Arquivo do mês: abril 2016

Assalto

assalto

Minha filha foi assaltada. Um rapaz roubou seu celular e saiu em disparada. Ela saiu atrás gritando histericamente até encontrar uma viatura da polícia. Os policiais a fizeram percorrer na viatura as redondezas do Parque da Redenção, onde ocorreu o roubo, até encontrarem o pobre ladrão.

Reconhecido por ela, foi recolhido ao Palácio da Polícia para o flagrante. Bebel conseguiu recuperar seu celular. Na marra e na coragem.

Onde foi que eu errei? Por que não consegui criar uma filha para ser uma moça bela, recatada e pronta para o lar? Encontrei a Bebel logo depois e ela me contou que quando os policiais interceptaram o rapaz começaram a bater nele. Desnecessário dizer que ele era preto, muito mais preto do que a decência branca determina. Ele roubou a mulher branca, safado, degenerado. Como ousa???

Ato contínuo à imobilização imediata, e já indefeso, os policiais lhe aplicaram vários tapas, mais para humilhar do que para machucar, mas ouviram os protestos de Bebel.

– Hei, ele já foi imobilizado. Já pegamos o celular. Não há razão alguma para bater nele! Parem!

Os policiais relaxaram a pressão sobre seu corpo forte e negro, mas não se furtaram ao comentário óbvio.

– Ah… você é uma dessas. Não gosta que batam em ladrão. Pois fique sabendo, mocinha, que…

Bebel o interrompeu com o dedo indicador à proa

– Fiquem vocês sabendo que quem bate em uma pessoa que não pode se defender é bandido. O comportamento de vocês deve ser diferente daqueles a quem vocês perseguem.

Recebeu como resposta um riso debochado, mas surtiu efeito. Eles o algemaram, mas não foi mais agredido.

Há quem sustente que bater num bandido que acabou de lhe assaltar é algo normal e que deveria ser estimulado. Tivesse Bebel se associado ao espancamento e muitos diriam “Seus socos e sopapos me representam“.

A mim não representam e sei que muitas pessoas concordam comigo. Nossa resposta, enquanto pessoas ou sociedade, não pode ser na mesma sintonia daqueles a quem criticamos. Se algum exemplo de fraternidade precisa acontecer, que venha de nós. Só com o perdão se quebra o ciclo de ódio.

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Pedido Primeiro

Pais

Muitas vezes avalio as pessoas que conheci e tento me perguntar sobre as vantagens e desvantagens que elas carregam na vida. Muitas têm dinheiro, outras são inteligentes e cultas. Algumas não têm qualquer atrativo físico, mas carregam virtudes que reconheço como brilhantes. Muitas delas estão contentes com o pouco que possuem, enquanto outras não conseguem se satisfazer com o muito que acumulam. Muitos amigos me falam de “cargo”, materiais, coisas que tem ou que aspiram, projetos que se emperram por falta de dinheiro, façanhas gigantescas produzidas pela riqueza, enquanto alguns outros exaltam detalhes em suas vidas que para mim seriam imperceptíveis.

Afinal o que existe de valor na existência que nos faz procurar durante toda uma vida? O que é que tanto buscamos?

Penso por vezes, no “chiaroscuro” de cada noite, nos momentos que antecedem o mergulho onírico de cada jornada, em qual seria o pedido único que faria antes de nascer. Se me fosse oferecida uma única qualidade, circunstância ou valor, um pedido que não pudesse ser negado, um elemento escolhido para deixar minha vida mais produtiva… o que eu apresentaria como pedido na antessala da vida, antes de chegar a este mundo e cursar uma existência inteira onde a angústia seria minha única, leal e indefectível companheira?

Não seria a beleza. Sei o quanto ela abre portas, facilita os encontros e os amores, deixa os contatos mais fluidos e fáceis. Entretanto, a beleza tanto atrai quanto aprisiona. As histórias de homens e mulheres extremamente belos não são relatos de felicidade obrigatória. Pelo contrário: quanto mais conhecemos a vida de estrelas de cinema, modelos esculturais de perfeição das formas, mais percebemos que sua formosura física jamais atuou como uma garantia de sucesso emocional ou psíquico. A biografia dos personagens da cultura que tiraram suas vidas precocemente, ou que tiveram vidas afetivas e amorosas pobres e doloridas, são evidentes demais para acreditar que a beleza possa nos oferecer qualquer garantia de felicidade.

Mas, e o dinheiro? Pode ele oferecer alegria? Pode ele nos trazer segurança e acesso aos prazeres que o mundo oferece? O dinheiro é capaz de comprar a felicidade, ou ele apenas oferece boas vestimentas a um sujeito que, diante da sua nudez, sofre como qualquer mortal? Assim como a beleza, a riqueza ofusca e ludibria, engana e distrai. Muitas relações estabelecidas com os ricos e belos só ocorrem pela luz fulgurante da atração que emana dessas qualidades. Todavia, por superficiais que são, elas atraem sujeitos que se embriagam de suas promessas, mas que não suportam a nudez que se evidencia quando surgem as rugas e desaparecem os encantos que o dinheiro oferece.

Então, se a riqueza e a beleza não são garantias, quem sabe a inteligência e a cultura seriam as qualidades que eu pediria antes da minha chegada. Por certo que uma vida cheia de saber poderia me abrir portas, mas que certeza poderia eu ter de que tal virtude me traria o nirvana que tanto ansiamos? Não, a inteligência apurada não pode me garantir uma vida feliz, e os exemplos de gênios consumidos por aflições e angústias terríveis aparecem em toda a história da humanidade. Nada no mundo intelectual me traz a segurança de uma vida plena e tranquila.

Se a beleza, a riqueza, a inteligência e a cultura são insuficientes, que poderia você pedir para lhe oferecer, senão a garantia, pelo menos uma trilha mais firme em busca de uma existência plena e feliz?

Depois de trabalhar por mais de 30 anos escutando as queixas, sofrimentos, dramas e angústias de tantos que me procuraram pela oportunidade de falar de suas dores, eu só penso em uma coisa cada vez que tais pensamentos me afligem. Ela não custa dinheiro algum, e sequer ocorre em pessoas dotadas de beleza ímpar ou com qualidades intelectuais além do comum. Ela se esconde no sorriso de pessoas comuns e nas lágrimas de todos aqueles que um dia puderam ter esse valor. Não aparenta ser muita coisa, de tão banal que se afigura, e as vezes nem aparece nas biografias de famosos. Mas hoje eu não tenho dúvida que, se me fosse dada a oportunidade de escolher um único pedido antes de descer para a Terra e empreender uma nova jornada, seria essa a minha solicitação.

Eu escolheria ter um pai e uma mãe. Somente isso. Meu pai não precisaria ser rico ou inteligente, e minha mãe não precisaria ser um ente cuja beleza infinita me inundasse o corpo físico com seus genes cheios de formosura e charme. Nenhum deles precisaria ter valores que se possam contar, onde a matemática precisasse ser utilizada para avaliar sua grandeza. Também não precisariam ser de sexos diferentes, e até tal desafio seria pequeno diante da vantagem de tê-los por perto.

Se eu tivesse, como tive, pais que me amassem pelo que sou, qualquer outra dificuldade que viesse a aparecer em minha vida seria encarada de uma forma completamente diferente do que seria se sua ausência fosse uma presença viva e sangrante em todas as minhas relações e experiências.

Sim, eu desejaria o amor primordial, a base para qualquer outro afeto, o imprint de carinho e cuidado que é o grande diferencial na vida de qualquer sujeito.

Ok, se for possível fazer outro pedido, pequenino, quase imperceptível, para acompanhar esse singelo desejo de ter ao meu lado pais que me amem como sou… “se der para nascer de parto humanizado eu ficaria agradecido, tá bom“?

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Esquerda caviar

Marx

Critica interessante: “Golpe é a CUT usar dinheiro dos trabalhadores para fazer manifestações, enquanto a esquerda caviar não se importa com o golpe que o governo atual deu nos pobres”

Mas então eu pergunto: a CUT deveria usar o dinheiro de QUEM para defender os trabalhadores?????? Quem são os que acusa de serem “esquerda caviar”? Talvez esteja se referindo às pessoas de classe média (como eu) que pensam além do próprio umbigo e lutam para que TODOS tenham uma vida digna, e não apenas seu pequeno círculo de amigos ou sua corporação. Além disso, o governo pode ter cometido erros (mas duvido que saiba apontá-los e oferecer-lhes alternativa), porém não serão resolvidos com um golpe de estado promovido por notórios corruptos.

Admita: nunca foi a corrupção e lhe mobilizar a indignação. O que lhe dói, machuca e indigna é o fato de que sua sensação de riqueza e superioridade de classe se desmancha quando os pobres dividem uma fila de aeroporto ou a sala de classe de uma Universidade. Como disse Danuza Leão “Paris perdeu a graça quando o porteiro do meu prédio também viajou para lá”, e o fim dessa exclusividade de classe é percebida como uma perda.

Não, não é a corrupção que os escandaliza. É a própria democracia e sua incipiente conquista de equidade o que tanto horroriza uma classe média que se julga superior.

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Com quem andas?

moisaco-manifesto

Sempre tive curiosidade em perguntar às gerações que me antecederam como meus parentes se posicionaram diante dos grandes dilemas que ocorreram em suas vidas. Assim, eu pedi para o meu avô me explicar onde ele estava quando nazistas massacravam judeus na Alemanha ou na Polônia. Pedi também ao meu pai para me contar como se portou diante do golpe de 64 ou antes, no pré-golpe de 54. Essa é a resposta que um dia darei quando meus netos me perguntarem se eu sabia do genocídio e limpeza étnica da Palestina. Minha resposta será “sim”, eu sabia e denunciei o quanto pude. Também denuncio agora as cesarianas abusivas, a violência obstétrica e o golpe midiático-jurídico em curso.

Quando lhe perguntarem de que lado você se colocou quando a democracia foi ameaçada, diga se ficou ao lado de Cunha, Temer, Bolsonaro, Renan e Alexandre Frota ou se permaneceu firme ao lado do estado democrático de direito.

Eu estarei ao lado de Veríssimo, Lula, Leonardo Boff, e de todos que lutam para manter de pé a nossa frágil e juvenil democracia.

“Diga-me com quem andas…”

Aconteça o que acontecer, hoje é um dia de muita tristeza, que será lembrado com muita vergonha no futuro.

Será através da barbárie. Mas a culpa final recairá sobre as pessoas tolas que desdenham da democracia. Por causa delas é que muitos sofrerão nos atos que se seguirão ao golpe. Pessoas que por pura estupidez (ou uma ingênua antipatia com um governante) e teleguiados por notícias plantadas pela mídia – Friboi, jatinho, Triplex, sítio, pedalinhos, barco de lata, pedalada – associam-se a criminosos conhecidos e fascistas assumidos, com o sórdido objetivo de ganhar um governo na marra e na “mão grande”, por obra de ladrões e canalhas que zombam das conquistas sociais e da ordem democrática republicana.

Essa massa estupidificada de verde amarelo será a primeira a chorar quando o peso da falta da democracia cair sobre suas cabeças. No primeiro pé na porta da polícia invadindo sua casa lembre-se que a garantia de respeito ao estado de direito lhe foi tirada pelo seu ódio a Lula, e o que ele representa no mundo todo como líder dos pobres, além da sua negligência que permitiu Cunha se livrar das grades e chegar ao poder.

A culpa não é do congresso. A culpa é sua.

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Arte

silencio

“A atenção ao parto, enquanto manifestação artística, percorre a mesma trilha das artes que lhe acompanham: parte da excelência técnica e da extremada sofisticação em direção à simplicidade e à naturalidade; da histeria à suavidade, do grito ao silêncio.”

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Banho

banho hospital

Eu costumava dizer para não dar banhos em bebês recém-nascidos no hospital há mais de 20 anos, em especial quando ouvi pela primeira vez as teorias da preservação do biota do recém-nascido e a semeadura de bactérias “do bem” que a criança receberá ao nascer.

Em 2009 fui fazer uma palestra em Orlando, Flórida, no congresso do Healthy Children’s Center for Breastfeeding. Logo depois de falar fui procurado por um simpático senhor que se apresentou como o professor Lars Hanson, catedrático da universidade de Gotemburgo – Suécia. Ele parecia estar muito impactado e entusiasmado com as imagens de partos verticais que eu havia apresentado na conferência. Disse que isso era muito importante em função das questões microbiológicas envolvidas. Eu fiquei surpreso com a afirmação e disse que, até então, essa posição me parecia adequada porque facilitava o nascimento de bebês pelo aumento das “conjugatas”, os espaços ósseos da bacia, mas que não conseguia compreender nenhuma vantagem de caráter imunológico para o bebê.

Ele sorriu e me fez uma pergunta com um simpático sotaque nórdico bem carregado, cujo conteúdo lembro até hoje:

– Caríssimo amigo. Você já percebeu que todos os mamíferos superiores tem o introito vaginal próximo do ânus? Nunca se perguntou o porquê de tal proximidade?

Fiquei sem saber o que dizer, pois nunca havia pensado que essa proximidade pudesse ter algum propósito.

– Pense doutor… quando um bebê está para nascer, ainda no invólucro amniótico, ele se encontra em um ambiente estéril. No momento em que se encontra fora do útero, e rompida a bolsa que o envolvia, será imediatamente colonizado por bactérias. Mas… quem chegará primeiro na corrida para ocupar o espaço da superfície da pele desta criança?

– Bem, disse eu, imagino que sejam as bactérias maternas, se for um parto vaginal. Eu também penso que são bactérias para as quais o sistema imunológico da criança já está razoavelmente preparado pelo próprio convívio entre mãe e bebê.

– Mais do que isso, meu jovem, continuou o simpático professor. Ela será colonizada por enterobactérias (bactérias que vivem no intestino), que cobrirão a superfície corporal do bebê com bactérias anaeróbias – frágeis à presença de oxigênio – mas que protegerão o bebê contra os microrganismos maléficos do ambiente hospitalar por ocupar os espaços da superfície. Além disso, esse bebê vai deglutir as bactérias do sistema digestivo da mãe e colonizará seu próprio com bactérias maternas. Essa “semeadura” fará um amadurecimento adequado do seu sistema digestivo e neurológico. Desta forma, a proximidade dessas estruturas é benéfica para o ser que chega a este mundo, e funciona como uma “capa protetora” de bactérias maternas. Lavar a criança logo ao nascer é um absoluto equívoco, pois vai retirar dela a proteção microbiana e colocar em seu lugar patógenos potencialmente perigosos, pois cultivados em ambientes hospitalares.

– Faz sentido, respondi, e é provável que o processo de adaptação dinâmica que leva à evolução das espécies mamíferas nos colocou desde milhões de anos passados diante dessa condição: os recém-nascidos são banhados com elementos de colonização bacteriana materna, que os protegem do meio ambiente, ocupando o espaço dos elementos potencialmente perigosos e nocivos do local onde nascem.

– Exatamente, meu rapaz. Por isso que as posições verticais, em especial as de cócoras que você mostrou na sua apresentação, facilitam sobremaneira esta estratégia. Essa é a maneira mais fisiológica e saudável de nascer, e por isso mesmo a “esterilização” do ambiente de parto – o períneo – é tão inadequada. Para que haja saúde é fundamental que a criança seja semeada com os elementos do sistema digestivo de sua mãe.

Fiquei vivamente encantado com as palavras do mestre. Recebi como presente seu livro “Immunobiology of Human Milk: How Breastfeeding Protects the babies” (veja abaixo), o qual foi muito útil para escrever meu capítulo nas últimas três edições do livro de Marcus Renato de Carvalho e Luiz Tavares “Amamentação – Bases Científicas”, pois me mostrava que muito mais do que os elementos nutricionais e afetivos relacionados com a amamentação havia uma importante faceta microbiológica muito esquecida pela ciência médica no que diz respeito ao contato do bebê com a mãe, imediatamente depois do parto.

A perspectiva centenária de Koch-Pasteur, que demoniza as bactérias e venera os ambientes estéreis, está em seu ocaso. Muitas pesquisas estão sendo feitas para mostrar a importância de um biota – conjunto de seres vivos que nos compõem – saudável e o quanto o parto normal pode influenciar positivamente nessa condição. Muitos anos depois desse encontro revelador com o professor Lars Hanson eu pude assistir ao documentário “Microbirth” e pude constatar todas estas teses confirmadas pela ciência contemporânea.

A frase mais chamativa do filme é “Você é feito do que a sua avó comeu“.

Fantástico, não?

http://www.llli.org/llleaderweb/lv/lvaugsep05p88.html

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Bater panela

panela1

“Vocês só batem panela contra Lula e Dilma. Não tentem passar a imagem de que se escandalizam com a corrupção. Se isso fosse verdade estariam horrorizados com a possibilidade de Temer e Cunha comandarem o Brasil. Sua postura reforça o absurdo de ver uma presidente honesta ser expulsa sem ter cometido crime algum, admitindo que canalhas e escroques assumam o poder no Brasil. Pois VOCÊS serão responsáveis perante a história por um golpe comandado por interesses internacionais e pela grave crise que se avizinha.

Quem vai se sentir obrigado a cumprir as leis se o Cunha assumir a presidência?”

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Uma graça

jesus diabo

Se o mestre Nazareno de mim se aproximasse e suas mãos vazadas pelas chagas segurassem as minhas oferecendo um pedido qualquer que enchesse meu coração de alegria, que diria eu a ele?

Eu pediria a Jesus que deixasse cumprir tudo o que a mim fosse destinado. Que caísse sobre mim o que for por mim merecido e justo. Jamais aceitaria receber o que fosse por uma graça, por um favor, por uma bênção.

– Quero todas as bolhas que meu caminhar mereceu. Quero todo suor que minha pressa escorreu. Exijo toda a sede que minha palavra produziu e todo calor que minha paixão expulsou. Não quero nenhuma dádiva, nenhum valor que não tenha vindo do meu esforço. Peço as punições que for merecedor, mas desejo que só cheguem a mim as recompensas a que fiz jus.

– Não me dê nada, Jesus. Que sentido teria essa vida se nossas conquistas fossem realizadas através de prêmios recebidos sem merecimento? Que justiça é essa que nos oferece benefício por loteria ou bajulação?

– Obrigado, senhor, pelo oferecimento. Guarde o presente para quem realmente o deseja. Para mim me bastam as alegrias simples e a harmonia fugaz que nosso mundo de expiações oferece.

Nesse momento o Jesus redivivo sorri, larga minhas mãos e desaparece em uma nuvem avermelhada, deixando no ar um inconfundível odor sulfuroso.

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Complô

sergio-moro-temer - cunha

O PT é vítima de um complô?

Não exatamente. É vitima apenas de um golpe jurídico-midiático unindo Globo e PIG de um lado e o braço jurídico do PSDB do outro através da justiça seletiva do Sr Moro. Mas vítimas nunca são sujeitos, são sempre objetos. Por isso o PT não é vítima, mas elemento deflagrador das transformações necessárias que elevaram o país à condição de nação protagonista. Cometeu inúmeros erros e pagará por eles, assim como recebeu o devido reconhecimento por acabar com a fome no país e resgatar milhões da miséria.

Vítima? Negativo… o PT foi responsável pela grande transformação política que este pais atravessou. Os negros na Universidade e os pobres que podem sonhar jamais esquecerão isso. As Jéssicas de todos os cantos deste país estão nas ruas e vão mudar a história do Brasil.

Neste episódio todos nós fomos derrotados. O golpe não é a tentativa de impeachment; ele é só o epílogo de uma ópera bufa patrocinada pela parte mais anacrônica e alienada do país, aquela que despreza os avanços no Brasil, os mesmos que o mundo inteiro exalta. O golpe foi antes; ocorreu a partir da paralisação do congresso e a inércia para retirar Cunha. Quase dois anos sem nada, apenas discutindo as tentativas do PIG em desestabilizar o PT, por medo de Lula. Foi a pior estratégia da história política do Brasil.

A parte boa foi a gigantesca manifestação popular de artistas, Universidades, organizações, movimentos sociais e do povo contra um golpe abjeto midiático-jurídico. Isso, sim, foi bonito de ver, em especial quando comparamos com os espancamentos e o ódio incontido da turma de lá.

Aí foi onde surgiu a parte sã do Brasil, a porção que defendeu a reconquista da democracia. Por isso, pela mobilização em nome do estado democrático de direito, valeu passar por toda esta provação.

Resta saber o que acontecerá com o Brasil sem o PMDB. Não terá toda essa dor e o martírio promovido pelos golpistas servido para alguma coisa a mais do que apenas aumentar a venda de camisetas da impoluta CBF?

Eu creio que o expurgo do PMDB pode ter sido o melhor que aconteceu. Agora Dilma estará desimpedida e poderá governar sem esse peso.

Não, na verdade o melhor que acontecerá vai ser o firme compromisso do país com a democracia. A liderança de Lula numa possível corrida presidencial mostra que o povo não aceita o golpe e vai lutar até a última gota de suor para impedi-lo. Os olhos do mundo inteiro se voltam para o Brasil. Não podemos falhar, caso contrário mergulharemos em uma espiral de descrédito e desesperança.

Não vai ter golpe, vai ter luta.

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O parto de quem?

Médicos selfie

A foto é de inegável mau gosto, mas não acho que se pode ir muito além disso do ponto de vista médico. Não vejo risco para a criança. A foto é uma brincadeira, mas prefiro analisar o que existe por trás dela, que me parece muito mais revelador do que a simples imagem de médicos sorridentes e um bebê desconfortável.

Esta fotografia revela um conteúdo psicológico inconsciente bem claro: o parto foi “feito” por eles, os médicos. O bebê é um produto do seu trabalho, sua técnica e sua arte. A foto escancara a expropriação do nascimento, passando em poucas décadas das mãos das mulheres para as luvas estéreis dos cirurgiões. O nascimento humano deixou de ser um evento feminino para ser um processo controlado e dominado pela medicina, desconsiderando toda a construção histórica de sua adaptação.

A mulher, por certo, não cabe nessa foto. Ela é a inerme Bela Adormecida, dormindo o longo sono do patriarcado, objetualizada e imóvel. Para que ela possa existir é necessário que seja acordada (a cortada), mas não pela sua vontade e desejo, mas pelo beijo (bisturi) salvador de quem a resgata da crueldade de uma natureza madrasta.

A foto expõe de forma muito didática que o nascimento contemporâneo delegou a mulher a uma postura secundária e coadjuvante. O que outrora foi o maior e mais honrado desafio feminino hoje não passa de uma encenação na qual seu papel é cada vez menor.

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