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O Penhasco dos Sonhos

A mensagem veio dobrada em um papel amassado que Jason colocou em meu bolso momentos antes de entrarmos na sala do magistrado de apelações do condado. Resolvi abrir, com discrição, pois poderia ser algo importante, algum ponto especial a dizer – ou calar – diante do Juiz durante a sessão. Meus dedos procuraram as pontas da pequena dobradura e a abriram. Coloquei os óculos e li o que estava escrito com a letra desengonçada de Jason.

– Martin e a mulher estão mortos. Acidente de carro.

Levantei os olhos a procura de Jason, mas ele não mais estava na sala. Como auxiliar de defesa ele não tinha obrigação de estar ali, apenas o meu defensor. Olhei de novo para o papel com a respiração ofegante, sem saber o que dizer. Percebi que estava corado. Sim, eu me sentia envergonhado.

Martin era a razão de toda a minha desgraça. Se eu estava em uma sala fria aguardando um juiz prepotente e estúpido para analisar minha causa eu devia isso a Martin. Fora ele que, por inveja do meu sucesso rápido na banca de advogados do seu pai, havia me denunciado à polícia por defender uma mulher negra e pobre por posse de drogas, hospedando-a em minha própria casa. Sua acusação – falsa e absurda – era de intermediar a venda de drogas e esconder uma fugitiva. Sabia de suas ligações espúrias com a polícia, mas acima de tudo percebia seu ciúme doentio pelo fato de eu ser admirado por seu pai. Desde o início do processo soube que Martin estava por trás de tudo. As drogas plantadas, o falso testemunho de Bridget, a pressão sobre o pessoal na polícia. Seu cinismo ao me oferecer ajuda foi nauseante. Diante disso eu o odiei com todas as minhas forças. Imaginei toda a sorte de sofrimentos e tragédias para ele. Fantasiei todas as desgraças imagináveis para ele para os seus.

Inclusive essa.

Agora eu me envergonhava dos meus pensamentos. Olhava para os lados como se soubessem à minha volta o quanto desejei este terrível infortúnio. Mais ainda; senti culpa por desejar tanto, e com tanta veemência de espírito, como se minha vontade estivesse magicamente conectada por meio de cordéis etéreos ao acidente fatal. Uma culpa a mais com a qual teria que lidar.

Leonard Doohan, “Cliff of Dreams” (Penhasco dos Sonhos), ed. Bethesda, pág. 135

Leonard Doohan é um escritor americano nascido em Corpus Christi – Texas em 1977. O romance jurídico/policial “Penhasco dos Sonhos” de Leonard Doohan (seu melhor livro, ainda melhor que “Eu, Vincent”, que virou filme com Jennifer Coolidge no papel de Laura/Vincent) foi escrito imediatamente após cumprir pena no Ventress Correctional Facility em Clayton, Alabama (USA). A partir desse livro, que combina memórias pessoais com relatos recolhidos de colegas de penitenciária, ele inaugurou uma sequência de 14 obras nas quais ele escreve especificamente sobre o universo “white trash”, os “rednecks” do sul dos Estados Unidos, a cultura masculina decadente e a idolatria por figuras como Trump. Vive ainda hoje em Galveston no Texas, com seu cão Jax, e está escrevendo um romance sobre o lado pouco conhecido e obscuro da família Bush.

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Medicina irreconhecível

Se por um decreto divino a prática médica a partir de hoje fosse plenamente vinculada às evidências científicas – mesmo as que já temos – muito rápido a medicina se tornaria uma profissão tão diferente do que existe na atualidade que seria praticamente irreconhecível. O que chamamos de “ato médico” é, em verdade, a encenação de um encontro terapêutico cujo enredo não é necessariamente escrito com as tintas da ciência.

James H. Waldorf, “From the depths to Calicut”, ed Norwegian, para 135

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Prince Charming

The search for chloroquine, ivermectin and now dexamethasone bears a resemblance to the search for love in a man or woman, an ideal of happiness that depends in someone to complete us and offer what we lack. In all cases the answer is always out there, in something that will rescue us from loneliness, degeneration and death. Exogenous healing has never gone out of style. Prince Charming never stopped visiting our dreams.


“A busca pela cloroquina, ivermectina e agora a dexametasona guarda uma semelhança com a busca do amor em um homem ou a mulher, um ideal de felicidade e em alguém a nos completar e oferecer o que nos falta. Em todos os casos a resposta está sempre lá fora, em algo que vai nos resgatar da solidão, da degeneração e da morte. A cura exógena nunca saiu de moda. O Príncipe Encantado jamais deixou de visitar nossos sonhos.”

Patricia Highsmith, Punxsutawney Chronicles, june 12th,

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Bilionários

A ideologia do acúmulo infinito, da meritocracia irrestrita, leva à criação de ‘monstros’ como Ma, Bezos, Musk, Gates e Zuckerberg, cujo poder acumulado é maior do que o PIB da maioria dos Estados nacionais. Esse modelo é, acima de tudo, antidemocrático, que coloca o capital acima das pessoas, tirando delas o poder e mantendo-o na mão das elites financeiras. A luta contra o imperialismo e a colonização está ligada à necessidade de conter o poder obsceno captado por bilionários, cuja visão de mundo pode ser chamada de qualquer coisa – de visionária a apocalíptica – mas jamais democrática e ampla.

George Mguzue, “On the rise of a new order”, ed. Patch, page. 135

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Motivações e sombras

Em toda mobilização subjetiva no sentido da transformação haverá um deflagrador de origem primitiva, emocional; sexual em essência. Como dizia Dimitri*, as concepções de ordem intelectual jamais oferecem potência para mobilizar as energias criativas de um indivíduo. A real origem delas pode ser recôndita, inconsciente e inconfessa, mas uma busca apurada encontra a semente psíquica e erótica desses movimentos que, multiplicados por contextos e circunstâncias infinitos, produzem guerras, monstruosidades, o amor romântico, a cura das doenças e a até a conquista do universo.

Edouard Davrigny, “The Inner Circle of Mystic Roots – The life and work of Dimitri Czerkow”, ed. Altumus Press, pág. 135

Edouard Davrigny é um escritor belga nascido em 1936 na cidade de Kortrijk, próximo à fronteira da França. Sua mãe era comerciante e seu pai professor de história na escola local. Fez seus estudos na França, tendo estudado psicologia na Sorbonne. Durante seus estudos tomou conhecimento da obra do místico russo Dimitri Czerkow que no século XIX produziu uma extensa coletânea de livretos que poderiam ser considerados precursores da obra de Freud, não fosse que o mestre austríaco jamais poderia ter tomado conhecimento deles, já que somente foram descobertos em 1950 durante a construção da estação Kolhtsevaia (Кольцевая) do metrô de Moscou, quando uma arca com manuscritos muito bem preservados foi descoberta sob uma das casas demolidas. Dimitri passou a ser estudado por vários pesquisadores e historiadores russos, mas nenhum deles produziu uma historiografia tão completa quanto a de Edouard Davrigny. Edouard escreveu vários livros sobre psicologia e participou de coletâneas de vários outros autores. Entre seus livros o mais conhecido é “Psychologie et substances psychoactives”, também lançado pela Altumus Press.

* Refere-se ao místico ucraniano radicado na Rússia Dimitri Czerkow cujo livro “Inner Circle” de 1866 estabelecia as rotas, os rituais e os condicionantes para a elevação espiritual dos iniciados. Ficou conhecido pelo uso de substâncias alucinógenas derivadas de raízes de Eleutheria pragnatis nas suas atividades como místico e por sua devoção à divindade Gorratchin – uma mistura de bondade extremada e desinteressada com hipersexualidade dionísica. Acabou seus dias com distúrbios sérios da sanidade mental e foi enforcado por fraude fiscal.

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Sombra

Desconfie de todo justiceiro; atrás da luz fulgurante de justiça que ele traz à proa se projeta uma gigantesca sombra, cuja extensão não enxergamos, mas que, mais cedo ou mais tarde, aparece à nossa frente, em geral quando ainda estamos ofuscados pela luz.

Adm. Walter Scott, on “Writings on Faith and Fear”, ed. Walton, page 135

Walter Scott foi um militar americano nascido em Augusta, no Maine em 1911, que lutou na “Guerra da Coreia” (1950-1953), tendo recebido inúmeras condecorações por bravura. Foi um dos maiores críticos deste conflito, denunciando o genocídio promovido pelo exército americano na Coreia do Norte. Em seu livro de memórias “Writings on Faith and Fear” ele descreve a selvageria dos combates e as bombas jogadas sobre povoados pelos bombardeiros americanos, com imenso desprezo pela vida da população coreana. Segundo ele disse em uma entrevista em 1980, um pouco antes de sua morte por câncer linfático, o nome original do livro seria “The Dark Side of M.A.S.H.”, mas foi vetado pelos editores pelo enorme sucesso da série americana.

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Oração de Santo Euphrásio

Não coloque sua vida nas mãos de ninguém, vivo ou morto. Beba de todas as fontes sem jamais deixar que qualquer visão de mundo, por mais justa e adequada que lhe pareça, o faça esquecer a infinita pluralidade de perspectivas. Nunca atue porque algum mestre iniciático assim o determinou, mas porque suas ações servem ao crescimento, ao bem comum, à vida e à própria humanidade. Seja fiel à si mesmo, mais do que a qualquer imagem ou ideia. Esqueça todas as idolatrias, pois que elas limitam teu escopo de visão sobre a realidade. Creia na verdade e desconfie de todos os seus mensageiros.

Amém

“Integram Sanctim opera Euphrasio”, Ed. Capitolium, pag. 135

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Moda personalizada

Curiosamente, no contrafluxo do paradigma individualista, eu não gostaria de um comprar um tênis que fosse único, diferente de todos os outros, com a minha “marca pessoal”, um elemento de distinção no vestuário. Não acho justo colocar tamanha responsabilidade em um item externo, algo que pode ser comprado por alguns dinheiros e que apresenta muitas vezes uma falsa originalidade, pois que os pensamentos que habitam essa roupa “diferente” nada diferem do senso comum, tantas vezes escondendo ideias e posturas conservadoras e preconceituosas.

Pelo contrario; eu gostaria de usar uma roupa – incluindo um tênis – que me deixasse igual a todo mundo, que me fizesse desaparecer visualmente na multidão, que me tornasse igual à massa ao redor, assim oferecendo a oportunidade para que a minha fala e meu discurso fossem os elementos a expressar meu caráter único e distinto. Quando delegamos aos elementos exteriores a função de expor características subjetivas é porque admitimos que o interior se sente frágil ou incapaz para essa tarefa.

Menos roupas únicas e mais ideias originais e corajosas.”

Antoine Marcel-Dupré, “La pensée à la fin de la ligne. Haute couture, idées basses.” (Pensando no fim da linha: Alta costura, baixas ideias) Ed. Parnasse, pág. 135

Antoine Marcel-Dupré é um sociólogo francês escritor de várias obras de cunho didático na área da sociologia. Trabalhou na Ecole Parisienne d´Estudes de Sociologie durante 30 anos, e se aposentou um ano antes de morrer em 2017.

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Feminilidade essencial

Quando e por quê tornamos o parto uma patologia que merece ser tratada e medicada? A construção da percepção patológica do nascimento na cultura ocidental, e a subsequente aceitação desta visão pelas mulheres, é um dos capítulos mais fascinantes da história do feminino no ocidente, e um dos menos estudados. Entretanto, a plena libertação das mulheres dos entraves da cultura patriarcal não se dará negando seus aspectos essenciais. Pelo contrário; será pelo mergulho profundo na feminilidade vibrante de seus ciclos e pelo reforço de suas especificidades.

Marguerite Keller, “Wolves over the prairie”, ed. Cabell, pag. 135

Marguerite Keller é uma feminista alemã nascida em Hamburgo em 1960 que se dedicou ao estudo das relações entre feminismo e nascimento humano. Escreveu “Wolves over the Prairie” como uma coletânea de contos, histórias e crônicas sobre a temática do nascimento na ótica feminista em várias revistas e jornais americanos. Estudou com Robbie Davis-Floyd e foi discípula de Brigitt Jordan. Mora em Atlanta, na Georgia, e tem dois filhos Klauss e Vanessa.

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Opressões

Grupos historicamente oprimidos, que usam ofensas aos adversários como retórica de combate, nos mostram que não basta mudar o opressor para transformar o sistema opressivo. Sem que os oprimidos compreendam as raízes da opressão eles naturalmente ocupam o lugar de seus antigos algozes.

Jeremy O. “The Roots of Evil”, ed. Barbacoa, pág 135

Jeremy O. é um escritor americano nascido em Boston em 1972, filho de um pastor presbiteriano e uma dona de casa. Desde muito cedo militou nos grupos LGBT tendo sido preso diversas vezes por desordem e resistência à prisão. Durante muitos anos de militância escondeu sua orientação sexual, mas causou certo furor quando em 2002 casou-se com a cantora Gospel Mary Divine, em uma cerimônia restrita e reservada no condado de Nantucket, Massachussets. Chamado de “traidor” por alguns correligionários e de “falsário” por outros, foi a partir dessa ação que conclamou a parcela heterossexual da sociedade a se unir nos esforços pelo fim de qualquer opressão direcionada à comunidade gay. Mora em Nova York e tem dois filhos, Hope e Faith.

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