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Seres Especiais

Afinal, somos ou não especiais? Eu creio que existe verdade nas duas posições e o equilíbrio é a maneira mais justa de perceber-se no mundo. Sim, somos especiais porque somos únicos e irreproduzíveis, donos de uma história e uma perspectiva de mundo únicas. Portanto, temos valor por carregamos vida e consciência de si, valores especiais da alma humana. Por outro lado, também é verdade que vivemos em comunidade e precisamos nos adaptar à ela, bem como às suas normas e regras – e não o oposto. Não somos “especiais” se isso significa que temos uma essência diversa daqueles que nos cercam. Somos feito da mesma matéria dos gênios e dos loucos, dos covardes e dos mártires.

Inobstante esses fatos da vida em comunidade, a pressão do grupo sobre o sujeito não pode ser de tal monta que destrua os princípios básicos da subjetividade em nome de uma homogeneização forçada. Outrossim, também estas características pessoais não podem servir de desculpa para impor nossa visão de mundo aos outros. Prefiro pensar que… talvez não sejamos mesmo especiais, mas somos únicos, fragmentos mágicos de poeira estelar, e carregamos a centelha da subjetividade dentro de uma alma etérea, o que nos torna especiais diante da criação.

Margareta Klebb, “The Real Tune of the Chords – Astrophysics and Spirituality” (A Real Melodia das Cordas – Astrofísica e Espiritualidade). Ed. Pântano, pág. 135

Margareta Klebb é uma astrofísica, professora, pesquisadora e escritora britânica nascida em Dover, na Cantuária, em 1945. Graduou-se em física na Universidade de Kent em 1960, iniciando seu trabalho com partículas subatômicas no Instituto de física desta universidade. Fez pós graduação em astrofísica e especializou-se na “Teoria das Cordas”. Depois de escrever sua tese de doutorado entrou em profunda depressão pela morte da sua irmã, Linda Klebb, por leucemia em 1975. Passou dois anos afastada da Universidade por razões de saúde, e quando retornou escreveu seu primeiro livro “On the Threshold of Infinity” (Nos Umbrais do Infinito), no qual aborda a física e a teoria das cordas sob uma perspectiva espiritualista. Depois do sucesso desse livro passou a se dedicar a estes estudos, com mais 3 livros com boa aceitação da crítica. Em “The Real Tune of the Chords” ela fala do dilema da espiritualidade na perspectiva da sobrevivência de um “princípio imaterial” que seria a essência da peculiaridade. É solteira, mora em Londres e vive com seu cão Bohr.

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Amor

Sim, mesmo que me falem de todos os outros amores, o amor do casal estará sempre em primeiro lugar porque é o único dos amores do qual somos dependentes para a continuidade da espécie. Se eu tivesse que proteger um, seria esse. Os outros, inobstante serem importantes para a vida de comunidade, não nos garantem a reprodução. Já passei pela experiência de pai de crianças, e sei enquanto minha nova função de avô é gratificante e significativa, porém certamente ela é acessória.

Eu concordo que estas formas contemporâneas de poliamor, trisal e outras arquiteturas são “mais do mesmo”; no fim das contas as mulheres biológicas vão engravidar de alguma forma e os cuidados dessas crianças será distribuído de forma não uniforme para quem estiver em volta. Se houver afeto como laço, tanto melhor. “O amor é isso que uma mulher devota ao seu filho, e todos os outros amores são dele derivados”. Nem bom e nem mau, apenas uma força coercitiva extremamente poderosa. Feita assim mesmo, para ser violenta e avassaladora, pois que desta energia depende toda a vida.

Ardian Kovaçi, “Romancë, cigare dhe vodka” (Romance, cigarro e vodka), ed. Paqe dhe Drejtesi, pág.. 135

Ardian Topalli Kovaçi é um escritor e terapeuta albanês nascido em Tirana em 1957. Filho de agricultores viveu uma infância de pobreza durante o governo socialista de Enver Hoxha, mas pôde estudar psicologia na Universidade em Tirana. Dedicou -se à clínica privada nos primeiros anos de formado vivendo na capital, enquanto escrevia para os jornais da Sociedade Albanesa de Psicologia. A coletânea desses artigos compõe seu livro mais conhecido, “Sob as Ruínas da Tabacaria”, de 2000, onde faz uma crítica mordaz ao totalitarismo albanês, tendo como cenário a famosa tabacaria onde Enver Hoxha criou a primeira célula do Partido Comunista da Albânia. Trabalha como colunista do Lajmi i Fundir, escrevendo sobre amor e relacionamentos. É divorciado e tem dois filhos.

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A Estatueta

Martyn pediu uma cerveja e dois copos ao garçom e ajeitou-se na cadeira do restaurante, como que a procurar espaço para poder dizer o que queria.

– Terry, você lembra da minha queda na cozinha, não? O hospital, a mancha roxa, o seu colega médico mal educado, a minha bronca. Pois eu lembro muito bem, parceiro, inclusive da sua gentileza em me buscar em casa na madrugada. Nunca pude lhe agradecer o suficiente por isso.

Ensaiei um “que é isso, amigo é prá essas coisas”, mas ele me interrompeu com um tapinha no braço.

– Era mentira, Terry. Era tudo mentira. Hoje resolvi lhe contar a história toda. Não fique bravo comigo, tenho certeza que você vai entender as minhas razões para ocultar a verdade.

Mentalmente minha memória viajou dez anos para trás, e pousou exatamente no dia em que, no início da madrugada, Martyn me ligou pedindo socorro. O ponteiro maior do relógio já havia completado quase uma volta inteira depois da meia noite quando o telefone berrou nos meus ouvidos enquanto eu saboreava Nabocov na cama. Por sorte Ellen continuou dormindo sem se impressionar com a estridência do aparelho. Seu sono pesado era uma lenda conhecida por toda a sua família. No dia em que o mundo acabar ela só vai acordar do outro lado da vida. Imaginei que se tratava de uma chamada do hospital, mas eu não estava de sobreaviso.

– Terry, preciso de ajuda. Não é uma emergência, mas preciso que você venha aqui em casa agora.

– Martyn, é você? Alguma coisa que eu deva me preocupar?

– Um acidente doméstico, não precisa se preocupar tanto, mas não há como lidar com isso sozinho. Você pode vir aqui? Tipo, agora?

– Claro, claro. Fique aí. Espere só eu me vestir.

Martyn é meu amigo de infância, talvez meu único grande amigo. Crescemos juntos, e frequentamos as mesmas escolas apesar de eu ser mais velho uma meia dúzia de anos. Seu irmão, Mark, foi meu colega de escola, na mesma sala de aula, mas ele acabou se afastando de mim pelas derrapagens que a vida dá. Não foi o caso com Martyn. Fizemos muitas coisas juntos, torcíamos pelo mesmo clube, festas, conversas, bebedeiras, filosofias… mas também porque tínhamos uma perspectiva de vida igualmente sombria e pessimista. Nossas sombras eram carregadas com as mesmas tonalidades de cinza.

Martyn era casado com Anna, uma mulher inteligente e ambiciosa. Trabalhava na Bolsa de Valores e era uma espécie de expert em alguma coisa que ela um dia me explicou, mas não guardei na memória. Minha cabeça de cirurgião não tem nenhum contato com o mundo do comércio, valores, poupança, ativos, lucros. Em verdade, sequer o dinheiro exercia qualquer atrativo especial para mim. Minha mulher Ellen reclamava que eu poderia ganhar muito mais com as minhas cirurgias se tivesse um pouco mais de habilidade para cobrar, mas não há dúvida que nessa área sempre fui um fracasso.

O prédio onde Martyn morava não ficava mais do que 15 minutos de distância. Quando cheguei lá ele estava parado na rua, na frente do edifício. Achei estranho que ele não ficasse dentro de casa esperando minha chegada, mas talvez não quisesse acordar Anna. Quando parei o carro ao seu lado na rua percebi que ele abriu a porta de forma um pouco estranha. Deduzi que havia machucado o braço

– Então Martyn, o que houve? Foi algo no braço?

Ele deu um meio sorriso.

– Você sabe o quanto consigo ser desajeitado quando quero. Fui pegar algo na prateleira da cozinha e desabei do banquinho que coloquei para subir. Bati com o pulso na borda do balcão. Já faz umas duas horas, mas agora a dor apertou e eu temo que tenha quebrado algo.

– Posso ver?

Meu amigo levantou com cuidado a manga da camisa e pude ver uma grande mancha que coloria de roxo a parte inferior do seu braço direito. Era grande, e mostrava que algum vaso havia se rompido.

– Martyn, não sou ortopedista, mas sei que isso aí é uma fratura. Sua religião faz alguma restrição a amputações?

Martyn sorriu do meu característico humor negro. Em seguida explicou que não pensava me chamar mas não conseguia nem segurar a chave do carro, quanto mais dirigir até o hospital.

– Não sabia o que fazer, então resolvi lhe chamar. Sei que só mesmo um outro idiota como você entenderia minha patetice.

Rimos um pouco e lembramos de alguns fatos engraçados que passamos juntos na escola. Martyn, entretanto, parecia mais sério do que de costume, mas acreditei que sua face circunspecta era o reflexo da dor que por certo estava sentindo. Ao chegarmos ao hospital não tardou em ser atendido. Pedi para entrar junto e me apresentei como médico. Aquele era o hospital em que eu fizera minhas primeiras cirurgias, meus primeiros atendimentos de emergência há mais de 20 anos. Ainda guardava nas narinas o cheiro das salas de clínica, onde o odor de sangue e vômito se mistura com os desinfetantes poderosos utilizados. Martyn explicou para o plantonista da ortopedia o que havia ocorrido. Este, depois de um breve exame físico, pediu uma radiografia.

Alguns minutos depois ele voltou com a radiografia e, com um sorriso no rosto, anunciou:

– Muito bem Sr. Martyn, sua travessura foi premiada. Conseguiu o que desejava: uma fratura no rádio distal. Agora o senhor vai ficar alguns dias sem fazer os deveres da escola.

Martyn fuzilou o médico com os olhos e disparou:

– Quem sabe o senhor se mete com a sua vida, seus pacientes, e me deixa em paz? Quem é você para vir aqui debochar de mim? Vá fazer piadas para a sua turma!!

Segurei o braço do meu amigo e o puxei para trás. O ortopedista ficou perplexo e balbuciava coisas como “hei, eu estava só brincando, calma, desculpe”. Coloquei Martyn sentado em uma cadeira próxima e fui falar com meu colega médico.

– O que há com seu amigo? Não sabe brincar?

Expliquei que ele deveria estar com dor e que o desculpasse. O médico fez um muxoxo e disse que ele seria transferido para uma sala ao lado onde colocariam uma tala, mas que deveria procurar uma clínica em uma semana para o gesso definitivo. Entregou-me uma receita de analgésicos, despediu-se e saiu caminhando pelos corredores do hospital.

Perguntei a Martyn o que tinha acontecido e por que dera aquela resposta.

– Ahh, desculpe aí Terry, mas não aguento esses seus colegas. São uns arrogantes, metidos a besta. Ficam fazendo piadinhas com os desastres que acontecem com as pessoas. Agem como se fossem superiores, como se fossem adultos rodeados de crianças travessas; eles são os infalíveis enquanto nós somos os tolos e idiotas.

Pedi que tivesse calma, e ele deu de ombros. Caminhamos até o estacionamento e pegamos o meu carro. Já passavam das 3h e eu tinha que atender o ambulatório pela manhã. Ele ficou em silêncio até chegarmos no seu edifício. Quando estacionamos na frente ele olhou para cima pela janela do carro, para saber se havia luz no apartamento.

– Não quero acordar Anna, Terry. Obrigado por tudo. Não sei o que dizer e nem como lhe agradecer. Falamos depois. Boa noite e durma bem.

Dirigi e voltei para casa. Entrei no quarto e Ellen permanecia dormindo. Lolita teria que esperar mais um dia para que eu voltasse a me ocupar dela. A lembrança dessa cena permaneceu adormecida, num canto da gaveta de memórias, e foi despertada apenas agora pelas palavras de Martyn. Já haviam se passado dez anos da cena.

– Foi a estatueta e não uma queda do banquinho numa travessura na cozinha, Terry. E por trás da estatueta estava Anna.

Pedi que explicasse melhor.

– Foi Anna, Terry. Foi apenas mais um acesso de fúria contra mim. Durante anos eu havia me acostumado às suas agressões, e colocava na conta da vida estressante que ela tinha na Bolsa de Valores. Aquele dia havia sido especialmente ruim para ela. Perdeu dinheiro e clientes. Estava frustrada. Eu fui pegar pratos para a gente jantar e um deles escorregou da minha mão e caiu. Era um prato que havia ganhado de sua mãe no enxoval do nosso casamento. Aquilo a enfureceu. Passou a gritar como se fosse a maior tragédia da sua vida. Quando tentei acalmá-la passou a mão na estatueta que estava na sala e a jogou contra o meu rosto. Sabe aquela meia face pedindo silêncio? Essa mesma. Tive tempo apenas de me defender com a mão. Ela se assustou com o som do objeto batendo contra o meu braço, mas mesmo assim nada disse e se trancou no quarto. Fiquei mais de uma hora sentado na sala esperando a dor passar, e só então resolvi ligar para você. Eu até pretendia lhe contar, mas não queria que você me julgasse e muito menos que tivesse sentimentos contra Anna. Bem sei o quanto você gostava dela e não desejava que esse acidente se tornasse uma barreira entre vocês.

Eu apenas escutava e não me atrevia a dizer nada. Martyn continuou.

– Essa não foi a primeira e nem a última agressão que sofri. Sequer foi a mais dolorosa. As violências morais eram muito piores e muito mais cruéis. Eu tinha vergonha daquele comportamento dela mas, como uma boa vítima, acreditava que eu tinha culpa, que deveria ganhar mais, não quebrar coisas, ser mais impositivo no trabalho ou ser mais romântico. Sei lá… a gente não sabe exatamente o que nos falta, mas acredita carregar essa culpa, pelo menos em parte.

Martyn continuava seu relato e eu não ousava interrompê-lo.

– As violências eram diárias e eu não sabia o que fazer. As brigas continuaram até eu descobrir do caso que ela teve com Peter. Essa foi a gota d’água, e foi quando eu fui até sua casa e pedi para dormir lá por uma noite. Na semana seguinte nos separamos.

– Sim, lembro bem que você anunciou o fim do casamento e me pediu para não insistir ou tentar contemporizar. Percebi que algo de muito sério havia ocorrido e resolvi oferecer apenas a minha mão para ajudar.

– Esta foi a derradeira violência, mas as brigas foram um problema que perdurou a exata extensão do nosso casamento. Depois disso nos separamos, eu casei de novo e nunca mais a vi. Queria lhe dizer mais uma vez obrigado pela sua compreensão, por não ter insistido com perguntas quando eu não tinha condições para responder. Obrigado por ter ficado em silêncio ao meu lado; significou muito para mim. Eu nunca falei disso para ninguém, e por razões óbvias. Um homem apanhar em casa é algo vergonhoso em uma cultura machista. Nunca falei para ninguém desses fatos, e jamais ameacei Anna com essa verdade, mesmo quando ela tentou me tomar um dinheiro indevido em nossa separação. A minha vergonha era tanta que nenhum dinheiro pagaria isso.

Eu continuava a olhar para Martyn para entender o significado dessa confissão. Não acredito em casos de violência e abuso onde não exista a participação de ambos na construção do enlace doentio, e no caso de Martyn não poderia ser diferente. Mas por certo que ele era a parte frágil do casal, o espírito mais dócil e submisso. No seu caso ficou bem claro como a questão física – aparte de ser importante – não é o único determinante para os casos de violência, inclusive física. Agora, depois da separação de Martyn e Anna (por quem eu até nutria amizade e afeto), ficou bem mais clara a verdadeira imagem de Anna. Em minha mente ela era uma perversa de funcionamento neurótico, com um longo histórico de perversão e abandono na família. Afastada de ambos os pais foi criada pela avó, que também recebeu seu quinhão de maus trator por parte dela. O que ela fez com Martyn durante os anos em que estiveram casados teve características de pura crueldade. Até hoje, sempre que penso em Anna, imediatamente me vem à mente a personagem de Juliette Binoche que contracena com Jeremy Irons no filme “Perdas e Danos”. Um filme brilhante e sombrio, que eu sempre lembro, mas não consigo rever. As histórias de mulheres agressoras não são muito exploradas em um mundo infestado de machismo, e numa cultura violentamente patriarcal a escuridão que emana da agressividade masculina eclipsa a sombra da violência feminina.

Martyn recebeu as garrafas da mão do garçom que imediatamente as abriu. Serviu meu copo e saboreou um pouco da cerveja, enquanto olhava para a rua cinzenta que aos poucos perdia os últimos raios de sol. Violências domésticas com “sinal trocado” é um tema que eu tenho contato há muitos anos por causa de alguns textos que li e por inúmeras histórias de consultório. No ambiente feminino em que circulei durante décadas o tema é tabu. Falar de “misandria” é como falar de “racismo reverso”; quando eu tocava no assunto a reação variava do escárnio à fúria, em especial perto de colegas feministas. Entretanto foram tantos os casos de abuso contra homens que eu acabei por me interessar pelo tema. Apesar de ser um assunto que me atrai reconheço que no contexto em que vivemos este será por séculos um assunto “marginal”, mas não menos doloroso.

Toquei no ombro de Martyn e disse com meus olhos o que ele já sabia: “Conte comigo sempre, parceiro. É para isso que servem os amigos”.

William F. Prescott, “So down there I can’t even see” (Tão lá em baixo que nem consigo ver), ed. Panacea, pág. 135

William Francis Prescott é um escritor, ensaísta, jornalista e produtor teatral americano nascido em Westbrook no Maine em 1965. Filho de um pastor protestante e uma enfermeira ele começou a escrever desde muito cedo para os jornais da escola. Em 1983 foi estudar na University of Maine em Augusta, onde cursou jornalismo. Logo depois da graduação casou-se com Lorraine Madison, e mudaram-se em 1995 para Nova York para trabalhar na Revista New Yorker como assessor de Roger Angell, quando então começou a se dedicar à reportagem esportiva, especialmente o Baseball. Pelos contatos na revista tornou-se amigo de Woody Allen, uma amizade que perdura até hoje. Escreveu seu primeiro livro de ficção, “Até que horas posso ficar?” em 1998 que logo se tornou um sucesso de público e de crítica, para posteriormente fazer carreira na Broadway, tendo sido estrelado por Patrick Wilson no papel do coronel Samuel Bakerston. Seu segundo livro, também uma comédia dramática, foi “Azul não lhe cai bem”, onde narra as desventuras de uma vedete do teatro de revista que se envolve com um cirurgião plástico apenas para conseguir uma cirurgia de mamas por preços módicos, mas percebe que seu namorado é um traficante de drogas cuja clínica médica é apenas uma fachada. Seu terceiro livro foi “Tão lá em baixo que nem consigo ver”, que é seu único livro de contos, recolhidos de histórias verídicas que colheu enquanto jornalista no New Yorker. Mora em Washington com sua esposa Lorraine e os filhos Jeremia e Alicia

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Mentira

Creio ser necessário lembrar que não haveria vida civilizada sem as verdades escondidas. Digo mais, creio que não haveria sequer a multiplicação das células no caldo primitivo não fosse a mentira, a dissimulação, a hipocrisia e a falsidade. A vida humana se construiu a partir do falseamento do verbo, a troca maldosa dos sentidos, a mudança sorrateira da direção das palavras à sorrelfa da própria realidade, a qual desaparece diante do gigantismo implacável da linguagem. Como diria Lacan, “a palavra matou o Real”, mas quem lamenta? Ou alguém um dia experimentou alegria e genuíno prazer ao abraçar um feixe de nervos e tendões, suores e lágrimas, só para sentir junto ao peito as contrações rítmicas de uma bomba de sangue?

Jean B. Laviolette “L’art de mentir”, ed. Parole, pág. 135

Jean Benoit Laviolette é um psicanalista francês, nascido em Marseille em 1952. Fez formação na Sorbonne e formou-se em psicologia em 1978. Escreveu inúmeros artigos para a “Gazette Psychanalytique” quando morava em Paris e estudava com seu mestre, Jacques Lacan. Depois disso, já nos anos 80, passou a atender em sua clínica em Strassbourg, quando conheceu Madeleine Truffaut, escritora e poetisa, com quem se casou e teve 3 filhos. Escreveu três livros da área da psicologia, que poderiam ser entendidos como uma trilogia, apesar do autor negar que tivesse a intenção de continuidade para qualquer um dos seus livros. O primeiro foi “A Palavra Escondida”, seguida de “Ouvidos de Pedra”. Em 1995 escreveu “L’art de Mentir”, que, segundo ele, lhe ofereceu uma inesperada popularidade. Mora em Strassbourg com esposa e filhos.

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Assédio

Fundação Century

Sentado na cadeira à frente da escrivaninha de Mark eu não tinha a exata noção do que ele desejava comigo. Poderia ser apenas algum informe novo sobre nossa intervenção no Parque Halliburton e todas as questões ambientais envolvidas, que fortuitamente atrasaram a execução do projeto. Como uma ONG de proteção ambiental, era nossa tarefa combater os assentamentos irregulares que pudessem colocar em risco a delicada natureza que ainda sobrevivia em nossa cidade. Imaginei que Mark deveria estar ocupado desde nossa última reunião, há uma semana, quando discutimos a possibilidade de um patrocínio para nossa ação de proteção do banhado, o rio e as salamandras do Condado de Lippville. O oferecimento partiu do instituto “Century”, controlado pelo bilionário de origem romena Atanase Ardelean, conhecido por suas ações predatórias na bolsa de valores americana. Para além disso, é um pródigo financiador de rebeliões neoliberais, o que faz das doações a entidades identitárias uma perfeita cortina de fumaça a encobrir suas ações de reforço ao capitalismo sem fronteiras e sem barreiras, modelo que tanto admira.

Por certo que uma instituição como a nossa, a “Climate Green Challenge”, composta de ativistas que doam seu tempo e seus esforços para a construção de uma sociedade em harmonia com a natureza, precisa de ajuda – em especial de dinheiro. Entretanto, a Fundação Century nunca me pareceu confiável, em especial porque seu controlador é uma figura sinistra, ligada a ataques financeiros, cujas repercussões desestabilizam países inteiros. Não creio que seja adequado ou sensato valer-se do dinheiro de um sujeito que se tornou bilionário pela exploração dos trabalhadores, através do tráfego de influências e incentivando a miséria capitalista disseminada pelo mundo.

Na reunião passada, nossa colega Jesse expôs sua visão positiva sobre o aporte financeiro da Fundação Century para os nossos projetos, em especial a proteção do Parque Halliburton. Falou que muitas outras instituições já foram beneficiadas por este tipo de “grant” e que seria tolice não pleitear esse dinheiro; afinal, não era uma quantia advinda do crime e não estamos em posição de recusar ofertas. Eu escutei sua posição e resolvi responder com a visão que tenho sobre a Century e sobre o próprio Atanase. Minha opinião foi expressa em poucos minutos, porque nosso chefe Mark a todo tempo sinalizava para que eu a interrompesse em função do pouco tempo que tínhamos para encerrar o encontro. De qualquer modo, deixei muito claro que a situação era eticamente delicada, pois o envolvimento de uma ONG de ecologia com um bilionário internacional envolvido em inúmeras ações controversas poderia nos causar constrangimentos no futuro.

A reunião terminou depois de várias outros assuntos terem sido tratados. Desde aquele momento – e até antes disso – ficou claro para mim que eu era uma voz dissonante de todo o grupo. É bem provável que ninguém além de mim tinha informações mais detalhadas sobre a parte sombria da Fundação Century e muito menos sobre as controvérsias mais sérias a respeito do magnata Atanase. Para meus colegas tratava-se de uma instituição “do bem” e Atanase não passava de um filantropo moderno e progressista. Sabia eu também que, mais do que aceitar ou não esse tipo de verba, era preciso que todos avaliássemos com cuidado todos os pontos de vista, as perspectivas e as repercussões dessa iniciativa.

Finda a reunião tive a sensação que Jesse havia se sentido desconfortável. Quando questionei nossa possível união com a Fundação Century ela pareceu ter se sentido pessoalmente atingida. Afinal, a ideia partiu dela, e ela o fez com a melhor das intenções. Senti a necessidade de explicar a minha forma de enxergar a questão. Como tenho seu contato no telefone resolvi mandar uma mensagem para ela à noite do mesmo dia.

Conversa com Jesse

“Não quero mais polemizar sobre este tema, pois acho que apenas atrapalharei as decisões para serem tomadas pelo grupo, mas aqui está meu posicionamento em relação ao Atanase e em particular sobre o tema das suas ações em nível internacional”.

Assim comecei minha comunicação com ela, e depois disso mandei um texto elaborado sobre o histórico de Atanase Ardelean e sua instituição, mas é óbvio que o fiz diante da minha perspectiva marxista e anti-imperialista. Anexei posteriormente um vídeo explicativo de como essas organizações – como a Fundação Century e similares – podem ter intromissões deletérias nos países onde se estabelecem.

Ela respondeu de forma educada e ofereceu também suas explicações. Mandou um vídeo sobre a instituição de Atanase e a explicação sobre algumas de suas obras mais importantes. Percebi que suas informações não eram tão elaboradas quanto as informações que eu tinha, e ela parecia ter uma visão bem próxima do que eu classificaria como “senso comum” sobre o tema: Instituição do bem, bilionário generoso, progressista, a favor da diversidade etc.

Mantivemos esse debate via WhatsApp por mais de uma hora até quando fui dormir. No dia seguinte, acordei com um longo texto em que ela expunha a sua opinião – francamente contrária à minha – dizendo que minha perspectiva era constituída apenas por opiniões e análises confusas. Respondi que a atividade de Ardelean não podia ser entendida apenas pela ponta aparente, a “benemerência identitária”, mas no contexto político do capitalismo transnacional de “portas abertas” que ele propunha, o que é uma forma de manter a miséria e a exploração de vastas porções do planeta.

A conversa se manteve por mais 6 horas com idas e vindas. Por duas vezes, já cansado, me despedi da conversa e fiquei sem responder, mas ela insistia em atacar minha posição tratando-me como exagerado e radical. No final do debate deixei claro que reconhecia que a minha posição era minoritária – para não dizer isolada – e que o nosso grupo precisaria apenas fazer uma votação para decidir. Partiu de Jesse uma pauta consensual:

“Certo. Então proponho uma reunião de deliberação e votação no Colegiado. Porque as negociações estão avançando e o nosso escritório tem um encontro marcado com a Fundação Century na próxima semana para uma conversa inicial. Até que me digam o contrário eu estou avançando no projeto com o aval de Mark.”

Como eu estava cansado aceitei de pronto, até porque esta era exatamente a proposta que eu estivera o tempo todo perseguindo. Concordei dizendo apenas que desejava que todos estivessem cientes do que esta proposta significava. Terminei nosso longo diálogo dizendo:

“Concordo. Sei que serei o voto vencido, mas gostaria que todos se comprometessem com essa escolha. Não acho justo que alguém no futuro venha a dizer que “não sabia destas questões quando foram apresentadas”. Certo?”

Jesse apenas respondeu “Perfeito” e nada mais falamos. Diante das lembranças e acontecimentos de uma semana atrás, imaginei que Mark havia me pedido para ir à sua sala apenas para me dar informações sobre nossas propostas e ações em Lippville. Talvez estivesse interessado em ouvir também o meu ponto de vista sobre o Atanase Ardelean, o que não me parecia provável, uma vez que na própria reunião mostrou-se claramente favorável a este patrocínio.

Depois de alguns minutos Mark entrou na sala e me cumprimentou. Trazia um sorriso estranho no rosto e uma pressa tão grande em me dizer algo que não se permitiu sequer fazer um preâmbulo.

Mark

– Meu amigo, falei com Jesse há pouco, Ela ficou muito incomodada com a conversa que tiveram na semana passada. Disse que você enviou um quantidade enorme de textos e vídeos para ela. Usou também fontes suspeitas para falar da Fundação Century – como o New York Times. Por esta razão acabei de mandar uma circular para todos os nossos colaboradores. A partir de agora você estará suspenso das nossas reuniões. Sua conexão com o Whatsapp do grupo está cancelada. Você terá uma semana para pensar nas suas atitudes e para compreender que não pode usar estes veículos de comunicação desta forma. Na próxima reunião você terá tempo para defender sua proposta, mas não poderá usar as fontes que usou até agora – elas não serão aceitas. Sua atitude em relação a Jesse foi considerada assédio. Como ela se sentiu incomodada, e eu acredito que só a vítima pode dizer dos seus sentimentos, é assim que vou considerar. Ahh, e antes que eu me esqueça, você está com mensalidades da “Green” atrasadas, faça o favor de pagar o quanto antes.

Nos primeiros segundos fiquei em silêncio, atônito e estupefato, realmente confuso. Eu não conseguia acreditar no que estava escutando. Percebi que os meus olhos escureceram de raiva, mas respirei fundo antes de dizer qualquer coisa e correr o risco de me arrepender. Olhei com o canto do olho para o meu celular e vi que meu acesso ao WhatsApp do grupo havia realmente sido suspenso. Era verdade; Mark havia me expulsado do grupo após escutar apenas uma parte da história. Considerou como “assédio” uma conversa livre, educada e cordial entre duas pessoas. Imediatamente veio à minha mente a pergunta: “se conversar com alguém por WhatsApp sobre temas eminentemente técnicos de forma educada e cordial pode ser considerado assédio, o que não seria?” Se uma pessoa pode retrospectivamente – já havia se passado uma semana – perceber que uma troca de ideias com um colega poderia ser considerada como assédio, porque essa mesma conversa com Mark e qualquer outro diálogo que tive em 20 anos trabalhando nesta instituição não poderiam também ser considerados assédio? Por que esta troca de mensagens em especial merecia ser chamada desta forma mas as ligações de Mark para a minha casa durante os 20 anos em que concordamos e discordamos em diversos assuntos da instituição não seriam também criminosas?

Percebi também que o que movia Mark era um espécie de zelo pelo “politicamente correto” com as demandas femininas, mas que também é frequentemente usado com outras minorias. Partia do princípio de que a queixa de uma mulher é verdadeira até prova em contrário, uma inversão do ônus da prova que me obrigaria a provar que não cometi nenhum delito, e não a ela provar que algo criminoso ocorreu. A justificativa de Mark era uma velha conhecida minha: “a vítima sempre tem razão”, que é uma das maiores aberrações jurídicas criadas pelo identitarismo. Ela surge de um conceito bizarro, que eu chamaria de “legislação subjetiva”, ou seja, a ideia de que qualquer um cria suas próprias leis, derivadas de seus sentimentos e percepções subjetivas, mas que deverão ser obedecidas por todos. Assim, se sou negro, exijo que as pessoas ao meu redor usem apenas as palavras que eu permito, pois que algumas tem efeito negativo em minha subjetividade. Se eu for mulher, não aceito que determinadas expressões sejam usadas, e nem mesmo o uso de argumentos fortes e definitivos. Nesta perspectiva, o outro sempre carrega uma dupla posição: vítima e juiz, pois que não há uma instância de lei externa e neutra; o próprio sujeito que se coloca como vítima é quem decide se as palavras e ações alheias que lhe atingem serão lícitas ou não.

Jesse nunca reclamou de nada durante nossa conversa. Pior: ela retomou o debate no dia seguinte, quando para mim já poderia ter sido encerrado. Ainda mais, ela manteve a conversa em duas ocasiões, mesmo depois de eu ter encerrado o debate e ter me despedido dela!! Se há alguém que poderia ter uma base qualquer para se queixar de um fantasioso assédio este seria eu…. e não ela.

Por instantes fiquei pensando que durante nossa conversa eu poderia ter usado uma piada, um gracejo ou qualquer coisa que pudesse ter um duplo sentido, e que isso pudesse tê-la constrangido. Por sorte nossa conversa estava toda no celular e eu poderia investigar com cuidado se isso porventura tivesse ocorrido. Todavia, apesar dessa minha “culpa masculina essencial” eu tinha certeza que nossa conversa foi absolutamente técnica e tocou em vários aspectos delicados da ligação da “Green” com a Fundação Century. Nada pessoal, nada áspero, nada dúbio, nada confuso e nada que pudesse se configurar como “assédio”

Na medida em que os segundos iam passando, e ainda sem saber o que responder, peguei o papel da mão de Mark, que ele parecia estar tentando me oferecer. Era uma cópia do email mandado para todos os membros da diretoria e associados. Meus olhos cravaram na palavra assédio que se situava bem no meio da página impressa, pulava do texto e se chocava contra a minha retina. Lembrei que o termo “harassment” e o termo “abuse” em inglês têm um sentido mais geral, porém em português “assédio” e “abuso” ganham uma conotação claramente sexual. Qualquer membro da diretoria que pusesse os olhos nesse e-mail imediatamente pensaria que eu estava mandando mensagens pornográficas para a minha colega ou fazendo insinuações indevidas. Esta seria, por certo, a primeira primeira coisa que pensariam, a impressão inicial, mesmo que a maioria dos meus colegas conhecessem a mim e a minha família há mais de duas décadas. Era inacreditável o que estava diante dos meus olhos.

Não fui procurado para esclarecer qualquer problema por parte de Jesse. Ela se comportou como uma colegial, uma menina de não mais de 12 anos de idade, confusa com o debate que tivera comigo. Ao invés de escrever uma mensagem diretamente para mim – ou mesmo me bloquear – foi queixar-se para Mark. Diante da dificuldade de metabolizar minhas informações e meus receios com a parceria que estava para se estabelecer ela se refugiou no estereótipo da menina indefesa diante do homem opressor. Já Mark, num surto de autoritarismo e grosseria, resolveu me punir sem que eu tivesse a oportunidade de me defender. Pior ainda: me puniu institucionalmente por uma situação que só poderia ser entendida como privada, já que minha conversa com Jesse não ocorrera no ambiente físico da nossa instituição, em seu horário de funcionamento ou em uma ação na qual ambos deveríamos tomar decisões relacionadas ao nosso trabalho. Não, tratou-se de uma gentileza de minha parte de explicar particularmente a ela a minha posição quanto à Century, para não atrapalhar o ambiente da “Green”. Essa minha grande mágoa: no afã de proteger as mulheres criamos um modelo onde sua defesa pressupõe tratá-las como tolas, ignorantes, desqualificadas e frágeis – como crianças, incompetentes para tomar decisões e incapazes de estabelecer limites.

Adeus, Mark

Poucos segundos e estes pensamentos todos se acumularam em minha cabeça, mas eu nada conseguia falar. Era inegável que a questão não se resumia ao fato específico da minha conversa – repetindo, cordial e respeitosa – com Jesse. Havia algo de pessoal com Mark, uma mágoa, um ressentimento de algo que fiz ou deixei de fazer. Talvez – como saber? – algo relacionado ao que eu sou. Mais do que um malfeito, algo da minha essência que me tornaria insuportável aos seus olhos, e a crise criada por Jesse sobre uma troca de postagens privadas nada mais fez do que permitir que estes sentimentos eclodissem e subissem à tona. Talvez não se tratasse mesmo de uma questão “relacional”, mas “ontológica”. No entanto, eu nada podia lembrar que justificasse estas ações. Nossa amizade de mais de 20 anos não possuía nenhuma nódoa grave que pudesse produzir ressentimentos de minha parte. Tivemos centenas de conversas, até desentendimentos, ligações que Mark me fazia no meio da noite, domingos, feriados e a qualquer momento para me falar de seus problemas pessoais e até perguntar como eu estava. Da mesma forma, não conseguia enxergar algo em minhas ações que pudesse produzir tamanho ódio no meu amigo.

– Isso que você está fazendo é um absurdo, Mark. Minha posição a respeito da Century é clara, cristalina e simples. Minha opinião não é a “Verdade”, mas tão somente a minha perspectiva, que tem tanto valor quanto qualquer outra. Entretanto, conheço todos os colegas da diretoria e sei que eles enxergam esse problema com olhos diferentes dos meus. Não vejo problema algum em ser “voto vencido” em qualquer debate, porque durante toda a minha vida me postei no contrafluxo da vida, abraçando causas perdidas, utopias distantes e sonhos inalcançáveis. Sofri durante anos com os ataques dos poderosos que denunciei. Fui atacado, expulso, humilhado e agredido por todos estes anos e nunca reclamei porque sabia que lutar por estas causas minoritárias é apenas semeadura para que a colheita seja feita por outros, nas futuras gerações. Da mesma forma eu hoje tenho garantidos os direitos que muitos conquistaram para mim no passado, e vários pagaram com a vida por sua ousadia. Por outro lado, uma instituição como a nossa, que se propõe produzir um ambiente mais livre, com menos toxicidade e sem venenos não pode reproduzir em seu seio a mesma violência que combatemos quando usada contra a Natureza. Se pretendemos humanizar o meio ambiente, retirando dele o lixo que nossa ganância acumulou, é justo que façamos o mesmo com nossas relações pessoais. Ou então seremos apenas hipócritas, que encontramos o cisco no olho alheio e não percebemos a trave a nos obliterar a visão.

Mark manteve-se sério sem pestanejar. Iniciou a falar sobre as regras que eu teria que cumprir para a próxima reunião e, como um professor de escola primária, me deu conselhos de como deveria me portar, assim como pedindo que eu aproveitasse o tempo de suspensão para reavaliar minhas atitudes. Não havia como não me sentir um escolar de 60 anos recebendo um “pito” da professora.

Dobrei o papel com a cópia do e-mail e coloquei no bolso do casaco. Tentei me levantar mais senti que estava pesando algumas toneladas. As minhas juntas estava enrijecidas e os meus músculos tensos e doloridos pelo choque dos últimos minutos. Mesmo assim me coloquei de pé, estendi a mão para cumprimentar pela última vez Mark e falei sobre a minha despedida.

– Caríssimo Mark… nada disso será necessário. Sei que minha visão é minoritária e se você assim o desejar não será preciso sequer colocar este tema em discussão. Logo você vai entender. Todavia, acho importante esclarecer que não fiz assédio de tipo algum. Não incomodei ninguém e apenas debati com Jesse para que ela entendesse minha perspectiva. Não falei com mais ninguém sobre o tema além da minha manifestação na última reunião da Green, e apenas contactei Jesse porque ela estava à frente da proposta e não queria que ela pensasse que eu a estava desprezando. Em nossa última reunião manifestei minha inconformidade pela ligação da Green com este tipo de organização de forma clara e concisa, sem interromper outras falas e sem retomar o assunto depois de ter me manifestado. Depois escrevi um texto no WhatsApp com a minha posição, igualmente de forma educada, para deixar claras as minha motivações. 

Suspirei com pesar e me preparei para finalizar a minha fala, controlando cada palavra para que elas não me traíssem e deixassem escapar a decepção que havia me tomado.

– Infelizmente, como fica claro a partir de agora, não há como continuar a trabalhar nesta instituição. Perdi completamente a confiança em você. Nada – literalmente – impede que qualquer um de nós telefone para a casa de um colega fora do expediente do trabalho para trocar ideias e, depois de um ato de cordialidade e amizade como esse, ser considerado um “assediador”. Não é mais possível correr este risco. Um lugar que cultiva esse tipo de relação está doente. Um lugar onde a confiança desapareceu não tem mais sustentação.

Baixei os olhos por uns instantes e finalizei.

– Espero que a Green continue em sua trilha de sucesso, em suas várias frentes de trabalho. Sei o quanto esta tarefa é importante e o quanto eu amei trabalhar aqui por mais de 20 anos. Aqui eu cresci, como ser humano e como cidadão. Sei da magnitude das responsabilidades e o quanto essa tarefa é prioritária no planeta, mas minha presença aqui se torna impossível. Eu jamais concordaria com o abuso que você está me submetendo, muito menos com as ameaças e as humilhações. Não tenho idade ou temperamento para aceitar este tipo de atitude. Também não quero mais ouvir o que você tem a dizer; eu entendo que isso foi produzido por uma terrível dor que você carrega, mas para a qual eu não tenho acesso e nem capacidade de ajudar. Peço agora apenas que aceite a minha saída e me esqueça. Que sigamos todos em paz.

Levantei-me sem dizer mais nada, enquanto Mark ainda tentou expressar algumas palavras para contemporizar. Apenas virei de costas e me dirigi à porta de saída. Olhei pela última vez para os quadros nas paredes, as fotografias, o azul do céu nas gravuras cheias de verdes e flores multicoloridas e abri a porta com a tristeza em carne viva na ponta dos dedos. Respirei o ar da rua e caminhei sem destino certo, à procura de um café que pudesse abrir as portas do entendimento, para que, assim, alguma luz pudesse entrar.

Anwar Ghazawwi, “Top Business”, ed. Princeps, pág. 135

Anwar Fayed Ghazawwi é um escritor americano de origem palestina nascido em New Hampshire em 1958. Estudou jornalismo em Yale e passou trabalhar como correspondente de guerra por vários anos. Foi contemporâneo de Chris Hedges na cobertura da Guerra da Sérvia, tendo sido gravemente ferido na época durante um bombardeio em Saraievo, necessitando voltar para os Estados Unidos para terminar sua recuperação. Depois desse episódio cobriu muitos outros cenários de guerra, até o seu derradeiro: a Guerra dos 51 dias em Gaza, nos ataques israelense que resultaram em mais de 2500 palestinos mortos, entre eles 500 crianças. Depois desse episódio voltou para sua casa em Austin no Texas e passou a escrever sobre o mundo corporativo, que conheceu bem durante as coberturas de conflitos pois, segundo ele “a guerra é acima de tudo um grande comércio. Iludem-se aqueles que enxergam nela apenas patriotismo; há um quinhão de cobiça imenso em cada combate”. Seu primeiro livro foi “Empire of White Delusions”, em que trata das empresas escolhidas para a reconstrução do Iraque destruído pelo imperialismo e a corrupção que coordenava as ações das companhias que se debruçavam por sobre o espólio de milhares de mortos e milhões em destruição. Depois seguiram-se “The Carpet Crawlers” e finalmente “Top Business”, que conta a história de um magnata da indústria do petróleo que “mudou de lado” e resolveu se dedicar à luta pela ecologia e pela preservação da natureza e da vida silvestre. Anwar é ainda músico e toca saxofone na banda de “folk” “Terry versus Ohio”. É casado com Norma Barrington, uma advogada de Austin e tem dois filhos e 3 netos.

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Dependências

Muito vi isso em meu consultório de psicologia. Em tantas histórias contadas se sobressaía um personagem, uma mentira ambulante atraindo como ímã alguém cuja carência a fazia acreditar em qualquer história, qualquer desculpa ou subterfúgio. Pior ainda: não havia forma de demovê-las do autoengano; inútil abrir-lhe os olhos à força. Só a dura, cruel e lenta confrontação com a realidade as fazia perceber, e por si mesmas, numa jornada solitária, triste e depressiva. Depois… a queda, o abismo, o vazio e a vergonha. E por quantas vezes somos obrigados a assistir o espetáculo grotesco da farsa sendo encenada bem à nossa frente, amordaçados pela ineficácia da razão diante da eclosão estupefaciente da paixão. Por certo que um pouco de nós sempre morre quando um amor nos trai. Os momentos de genuína parceria, as boas recordações, o companheirismo, os lamentos, as tristezas compartilhadas, as vitórias e as conquistas. Tudo se liquefaz, tornando-se um caldo de sentimentos confusos. Um gosto amargo de desesperança e culpa.

Gregoriański Banacek, “Uzależnienia afektywne okaleczenia duszy” (Dependências afetivas, mutilações da alma), ed. Vístula, pág. 135

Gregoriański Nicolai Banacek, é um psicoterapeuta polonês nascido na Breslávia em 1965, tendo estudado na Universidade Jaguelônica (Uniwersytet Jagielloński), na Cracóvia. Escreveu várias obras no início da carreira em uma perspectiva behaviorista e baseada no trabalho de John Broadus Watson (1878-1958), que foi considerado o pai do comportamentalismo. Todavia, já na maturidade, em 2006, fez uma importante guinada profissional ao abraçar as teses lacanianas e a psicanálise. Além de “Dependências afetivas, mutilações da alma”, que relata 12 casos de consultório analisados na perspectiva analítica, escreveu também o recente “Nódoas, nós e trincheiras – dilemas da escuta”, onde persegue a narrativa do jovem oficial do exército Fiódor Olensky, um paciente neurótico grave com paralisias motoras e fobia de gatos. Atualmente mora em Bratislava e dá aulas na Universidade Comenius. É casado com a professora de piano Bozena Banacek e tem dois filhos, Haskel e Anninka.

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Punhal

A dor é maior quando o punhal que nos fere saiu da mão daquele irmão cuja alma um dia nos tocou.

Ferrer de Castel-Mayor, “Cartas a Endrigo”, Ed Verrigó, pág. 135

Ferrer Alfonso de Castel-Mayor foi um poeta espanhol (em verdade basco), nascido na cidade de Vitória (em basco Gasteiz, a capital oficiosa da comunidade autônoma) em 1912. Foi combatente na Guerra Civil Espanhola. Depois da queda da Catalunha para os liderados por Francisco Franco entre 1938 e 1939, e tendo ocorrido o isolamento das grandes cidades de Barcelona e Madrid, a situação militar dos republicanos, fiéis ao governo tornou-se desesperadora, e teve como consequência a tomada destas cidades, que foram ocupadas rapidamente e sem resistência. Franco declarou a vitória e o seu regime foi reconhecido pelo Reino Unido e pela França. Todos aqueles que durante os conflitos tiveram ligações com os republicanos derrotados foram duramente perseguidos pelos nacionalistas. Milhares de espanhóis de esquerda, artistas e intelectuais como Ferrer de Castel-Mayor fugiram para campos de refugiados no sul da França. Foi lá, em Nice, que Ferrer escreveu “Cartas a Endrigo”, a história da paixão entre dois homens combatentes e parceiros de luta nas brigadas de resistência. Muito se diz que as cartas eram direcionadas a Federico Garcia Lorca, morto por fuzilamento a mando do regime fascista de Franco, e que Endrigo seria seu alter-ego. Todavia, o principal biógrafo de Ferrer coloca esta hipótese em dúvida, ao citar o Comandante Javier Etxebarria, que poderia ter sido o destino das cartas, pois existe a suspeita de que eles teriam sido amantes durante os anos de combate. De qualquer forma, “Cartas a Endrigo” se constitui uma das melhores obras de poesia da primeira metade do século XX em língua espanhola. Sua crueza arrebatadora sobre as vicissitudes da guerra mostra um cenário de desesperança e degradação humana, e descreve o desmonte das utopias socialistas da Espanha. Ferrer viveu exilado na França até sua morte em 1975, sem conseguir ver a morte de Franco e a restituição da monarquia. Escreveu vários livros de poesia, entre eles “Borboletas de Sangue”, “Amaya rubra” e “Fortalezas de Papel”.

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Elevador

Os botões coloridos na parede ao lado das portas de aço se apagaram, sinalizando a chegada do elevador. Apertei o 12, que era o meu andar, enquanto cantarolava mentalmente uma música que havia me contaminado desde a manhã ao acordar. Depois de um dia intenso de trabalho esperava chegar ao meu quarto de hotel, ligar para casa, tomar um banho e dormir o quanto fosse possível. Minha apresentação seria à tarde, mas queria assistir o trabalho dos colegas desde cedo. Segundos antes da porta metálica se fechar, minha colega Kathleen entrou mantendo a porta aberta com a mão esquerda, enquanto com a direita carregava a pasta da conferencia.

– Olá, Kathy. Tudo preparado? Que pensa desse seminário? Acha que será bom?

– Creio que sim, mas não é o que me preocupa agora

Kathleen era uma mulher grande, corpulenta, sensual e sempre fez um estilo sedutora, “femme fatale”. Na minha imaginação era “Jessica Rabbit”, capaz de deixar alguns homens tontos com sua presença. Não há como negar que desde que os conhecemos eu também senti atração por ela… quem não? Não apenas pelas suas curvas voluptuosas, mas por sua inteligência e sua imposição diante dos debates da nossa área. Física quântica não é um campo em que mulheres são frequentemente vistas como diretoras de institutos, muito menos como articulistas, escritoras e palestrantes reconhecidas. Por certo que a mistura de sua competência específica em nossa área e a presença física impositiva e voluptuosa mexiam com a imaginação de qualquer um de nós.

Kathleen acabara se tornando minha amiga quando da publicação do meu primeiro livro “A Física Tao qual a imaginamos“, que recebeu boas críticas dos colegas e uma indicação para o “Quantum Awards”. Por esta época acabamos nos tornando correspondentes e trocamos muitas ideias sobre a o decaimento radioativo, as quais acabaram sendo um enorme estímulo para a publicação do meu segundo livro “Afinal, qual é a do elétron?”, baseado nos trabalhos de Werner Heisenberg e Paul Dirac, dois gênios da física quântica que desenvolveram suas próprias estratégias para compreender o comportamento do elétron. Minha abordagem era, a exemplo deles, totalmente diferente daquela de Schrödinger, o qual desprezava a importância das ondas mesmo fornecendo resultados igualmente exatos. Por essa amizade e conexão que surgiu de nossas mútuas concordâncias profissionais, eu solicitei a ela que escrevesse a orelha do meu último livro, o que ela fez combinando uma espetacular capacidade de síntese com a sensualidade que expressava em cada palavra que saía de sua boca, inexoravelmente emoldurada por um batom carmim.

“Para vocês, que sempre desejaram dar uma voltinha à bordo de um elétron, embarquem nessa viagem emocionante ao lado de Ray Olson, e eu garanto que a travessia será excitante e absolutamente inesquecível.”

Para muitos, a frase da orelha do livro seria suficiente para fechar a questão. “Ela está a fim de você, garoto. Não seja tolo”, muitos (e muitas) me disseram. Não nego que, nas conversas no meio da madrugada – enquanto eu escrevia textos e corrigia provas, e ela preparava seminários para seus alunos na Faculdade de Física – rolou sedução nas conversas, mas de uma forma quase juvenil. Não há dúvida que, para um homem mais velho, ser elogiado por uma colega mais jovem e brilhante, é sempre algo capaz de envaidecer. Entretanto, essas coisas para mim têm um limite bem claro; não me aventuro a procurar o fim do buraco do coelho exatamente porque reconheço que não terei como achar o caminho de volta. E, por certo, meu casamento com Jill tinha finalmente encontrando um platô de serenidade após vários anos. Depois de turbulências e desencontros, muito em função da morte de Laura, nossa filha recém nascida, finalmente havíamos encontrado um pouco de tranquilidade a ponto de até nos aventurarmos a reencontrar uma intimidade quase perdida. Mas, inobstante estes sentimentos, houve durante esse tempo de conversas a curiosidade de saber se a admiração de Kathy estava restrita aos aspectos intelectuais ou se, por baixo daquele cabelo comprido e das unhas vermelhas havia um corpo com algum interesse erótico em mim.

– E qual seria essa sua preocupação? perguntei, enquanto a porta do elevador lentamente se fechava.

Sua resposta foi seguida de um movimento brusco em minha direção.

– Você…

Dizendo isso segurou minha com a mão cabeça e beijou meu lábios com força, e os percebi serem abertos com a voracidade de sua língua quente e ágil. Sem saber o que dizer – como se fosse possível – cedi momentaneamente aos seus avanços até perceber que eu estava na posição da donzela surpreendida pelos avanços do homem vigoroso de atos impulsivos. Essa reversão de papéis me chocou de forma imediata, mas com surpresa me senti na pele de milhares de mulheres de quem beijos foram roubados, distâncias foram rompidas com energia e cujos corpos foram envolvidos por mãos ávidas e sorrateiras.

O elevador fez um clique ao passar pelo segundo andar e pude ver com o canto do olho a bolinha vermelha subindo no painel ao lado da porta. Nesse fragmento de segundo olhei para cima com medo de encontrar uma câmera, mas antes que fosse possível encontrá-la minhas mãos afastaram Kathy de mim, como um ato reflexo de proteção.

– Desculpe, Kathy, mas eu creio que você está confundindo as coisas. Eu…

Imediatamente a frase ecoou em minha cabeça, e nas suas várias versões que a escutei só o que apareceu foi o mais manjado dos clichês sexuais da história da humanidade. Pior: por quantas vezes eu não pensei que esta frase poderia servir tão somente como um aperitivo para o que estava para acontecer, um anteparo momentâneo, tão falso quanto convidativo, para o mergulho nas dimensões mais desabridas da luxúria. Entretanto, essa era a verdade do que eu sentia, e ninguém melhor do que eu para pressentir que seguir com aquela cena poderia me levar a um lugar conhecido chamado “pesadelo”.

O elevador fez um novo clique e percebi que havíamos passado pelo quinto andar. Kathy me olhou nos olhos, ainda sorrindo, sem se dar por vencida.

– Você não pode negar que também quer. Tem o mesmo “problema” que eu. Não pode esconder que pensou em mim e que naquelas madrugadas fantasiou, como eu, este encontro. Não minta para você mesmo.

Não, eu não podia negar. Entretanto eu sabia que vida não pode ser vivida como a simples realização de fantasias. Talvez não exista caminho mais seguro para a loucura do que a possibilidade de levar adiante todas as que criamos. Elas, por mais convidativas e prazerosas que sejam, esbarram na realidade, no outro, nos limites, no interdito. Romper essa rede de obstáculos pode ser – e frequentemente é – o primeiro passo para grandes tragédias.

– Não se trata disso Kathy. Eu, eu… entenda, não faz sentido. Somos colegas e amigos. E além disso…

Eu ia falar de Jill, mas tive medo do que Kathy diria. Talvez ela usasse uma estratégia que conheço bem pela voz dos homens, que nada mais propõe do que minimizar os significados culposos da cena, “seguir o fluxo”, “permitir-se”, “viver o momento”, “aproveitar o clima” e curtir as oportunidades que o destino graciosamente nos oferece. Nada dessa conversa era novidade, mas causava estranhamento porque a equação, desde o princípio, estava com o sinal trocado. Os olhos de Kathy diziam isso, e por mais que eu tentasse não conseguia imaginar o que ela enxergava enquanto me olhava.

O elevador anuncia a passagem pelo nono andar. Sei bem que, de minha parte, não era falta de vontade. Seu corpo por muitas vezes estivera presentes em devaneios, sonhos e fantasias. Kathy era uma mulher bonita, madura, livre e provocante, mas a posição de “objeto de desejo” em que ela me colocou foi demasiado brutal para os meus preconceitos patriarcais. Confesso que eu estava despreparado para a reversão das expectativas e fiquei sem saber o que fazer ou dizer. A perfeita imagem de um garoto sem chão.

Fui salvo pelo gongo. O elevador bateu no 12o andar e a porta se abriu. Ela saiu primeiro e eu a segui. Por instantes desejei que seu quarto estivesse em um corredor diferente, mas ela parecia ir para o mesmo lado que eu. Enquanto caminhava ela parecia ter certeza que era questão de tempo a minha rendição. Fiquei em absoluto silêncio enquanto permitia que suas nádegas me guiassem pelo corredor escuro do hotel. Seus saltos batiam no chão em sincronia com as batidas do meu coração e era possível sentir o perfume que ela exalava ao passar. Finalmente, ao chegar na porta do seu quarto, ela parou e deu meia volta, ainda com um sorriso confiante no rosto. Seu quarto era exatamente em frente ao meu e, por instantes, ela ficou em silêncio me olhando, com um sorriso enigmático nos olhos e segurando a maçaneta do quarto com a mão.

– Olhe Kathy, eu gostaria de lhe explicar que…

Ela sorriu enquanto pressionava a maçaneta para baixo abrindo a porta dos aposentos.

– Não precisa dizer nada, Ray. Eu já entendi tudo. Tenha uma boa noite.

Entrei no meu quarto ainda com o coração apressado. Tomei um banho rápido e me deitei. Liguei para casa e falei com Jill sobre banalidades, a conta do gás, o homem da TV a cabo, a escola das crianças e que horas ela me buscaria no aeroporto. Fiquei olhando programas tolos na televisão até pegar no sono. Pela manhã cheguei ao restaurante do hotel e lá estava Kathy sozinha em uma mesa. Sentei com ela e tentei iniciar uma conversa sobre o que havia acontecido. Ela me interrompeu educadamente e disse apenas “não se preocupe, eu entendi tudo”. Deixou sua xícara manchada de batom com café pela metade e despediu-se dizendo que precisava preparar sua conferência.

Na hora de sua palestra eu estava lá, na primeira fila. Com a desenvoltura habitual, e os slides confusos como marca registrada, ela discorreu sobre o seu – o nosso – tema de forma fluida e correta. Mas não pude deixar de notar que no último quadro de sua apresentação mostrou um gráfico retirado do meu livro, onde meu nome apareceu com a grafia incorreta. Parecia ali um sinal, o aviso de que um vaso delicado havia trincado e que não haveria mais como consertá-lo.

Alguns anos depois envolveu-se comigo em um debate sobre tunelamento quântico em um canal para pesquisadores sênior. Tratou-me a princípio com absoluta frieza, como um mero desconhecido e, na medida que as posições se tornavam mais claras e mais radicais, colocou-se no polo contrário ao meu, apesar do fato de que já havíamos discutido esse aspecto da teoria e estivéramos de acordo com a proposta de que “qualquer lugar em que a função de onda tenha alguma amplitude será aí um lugar onde o elétron poderá estar“. Portanto, nada mais óbvio que seu posicionamento de agora só poderia ser uma resposta rancorosa, vingativa e puramente emocional. Para piorar, não havia nada que eu pudesse fazer ou dizer, até porque não existem argumentos racionais capazes de abalar uma posição construída de forma irracional. No dia seguinte ela me bloqueou nas Redes Sociais. Meses depois escreveu um texto violento – mesmo sem citar meu nome – dizendo que não pretendia voltar a conversar com pessoas que defendiam posturas tão retrógradas e que, acima de tudo, não eram eticamente confiáveis. Por certo que não respondi, apenas deixei que as páginas da vida encerrassem esse capítulo.

Até hoje me pergunto o que teria acontecido se eu tivesse feito outra escolha. Poderia ter deixado o vento me levar para onde ele estava soprando, mas respondi com medo e pudor. Agora colho os frutos do desprezo, mas talvez estivesse agora colhendo as vinhas amargas de uma tragédia anunciada.

Gregor O´Sullivan, “O Ensaio”, ed. Parkland, pág 135

Gregor O´Sullivan é um cronista, jornalista, escritor e crítico literário, nascido em Belfast na Irlanda em 1954. Completou seus estudos de jornalismo em sua cidade natal e posteriormente fez carreira em Londres. Atualmente se dedica a escrever no “Daily Mail” em uma coluna semanal sobre política Irlandesa. “The Essay” (O Ensaio) é seu único livro de ficção, onde descreve as desventuras de um homem em crise de meia idade chamado Ray Olson e sua trajetória na Academia nos meses que antecederam sua indicação prêmio Nobel de física. O pai de Gregor foi Seamus O´Sullivan, um renomado estudioso da física que escreveu vários livros sobre o tema, tendo participado do círculo de grandes nomes da química e da física ocidentais como Ernest Rutherford e Erwin Schrödinger. O personagem é baseado na história e na perspectiva de mundo do seu pai. Mora em Londres com sua esposa Saoirse e seu gato…. Schrödinger.

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Fotografia

Pegou o papel grosso e amarelado em suas mãos e olhou com viva atenção para os detalhes, deixando aberto o livro de onde o retirou. O cabelo, o rosto liso, os olhos castanhos sem anteparos. Na face limpa um brilho denunciava o visgo da juventude. A expressão séria e o paletó bem alinhado. A gravata combinando com a camisa clara. Era evidente a familiaridade no semblante.

– Que bonito. É você vovô? Não pode ser, pois eu acho que você sempre teve barba, desde que nasceu.

O velho segurou nas mãos a antiga fotografia e sorriu.

– Não sou eu, não. Imagina. Esse deve ser um artista de cinema americano, um caubói bonitão de filmes de faroeste. Acho até que já vi alguns filmes dele.

A menina sorriu da história, mas reconheceu na foto os traços do próprio pai.

– Meu pai vai ficar como você, de óculos e cabelos brancos, mas daí eu já estarei muito grande e já vou estar trabalhando como dentista pela manhã e mecânica de carros à tarde.

Enquanto a menina continuava a vasculhar o caleidoscópio de cores, distribuídas erraticamente pelas lombadas de livros da prateleira, o velho sorriu ao escutar seus planos. Todavia, não se furtou de olhar mais uma vez e demoradamente para a foto desgastada. Não, certamente não era ele na imagem. Aquela era a foto de um jovem que não mais existia. Era a imagem de uma alma forjada na ilusão da onipotência, na crença da imortalidade, nas certezas e na esperança. Um garoto cheio de arrogância que saía para a vida sem guarda-chuva, desprezando as tormentas que inexoravelmente cairiam sobre si. Um espectro para o qual olhava com um certo assombro, mas seguramente com alívio. Afinal, se podia vê-lo é porque, apesar dos erros e tropeços, conseguiu sobreviver a ponto de se reencontrarem.

Deteve-se por um tempo a olhar para si mesmo no passado, e o fez de maneira tão intensa que subitamente seu olhar se despregou do rosto e saltou para a foto à sua frente. Agora, era o jovem que encarava o velho, e sua mente juvenil se surpreendeu com as marcas do tempo esculpidas na imagem à sua frente. Percebeu nela as tristezas, as alegrias, as decepções e também as marcas da injustiça e da saudade. Imaginou as agruras e experiências que preencheram este lapso de tempo. Tentou sorrir do futuro que o aguardava, mas sua imagem imóvel apenas manteve o olhar fixo nas expressão de nostalgia do velho. Mais alguns instantes e sentiu a luz se apagando. Escutou um barulho surdo e voltou a dormir no escuro labirinto, prensado entre as paredes feitas de letras nas páginas do livro.

– Guarde no lugar de onde tirou, meu amor. Vovô pode precisar desse livro e tenho que saber onde ele está.

A menina colocou o volume na estante abarrotada e saiu correndo para o jardim, mal sabendo que a vida inteira cabe num flash.

Alberto de Sá, “Crónicas Selectas”, ed. Vale D’Ouro, pág 135.

Alberto Malheiros de Sá é um jornalista, escritor, cronista, ensaísta e roteirista português nascido em Beja, no Alentejo, em 1960. Trabalhou durante muitos anos no Correio da Manhã em Lisboa como jornalista do setor de política enquanto escrevia contos, ensaios e roteiros. Sua peça “Altivos e cobardes” ganhou o prêmio Revelação Teatral Ageas Teatro Nacional Dona Maria II e o tornou conhecido nacionalmente. Escreveu mais de 10 peças e adaptou espetáculos de Shakeaspeare a Beckett. Como produtor foi o responsável por “Abismo de Culpas”, estrelado por sua esposa, Maria do Céu de Souza Alves, e grande elenco. Vive na cidade do Porto e tem dois filhos e 3 netos.

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Escritores

Eu sempre achei que o bom cronista deveria se irritar com os elogios. Não à forma, sua escrita ou ao seu estilo, mas ao próprio conteúdo. Aceitá-los é a rota mais segura em direção ao fracasso. Claro que a todos é sedutora a sintonia da nossa perspectiva com as linhas à frente, e por certo que desperta alegria ver nossa face no espelho de um texto. Muitas vezes nos entusiasma e emociona ver um articulista fazer eco com as nossas ideias, a ponto de sermos capazes de terminar as frases em pensamento, tamanha a identidade que com elas criamos.

Entretanto, essa é a paz do escritor, uma praga entre aqueles que escrevem, e o homem de ideias jamais deveria se contentar com ela. A escrita deveria ser sua espada, para ferir e separar; cortar e destruir. O homem das palavras nunca poderia se deixar seduzir pela glória fugaz das concordâncias. Deveria, isto sim, por um ato de fé, fugir dos elogios e das palavras de estímulo. Em verdade, deveria se esconder de quem o segue e admira.

Criar é ferir. Quem produz ideias não pode esperar que aqueles, acostumados com os padrões, aceitem pacificamente o sopro da mudança. Se há algo de transformador em um pensamento feito letra é o seu espírito de destruição.

Escrever é afrontar. Quem escreve pretendendo ser aceito desperdiça o que existe de melhor em sua arte.

Juan Irigaray, “Cien Díaz para Entenderte”, ed. Solimar, pág. 135

Juan Rodriguez de Irigaray é um escritor cubano, nascido em Matanzas em 1935. Participou da primeira investida guerrilheira na ilha no “Assalto ao quartel de Moncada” em 1953 e acabou preso junto com seus parceiros de luta. Foi companheiro de cela de Fidel Castro e junto com ele foi para o México quando da anistia oferecida aos revolucionários pelo presidente recém reeleito Fulgêncio Batista. Escreveu na prisão um livro de “poesias de guerra” chamado “Se eu morrer chamem Amália”. Participou da tomada de Havana em 1o de janeiro de 1959 e depois foi auxiliar na construção do sistema público educacional do governo revolucionário. Casou-se com Maria Teresa Barrios, uma grande dama da música cubana. Escreveu vários livros de contos e um romance ambientado na guerrilha da revolução cubana chamado “Lágrimas sobre Havana”. Morreu em 2005 de causas naturais.

* Na foto, especula-se que Juan Irigaray seja o de pé à esquerda, marcado com um “X”

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