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Feministos

malefeminist

Escrevi em outros lugares, mas acho que vale a pena reproduzir aqui, pois pode aclarar as ideias sobre esta questão.

Minha tese é que homens não podem ser feministas exatamente porque não podem PROTAGONIZAR, o feminismo. Isto se aplica a qualquer movimento libertário: gays, negros, mulheres, países, etnias etc. Com isso reforço a tese de que as mulheres (negros, gays, palestinos) não podem ser tuteladas por grupos externos. Os homens podem ser aliados das feministas tanto quanto eu posso ser um pró-palestino , anti-racista ou a favor do movimento gay, mas protagonizar (liderar, assumir comando, responder e representar) somente quem sofre na carne os desafios de ser mulher, gay, pobre, palestino ou negro. Conseguem me imaginar presidente do grupo “Zumbi” da minha cidade, lutando pelo direito dos negros, sem nunca ter sofrido na carne a humilhação e a dor do preconceito? Não há como pensar isso sem entender como tutela. O mesmo com as mulheres.

Sou um aliado, e hoje em dia muito distante das feministas. Aliás, feminismo em teoria é tão lindo quanto o islamismo; a prática, no entanto, nos mostra que algumas defensoras mais radicais se aproximam do sexismo explícito, por parte das feministas, mesmo que tais desvios não constem dos ideais propostos por estas correntes de pensamento.

Eu não sou feminista por respeito às próprias feministas: não poderia ser sócio de um clube que deixa bem claros a sua inconformidade e desconforto com minha presença. Todavia, sigo fiel às ideias de equidade de gêneros, e lutarei para que os direitos das mulheres sejam respeitados no parto e nascimento.

Protagonismo é diferente de participação, e significar tomar a frente, representar. Brancos NÃO podem protagonizar o movimento negro, mesmo que possam ser ativos e participantes. Homens não podem protagonizar o feminismo, mesmo que seja possível serem defensores de suas bandeiras. Eu pensei mesmo em atuar desta forma, mas percebi que era mal visto e, diante da primeira contrariedade, fui tratado como inimigo e chamado de “machista”. Bem, eu respeito esse desconforto, mas não esse método suicida. Então eu, e milhares de homens que poderiam acrescentar ao debate, nos afastamos e mantemos nossas posições, longe do contato e das ações que poderiam promover uma real mudança.

Mas a luta por assumir esta posição de destaque é legítima. As mulheres foram tuteladas durante 100 séculos, e não aceitam mais que os homens digam o que é bom e certo para elas, requerendo, por isso, o pleno protagonismo de seu destino. A aversão à fala masculina no delineamento deste caminho é natural. Todavia, o rechaço ao apoio nas agruras do trajeto é equivocado e ineficiente. Nem toda ajuda é expropriação de protagonismo ou retorno à tutela. Saber diferenciar inimigos de potenciais parceiros é essencial em qualquer luta.Se o que está melhorando é o tom do diálogo entre feministas e sociedade minha impressão é positiva. Vejo mais interesse das feministas em rever alguns posicionamentos, abandonar posturas vitimistas e reconhecer outros pontos de vista relacionados aos direitos de ambos os gêneros.

Minha postura histórica sobre o protagonismo é o reforço do poder garantido às mulheres. Eu sempre disse que as mulheres deviam carregar o fardo do protagonismo das lutas pela humanização do parto. Minhas diferenças com o feminismo não estão centradas nesta questão, mas em outros pontos mais delicados.

Hoje eu me sinto cada vez mais próximo do ideal feminista e cada dia mais distante das lutas feministas. Alguns chamam isso de “aliado sem ser alinhado“. Pode ser; continuarei carregando bandeiras feministas sem ser feminista.

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Birth Revenge

Vingança

Vamos deixar bem claro uma coisa: EU tenho roupa suja para lavar, EU tenho atitudes BURRAS e eu agradeço quando me apontam os erros. Isso não significa que usar suas redes de relacionamento para atacar pessoalmente aqueles que me magoaram seja uma atitude correta. Difamar quem quer que seja em rede social é uma atitude absurda do ponto de vista político.

Mas como dar voz às mulheres que se sentem vítimas de algum tipo de violência? Como permitir que elas possam expor suas dores e serem acolhidas pelas suas parceiras de luta? Como minorar a dor e o sofrimento de quem se considera injustiçado e traído?

Certamente que esta não é uma tarefa fácil. Entretanto, se ela puder focar na solução do problema de todos (um sistema que é intrinsecamente violento) e não apenas nos SEUS problemas específicos, ela estará no caminho correto. Uma possibilidade é solicitar a ela que exponha a sua situação (ou um caso hipotético) sem citar nomes, sem agredir a pessoa que ela acredita ter errado, sem enxovalhar a sua honra e sem tentar diminuir a sua indignação às custas da humilhação alheia. Creio que isso possa ser feito, desde que o objetivo não seja tão somente se vingar…

Ninguém está pedindo para que as mulheres se calem, mas que usem sua indignação de forma CONSTRUTIVA. É preciso que os sentimentos de VINGANÇA não se sobreponham à tentativa árdua de mudar o modelo de assistência ao parto no Brasil e no mundo. Difamar e destruir, sem direito a defesa, nunca foi uma estratégia que nos ofereceu oportunidade de crescimento. Tais condutas são ineficientes e não ajudam a ninguém. Aquele que se sente prejudicado que reclame nos órgãos competentes e não publicamente, lavando SUA roupa suja e atrapalhando o desenvolvimento do movimento de humanização.

Quando esse tipo de emoção passa a ser compartida de forma abrangente (como nas redes sociais), todo o debate vira uma catarse de emoções negativas. É como contar um assalto: imediatamente todos começam a entrar em uma espiral negativa de ódio, rancor, raiva contida porque se IDENTIFICAM com o sofrimento IMAGINADO. Isso mesmo: nós miseramente imaginamos (porque nao vimos e apenas escutamos uma versão da história) e nos posicionamos, fazendo julgamentos e condenações sumárias de pessoas que não tiveram defesa alguma. No caso de profissionais da saúde é grave falha ética expor o caso de seus pacientes, e isso mostra como as acusações são cruéis e injustas: batemos em quem não pode se defender.

Isso é absurdo e COVARDE. A voz das vítimas precisa ser contida, sob pena de contagiarmos a todos com esse aluvião de raiva que inunda a todos. Lembrem: todo linchamento real começa assim: “Pega ladrão!!!”. A gente sai correndo atrás do suposto meliante porque acredita nessa interpretação, e porque nos identificamos com quem foi roubado. Mas quase nunca paramos para pensar: “será que ele é ladrão mesmo?”. Uma mulher foi confundida com uma sequestradora há algumas semanas e morreu num linchamento, onde sua voz não foi escutada. Claro, pois quem escutaria as palavras e o clamor de ponderação vindos de uma “bandida”.

Os ambientes virtuais, pelo anonimato ou distância, se prestam para todo tipo de ação vingativa e violenta. Daqui há um ou dois anos, quando descobrirmos que a história “não foi bem assim”, será tarde demais para recuperar honras e reputações destroçadas. As lições da “Escola de Base” de São Paulo ainda não foram adequadamente aprendidas…

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Protagonismos

Tio Sam

Caso aportasse uma comitiva de americanos no Brasil dizendo: “Nós sabemos como resolver o problema de vocês. Deixem tudo conosco. Temos técnicos formados em Harvard, em Yale e muitas outras universidades, e sabemos exatamente o que fazer. Temos o conhecimento, o dinheiro, as condições e a experiência. Abram alas, nós vamos consertar o Brasil“…

Só conheço uma pessoa suficientemente americanófila capaz de aceitar essa proposta, mas não declinarei seu nome aqui…

A pergunta que caberia, em nome da autonomia e da liberdade é : “Como assim, cara pálida? Quem são vocês para saber o que é o Brasil? Que autoridade vocês tem para saber como se expressa o preconceito contra os nordestinos, por exemplo? Como vocês sabem como se expressa a questão indígena? Como podem saber como é a posição da mulher, do negro, do gay ou de qualquer outro grupo nesse contexto especial, limitado geograficamente e temporalmente, que é o Brasil? Que autoridade vocês tem para falar em nome de um povo que conhecem apenas por revistas, fotografias e fotos do Carnaval?

Não, vocês podem saber muitas coisas, mas não como nós que “sofremos e gozamos” a brasilidade todos os dias…

O mesmo pode ser dito para estes grupos. Se é possível opinar e tecer comentários – até mesmo oferecer apoio – o PROTAGONISMO precisa ser de quem tem legitimidade para conduzir a questão. Os gays, as mulheres, os negros, os brasileiros…

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A Fisiologia Tratada

MUlher barbada

Robbie, em verdade, matou a charada da intervenção sobre o corpo feminino ao vincular o surgimento da ginecologia com a necessária ideologia misógina e patriarcal. Antes de criar a especialidade médica que se ocupa das mulheres era fundamental entender o corpo delas como falho, insuficiente e defectivoem essência. Só assim entendido seria possível tratar sua própria naturalidade, sua fisiologia e seu curso normal. Enquanto lançamos um olhar condenatório para qualquer função feminina natural, como menstruar, parir, amamentar ou entrar na menopausa, NENHUM evento fisiológico masculino é tratado como doença pela medicina. A razão para essa diferença repousa no conceito profundo da incompetência feminina. Seus corpos são arremedos, vaginas perigosas, mamas suspeitas, abdomens misteriosos e traiçoeiros.  A fisiologia feminina é patologizada ao extremo, a ponto de que os eventos naturais desaparecerem de nossa visão tamanho o encobrimento que recebem com camadas de patologias sobrepostas umas sobre as outras.

A ideologia oficial é a “segurança”, mas os valores subjacentes apontam para um modelo que – acima de tudo – pretende controlar os eventos da sexualidade feminina: sexo, parto, maternagem, amamentação e menopausa. É da essência do patriarcado manter a sexualidade feminina sob estrito controle, pois que a reprodução controlada está no coração da “domesticação das espécies”.

A forma como a medicina se expressa não poderia ser afastada do modelo que regula as sociedades contemporâneas, até porque ela nada mais é do que um reflexo dos valores que esta mesma sociedade exalta e protege. Desta maneira, os médicos são guardiões de um modelo patriarcal que, embora decadente, ainda controla as relações de poder na sociedade. A função última – e inconsciente – desses profissionais é a manutenção, proteção e disseminação desses valores.

Como Maximilian costumava me dizer, se mulheres tivessem barba haveria tratamentos e cirurgias para a “excrescência pilosa facial”.

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Parto Seguro

SIMERS

Hoje o Sindicato Médico do meu estado estará se reunindo para debater a seguinte pauta: Parto Seguro X Parto “dito” Humanizado. Além disso discutirão as responsabilidades de médicos que trabalham em lugares onde partos são atendidos por enfermeiras.

Evidentemente que a convocatória, contrapondo os partos “dito” humanizados com os “partos seguros” já demonstra um preconceito inquestionável. Mais do que isso: é uma provocação contra um movimento que vai se enraizando na cultura brasileira a partir de iniciativas bem evidentes e consistentes. Negar a importância desse movimento social é o grande risco que os médicos podem incorrer se negligenciarem os fatos que se acumulam há mais de 20 anos nessa direção. Cronologicamente podemos citar:

  1. A criação da ReHuNa (1993) – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento – que já tem 22 anos de existência, de luta e de desafios em nome da humanização, com grande influência na elaboração de políticas para o parto no Brasil, além de conexões com instituições do mundo inteiro.
  2. Congressos Internacionais cada 5 anos no Rio e em Brasília, patrocinados pela OMS, OPAS, Ministério da Saúde, JICA e a própria ReHuNa, com milhares de participantes.
  3. Congressos anuais de humanização no Rio de Janeiro (Parto Consciente, Ecologia do Parto) e em São Paulo (Enapartu e Siaparto)
  4. Criação do curso de Obstetrícia na EACH da USP
  5. Lei do Acompanhante, com a garantia em lei para acompanhantes em hospitais públicos e privados em todo o território nacional
  6. Casas de Parto em várias localidades brasileiras, depois de lutas intensas pela garantia desse atendimento
  7. Capacitações de Doulas se multiplicando pelo país, levando às pacientes informações atualizadas sobre protagonismo e boas práticas nos cuidados com as gestantes durante o parto
  8. Um avanço da Medicina Baseada em Evidências como prática e discurso, deixando muitas “mitologias médicas” (Kristeller e episiotomia rotineiras, excesso de cesarianas, tricotomias e enemas, etc.) defasadas e com uma visível diminuição de sua utilização.
  9. Filmes e documentários (Orgasmic Birth, The Business of Being Born, O Renascimento do Parto, Le Premier Cri, Microbirth, etc) para o grande público mostrando a realidade do nascimento no Brasil e no resto do mundo.
  10. Participação inédita das mulheres nos movimentos sociais pelo parto normal no Brasil a partir de meados de 2012 com a “Marcha do Parto em Casa”, com mais de 5 mil participantes e 31 cidades, no Brasil e no exterior. Participação imensa dos debates sobre parto normal e cesariana nas redes sociais, com grupos de discussão, comunidades no Facebook e demais formas de participação. Criação de grupos como Amigas do Parto, Parto do Princípio, Nascer Sorrindo, Parto Alegre, Rodas de Gestantes, e tantos outros por todo o país
  11. Livros (nacionais e estrangeiros), congressos, seminários, cursos e simpósios. Por todo o lado, no Brasil e em todo o mundo.
  12. Participação do governo federal na luta contra as cesarianas desnecessárias, assim como a entrada da ANS no debate para limitar a taxa na saúde suplementar. Criação da Rede Cegonha como projeto de humanização da assistência ao parto.

Assim sendo o que vemos hoje é a culminância de uma trajetória de pelo menos 20 anos de questionamentos e críticas ao modelo assistencial ao parto, e não uma ação oportunista de grupos radicais. Não se trata de uma visão romântica ou superficial, mas uma postura engajada na autonomia feminina. Baseia-se na garantia do protagonismo à mulher no parto, na visão integrativa e interdisciplinar do evento e na ligação inexorável com a Saúde Baseada em Evidências. Portanto, o que se debate e se observa hoje em dia está sendo gestado há mais de duas décadas, e não se trata de uma aventura inconsequente sobre a assistência ao parto. Pelo contrário: trata-se de um lento amadurecimento de propostas, visões, experiências de sucesso e propostas.

Evidente que não é do nosso interesse pautar as discussões médicas, mas apenas solicitar que uma questão séria como são os projetos de humanização não seja tratada de forma desrespeitosa, irônica ou debochada. O risco que a categoria médica corre nestas situações é – mais uma vez – ficar à reboque da história, vendo os movimentos sociais promoverem mudanças sem perceber que o mundo mudou, alheios ao fato de que as mulheres estão diferentes e que as demandas por partos mais dignos e participativos estão na ordem do dia em diversos lugares do mundo.

Não faz sentido que o mundo se esforce por mudança enquanto os obstetras ficam cegos às demandas das gestantes. É preciso respeitar a voz que emerge de forma espontânea de pacientes que exigem respeito e segurança no momento central da feminilidade. Não há motivo – ou vantagem – em desmerecer esse movimento como se fosse desprezível ou fantasioso. Ele não é, e os governos do mundo inteiro se preocupam com esta questão de forma prioritária, pois se refere aos direitos humanos, reprodutivos e sexuais, para além das questões técnicas, corporativas e médicas.

Quando leio esta nota eu sempre me lembro de um fato ocorrido durante a última campanha eleitoral aqui mesmo no Rio Grande do Sul. Para um determinado setor (as elites) qualquer contraponto ao poder hegemônico “não presta“. Segundo o deputado Heiz (representante dos ruralistas): “É ali que estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas; tudo que não presta ali está alinhado.

Talvez o sindicato esteja dizendo algo parecido. “É ali que estão aninhados médicos que atendem partos normais, doulas, ANS, governo federal, enfermeiras obstetras; tudo que não presta ali está alinhado.

Quando é que nós médicos vamos perceber que esses atores na atenção ao parto tem o direito (como em qualquer democracia europeia) de participar dos debates e da assistência às gestantes e ao parto? O discurso retrógrado só poderá aprofundar o fosso que separa as demandas das mulheres do pensamento obstétrico hegemônico. E isso é ruim para TODOS, em especial o objeto de nossa atenção: mães e bebês.

Nesse rico momento de agitação é importante que os profissionais se unam às gestantes para que juntos possamos encontrar soluções para os dilemas da assistência. Se de um lado precisamos oferecer segurança às grávidas e seus bebês, por outro lado a autonomia e a liberdade são valores inquestionáveis que devem permear qualquer relação de assistência. Além disso, se as pacientes precisam ter seus direitos resguardados em nome da autonomia e da garantia do protagonismo sobre seus corpos, também os profissionais que prezam o bem-estar de suas clientes necessitam ser protegidos profissionalmente, para que possam usar sua arte e sabedoria com liberdade.

Espero que os colegas que participarem dessa reunião tenham como foco, acima de tudo, a descoberta de caminhos para garantir as conquistas da modernidade com os direitos humanos que devem ser garantidos às gestantes. Como dizia Willhelm Reich, “A civilização vai começar no dia em que o bem-estar dos recém-nascidos prevalecer sobre qualquer outra consideração“.

Hoje eu li que o Papa Francisco disse que o “inferno não é quente e que Adão e Eva não são figuras reais“. Se até a Santa Sé se moderniza e se adapta à ciência e aos costumes, porque a medicina insiste em se ensurdecer aos clamores por mais liberdade, autonomia, segurança, dignidade e protagonismo?

Espero que na reunião impere o bom senso e a visão sensata sobre o futuro da assistência ao parto.

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A forma de nascer conta

Parto orgásmico

É importante que alguns termos normalmente usados sejam esclarecidos para que qualquer debate seja mais produtivo e claro:

  • Parto normal: parto pela “norma” fisiológica, isto é, via vaginal.
  • Parto natural: parto em que a natureza comanda o processo, sem intervenção técnica ou de linguagem.
  • Parto humanizado: partos que ocorrem em uma espécie de mamíferos dotados de razão e linguagem: homo sapiens sapiens. É composto de 3 elementos constitutivos:
  • Protagonismo garantido à mulher, sem o qual teremos apenas sofisticação da tutela patriarcal
  • Uma visão interdisciplinar, portanto, aberta e abrangente, para analisar e assistir um evento humano e fisiológico, e…
  • Vinculação visceral e inquestionável com a Saúde Baseada em Evidências

Portanto a VIA DE PARTO é fundamental, pois é um caminho constitutivo da mãe e do bebê. No dizer de Bárbara Katz Rothman, “Partos não servem apenas para fazer bebês, mas para construir mães fortes e capazes de lidar com os desafios da maternagem.” O parto humanizado é, portanto, um grande capacitador materno, oferecendo à mulher as melhores ferramentas para seu posterior desempenho como mãe.

É importante não confundir esses termos, assim como é fundamental perceber que o fato de mães e bebês terem sobrevivido NÃO É o único valor significativo. Existem muitos elementos importantes no nascimento de um bebê além da simples sobrevivência dele e de sua mãe.

Se é certo que o mais importante é sobreviver – e bem – também é correto dizer que parto NÃO é tão somente “meio”. O que se percebe é que o parto é fundamental para a construção de ambos os sujeitos: o bebê que nasce e a mãe que ressurge. Como um filho adolescente que vai a um show de Rock. Claro que voltar vivo é o mais importante, mas eu certamente perguntaria se o show foi bom, porque existe mais em um show de música do que simplesmente sobreviver a ele.

Experiências humanas podem ser comparadas a um “show”, claro. Um show tem desejo, alegria, gozo, tristeza, começo e fim. E tem morbidade e mortalidade. Uma excelente metáfora. Aliás, o “Show da Vida” não nos lembra algo? Pois é… a abertura era um nascimento. Parto é SIM espetáculo…

Partos recheados de violência são eventos que TODOS deploramos. Dizer que uma cesariana é melhor que “isso” pode ser até verdade (mas ela é sempre subjetiva nos pacientes), mas não pode nos levar a ter um olhar mais condescendente com a abordagem cirúrgica (que tem sabidamente uma morbimortalidade muito maior). Partos violentos devem, pelo contrário, nos fazer combater práticas defasadas e violências institucionalizadas que ainda são a regra na atenção ao parto. “Terceira via” é a solução !!!! Nem cesariana, nem parto violento. Queremos parto de princesa!!!

Quanto à atenção é bom estar atento para o fato de que o médico NÃO faz NADA, preferencialmente, no espetáculo do parto. O parteiro (médico ou obstetriz) PERMITE que o SHOW aconteça no corpo alheio, conforme as determinações fisiológicas escritas há milênios no nosso código genético, agindo APENAS quando a rota do parto se afasta da fisiologia e entra no terreno espinhoso da patologia. Nesse momento, altera-se o protagonismo, e o médico pode fazer seu show (sua arte, suas aptidões) e garantir o bem-estar de mães e bebês. Não se trata, portanto, de excluir as habilidades e capacidades médicas, mas colocá-las apenas a serviço do binômio mãe-bebê, sem uma interferência exagerada e danosa ocasionada pelo exagero de aporte tecnológico.

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Feminismo e Humanização

discussao

Aqui estão reflexões sobre a Humanização do Nascimento conforme tenho observado.

Nos últimos meses temos visto muitas brigas intestinas dentro do movimento exatamente no momento em que ele se torna mais forte e abrangente. Muitas destas divergências poderiam ser tratadas internamente, esperando que os ataques venham daqueles que não concordam com nossas ideias, mas infelizmente vemos brigas entre pessoas que comungam com a mesma base de pensamento, divergindo apenas nos detalhes.

De uma certa forma isso é compreensível, visto que essas lutas são causadas quase que exclusivamente pelas  vaidades inerentes a qualquer coração que se deixa tomar por uma paixão, e o trabalho com o parto está dentro das grandes paixões que imantam profissionais do mundo inteiro.

Sei que minhas palavras desagradam muitas pessoas e não tiro minha culpa sobre estes julgamentos. Sou falante demais, opiniático e intrometido. Por outro lado sou alguém que acredita que o diálogo pode ser a única forma de resolver conflitos de forma civilizada, e para isso é fundamental escutar o que o outro tem a dizer, suportar o contraditório e (ó dor…) aprender com a experiência alheia. Por isso creio que o movimento de humanização precisa fazer uma reflexão sobre as questões inerentes ao ritmo e direcionamento de suas lutas.

Por transitar pelo universo feminino há mais de três décadas acabei me tornando um observador atento das nuances e características dos movimentos com os quais tive contato e aproximação: o feminismo e a humanização do nascimento.

É importante esclarecer que, do meu ponto de vista, a humanização do nascimento não é um assunto “feminista”. É um assunto sobre o qual as feministas precisam se debruçar de forma crescente, já que foi por elas negligenciado por décadas, mas que não pertence ao escopo de assuntos que pertencem ao feminismo. O parto é múltiplo, inúmeras facetas e vieses cabem no seu entendimento. Se é verdade que ocorre nos corpo das mulheres, TODOS somos nascidos deste processo, conferindo à totalidade da humanidade o direito de ter voz neste debate. Todavia, é evidente que  a imensa maioria das ativistas de ambos os movimentos sociais são mulheres. No feminismo, a totalidade, mas na humanização do parto a gigantesca maioria, e isso dá às mulheres uma especial posição de autoridade para falar de um tema que as toca de forma muito marcante. Posso ser visto como um dos poucos homens que se aventura a falar e defender de forma desabrida o protagonismo feminino como o ponto nevrálgico desta mudança paradigmática na atenção ao parto.

Como observador atento das nuances de discurso nos dois movimentos, muito do que vejo no feminismo é o mesmo que observo no movimento de humanização do nascimento: para algumas defensoras existe uma clara confusão conceitual entre o “problema” e quem o “representa“.

Na humanização do nascimento, o qual acompanho desde o final do século passado, ao invés de focarmos nossas forças na mudança de um SISTEMA perverso e ineficaz (nossas taxas de mortalidade materna nos comprovam isso) perdemos muito tempo nos elementos que – concordando ou não com ele – o representam; no caso do parto, os obstetras. Assim, muita energia é dispensada em atacar ferozmente médicos que atuam dentro de um sistema que não respeita a subjetividade, a autonomia e a liberdade das mulheres. Infelizmente, muitas vezes estes próprios médicos atacados são até sujeitos interessados em fazer mudanças na sua postura e na sua prática, mas são forçados a se proteger em suas corporações porque TUDO o que observam partindo do outro lado (as ativistas) é formado por acusações, agressões, violências verbais e rancor. Como seria possível chamar estes profissionais para fazer parte de uma grande mudança se não lhes oferecemos o carinho e a acolhida necessárias, exatamente o que reclamamos para as pacientes que entram em um hospital para dar à luz?

O mesmo acontece no feminismo. Eu mesmo, que tenho 30 anos de lutas para fortalecer a autonomia e o protagonismo das mulheres no parto, fui duramente atacado pela “tropa de choque” das feministas por um conceito (que sequer é meu, é de Engels) sobre as origens do patriarcado. Quando eu vi a enxurrada de acusações e violências (repletas de clichês do tipo “vaza“, “já vai tarde“, “não passará“, “machista“, “misógino mentiroso“, etc..) desferidas a mim eu pensei: “Bem, se eu não sirvo para essa luta, quem serve? Que tipo de obstetra seria correto e adequado para as feministas? Que tipo de profissional poderia cumprir todos os requisitos para servia à causa da humanização? Que tipo de obstetra concordaria com qualquer agressão à sua corporação sem sequer ter o direito de defesa? Que obstetra aceitaria participar de uma luta em que, qualquer discordância, o faria ser tratado como lixo?

Trinta anos buscando auxiliar a causa do protagonismo feminino não servem de nada diante das exigências das mulheres sobre o “correto comportamento e o adequado discurso de um homem quando fala sobre as mulheres“.

Mas antes que as defesas apareçam, é claro que não são todas as feministas que agem assim, talvez sejam uma minoria, mas são as que tem mais voz e que causaram mais estragos nas tentativas de diálogo.  No caso destes grupos mais radicais o objetivo implícito em muitas manifestações é uma total humilhação dos homens, uma vingança completa e final pelo “mal” que causaram às mulheres em todos estes séculos, sempre recheada de clichês (vaza macho, não passarão, mascus, esquerdomacho, etc.).

Na humanização do nascimento temos um grupo semelhante e muito vocal, acostumado a criticar abertamente o comportamento dos médicos com piadas, deboches, apelidos e críticas onde os fatos sequer foram totalmente esclarecidos, fazendo com que qualquer intervenção médica seja julgada com desconfiança. Para estas, o “extermínio” dos obstetras é uma espécie de “solução final”, pois eles representam todo o mal e toda a dor das mulheres na assistência.

Nenhuma destas soluções é possível (ou mesmo suportável), mas os discursos de culpa contra homens e médicos se multiplicam de forma inaceitável, pelo menos para quem sonha com mudanças.

Para quem deseja avanços surgindo no horizonte, mesmo que lentos e seguros, ver a humanização do nascimento adotar as mesmas táticas do feminismo mais violento pode retardar estas transformações por décadas. Atacar de forma agressiva e irracional – com palavras  recheadas de rancor e mágoa – os profissionais que atuam no parto, nos fará apenas regredir nas conquistas até aqui conseguidas. Esse comportamento apenas incentiva o surgimento e crescimento de reações óbvia daqueles que se sentem (justa ou injustamente) atingidos: os grupos machistas e o “dignidade médica“.

Sem uma postura de congraçamento e diálogo, isto é, uma postura mais “feminina“, nada será feito de forma consistente em um futuro próximo.

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Camille Paglia

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Fiquei emocionado ao ler esta entrevista da Camille Paglia e perceber que suas ideias sobre gênero, feminismo e maternidade são as mesmas que defendo há tantos anos, pelas quais já paguei um preço bastante salgado. Sinto-me também aliviado ao perceber que os ataques a estas propostas e visões de mundo não são exclusivas de celebridades como ela, mas de todos que ousam estabelecer uma crítica e um olhar severo sobre os (des)caminhos da cultura ocidental, mormente no que diz respeito aos choques inexoráveis entre homens e mulheres na luta por sentido em suas vidas.

Camille Paglia tem a segurança e a firmeza que apenas as pessoas verdadeiramente cultas e preparadas possuem, e suas palavras – por vezes ácidas – tornam-se doces ensinamentos quando permitimos que se aproximem de nossa razão mais profunda.

Veja abaixo a entrevista dada à Folha SP

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Proselitismo

Proselitismo

A humanização do nascimento tem se tornado fonte de grandes debates no cenário da atenção ao parto exatamente porque ela estabelece uma crítica aos pressupostos que historicamente governavam o cuidado com este momento tão delicado da vida de uma mulher e o início da existência de todos nós. Muitas são as formas de entender o que esta corrente do pensamento significa para a cultura, e mesmo quais são os limites de atuação dos profissionais que atuam nesta esfera conceitual. Para evitar confusões, consideramos que a atenção humanizada se apoia sobre um tripé conceitual, a saber:

  1. O protagonismo restituído à mulher, fazendo dela a condutora do processo, que só poderá ocorrer de acordo com seus desejos, aspirações e vontades. Cabe aos cuidadores serem instâncias consultivas, de suporte e aconselhamento, agindo apenas quando o processo se distancia da fisiologia e estabelece riscos para o binômio mãe-bebê.
  2. A visão interdisciplinar, colaborativa e integrativa do processo de nascimento, alargando o seu entendimento para além da visão biologizante e mecanicista, observando-o como um evento humano e subjetivo
  3.  Uma vinculação visceral com a medicina baseada em evidências, demonstrando que as propostas desta visão sobre o parto estão assentadas sobre a rocha firme da razão e da ciência, e não se constituem em uma visão romântica sobre um processo vital e significativo na cultura.

Assim, os chamados “humanistas do nascimento” são profissionais que se esmeram em produzir uma prática alicerçada na autonomia das mulheres sobre seu corpos e destinos, ao mesmo tempo que procuram oferecer o cuidado mais abrangente e mais cientificamente embasado para elas. Também é tarefa destes a educação para o nascimento fisiológico, procurando desfazer mitos e ideias errôneas historicamente disseminadas pelos milênios de visão patriarcal a embaçar a real habilidade feminina de gestar e parir com confiança e segurança. É tarefa de todos que buscam um parto mais seguro orientar as mulheres no caminho mais seguro e empoderador sobre este evento.

Por outro lado, tentar convencer mulheres a parir de parto normal não passa de um colonialismo intelectual e afetivo, um proselitismo inútil e anacrônico, que desconsidera a capacidade das mulheres de fazerem escolhas corretas diante de informações corretas e precisas. Humanização do nascimento é uma ideia a ser exposta, jamais imposta. Não nos cabe agir autoritariamente, desrespeitando sua subjetividade e o direito de escolher seus próprios caminhos. Em longo prazo torna-se muito mais efetivo direcionar nossos esforços para as mulheres que realmente desejam parir, lembrando que “desejar” é diferente de “querer”. O “desejar” se relaciona com as emoções mais densas, que brotam dos estratos mais profundos do inconsciente, regulados pelas experiências mais remotas. O “querer“, por seu turno, é consciente e superficial, racional e objetivo, portanto, enganoso, pois nossa mente frequentemente burla nossas vontades mais profundas.

Para estas que demonstram sua vinculação afetiva, psicológica e espiritual com o nascimento fisiológico devemos devotar nosso tempo e nossa arte. Para as que estão em dúvida e demonstram vontade de aprender e se informar, todo o esforço de conscientização dos benefícios do parto normal é válido. Todavia, para aquelas cuja decisão pela cesariana já fez casa em seus corações só nos resta desejar o melhor resultado possível para os desafios de uma cirurgia.

Fazer pressão em nome de NOSSAS convicções é um desrespeito à liberdade alheia.

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Cheiro Ruim

Perfume ruim

Hoje vi a última propaganda dos perfumes do Boticário. O filme começa com o anúncio da gravidez, as ecografias, a megalópole fria e feia onde a criança vai morar, os preparativos, as fotos da barriga crescendo, o último sorvete e termina…. tchan, tchan, tchan…. numa CESARIANA.

Lastimável que o exemplo de parto no Brasil é mediado por recursos tecnológicos usados de forma exagerada (ecografias) e por cesarianas. No vídeo fica claro a imagem da mãe impedida de tocar seu filho na hora em que isso é mais importante: a “hora dourada”. As imagens, para quem transita pelos caminhos da humanização do nascimento, são tristes de ver.

Todo o nascimento carrega a beleza da renovação e a esperança do futuro, seja ele de que maneira for, uma cesariana ou um parto normal. Não se trata, portanto, de desmerecer a beleza inerente da vida brotando em um nascimento. Entretanto, usar como EXEMPLO de nascimento uma cesariana apenas deixa mais evidente o atraso do Brasil em relação às grandes democracias no combate à banalização da cesariana. Propagandas como esta, vistas no exterior, dão a clara ideia de que no Brasil o normal da classe média (os usuários de perfumes do Boticário) é o nascimento pela via cirúrgica. A cesariana é limpa, moderna, chique e superior. Tudo errado, tudo falso. Cesarianas arriscam de forma clara e inquestionável o bem estar de mães e bebês. Este tipo de publicidade é lamentável e apenas reafirma nossa necessidade de mudar a atenção obstétrica cafona que este país tem.

Uma lástima Boticário…. Suas usuárias são “Too posh to push“, right?

Com tanto parto bonito e empoderador para apresentar preferiram se manter fiéis à classe média – a mais sofrida e castigada pelos abusos de cesariana – como estratégia de marketing. Para estas empresas, mais importante do que enfatizar um novo conceito – o parto humanizado, com óbvias consequências na saúde pública – é manter em alta a venda de seus produtos.

Publicitários precisam entender que uma propaganda não é boa apenas quando aumenta os lucros, mas quando imprime uma marca positiva na cultura. Propagandas assim tem cheiro ruim…

Nossa queixa é que a propaganda auxilia de forma marcante a banalização da cesariana. Se por exemplo, a propaganda mostrasse esta mãe fumando durante a gravidez poderíamos dizer que foi uma “escolha” dela, e que isso reflete a liberdade de determinar o que deseja. Verdade, mas o quanto esta conduta influenciaria outras mulheres? Como combateríamos o fumo na gravidez se uma propaganda associa felicidade, nascimento e vida com cigarro? Cesarianas desmedidas tem impacto na saúde das mulheres e precisam ser combatidas da mesma forma como tentamos diminuir cigarros e álcool na gestação. Concordo que “não podemos colocar a CAUSA em tudo“, mas eu acho que colocar cesarianas como o paradigma da gestação feliz é demais. Se esta moça filmou toda a sua gestação e ela terminou em uma cesariana, sinto muito, mas essa mensagem não pode ser veiculada. Se ela fuma, sinto muito. Não dá mais para tratar dessas questões sem – pelo menos – oferecer uma crítica severa e um contraditório.

Banalização de uma conduta se faz nos detalhes, e não com discursos grandiloquentes. Banalização das drogas é colocar um cara fumando maconha durante 15 segundos de um filme, e não fazendo um longa metragem sobre “as maravilhas da Cannabis”. Fica muito complicado o debate sobre o abuso dessa cirurgia quando a publicidade brasileira continua tratando como uma coisa bonitinha, uma opção como qualquer outra, tipo a cor do esmalte ou o corte de cabelo. Não, eu acho demais. Não tem mais como continuar estimulando essas práticas no Brasil. Não é por outra razão que somos os campeões mundiais de cesariana: ela é tratada com requinte e glamour em todos os espaços.

A queixa, entretanto, nem é exatamente contra a publicidade ou os publicitários, que talvez tenham feito um trabalho sob encomenda ou aquilo que lhes foi solicitado por uma empresa que avalia a preferência dos consumidores desta marca. Nosso incômodo é ver a cesariana – mais uma vez – banalizada e tratada como “perfumaria”. Escolhe-se por fazer uma cesariana como quem escolhe um dos perfumes da empresa. “Liberdade de escolha”, não? Pois é…. mas quando analisamos a barbárie das cesarianas desmedidas e abusivas no Brasil entendemos que este descontrole só pode acontecer exatamente porque a cesariana é tratada assim no imaginário popular. Talvez a deformidade nos pés das chinesas que usavam sapatos pequenos só foi possível porque era tratada como uma coisa corriqueira. A clitoridectomia talvez seja descrita em África como um “cortezinho” que cicatriza rápido e “ajeita” a deformidade natural da vagina. A circuncisão, prática medieval e amputativa da sexualidade masculina, é tratada pela cultura como uma cirurgia que retira a pela “que sobra” no pênis de crianças indefesas.

É assim que se constrói uma cultura: nos detalhes, na forma de descrever, na maneira de contar, no jeito que escolhemos relatar um fato, um evento ou uma cirurgia. O que é uma propaganda de TV senão uma história que se conta? O que é a publicidade senão uma janela da cultura, uma forma de absorver e observar os nossos valores e nossas características. Um comercial que trata a cesariana de forma tão “natural” e “banal” contribui para a construção de uma ideia positiva, afetiva e moderna de uma cirurgia que – como bem sabemos – só deveria ser usada em casos excepcionais. Não é à toa que propagandas de cigarro são proibidas: elas sempre tentaram vincular o cigarro ao sucesso profissional e erótico. Essa propaganda do Boticário faz o mesmo: vincula a cesariana ao sucesso de uma história de amor, e por isso ela deve ser repudiada.

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