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Algodão

Estou aguardando com ansiedade o dia em que as pessoas deixarão de usar o argumento “você pode ofender pessoas sensíveis se falar isso”. Ora, sabemos que qualquer debate pode ofender alguém e faz parte do risco de debater sentir-se ofendido – ou ofender involuntariamente. É claro que os argumentos não podem ser construídos com o único objetivo de ocultar as ofensas, assim como piadas que são contadas “inocentemente” tão somente para carregar racismo, sexismo, classismo e outros preconceitos sob o véu de um gracejo.

Todavia, é óbvio que algum conflito há de ocorrer no choque de ideias. É inadmissível – por ser anti intelectual – cedermos a este tipo de “censura pelos sentimentos“, como se os interlocutores fossem de algodão e conceitos duros fossem como água a lhes desmanchar. A cultura dos “flocos de neve” precisa ser abolida em nome da diversidade e do progresso das ideias.

Quem deseja debater com honestidade precisa ter maturidade para aceitar estes riscos. Abolir a necessária racionalidade em nome da candura e do “respeito aos sentimentos alheios” é tratar os oponentes como crianças.

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Opressões

“Grupos historicamente oprimidos, que usam ofensas aos adversários como retórica de combate, nos mostram que não basta mudar o opressor para transformar o sistema opressivo. Sem que os oprimidos compreendam as raízes da opressão eles naturalmente ocupam o lugar de seus antigos algozes.”

Jeremy O. “The Roots of Evil”, ed. Barbacoa, pág 135

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Contraditório

Discutir

Se você não suporta o contraditório não deveria entrar em controvérsias. Precisa saber que, ao expor seu ponto de vista, encontrará pessoas que pensam o oposto de você (ou de forma muito diversa) e que, até determinação nem contrário, podem se manifestar. Minha opinião é apenas isso: uma mera opinião carregada de intenção. Não se pretende “A Verdade” como alguns podem insinuar, mas tão somente meu ponto de vista sobre determinado tema ou questão.

Isso não deveria ofender ninguém, pois as visões discordantes deveriam ser sempre bem vindas. Se discordar de uma opinião através de argumentos ofende quem diverge da minha, peço desculpas.

Mesmo correndo o risco de não ser entendido e de aumentar cada vez mais a legião de pessoas que nutre por mim aversão e antipatia, ainda acho que é do choque de ideias e propostas que construímos um mundo mais plural.

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Ofensas virtuais

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Há alguns dias uma médica teria ofendido uma conhecida professora e obstetra humanista por causa da sua adesão à campanha para estimular os médicos a sentarem durante a assistência ao parto. Os adjetivos foram fortes, tendo nossa colega sido chamada de “sem noção“, “doentia” e “retardada“…

Eu creio que um pouco tem a ver com o ódio que assola a classe médi(c)a nos tempos atuais, misturada com o anonimato presumido nos comentários escritos no mundo das redes sociais. Entretanto, prefiro ir um pouco mais além e me aprofundar na análise da gênese de observações ofensivas e preconceituosas como estas.

Eu creio que estes comentários são análogos àqueles feitos pelos conservadores relativos ao beijos gays nas telenovelas. Trata-se de um choque estético, um modo diferente de olhar o amor (pelos outros e pelo parto) que abala mentes incapazes de pensar de forma criativa e abrangente. Muita gente ainda não compreendeu a razão da campanha para que os médicos sentem para auxiliar um parto, mas até que percebam que nos colocamos em posições estapafúrdias apenas para que a liberdade de posição da paciente seja assegurada, então jamais entenderão o sentido último do nosso malabarismo. Uma lástima que alguns escutem o grito, mas não sabem de onde vem. “Olha, psiu… vem daqui… aqui mais embaixo, onde habita o tal do protagonismo garantido“.

Escandalizar-se com médicos abaixo de uma mulher, adaptando-se às  posições dela (e não o contrário) ou com pessoas do mesmo sexo se amando, apenas demonstra a incapacidade de adequação a um mundo que gira e se transforma; muda e se transfigura. Para muitos dói saber que não existem verdades estanques ou modelos eternos. Tais xingamentos nada mais são que gritos de dor de sujeitos que perderam o chão, seus referenciais e seu norte, mas que são “velhos” demais para rever conceitos e posturas. Perdidos em sua angústia e medo só lhes resta xingar e ofender, iludindo-se que tais palavras agressivas possam fazer o tempo parar ou impedir a terra de girar.

Pobres e tristes, correm o risco de terminar seus dias corroídos pelo rancor.

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Moderação no Discurso

Algumas mulheres poderiam – em nome do respeito, da racionalidade e da boa convivência – aprender que discordar das suas opiniões NÃO significa desconsiderá-las, silenciá-las ou desmerecê-las. Debater com alguém demanda reconhecer visões de mundo diferentes e possibilidades diversas de olhar para o mesmo fenômeno. Escutar dignamente uma opinião diversa, sem adjetivos, ofensas ou criticas “ad hominem”, são condições indispensáveis ao debate.

Infelizmente nas redes sociais qualquer discordância significa malquerência. Uma mulher ofender um homem que ousou discordar dos detalhes de uma argumentação (mesmos tendo concordado com a conclusão) é muito triste de ver, pois determina o fim de qualquer possibilidade de interlocução.

E isso é sempre uma perda…

Debater é fundamental, mas entendo como o mundo virtual pode transformar uma conversa frugal em uma briga. Ontem fui discutir uma piada machista sobre a bunda da Yoko Ono e fui xingado, mesmo concordando com a tese principal e condenando o machismo explícito do chiste. Entretanto a pessoa dizia que Yoko era mais do que uma bunda, a qual “só serve para eliminar fezes“.

Aí eu discordei. “Peraí. Uma bunda é muito mais do que isso, e por seu valor simbólico e erótico ela é tão valorizada. Uma bunda é o quadril, as ancas, e por ali passam bebês. Passam dores e passam desejos. Ali está o sexo com suas reentrâncias e mistérios. Uma bunda tem valor simbólico, muito mais do que operacional. Para criticar uma piada machista não é necessário biologizar a bunda, ou o corpo da mulher“.

Por dizer isso e discordar da visão diminutiva de um fetiche (adorado em todos os povos, tanto quanto os seios fartos), fui agredido virtualmente, mesmo reconhecendo que a Yoko não merecia esta desconsideração de caráter objetual e machista.

Ok, “mea culpa“…

Eu já falei sobre isso, e a culpa é minha. Trata-se do “debate com as vítimas“. Quando um dos sujeitos do debate É vitima (como as mulheres são) qualquer “adversário” (pois sou colocado nessa posição) está inexoravelmente perdido. Ele não tem perdão por incorporar em sua fala, mesmo sem o desejar, o agressor. Se eu disser, em forma de conselho, que “as mulheres deveriam…” isso é transformado – antes mesmo de atingir a retina – em uma ordem indevida, e tratado de forma injusta como se uma violência fosse. Quando o debate fica assim e literalmente TODAS as palavras precisam ser vigiadas é por que o diálogo já acabou ha muito tempo e só o que resta é um enfrentamento de solilóquios.

Por outro lado é interessante notar como algumas mulheres chamam homens de “machistas” com total liberalidade. Creio que as que fazem isso não se dão conta como isso é ofensivo. Pior: não oferecem sequer uma defesa possível. Vou contar um segredo. Toda a vez que eu escuto uma mulher me acusar de machista, apenas por discordar dela sobre palavras ou detalhes de percepção, eu me sinto como uma mulher que, ao debater com um homem, é chamada de “mal amada”. Pense nisso antes de chamar um amigo seu de “machista”, principalmente quando o seu amigo simplesmente discordou de você.

Meu pedido é que debatam e dialoguem sem ofender, sem rotular ou adjetivar. E o meu “mimimi” não é gratuito. É uma tristeza de ver gente que não tem consideração pelo interlocutor. Que ofende apenas porque discorda. Que agride e fere, mas que reclama das (verdadeiras) agressões sistemáticas que sofre. Como eu disse anteriormente, quando as palavras precisam ser medidas para não serem usadas contra quem as proferiu é porque o desejo de debater deu lugar há muito tempo para sentimentos menos nobres.

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