Arquivo da categoria: Histórias Pessoais

Contrariedades

Meu pai há muitos anos foi fazer uma uroscopia no hospital Ernesto Dornelles. Ao acordar da anestesia geral, e ainda tonto, eu me aproximei dele e perguntei como estava.

– Estou bem, não estou sentido nada, só uma zonzeira. O médico passou aqui e me deixou uma única orientação.

– E qual foi?, disse eu do alto da minha inocência, imaginando que era algo sobre a sonda ou algum medicamento.

– Ele falou que estou liberado para fazer tudo, mas devido à minha condição eu não devo ser contrariado em nada.

Disse isso e deu sua famosa risadinha britânica. Não importa a quantidade de boleta na mente; quem nasceu para esse tipo de piadinha nunca perde a oportunidade.

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Tagarela

Bla, bla, bla, bla…

Uma psicóloga me ligou hoje para conversar sobre um projeto interdisciplinar de levar suporte a meninas gestantes que vivem em condições precárias em um bairro muito pobre de Porto Alegre. Depois de escutá-la sobre esse projeto – pelo qual sou apaixonado há anos – comecei a explicar a ela minha perspectiva e as dificuldades que percebo para sua execução. Emendei a conversa falando sobre “centering pregnancy”, atuação profissional horizontal, grupos circulares, parto e sexualidade, doulas, tecnocracia, cesarianas, a necessidade da dor para par(t)ir, etc…

Subitamente eu me dei conta de algo gravíssimo. Na minha frente vi meu pai explicando sua dificuldade de conter ideias e pensamentos. Dizia ele: “Sou reservado e tenho problemas para conversar com desconhecidos, mas quando começo a falar tenho muita dificuldade de parar e me conter. Amarro um tema no outro, faço análises profundas, me empolgo, costuro os assuntos. Fico prisioneiro da empolgação”.

Percebi que ali estava mais uma maldição que herdei do meu pai. Não consigo parar, “engato uma quarta” e fico sem freios. As pessoas se assustam, ficam desconfiadas e temerosas. Não as culpo; eu faria o mesmo.

Sei que ponho muita coisa a perder pelo meu jeito. Fico envergonhado de ser assim. Como todo viciado, prometo que não vou fazer mais isso, que vou permanecer em silêncio e não vou atropelar as etapas naturais dos encontros para não gerar desconforto. Mas…. passa um tempo e lá estou eu de novo avançando o sinal e falando em demasia.

A gente tenta por muito tempo se afastar dos determinismos familiares, mas conforme o tempo passa percebe que percorre a trilha dos seus significantes, mesmo que de forma inconsciente. As vezes me dou conta que minha fobia social fica cada vez mais semelhante à dele, minha tristeza debochada também, assim como a matraca imparável.

Para todos que já foram vítimas das minhas conversas peço perdão. A pandemia e o isolamento pioraram essa angústia de falar, mas sei o quanto isso irrita quem se aproxima. Eu prometo com o tempo melhorar.

Juro, foi a última vez…

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Dentista

Hoje meu neto foi ao dentista e esse fato mobilizou traumaticamente a todos. Mas, essa sua aventura me fez lembrar minhas próprias experiências prévias com dentistas e dor.

Fui à dentista quando tinha uns 7 anos de idade, e acho que sei até o edifício onde ficava o seu consultório, no bairro Menino Deus que Caetano cantou. Lembro também que era uma dentista bonitona e quarentona com um nome muito curioso e diferente. Algum tempo depois fiquei sabendo que era separada, ou “desquitada”, algo muito incomum na minha época onde os casamentos eram eternos e a separação era um estigma social, em especial para as mulheres.

Certa feita, enquanto me atendia, convidou uma amiga que estava na sala de espera para lhe dar algumas informações. Entretanto, a simples troca de informações se transformou em um bate papo entre duas mulheres maduras. Enquanto ela fazia curativos nos meus dentes iniciaram uma conversa sobre assuntos absolutamente banais, até o momento em que resolveu dizer à amiga algo do tipo:

“Sim, mas é exatamente isso que nós mulheres sempre procuramos nos homens”.

Ato contínuo, olhou para mim um pouco constrangida e completou: “… mas acho que essa não é uma conversa que um menino de 7 anos deveria estar ouvindo. Esqueça isso tudo”.

Sua conversa e o comentário que se seguiu demonstraram duas coisas para mim: a primeira é a negação renitente, contra todas as evidências, de que as crianças estão atentas a tudo o que os adultos dizem. Para ela, um menino de 7 anos objetualizado em uma mesa cirúrgica era não mais que um ser inerte e passivo, e não alguém que captava avidamente todas as sensações, odores, palavras e sentidos do ambiente. A pergunta “o que ela estava querendo dizer sobre os homens?” me acompanha até hoje. A segunda lição que brotou desse encontro foi que exatamente por ter pedido que “esquecesse a conversa” estou aqui contando uma história erótica que me ocorreu há mais de meio século.

Aqui vai um ensinamento interessante: se quiser que alguém mantenha vivo na memória um evento perturbador peça que o tire da sua mente. Depois dessa proibição não haverá como apagar.

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Visita

Ela parecia estar acordando quando virou o rosto para mim. Sua face estava mais corada, por certo, que da última vez que a vi, e também não tinha algodões no nariz. Abriu os olhos com sofreguidão e balbuciou algumas palavras que não entendi. Por instantes suas pupilas passearam pelo alvo da conjuntiva olhando ao redor, tentando reconhecer o lugar; logo depois ensaiou um sorriso. Tentei ser econômico nos gestos para não assustá-la, mas levantei a mão aberta até a altura do ombro e curvei os lábios para cima, sorrindo.

Humm, está tudo arrumado aqui, disse ela colocando as mãos espalmadas sobre a cama. Vestia uma saia cinza e um suéter cor de vinho escuro. Parecia muito mais jovem, pelo menos 40 anos a menos. Sua pele perdera muitas rugas enquanto suas bochechas ganharam vigor e seus cabelos o viço que me acostumei a conhecer.

Com a ajuda de uma auxiliar sentou-se na cama e girou o corpo em minha direção, deixando as pernas brancas penduradas e as meias de cor bege apontadas para mim. Ao sentir-se mais forte ergueu os ombros e respirou fundo. Depois sorriu e me olhou nos olhos.

– Bom saber que está aqui. Chegue mais perto, meu filho.

Com um passo tímido cheguei mais próximo da cama. Ela ergueu as mãos magras e as colocou sobre meus ombros, enquanto aproximava seu rosto do meu. Acercou-se do meu ouvido e sussurrou baixinho as palavras, as quais guardei na mente sem nada dizer em resposta, como se aquela fosse uma verdade há muito conhecida.

– Voltei só para lhe dizer isso. Estou com sono, preciso voltar.

Recostou-se novamente na cama enquanto sua auxiliar lhe ajeitava a cabeça. Cruzou os braços sobre o peito e fechou os olhos, mantendo ainda um sorriso preso nos lábios. – Descanse, mãe. Até breve.

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Desejos

Há muitos anos, depois da aposentadoria, meu pai se deu de presente um carro importado. Bonito e vistoso, mas claramente exagerado para um sujeito de classe média.

Passado um ano da compra meu irmão viu estacionado perto de sua casa o recém lançado novíssimo modelo desse mesmo carro que meu pai tinha comprado no ano anterior. Como sempre, as mudanças eram pequenas. Faróis mais redondos, linhas levemente alteradas, alguma inovação tecnológica no painel com desenho diferente, mais “arrojado”. O que conta mesmo – motor, chassis e lataria – ficam iguais de um ano para outro, mas, o que importa é o impacto da aparência gritando na cara dos outros.

Quando viu o carro ficou impressionado com o luxo e a sofisticação. A frase que me disse, entretanto, é que foi curiosa:

– Vi o novo modelo do carro que o pai comprou. Cheguei a ficar com pena dele dirigindo aquele carro velho.

Sim, como dizia Sêneca, “a pobreza não vem da escassez de recursos, mas da proliferação dos desejos”. Toda a riqueza acima do limite das necessidades é governada pelos desejos, e estes são infinitos e incontroláveis. Um carro importado, lindo e sofisticado, pode virar pó diante da comparação com uma variedade mais nova e mais moderna. Não é a falta de recursos que o torna velho, mas o desejo despertado pela novidade.

Meu irmão nada disse para o meu pai, mas também acho que ele não cairia no truque. Apesar de ser admirador de carros charmosos ele não sucumbiria tão facilmente à armadilha da comparação. Curiosamente, esse carro cheio de símbolos de opulência só lhe ofereceu problemas e dores de cabeça, inclusive o desastre de ter o carro roubado em um assalto à mão armada. Eu havia lhe avisado que seu carro era um “chama-ladrão“, mas parece que o desejo de realizar um sonho infantil foi maior que o bom senso.

Depois desse episódio traumático resolveu refrear seus desejos e voltou a ter carros mais simples, como fazem as pessoas de juízo.

(Imagem meramente ilustrativa. Afinal, esse modelo aí já é velho e tem mais de 3 anos)

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O Cristal Trincado

Uma amiga minha me disse, há mais de 30 anos, que o amor é um cristal de delicada estrutura; uma vez trincado não há forma de consertá-lo. Ela me contou que teve seu primeiro filho na sua cidade natal, 200 km da capital onde morava, quando sozinha foi visitar sua família no interior. Tão logo a criança nasceu, conseguiu contatar seu marido por telefone (não havia celulares na época) e lhe contou a novidade, pedindo que ele viesse imediatamente conhecer o bebê. Ele respondeu que estava “atolado de serviço” mas que no fim de semana, “sem falta”, iria até o interior conhecer seu filho. Veio a conhecê-lo com 5 dias de vida.

Segundo ela, naquele exato instante, ao desligar o telefone e fechar os olhos pôde escutar a rachadura percorrendo a pele transparente do cristal, e os anos que se seguiram foram gastos na vã tentativa de remendar o que não tinha mais conserto. Entre os professores da obstetrícia havia um que se destacava dos demais por sua juventude e seu interesse na medicina baseada em evidências. Fazia contraste com a velharia da faculdade, que agia e pensava na base do “assim que eu faço há mais de 30 anos”, sem se preocupar com evidências bem embasadas. Este jovem catedrático era o que Marsden Wagner chamava de “liberal”, e avisava ser um dos profissionais mais perigosos. Parece ser aberto às novidades, mas apenas para aquelas que não ameacem sua autoridade e seu poder.

Durante uma aula eu fui, por certo, o único estudante que se deixou impressionar com um fragmento de frase que ele proferiu, dita de passagem entre uma e outra explicação. O resto da turma apenas concordou como se fosse algo tão somente óbvio. Disse ele: “Quando nós determinamos a via de parto para a paciente, ela deve ser preparada para….“. Para mim ficou claro, como nunca até então, que a forma como um bebê vai nascer é algo determinado por uma autoridade alheia ao binômio mãebebê. Algo de fora, um saber externo que transforma gestantes em objetos inertes e silenciosos, à mercê das ordens e comandos dos médicos. Por isso era possível determinar a forma como seu bebê seria trazido à luz. Foi nesse instante que percebi que as mulheres eram alijadas das decisões sobre o parto. Também ficou claro, a partir desse momento, que qualquer mudança na atenção ao parto seria bem vinda, desde que jamais atingisse o centro nevrálgico do paradigma médico: a posição objetual da gestante como condição essencial para a prática de sua arte.

Quando ouvi múltiplas vezes o eco de suas palavras reverberando pelos anos seguintes percebi que um projeto de reforma profunda na atenção ao nascimento só poderia emergir se subvertesse essa lógica. Por isso a frase “Humanização do nascimento é garantir o protagonismo à mulher”, pois enquanto não houver a mudança dessa narrativa – e o médico continuar “determinando” vias de parto a despeito do desejo das mulheres – manteremos a mesma tutela secular do patriarcado sobre o corpo e o desejo de gestantes. Essa aula foi o meu “trincar do cristal”, e depois dela eu nunca mais pude olhar a atenção ao parto se não fosse por uma perspectiva libertária.

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Espaços estanques

Estava eu aqui pensando nos limites entre “vida profissional” e “vida privada” quando lembrei de um dos meus encontros com as parteiras do México – em especial Angelina Martinez, de quem tenho a honra de ser amigo até hoje. Em uma de nossas visitas à sua Casa de Parto em Temixco, próximo de Cuernavaca, depois de uma manhã atribulada resolvemos fazer uma pausa para almoçar.

Enquanto comíamos a deliciosa comida que sua nora nos preparava vi Angelina cruzar a cozinha da casa e entrar em seu quarto segurando a mão de uma grávida. Alguns minutos depois, saiu com a gestante, despediu-se dela e se uniu à nós na mesa. Intrigado com a cena, perguntei-lhe quem era.

Ahh, disse Angelina, apenas uma cliente que veio fazer “rebozo”. Como os leitos da Casa de Parto estavam todos ocupados eu a trouxe para cá e fiz a “sobada” e o rebozo na minha própria cama mesmo.

A sua explicação me deixou espantado. Tendo passado muito tempo nos Estados Unidos visitando consultórios médicos – onde o contato é restrito aos rígidos limites profissionais e onde sequer o telefone pessoal do médico se tem acesso – aquela cena me chocou. A naturalidade com que Angelina mesclou espaços privados com públicos estava muito além da minha experiência até então.

Pensei nas roupas brancas, no estetoscópio pendurado no pescoço, no dialeto mediquês, nas várias salas que precisa-se vencer até chegar ao profissional, na mesa que separa corpos e hierarquias, nos diplomas na parede e no discurso empolado e pude perceber com inusitada clareza que são todos tão somente artifícios produzidos para afastar os médicos de seus pacientes, numa espécie de redoma de significados e palavras que, ao mesmo tempo que os protege, também os exalta. Criamos barreiras para não permitir que o paciente enxergue nossa humanidade, permitindo a eles apenas a visão idealizada que constroem sobre nós.

Angelina não precisava desses signos e por esta razão não usava nenhuma barreira para afastar seu mundo do mundo de suas “gorditas”. Depois desse dia passei a enxergar de forma mais crítica todas as formas que criamos para manter separados estes espaços.

Obrigado também por isso, Angelina.

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Careca

Eu já falei muitas vezes que nasci sem o chip do “amor aos animais”, e é verdade. Não tenho este tipo de sentimento de proximidade com os bichos e não consigo suportar em minha retina imagens antropomorfizadas de cães e gatos. Não os vejo como “crianças”, anjinhos, amigos ou parceiros. São bichos, e tenho certeza que eles gostam do que são. Não gosto de promiscuidade, gente dormindo com cachorro ou bicho de banho tomado com perfume.

Há muitos anos escutei uma frase de um veterinário homeopata que me marcou muito: “Consigo perceber com facilidade as vantagens emocionais de manter os animais domésticos próximos de nós, em especial para os velhos e as crianças, mas tenho dificuldade em encontrar vantagens que eles possam ter com a nossa presença”.

Isso dito, e reconhecendo minhas limitações, eu por vezes me questiono o que seria uma boa vida para um desses animais. Será que um gato castrado que faz companhia para uma senhora viúva em um apartamento é… “feliz”? E quanto a um cachorro que mora no pátio de uma casa, será ele mais feliz que um primo seu que mora na rua? O Vagabundo era mais infeliz que a Lady? Deveria invejá-la ou ter pena de sua prisão maravilhosa?

Penso nisso quando lembro da cadela da Comuna, a matriarca de nossa pequena matilha. Seu nome foi dado pelo meu neto Oliver em homenagem aos seus dois avós homens: “Careca”. Foi encontrada há muitos anos vagando pela nossa rua, que é um tradicional ponto de “desova de cães”. O esquema é conhecido: Chega o carro, diminui a marcha até parar, abre-se a porta do carona e ali o bichinho é deixado.

Para o azar da Careca não apenas foi deixada por sua antiga família, mas ao ser largada na rua foi atropelada, quebrando o quadril. Quando foi encontrada (horas? dias?) depois pelo nosso caseiro Márcio ela carregava apenas uma fina camada de pelo sobre uma montoado de ossos. Magra, feia e manca. Estava nas últimas.

Que fazer? Bem, o que fizemos foi acolhê-la e tratar seus machucados. Posteriormente, Luiz Augusto a levou para ser castrada. Acabou ficando na Comuna como guardiã, parceira de brincadeiras das crianças e caçadora de quero-queros. Hoje é uma senhora feliz, bem alimentada – apesar de continuar manca pelo acidente.

Olho para a Careca como um símbolo de resiliência e de fé. Depois do abandono e do acidente que lhe causou sequelas ela tinha apenas um destino sombrio à frente. Todavia, acabou recebendo como prêmio o “Éden Canino”, vivendo no melhor lugar onde um cão jamais sonharia viver. Livre, solta, independente, sem coleiras, sem espaços exíguos, sem opressão e sem regras. Careca tem a felicidade que eu gostaria de ter. Carrega no corpo a marca de sua vida de desventuras, mas conseguiu vencer a despeito de suas tragédias.

Está pronta para reencarnar como uma menina na próxima vida. Espero apenas que ninguém tenha a ideia de lhe colocar este apelido.

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Flerte

Conheço mulheres simpáticas e extrovertidas que se deram muito mal nessas situações por causa de uma cultura patriarcal – mas também pela ignorância de alguns em reconhecer sinais.

Uma mulher que ri das suas piadas não está “dando mole”; ela apenas tem bom humor e está alegre. Não tome essas atitudes como “abertura”. Aprenda a ler sinais corporais e de linguagem antes de se arriscar.

Esse tópico é maravilhoso. Muitas vezes eu me coloquei nessa situação de pensar como uma mulher pode se postar diante destas situações. É realmente muito difícil diante dos códigos sociais que existem dentro do patriarcado, o modelo ainda vigente.

Pois vejam; dos homens se cobra iniciativa. Cabe a eles dizerem que desejam sair com a moça, namorar com ela, transar com ela. Claro, isso está mudando, mas muito lentamente e de forma insidiosa. O padrão ainda é esperar dos homens tais proposições.

Acontece que a iniciativa masculina é ilusória. Mesmo entre as fêmeas de antropoides existe a regra de “permitir” a iniciativa. É aqui que cabe o termo “deu mole”. “A mina deu mole e aí eu cheguei“. Portanto a iniciativa parte delas, mas a primeira palavra é deles.

Mas o que significa isso? Para muitos homens é atenção na sua fala, um sorriso, as risadas depois de uma piada, o olhar fixo, etc. Muitos homens interpretam isso como interesse e como uma abertura para proximidade, e muitas vezes é isso mesmo. O problema é que estas atitudes podem simplesmente resultar de genuína alegria, gentileza, simpatia e respeito à fala do interlocutor. Não abertura, apenas atenção.

Como diferenciar? Bem, não tenho nem experiência com isso, mas posso dizer que é saudável desconfiar. “Nahh, ela está só achando engraçado. Nada a ver. Ela é muita areia pra essa caminhonete velha“. É essencial ter calma, espera e cuidado. Observe outros sinais e não confie em apenas um único sinalizador.

Verdade, mas também é verdadeiro que não existe encontro amoroso sem risco. Desde que não haja grosseria ou violência, eu acho que arriscar é sempre válido.

Isso me faz lembrar do meu colega Rufus* (nome fictício) que apaixonou-se perdidamente por uma residente, sendo ele um mero doutorando. Escutou, sem querer, quando ela disse a uma colega que gostava de uma determinada cantora, durante uma conversa na cafeteria. Ao saber disso, ele saiu correndo do hospital, comprou o CD e lhe deu de presente. Ato contínuo, declarou-se. Recebeu imediatamente uma resposta rude e dura. Foi “colocado no seu lugar”, sem dó ou piedade.

Rufus me encontrou no almoço com o CD nas mãos (a cantora era Simone) e disse uma frase muito interessante:

– Acabou, Ric. Acabou tudo.

O curioso é que nada acaba sem ter começado. Nunca houve uma real relação, mas tão somente uma fantasia. O que havia terminado não era o romance, mas o sonho. Ou, no caso dele, o delírio.

Todavia, apesar da diferença entre os dois ser gigantesca (imagina algo como eu e a Carol Proner) ele teve a coragem que eu considero indispensável para qualquer relacionamento. Não há como abrir mão dessa iniciativa. Passei a admirar muito o Rufus após esse aparente fracasso.

O grande dilema se esconde nos limites tênues dessa postura. Simplesmente criminalizar a iniciativa masculina não faz sentido, mas talvez seja importante educar as pessoas para que possam ler adequadamente as sinalizações que as mulheres mandam – ou a ausência delas.

Mas não se iludam: declarar seus sentimentos é sempre um grande risco, o que torna a paixão algo tão desafiador.

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Dia dos Pais

Desde muito cedo, a criança é um depósito de desejos parentais. Em verdade, bastam poucos segundos para que a alma da criança, tal qual uma massinha colorida de modelar, seja manipulada, manuseada e constituída pela voz e o olhar de sua mãe. Desses sussurros, palavras e frases cortadas, a criança é jogada dentro da linguagem e ali ficará enclausurada, condenada a um mundo de símbolos e significados. Também esse encontro a tornará prisioneira de um amor que, tanto é essencial para a vida quanto é sufocante e limitante.

Para estas, que sobreviveram pela dádiva do amor a elas dispensado por este ser mitológico que é a mãe, a melhor forma de sobreviver à primeira infância é ter em seu caminho uma pedra. Uma gigantesca rocha a obstaculizar seu caminho. Pétrea, dura, forte e ígnea, capaz de interromper esse amor, impedindo a continuidade de uma relação perfeita, para que essa criança possa encontrar – por si mesma – o caminho do amor maduro. O nome dessa pedra é pai. “Pai, tu és pedra, tu és rocha, e sobre teus ombros construirei minha vida. Tu serás o grande exemplo para nortear meu caminho. O maior aprendizado que levarei de ti é que a paternidade será uma construção eterna, uma tarefa infinda, um trabalho imperfeito e sem fim.”

Grato por existir.

(Na foto, meu pai Maurice, meu avô Samuel, meu filho Lucas, e eu. Todos pais, cheios de erros e imperfeições, repletos de equívocos e falhas, mas que ainda assim merecem que seu trabalho na seara da paternidade seja – por um dia apenas – reconhecido.)

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