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Avanços

clitoridectomia

Sobre a abolição das mutilações sexuais femininas – clitoridectomia e episiotomia – temos uma excelente notícia vinda da Nigéria. O presidente Goodlook Jonathan assina – depois de mais de uma década de pressão – uma lei que torna crime a realização da mutilação sexual através da clitoridectomia. Eu acredito que este tipo de ação pode impulsionar o questionamento sobre outras mutilações praticadas contra mulheres e homens. A episiotomia rotineira (sem indicação clara) precisa sofrer o mesmo tipo de crítica, da mesma forma que a circuncisão, cirurgia ritualística e mutilatória aplicada sobre meninos e homens em várias partes do mundo.

Acabar com a mutilação de mulheres é muito mais importante do que reconhecer o casamento gay, apesar da grande importância de reconhecer as relações entre pessoas de mesmo sexo. Todavia, as mulheres – e os grupos que as apoiam – tem muito menos força política do que os grupos pró-homossexuais. De qualquer modo são duas notícias alvissareiras.

O corpo humano é sagrado, e sua integridade precisa ser protegida por todos os que prezam a saúde física e psicológica, em especial das crianças.

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Estratégias

Tenho visto nos últimos 30 anos algumas iniciativas que objetivavam “humanizar” a atenção e aumentar o índice de partos normais (vaginais) em serviços públicos e privados. A quase totalidade dessas propostas foram fracassos retumbantes, o que se pode perceber facilmente ao se analisar a curva ascendente de cesarianas nos ambientes hospitalares de ambos os modelos.

A maioria das estratégias se fixava no “treinamento” e capacitação de profissionais ou nas modificações ambientais dos centros obstétricos. Lembro do hospital escola da minha cidade onde, durante minha passagem pela residência médica, construiu-se uma cadeira de parto de cócoras para incrementar a prática de partos verticais. Quando fui visitar o hospital dois anos após minha saída a cadeira era um ferro velho jogada em um almoxarifado; ninguém se interessou em realizar partos verticais e o aparelho acabou esquecido. Hoje em dia o mesmo ainda ocorre: passados mais de 25 anos e os partos neste hospital universitário continuam sendo no modelo antigo, com a paciente deitada imóvel de costas em uma maca. A liberdade para escolher a melhor posição de parir não é uma escolha da mulher: é do sistema.

Os treinamentos de profissionais também se mostraram totalmente inefetivos para modificar condutas. Evidências científicas são sementes que germinam apenas se o “terreno” onde foram plantadas tenha sido previamente fertilizado por uma abordagem que inclua elementos mais etéreos como o sentimento, a ética e o afeto.

Carl Rogers dizia que perdemos tempo demais em “treinamento”, que seria mais bem utilizado em “seleção”. Pedir para profissionais educados na lógica da intervenção que atuem de forma suave e humanizada nunca surtiu efeito, e não creio que a insistência nessa visão possa nos levar a uma modificação no resultado. “Se quer chegar a lugares diferentes, não trilhe os mesmos caminhos“.

A diferença, ao meu ver, não virá com as mesmas pessoas e nem com aparelhos e apetrechos. Estes últimos, desprovidos de alma, são facilmente esquecidos e desprezados se não houver material humano que os ilumine e lhes dê vida. A diferença, como é fácil de confirmar, está nas pessoas.

A presença das Doulas no cenário do Parto é o grande diferencial surgido a partir dos anos 80. O acréscimo do componente emocional, afetivo e psicológico que elas oferecem é capaz de suprir a falha – apontada pela antropóloga Wenda Trevathan – do sistema médico em “reconhecer e trabalhar com as necessidades emocionais relacionadas com esse evento“. Assim, a incorporação dessas personagens criou o terreno adequado para recriar o “Círculo de Apoio”, marca ancestral na atenção aos momentos de passagem como o nascimento, a morte e o parto.

Reconhecer a importância do suporte oferecido pelas doulas é essencial para valorizar o parto normal humanizado. Muito mais do que treinar profissionais, comprar aparelhos ou mudar a ambiência (que também tem importância, porém menor) é fundamental mudar a face da atenção ao parto. Isso precisa ser feito acrescentando os elementos que constituem a essência do suporte ao nascimento desde as eras mais primitivas, as quais se perdem na bruma dos tempos: o auxílio amoroso, cálido e contínuo que as doulas oferecem às gestantes durante o mais sagrado dos rituais.

Os resultados estão aparecendo, basta ter olhos de ver e ouvidos de ouvir…

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Bom Começo

Bom Começo

Oferecer um “bom começo” a uma criança, assim como uma experiência marcante para uma mãe, é o melhor que nós, como cuidadores, podemos proporcionar. Entretanto, do ponto de vista subjetivo, aquilo que esta mulher fará com sua experiência não nos cabe julgar ou aquilatar. Essa experiência inicial pode ser fundamental para a estruturação do novo ser que surge, assim como o estímulo essencial para a mãe que nasce…. ou não. Existem muito mais nesse processo do que a simplificação de uma via de parto.  Por outro lado, reconhecer que a via de parto não é “tudo” não implica em dizer que o esforço por um parto normal não tem significado. Da mesma forma, um homem não é menos humano por não ter as pernas ou ser surdo; todavia ninguém sugere cortar pernas ou ensurdecer sujeitos partindo da ideia de que “ninguém é menos homem por isso“.

Valorizar o parto normal significa apenas esforçar-se para que o nascimento seja o mais seguro e mais pleno de significados, mesmo reconhecendo que estes valores são apenas alicerces iniciais – fortes e firmes – para a construção que virá a seguir: a moldagem de um sujeito e de uma mãe. Desmerecer uma mulher por ter feito – ou escolhido – uma cesariana não é atitude de um verdadeiro humanista. Entretanto, questionar estas escolhas, e em especial o abuso de cirurgias realizadas por causas menos nobres, é dever de quem procura uma atenção ao parto mais segura e feliz, assim como uma humanidade mais justa, digna e fraterna.

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Mudanças

Parto CASA

Houve um período no debate sobre o parto humanizado em que se acreditava na possibilidade de “educar” médicos através de uma imersão nas “verdades da MBE”. Muitos colegas se deixaram entusiasmar com essa possibilidade e o Ministério da Saúde protagonizou uma espécie de Caravana da Humanização que se propunha a levar a “boa nova” aos médicos, uma espécie de “Evangelho das Boas Práticas” aos gentios.

O resultado foi, como eu previra, nulo. Zero. Não havia NADA nas evidências científicas capaz de seduzir, quanto mais mobilizar, os profissionais. Os novos regramentos não passavam de ficção aos ouvidos pétreos dos chefes de serviço. “Para que mudar e arriscar-se numa aventura humanizante se não há um clamor audível por mudança? Onde estão as marchas, os cartazes e a legião de indignadas? Se querem uma modificação no modelo, mostrem-me o choro e o ranger de dentes. Caso contrário, não me peçam para trabalhar mais em troca de nada“.  Realmente, a simples confrontação com a realidade das pesquisas é inútil como elemento transformador. Fosse isso suficiente bastaria folhear os cadernos do Ministério da Saúde e transformar radicalmente a sua prática. Todavia, sabemos que isso não acontece.

A única forma de mudar a realidade é transformando a “base”. Somente se as MULHERES forem atingidas e transmutadas pelo discurso da humanização é que poderemos descortinar uma nova realidade. Elas serão as únicas condutoras desta revolução. A nós caberá apenas a nobre posição de coadjuvantes.

Quem almeja protagonismo procure ser cantor de Rock ou Sertanejo. Médicos, parteiras e doulas não brilham, e a eles cabe o lugar de refletir a luz que emana das mulheres. O modelo iatrocêntrico (centrado no médico) em que as enfermeiras são “parte da equipe” nunca teve resultados positivos onde foi implantado (vide EUA). Por que haveria de produzir resultados positivos em um país que não dispões dos recursos imensos para consertar os problemas que ele mesmo produz?

Quando tive a oportunidade de tietar Ellen Hodnett em um congresso no Chile há alguns anos minha única pergunta a ela foi: “Você acredita na possibilidade de educar médicos para que sejam mais humanizados e assim mudar o paradigma do nascimento?

Sua resposta foi curta e simples: “Não, esse modelo se mostrou falho. Não há mais nada que ele tenha a oferecer“.

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Partos extra-hospitalares

Grito primal

Sobre os debates em relação aos partos extra-hospitalares…

Debato estas questões há 30 anos, e virtualmente há 16 anos. Já participei de “pegas” muito mais violentos na minha comunidade “Parto Humanizado” no falecido Orkut. Aquilo sim era baixaria. Todavia hoje em dia – graças à muita idade – eu não participo de nenhum debate em que o nível esteja abaixo do padrão mínimo de civilidade. Descobri que “caps lock” e gritaria é proporcional à falta de argumentos. Quando o volume da voz ou, no caso virtual, agressões “ad hominem” ocupam o lugar de argumentos bem construídos, é hora de abandonar o debate. Faço isso sistematicamente. Já fui atacado por todos os lados por ter ideias que muitas vezes agridem o “senso comum”, mas prefiro a impopularidade à falsa luz dos aplausos fáceis.

Se querem saber minha opinião franca a respeito do parto domiciliar, eu até posso expressar. Existem temas muito interessantes escondidos nos argumentos de todos os lados, e eles são uma amostragem bem interessante do nosso código social valorativo.

Primeiramente, esse NÃO É um assunto médico, da mesma forma que “aborto” também não é. Essa é uma questão HUMANA, em que a medicina tem uma visão a oferecer, mas que está pareada com muitas outras tantas visões, como a sociologia, a antropologia, o direito, a psicologia, a psicanálise e tantas outras quantas forem as abordagens possíveis de um fenômeno de múltiplas interpretações. O erro é chamar médicos para mostrar sua visão sobre o tema e lhes oferecer a “opinião definitiva”, como se eles tivessem um conhecimento superior sobre a totalidade do fenômeno, quando em verdade dominam apenas uma parcela desse conhecimento.

O que você diria, por exemplo, se um médico fosse chamado a opinar sobre “açúcar” e, a partir de um posicionamento da corporação, lhe proibisse (e todos os demais) de comer qualquer doce, baseado em pesquisas relacionando açúcar com obesidade, diabete e infarto? Acharia um abuso? Pois é assim que muitas mulheres se sentem a respeito dos médicos proibirem (direta ou indiretamente) mulheres de terem seus filhos no lugar onde desejam.

Os riscos relativos (pois que os absolutos são baixos até para cesarianas) de qualquer ação humana não podem regular isoladamente os procedimentos, sejam eles quais forem. Quer um exemplo?

Se você viajar de ônibus para São Paulo (não importa onde esteja) o risco relativo é MAIOR se compararmos a mesma viagem feita de avião. Pergunto: é justo proibir que as mulheres viajem com seus filhos de ônibus para São Paulo porque existe uma opção mais segura? Se você responder NÃO, então concorda com todas as pessoas que defendem o parto domiciliar, mesmo que conseguisse (o que é improvável) provar que ele é mais arriscado do que a modalidade hospitalar. Se você responder SIM, entre na justiça agora mesmo e quebre todas as empresas de ônibus interestaduais.

Assim sendo, avaliar riscos relativos é uma forma fácil de entrarmos em erro. A outra questão é própria do debate: não há sentido algum em considerar o parto como sendo um ato médico, pela mesma razão que a alimentação, a evacuação e a atividade sexual não o são. Portanto, oferecer a última palavra sobre sua alimentação, trabalho intestinal ou vida sexual aos médicos é um equívoco, pois muito mais existe nestas ações que possam caber na explicação fisiológica que os médicos possuem. O desejo sexual, o gosto pelos alimentos e a excreção obedecem ordenamentos do simbólico que estão muito além do entendimento orgânico que um médico pode oferecer.

A partir dessas considerações fica mais fácil entender que parto domiciliar, ou “parto no local de escolha da mulher“, tem a ver com direitos humanos reprodutivos e sexuais, mais do que qualquer outra coisa. Não é por acaso que as pesquisas prospectivas na Inglaterra demonstraram que se trata de uma opção segura, que pode ser estimulada entre as pacientes do sistema público de lá. Os ingleses não são tolos ou idiotas e, como diria Sting, “The brits love their children too“. Local de parto é um DIREITO de escolha da MULHER, e não do médico (que serve para aconselhar e orientar). Portanto, o médico deve acompanhar estas decisões soberanas de suas pacientes, como expresso nos códigos de ética médica de qualquer lugar do mundo.

Obstaculizar o acesso de médicos aos seus pacientes através de coerção, ameaças ou violências (explícitas ou implícitas) é um crime contra a liberdade de escolha e uma violência contra a autonomia. Qualquer ação nesse sentido deve ser repudiada em nome da democracia e da autodeterminação. Mais do que uma ação “feminista” (por proteger as mulheres e garantir a elas o direito de escolha) ela é uma agressão aos seres humanos, tolhidos da possibilidade de escolher seus valores e assim construir seu destino.

Para finalizar, melhor faria a corporação médica em se espelhar nas ações de grandes democracias europeias e regulamentar o parto extra-hospitalar, para que, assim debatido, ele pudesse ter os melhores resultados. Quantos resultados negativos nesta modalidade de atenção ocorreram pelo preconceito dos colegas ao receber uma transferência no hospital? Quantas vezes parteiras aguardaram mais do que deviam pelo medo da humilhação a que seriam submetidas por um sistema preconceituoso, fechado e que criminaliza as decisões soberanas tomadas pelos pacientes?

Para que as mulheres possam ter a máxima excelência na atenção precisamos nos desfazer de todos os resquícios de autoritarismo na atenção à saúde, ao mesmo tempo em que reforçamos a cidadania e a autonomia como valores fundamentais na assistência ao parto.

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Boxe

Boxe

Um fato interessante aconteceu no mundo das lutas, em especial no Boxe, mas que pode produzir uma reflexão interessante sobre parto, e em especial a segurança relacionada à sua condução. A Federação de Boxe deliberou que a partir da próxima Olimpíada não mais serão usados os capacetes especiais acolchoados dos lutadores. A razão? Boxeadores com capacetes tinham o DOBRO (ou mais, me corrijam) de lesões cerebrais quando comparados àqueles que lutavam sem capacete.

Como? Não entendi…

Exato. O uso do capacete estava relacionado com muito mais lesões pois o capacete oferece uma falsa sensação de segurança. Desta forma os lutadores usavam menos técnicas de autoproteção. Isto é: eles levam mais socos e trombadas pois se preocupam menos em proteger a cabeça. Os pequenos traumatismos constantes acabavam por produzir lesões em maior quantidade do que quando o capacete não era usado.

Retirar algo que aparentemente protege gera mais segurança e proteção!!!

Pense agora nos hospitais e o abuso de cesarianas. O hospital parece proteger, mas quando se “retira” o hospital da assistência não aumentam drasticamente os problemas, na medida em que as pessoas passam a não se comportar de forma temerária (ocitocina exógena, confinamento ao leito, analgesia, amniotomias, monitorização eletrônica, etc.). Isso ficou muito claro no “Place of Birth” (Inglaterra, 2012) e suas repercussões no NICE (National Institute of Care Excellence) e no último estudo da MANA (Midwives Alliance of North America).

O resultado é que sem o “capacete institucional” altera-se o comportamento dos atendentes. Mudam os valores, muda a “psicosfera” e modificam-se as condutas. E os resultados são igualmente bons, mas com maior satisfação por parte das mulheres.

Faz sentido para vocês?

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Escutar as Mulheres

Chains woman

Fiquei emocionado de ler um artigo que tratava do “Feminismo que precisa escutar as mulheres” escrito por Marjorie Rodrigues. Há muito tempo que não debato isso – por medo de esquartejamento – mas não me furto de escrever sobre o tema de uma perspectiva masculina sobre um movimento que é protagonizado por mulheres. Muito se tem escrito sobre a Violência Obstétrica e a importância de combatê-la, com o que sempre concordei. Porém, há alguns meses, recebi um “whats” de uma importante ativista preocupada com o tipo de enfrentamento que se formava, que basicamente se estruturava de forma binária: de um lado vítimas, as mulheres, e de outro os algozes cruéis e insensíveis, os médicos.

Claro que o maniqueísmo explícito dessa proposta já nos deveria alertar, mas muitas vezes a paixão pela causa nos deixa cegos para algumas idiossincrasias, e deixamos de ver todas as outras cenas que se desenrolam ao lado do túnel criado pelo nosso foco.

Não creio ser possível construir nenhum movimento que promova a equidade sem retirar a mulher da posição de vítima, passiva e estática, manipulada por uma ordem outra que não seja sua própria vontade e determinação. Vítimas nunca são protagonistas. Vitimas são sempre objetos, mesmo quando as protegemos.

Para mudar essa realidade é fundamental que a atitude das mulheres também se modifique, que elas reforcem seu protagonismo e que não aceitem imposições sobre seu comportamento, seja dos homens ou daquelas que querem falar por elas.

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Dilema Médico

duvidas

Ontem à noite recebi o telefonema de uma paciente que não conhecia, mas que estava sendo acompanhada por uma colega que está viajando, participando de um congresso em SP. Apresentou-se dizendo ser paciente da Dra. Fulana e que ela havia me indicado durante sua ausência, coisa que eu já sabia de antemão, pois havia sido previamente combinado com minha colega. A paciente disse que estava com 39 semanas de gestação e a bolsa havia acabado de se romper.

Perguntei da movimentação fetal e da cor do líquido. A resposta foi que o bebê estava se movimentando bem e que o líquido era transparente. Combinei com ela de ir à sua casa para avaliar os batimentos do bebê e conversar. Estávamos em pleno domingo em Porto Alegre, a terra dos 92.5% das cesarianas da Unimed. Aliás, este era o convênio que ela possuía. Algumas horas depois fomos, eu e Zeza, à sua casa para fazer uma avaliação. As contrações já haviam aparecido, mas estavam frágeis e esparsas, como uma em cada 15 ou 20 minutos, e muito fracas e curtas. Exames de pré-natal, BCFs, pressão, temperatura, posição fetal, etc. todos valores normais. Mas havia um porém…

Ela não nos conhecia, apenas havia escutado que somos a favor dos partos normais. Nunca havia participado do curso de gestantes da Zeza, ou conversado longamente sobre os grandes dilemas do parto, principalmente uma RUPREMA (ruptura prematura de membranas). Estava assustada. Ao seu lado estavam seus pais e seu jovem marido de primeira viagem. Ela mesma contou que havia nascido de cesariana por apresentação pélvica. Depois de uma avaliação cuidadosa e de algumas explicações sobre o que poderia ocorrer sua mãe me perguntou se era seguro um parto normal, e se uma cesariana não seria indicada. Foi então que ela interrompeu minhas explicações aos pais e falou de seus sentimentos e dúvidas. Este foi o ponto nevrálgico do seu parto.

Dr. sei que minha bolsa rompeu e que isso é arriscado, pois o parto pode ser “seco”. Sei também que nessas circunstâncias se faz uma indução, mas se é para induzir eu estou pensando em uma cesariana. O que o Sr. acha?

Veja bem… Eu me encontrava diante de uma encruzilhada: operar uma paciente às 20h de um domingo e voltar para casa a tempo de ver os gols do Fantástico, dormir bem e começar a semana sem atrapalhações e sem correr RISCOS (para mim, por certo), atender meu consultório na manhã de segunda feira… ou esperar o desencadeamento de um parto que poderá ocorrer muitas horas depois, e que talvez acabe em uma cesariana. Que fazer?

E tudo isso por 500 reais…

Façam a escolha. A primeira alternativa é ISENTA de riscos para o médico. Não atrapalha o domingo, não incomoda o consultório pela manhã, não lhe tira o sono, não traz transtornos para a relação com o paciente – afinal foi ELA quem sugeriu a cesariana – e podemos colocar este caso na conta dos “pacientes que optam pela cirurgia”. Jamais um médico que faz esta opção será criticado pela classe ou chamado a dar explicações como réu perante sua corporação. Já o segundo caminho significa uma noite de dedicação, o olhar de censura dos colegas (deixou essa bolsa rota por horas, tu viu?), a perda das consultas da manhã (por estar atendendo ou dormindo após o parto) e o risco do julgamento por parte da própria família (mas porque o senhor não fez o que eu sugeri?).

E pelos mesmos 500…

Minha resposta foi absolutamente “irresponsável”, ou “imoral”, no entendimento de Richard Dawkins: “Não vejo nenhuma justificativa para partirmos para uma cesariana. A bolsa rota, por si só, não indica uma cesariana e “parto seco” não tem valor na medicina atual: é apenas um mito. Creio que podemos dar um tempo para o seu bebê se ajeitar e suas contrações ficarem vigorosas. É uma questão de confiança e paciência. Vamos descansar e aguardar. Os valores de bem estar fetal estão excelentes. Descanse e aguarde. Ligue se for necessário, a qualquer momento”.

Algumas horas depois ela liga dando entrada no hospital. Ao exame, 6 cm. Cinco horas depois nasce um bebê de 3.180g, parto espontâneo hospitalar de cócoras, sem episiotomia e períneo íntegro. Nesse momento este lindo bebê está no colo de sua mãe, que se movimenta pelo hospital sem nenhum ponto de sutura em seu corpo. Minha pergunta: Num universo paralelo, onde minha escolha fosse diferente, o que uma paciente diria diante das seguintes palavras de seu médico: “É verdade, a bolsa rompeu e você nem está com contrações. O colo deve estar fechado e teremos que induzir. Podemos provocar as contrações no hospital e ainda assim ter que fazer uma cesariana, e você teria os dois sofrimentos: as contrações e a recuperação da cirurgia. Você tem razão: o melhor é partir para a cirurgia e poupar você de tanta dor…

A família respiraria aliviada. Afinal, a decisão do doutor lhes retira o peso e o pânico de esperar o desfecho demorado de um parto normal. Fazer a cirurgia abreviaria o sofrimento de aguardar pelo parto, evento tratado de forma apavorante, aterrorizante e dramática pela cultura, a ponto de ser totalmente “desnaturalizado”, imaginando ilusoriamente que o controle cirúrgico do evento pelas mãos dos profissionais lhe configura mais segurança. “Sim, melhor aceitar o conselho do doutor. Uma cirurgia é a melhor escolha. Afinal, o melhor é quando mães e bebês estão bem, certo? A forma de nascer não importa de nada. E, além disso, o doutor deve estar certo, já que estudou tanto para isso…

Será que me fiz entender sobre os dilemas de uma indicação cirúrgica no contexto dos planos de saúde e na classe média contemporânea? ______________________

Para quem quiser ler o artigo “Dilema Médico” traduzido para o francês por Hélène Vadeboncoeur

LE DILEMME D’UN OBSTÉTRICIEN-GYNÉCOLOGUE : ATTENDRE APRÈS UN ACCOUCHEMENT OU FAIRE UNE CÉSARIENNE ?

Ricardo Herbert Jones.

Reproduit le 29 juin 2015 sur Facebook par Movimento Nascer Melhor, traduit par Hélène Vadeboncoeur, Ph.D, chercheure en périnatalité, le 15 juillet 2015.

Hier soir, j’ai reçu l’appel d’un patiente que je ne connaissais pas, mais qui était suivie par un collègue en voyage, en train d’assister à un congrès à Sao Paulo. C’était une patiente de Dr. Fulana et celle-ci lui avait recommandé de m’appeler durant son absence. Je la connaissais, comme collègue. La patiente a déclaré qu’elle était à 39 semaines de grossesse et que ses eaux avaient crevé.

Je lui ai posé des questions sur les mouvements du bébé et sur la couleur du liquide amniotique. Elle m’a répondu que le bébé allait bien et que le liquide était transparent. Je lui ai dit que j’irais chez elle écouter le cœur du bébé et parler avec elle. Nous étions un dimanche, à Porto Alegre, ville avec un taux de césariennes de 92,5 % (Unimed).   Elle accepta.

Quelques heures plus tard nous sommes allés, moi et Zeza (ma femme qui est sage-femme) chez elle, pour faire une évaluation de la situation. Elle avait commencé à avoir des contractions, mais celles-ci étaient faibles et peu fréquentes (toutes les 15-20 minutes). Test prénatal, FBC, tension artérielle, température, position fœtale : tout était normal. Mais il y avait quelque chose…

Elle ne nous connaissait pas, mais elle avait entendu que nous étions en faveur de l’accouchement naturel. Elle n’avait pas participé aux rencontres prénatales animées par Zeza, ni discuté longuement des questions controversées reliés à l’accouchement, en particulier de la rupture prématurée des membranes. Elle avait peur. À ses côtés prenaient place ses parents et son jeune époux. Elle a dit qu’elle était née par césarienne (présentation par le siège). Après mûre réflexion et quelques explications sur ce qui se produirait, sa maman m’a demandé si un accouchement naturel était sécuritaire, et si une césarienne ne serait pas plutôt indiquée. C’est alors que la jeune femme a interrompu mes explications à ses parents et a parlé de ce qu’elle ressentait et de ses doutes. Ce fut un point tournant.

Le médecin sait que mes eaux ont crevé et que c’est risqué car l’accouchement se ferait ‘à sec’. Je sais aussi que, dans ces circonstances, on induit mais je pense aussi à la césarienne. Qu’en pensez-vous?”Vous voyez… J’étais à la croisée des chemins: ou bien une césarienne faite à 20 heures le dimanche, et je serais de retour à la maison à temps pour voir les buts de Fantastique, j’aurais une bonne nuit de sommeil et je commencerais la semaine sans problèmes et sans prendre de risques (pour moi, à coup sûr). Je serais à mon bureau le lundi matin… ou bien j’attendrais que se déclenche l’accouchement – ce qui pourrait n’arriver que plusieurs heures après, et qui pourrait aboutir à une césarienne. Que faire ?

Et tout cela pour 500 reais…

Choisir. Le choix de faire une césarienne est sans risque pour le médecin. On la fait le dimanche, cela ne dérange pas les heures de bureau le lundi matin. Cela ne nuirait pas à ma relation avec la patiente – après tout c’est elle qui a évoqué la césarienne, et ce serait classé dans la catégorie ‘les patientes qui optent pour l’opération’. Jamais un médecin qui choisit de faire une telle césarienne ne sera critiqué par ses pairs ni appelé à s’expliquer devant le Collège des médecins.La deuxième optioin signifie une soirée dédiée à accompagner cette femme lors de son accouchement, le regard réprobateur de collègues (vous avez laissé cette femme accoucher combien de temps après la rupture des membranes ?), l’annulation des rendez-vous avec vos patientes durant la matinée (parce que vous attendiez qu’elle donne naissance ou vous deviez dormir une fois celle-ci arrivée), le risque d’un procès de la famille (pourquoi n’avez-vous pas fait ce que j’avais suggéré?).

Et tout cela pour 500 reais.

Ma réponse, dans la perspective de Richard Dawkins, fut absolument “irresponsable” ou “immorale”: ”Je ne vois aucune raison de vous faire une césarienne. Des membranes rompues ne sont pas une indication de césarienne, et le concept de ‘naissance à sec’ est un mythe. Je pense que nous pouvons attendre un certain temps que votre bébé se positionne pour le travail et que les contractions s’intensifient. C’est une question de confiance et de patience. Nous reposer et attendre. Les paramètres de bien-être fœtal sont excellents. Vous reposer et attendre. Et m’appeler, le cas échéant, n’importe quand.”

Quelques heures plus tard, elle demande à être admise à l’hôpital. Elle est alors dilatée de 6 cm, et donne naissance, 5 heures après, à un bébé de 3 180 g, de manière spontanée en position accroupie, sans épisiotomie ni déchirure périnéale. Depuis qu’il est né, le bébé est dans les bras de sa mère, et elle se déplace dans la chambre de l’hôpital, le corps intact.

Ma question : dans un univers parallèle, où mon choix aurait été différent, que dirait ma patiente des paroles de son médecin: “C’est vrai, vos membranes sont rompues et vous n’avez pas de contractions. Votre col est fermé, et nous allons devoir provoquer l’accouchement. Nous pouvons le faire à l’hôpital, et il se peut que cela aboutisse en césarienne. Vous vous retrouveriez alors à avoir affronté deux difficultés : les contractions et la récupération de la chirurgie. Vous avez raison : il est préférable d’opter pour la chirurgie et de vous épargner la douleur des contractions.

La famille pousserait alors un soupir de soulagement. Après tout, la décision du médecin lui enlève un poids et l’inquiétude relativement au bon déroulement d’un accouchement naturel. Opérer abrège la souffrance reliée à l’attente du bébé, à l’accouchement, un événement considéré comme terrifiant, terrifiant et dramatique dans notre culture, au point d’avoir été complètement ‘dénaturalisé’. Où on a l’illusion – à tort – que le contrôle de l’événement au moyen de la chirurgie le rend sécuritaire simplement parce que celle-ci est aux mains de professionnels de la santé. “Oui, vous devriez suivre l’avis du médecin. La chirurgie est le meilleur choix. Après tout, c’est le bien-être des mères et des bébés qui est le plus important, n’est-ce pas ? La manière de naître n’est pas importante.

“En plus, la manière dont un bébé naît n’est pas importante.”“Et, en outre, ce que le médecin fait est sûrement juste, il a étudié si fort pour devenir médecin !

C’était mon opinion sur le dilemme posé par une indication chirurgicale, dans le contexte des plans de santé et de la classe moyenne.

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A Miséria dos Partos da Burguesia

 

 

cesarea

Uma paciente da Unimed Porto Alegre tem 7.5% de chance de ter um parto normal; 92.5% das gestantes com este convênio terão uma cesariana, a maioria delas sem nenhuma justificativa clínica. Uma cesariana aumenta de maneira clara e inquestionável os riscos de curto e longo prazo para mães e bebês. Os estudos mais conservadores apontam algo como 100 a 200% de aumento de mortalidade, e sobre isso não recai mais nenhuma dúvida.

Mais de 9 entre 10 grávidas de Porto Alegre e arredores da classe média (que usam planos de saúde) são submetidas a cesarianas que colocam a vida e a saúde de mães e bebês, sem que exista uma justificativa clara para tal conduta. O que houve?

Isso seria suficiente para desconfiar que algo está MUITO errado na atenção ao parto na minha cidade (mas o resto do Brasil não está diferente). Cabe a pergunta óbvia: Quem ganha com essa inversão de expectativas? Quem lucra com isso? Quem leva vantagem com o excesso de cesarianas?

Posso apenas dizer que os que PERDEM com essa “cultura perversa da cesariana” são mães e bebês. Quem são os que ganham?

Isso poderia ser menos vergonhoso se os órgãos de classe atacassem o excesso de cirurgias e oferecessem soluções para a grave crise. Afinal, eles deveriam lutar pela “boa medicina”, não? Mas não é o que acontece e o que se vê é o contrário disso.

No meu estado a corporação resolve atacar enfermeiras que atendem partos ou os partos NORMAIS, planejados e atendidos fora dos hospitais. Tais partos extra-hospitalares não perfazem 1% do total dos nascimentos. Porque algumas dezenas de partos merecem críticas, perseguições e ameaças – mesmo com centenas de estudos comprovando sua segurança – enquanto mais de 90% da classe média é submetida a cesarianas sem indicação clínica, arriscando a vida de mães e bebês, sem que haja qualquer comentário dos senhores da corporação?

As mulheres – em especial – começaram a se dar conta da EXPROPRIAÇÃO de seus partos. Impedidas de parir por uma cultura que protege a intervenção e criminaliza a fisiologia, começam a se questionar sobre este modelo e a quem ele serve. Da solução deste dilema surgirá o paradigma de assistência do século XXI.

Não creio que poderemos esconder a verdade para sempre. Perseguir aqueles que avisaram da nudez do Rei nunca deixou o monarca mais vestido e, no máximo, atrasou a compra de roupas. Medidas desesperadas e diversionistas como apontar para os partos normais (e seguros!!!) não surtirão o efeito desejado, e vão aprofundar ainda mais o fosso de desconfiança que as pacientes começam a ver se formar entre elas e aqueles que juraram protegê-las.

Falta bom senso onde abunda arrogância.

ANS – A Agência reguladora de planos de saúde do Brasil – ans.gov.br

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Crime e Castigo

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Diante do questionamento que surgiu a partir do brutal e estúpido assassinato de um cidadão que placidamente andava de bicicleta no Rio, muitas vozes furiosas clamaram por justiçamento, pena de morte e até linchamentos sumários. Isso me fez pensar nos clamores em Israel quando morre um soldado judeu e o silêncio brutal quando centenas de crianças palestinas morrem carbonizadas numa guerra desigual entre o mais armado exército do mundo e uma população prisioneira, sem armas e sem soldados.

A pergunta que cabe, reconhecendo a brutalidade do ato e a insegurança que todos sentem diante de um assassinato – e também a dor da família enlutada – é “o que podemos fazer de efetivo para combater essa e outras barbáries contemporâneas?“.

Primeiramente é preciso rechaçar o que é falso e “plantado” nas redes sociais com o único objetivo de gerar discórdia. Depois, é importante entender que esses debates não se resumem em um lado certo (nós) e um lado errado (os outros). Na questão da violência é fundamental se perguntar se as medidas preconizadas como solução ajudam a você (na sua necessidade de vingança) ou ajudam a todos, a comunidade inteira, a resolver (ou melhorar) um problema endêmico e de raiz estrutural.

De nada adianta eletrocutar esse menino pobre e negro; outros virão ocupar seu lugar. Não esqueçam que ele JÁ estava condenado; se não fosse preso agora dificilmente passaria dos 25 anos, vítima da guerra do tráfico. Ficar com raiva dele e santificar o “doutor” (que era alguém comum, como eu, mas acabou sendo pintado como santo) de nada adianta, e apenas aprofunda o fosso dos lados que se opõem no debate.

Precisamos mais policiais e mais inteligência no combate ao crime, mas é tolice imaginar que esse problema acaba com repressão. É MENTIRA. O tráfico não acabou nos Estados Unidos, e só cresce, mesmo com o aparato de repressão mais caro do mundo. O crime não deixa de existir porque policiamos a vida até o extremo. Não, ele existe – e se mantém – pela “sensação de injustiça” a que são submetidos os pobres, ao perceberem que a opulência oferecida a uma determinada casta nunca é oferecida à sua. Eles não se julgam bandidos ou malfeitores; pelo contrário, sentem-se heróis a combater uma injustiça, Batmans da favela, e nenhuma repressão vai fazê-los parar. Quanto mais apanham ou morrem mais cresce a indignação com o que consideram injusto e perverso. É por isso que o assassinato patrocinado pelo estado (pena de morte) ou pela iniciativa privada (chacinas e guerras de pontos de tráfico) nunca coibiu a violência e, mais ainda, contribui para o seu incremento.

É preciso mais do que raiva e indignação para resolver esta questão. Mais ainda, é necessário suplantar o ódio para encontrar uma resposta segura e sensata, que contemple o desejo de todos, e não apenas do nosso grupo.

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