Arquivo do mês: agosto 2016

Nos Lençois

 

Lençois

No que concerne à performance feminina no sexo não acredito na existência de uma “técnica” ou segredo que vá dar conta dos desejos masculinos. Erram os que imaginam que a exuberância será inexoravelmente arrebatadora. Tudo o que temos é a imagem de um bêbado cambaleante tentando encontrar o buraco da fechadura na escuridão do desejo alheio.

O que existe é um onanismo funcional, uma união trânsfuga desacompanhada, um mergulho solitário na própria fantasia. Dois tenistas jogando bolas com um muro de pedra a lhes separar, imaginando estarem em uma partida. A encenação no teatro dos lençóis é apenas a tímida tentativa de acompanhar a filmografia fantasmática do parceiro. Isso é sempre um tiro no escuro. Nem sempre um decote terá um efeito fatal, muitas vezes o pudor e uma certa timidez podem ter efeitos arrasadores. Nada é exatamente como é quando expresso no universo do simbólico.

No sexo, como de resto na vida como um todo, é impossível não encenar. Não existe vida fora do simbólico, assim como não é possível, dentro da linguagem, estabelecer um encontro sexual que não seja movido pela fantasia. A vida sexual sem o mundo que se descortina tão logo fechamos os olhos é absolutamente inviável. Não há como acontecer uma relação sexual verdadeira pontuada pelo desejo “puro”, pelo objeto de adoração e desejo. Somos contaminados pelo simbólico e deles jamais podemos fugir. A “queda” e a expulsão do paraíso nos impedem de voltar. Somos encarcerados inexoravelmente a um mundo que mais esconde do que apresenta.

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Adeus

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Então subitamente ela se foi, levando consigo colado ao rosto um vinco de dúvida, uma ruga de medo e um sorriso envergonhado. Fechou a porta com pressa, deixando atrás de si, trancado comigo, seu perfume de adeus. Seu cabelo cor de mel balançava ao ritmo do desejo enquanto o sol que se punha cobria de ouro seu rosto de cristal

Depois daquele último encontro nunca mais a vi, e a saudade que deixou corroi feito zinabre. Quando voltou à noite para casa jogou sobre a mesa um boa-noite surdo junto com as chaves do carro e foi direto para seu quarto sem nada dizer.

O adeus é um punhal cravado na carne.

Sean O´Malley Jr “The last Goodbye Forever”, Ed. Pancras, pag 135

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Necessidades

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Sensações inesquecíveis e que não custam quase nada…

Comer quando se está com fome,

Beber quando se tem sede,

Dormir quando o sono chega e

Amar quando se é amado.

Todas as outras coisas que acontecem em nossa vida ficam em segundo plano, pois carecem da impregnação indelével que tais momentos provocam.

As três primeiras são necessidades. A última é da ordem do simbólico, inserida na linguagem. As necessidades nos chegam pela via do atavismo, mantidas pela evolução das espécies.

A última é feita do desejo e só ocorre pela fissura aberrante da ordem cósmica, a qual chamamos “amor”. Só pela arquitetura impensada da altricialidade – a dependência extremada do cuidado alheio – se fez possível o amor primordial de uma mãe por seu filho e, se este amor é real, tal é sua matriz, sendo todos os outros amores dela derivados.

Se amamos é porque alguém um dia nos ensinou, e deste aprendizado, tornado sentimento, nos tornamos cativos para sempre.  Assim fazemos dessa criação uma necessidade que, se não sacia o corpo por ser diáfana e etérea, alimenta a alma e nos torna perdidamente humanos.

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Conchinhas

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Para mim a melhor coisa de morar com alguém (de forma romântica) é dormir junto. Max sempre me dizia que “dormir de conchinha é o melhor dos sexos“, mas eu achava que era só terrorismo. Eu creio que dividir a cama com alguém é um ato profundamente íntimo, muito mais intenso do que o sexo. Você pode transar com um(a) desconhecido(a), mas para dormir com ele(a) é preciso muito mais coragem e confiança. Olhar o outro a dormir, escutar sua respiração, sentir seu copo reagir ao toque e ao contato são sensações que se ampliam quanto mais se aprofunda a intimidade.

Só quem sentiu o calor de um corpo acoplado ao seu sabe o significado profundo desse contato.

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Abertura das Olimpíadas Rio 2016

Delacroix

 

A abertura das Olimpíadas não foi feia, nem brega ou desonesta. Foi apenas perfeita e linda. Se usarmos este tipo de análise sombria e pessimista (“o povo com fome e nós festejando”, ou “nós sambando e eles tirando direitos”) nenhuma obra de arte poderia ser feita. Toda obra de arte mente; desavergonhadamente falseia a realidade, mostrando uma face e ocultando todas as outras, como uma foto de perfil de Facebook.

Fosse possível mostrar o “real” de um pais – uma pessoa, uma ideia, uma proposta – e a arte simplesmente desapareceria, pois que sua essência repousa exatamente nessa discrepância entre o que mostra e a completude da realidade circundante. A arte sempre nos arrebata pela sua limitada perspectiva, seu foco em um ponto determinado e sua mensagem particular sobre um específico olhar. A arte só pode ser analisada pelo que mostra, e não pelo que oculta. O que não há nela só pode ser analisado fora dela, pela sociologia, psicanálise e outras formas de conhecimento.

Se a abertura da Olimpíada mente sobre a realidade do Brasil também Guernica ou a Liberdade liderando o Povo, de Delacroix.

Não cabe à arte descrever o Real ou usar as tintas da Verdade.

Minhas preferências pessoais não desmerecem ou exaltam nenhuma arte. Falam mais de mim do que da obra. A obra em si é um magneto de similitudes; busca avidamente encontra e um olhar que lhe ofereça sentido; uma sereia de canto estranho e singular em busca de um pirata solitário e saudoso.

Respeito quem acha que a arte PRECISA ser politicamente engajada, mas discordo neste aspecto. Ela precisa provocar estranhamento e deslocamento, que pode – ou não – ser político. Se houver necessidade da arte servir a um objetivo político, então falamos de panfletarismo e não arte. A arte pode ser engajada, mas precisa acima de tudo ser livre para expressar a alma do sujeito que a cria.

 

 

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