu errei? Por que não consegui criar uma filha para ser uma moça bela, recatada e pronta para o lar? Encontrei a Bebel logo depois e ela me contou que quando os policiais interceptaram o rapaz começaram a bater nele. Desnecessário dizer que ele era preto, muito mais preto do que a decência branca determina. Ele roubou a mulher branca, safado, degenerado. Como ousa???

Ato contínuo à imobilização imediata, e já indefeso, os policiais lhe aplicaram vários tapas, mais para humilhar do que para machucar, mas ouviram os protestos de Bebel.

– Hei, ele já foi imobilizado. Já pegamos o celular. Não há razão alguma para bater nele! Parem!

Os policiais relaxaram a pressão sobre seu corpo forte e negro, mas não se furtaram ao comentário óbvio.

– Ah… você é uma dessas. Não gosta que batam em ladrão. Pois fique sabendo, mocinha, que…

Bebel o interrompeu com o dedo indicador à proa

– Fiquem vocês sabendo que quem bate em uma pessoa que não pode se defender é bandido. O comportamento de vocês deve ser diferente daqueles a quem vocês perseguem.

Recebeu como resposta um riso debochado, mas surtiu efeito. Eles o algemaram, mas não foi mais agredido.

Há quem sustente que bater num bandido que acabou de lhe assaltar é algo normal e que deveria ser estimulado. Tivesse Bebel se associado ao espancamento e muitos diriam “Seus socos e sopapos me representam“.

A mim não representam e sei que muitas pessoas concordam comigo. Nossa resposta, enquanto pessoas ou sociedade, não pode ser na mesma sintonia daqueles a quem criticamos. Se algum exemplo de fraternidade precisa acontecer, que venha de nós. Só com o perdão se quebra o ciclo de ódio.

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Birth Revenge

Vingança

Vamos deixar bem claro uma coisa: EU tenho roupa suja para lavar, EU tenho atitudes BURRAS e eu agradeço quando me apontam os erros. Isso não significa que usar suas redes de relacionamento para atacar pessoalmente aqueles que me magoaram seja uma atitude correta. Difamar quem quer que seja em rede social é uma atitude absurda do ponto de vista político.

Mas como dar voz às mulheres que se sentem vítimas de algum tipo de violência? Como permitir que elas possam expor suas dores e serem acolhidas pelas suas parceiras de luta? Como minorar a dor e o sofrimento de quem se considera injustiçado e traído?

Certamente que esta não é uma tarefa fácil. Entretanto, se ela puder focar na solução do problema de todos (um sistema que é intrinsecamente violento) e não apenas nos SEUS problemas específicos, ela estará no caminho correto. Uma possibilidade é solicitar a ela que exponha a sua situação (ou um caso hipotético) sem citar nomes, sem agredir a pessoa que ela acredita ter errado, sem enxovalhar a sua honra e sem tentar diminuir a sua indignação às custas da humilhação alheia. Creio que isso possa ser feito, desde que o objetivo não seja tão somente se vingar…

Ninguém está pedindo para que as mulheres se calem, mas que usem sua indignação de forma CONSTRUTIVA. É preciso que os sentimentos de VINGANÇA não se sobreponham à tentativa árdua de mudar o modelo de assistência ao parto no Brasil e no mundo. Difamar e destruir, sem direito a defesa, nunca foi uma estratégia que nos ofereceu oportunidade de crescimento. Tais condutas são ineficientes e não ajudam a ninguém. Aquele que se sente prejudicado que reclame nos órgãos competentes e não publicamente, lavando SUA roupa suja e atrapalhando o desenvolvimento do movimento de humanização.

Quando esse tipo de emoção passa a ser compartida de forma abrangente (como nas redes sociais), todo o debate vira uma catarse de emoções negativas. É como contar um assalto: imediatamente todos começam a entrar em uma espiral negativa de ódio, rancor, raiva contida porque se IDENTIFICAM com o sofrimento IMAGINADO. Isso mesmo: nós miseramente imaginamos (porque nao vimos e apenas escutamos uma versão da história) e nos posicionamos, fazendo julgamentos e condenações sumárias de pessoas que não tiveram defesa alguma. No caso de profissionais da saúde é grave falha ética expor o caso de seus pacientes, e isso mostra como as acusações são cruéis e injustas: batemos em quem não pode se defender.

Isso é absurdo e COVARDE. A voz das vítimas precisa ser contida, sob pena de contagiarmos a todos com esse aluvião de raiva que inunda a todos. Lembrem: todo linchamento real começa assim: “Pega ladrão!!!”. A gente sai correndo atrás do suposto meliante porque acredita nessa interpretação, e porque nos identificamos com quem foi roubado. Mas quase nunca paramos para pensar: “será que ele é ladrão mesmo?”. Uma mulher foi confundida com uma sequestradora há algumas semanas e morreu num linchamento, onde sua voz não foi escutada. Claro, pois quem escutaria as palavras e o clamor de ponderação vindos de uma “bandida”.

Os ambientes virtuais, pelo anonimato ou distância, se prestam para todo tipo de ação vingativa e violenta. Daqui há um ou dois anos, quando descobrirmos que a história “não foi bem assim”, será tarde demais para recuperar honras e reputações destroçadas. As lições da “Escola de Base” de São Paulo ainda não foram adequadamente aprendidas…

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Momento Transformador

A civilização poderá usar esse momento triste e chocante como elemento transformador. Eu prefiro acreditar que a indignação gerada pela morte brutal e inaceitável de uma menina em Nova Delhi, na Índia, venha a se transformar no estopim de uma “revolução para o bem”. Para tanto, me parece importante deixar de lado os sentimentos de ódio e vingança, olhar para frente e tentar propor soluções em todos os níveis (educacional, jurídico, político, social, policial, etc.) para que ocorra uma verdadeira e profunda a mudança nos valores daquele povo. O linchamento dos criminosos pode até satisfazer algumas almas que se deliciam com o sentimento de revanche, aquelas que ainda acreditam na lei de Talião. Entretanto, o “olho-por-olho” não é capaz de construir a sociedade que desejamos. Mesmo que não pareça aceitável negligenciar a necessidade de uma justiça dura, severa e exemplar para este caso, por outro lado nossos olhos precisam se voltar para o amanhã, exatamente porque o caso dessa menina é apenas emblemático, e está longe de ser um “fato isolado”. Mais de 600 estupros já haviam sido denunciados naquela cidade só em 2012.

A morte desta estudante foi apenas mais uma na estatística de violências hediondas produzidas por uma sociedade anestesiada pela impunidade, e que acabou por banalizar tais crimes. Executar meia dúzia de perversos não será a cura para esta doença, a enfermidade do desrespeito com a mulher. Precisamos muito mais do que a simples vingança; é necessário entender as raízes da violência, do machismo, da impunidade e dos abusos de ordem sexual para poder combate-los e prevenir a ocorrência de novas tragédias como a que testemunhamos. Somente com um postura civilizatória e fraterna poderemos fazer desse triste episódio uma lição duradoura para a humanidade.

Sabem qual a sensação que me dá quando eu leio na internet as declarações anônimas de pessoas pedindo os mais diversificados e sofisticados tipos de linchamento contra os assassinos da menina de Nova Delhi? Eu fico com a sensação de que realmente Terêncio tinha razão: “O que é humano não me é estranho”. O sentimento de vingança e justiciamento cego que algumas pessoas colocam na Internet é tão feroz e insano quanto o próprio crime que testemunhamos. É claro, dirão; são apenas “desafogos”, desabafos indignados e não há a “passagem para o ato”. Entretanto, o que nos distancia dessa passagem? É possível que, ao avaliarmos a vida, a infância, as circunstâncias e o contexto desses criminosos poderemos perceber que o ato brutal e inaceitável que cometeram nada mais é do que um elo na cadeia de ações aviltantes de suas vidas. Poderemos perceber que o crime que cometeram é tão somente uma “vingança”, cometida contra uma vítima inocente. Entretanto a “vingança” está atrelada a um passado em que eles próprios também foram vitimizados por uma sociedade cruel e nefasta.

O crime cometido por eles não está tão distante como pensamos de nossa própria realidade. Talvez fôssemos nós a cometê-lo, se nos tivessem oferecido o contexto e as circunstâncias que a eles foram ofertados. Longe de desmerecer a necessária dureza nas sentenças, creio que uma humanidade mais justa precisa olhar para casos assim com uma compreensão que se afasta dos sentimentos mais rasteiros, olhando para o futuro e tentando prevenir outras ocorrências trágicas como essa.

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