Arquivo da categoria: Histórias Pessoais

Bolhas

Cena 1: Meu avô morreu aos 94 anos na casa do meu pai. Estava cansado e tinha problemas respiratórios crônicos. Morreu de gripe. Acordou pela manhã e avisou o meu pai que era seu último dia. Distribuiu seus pertences – entre verdadeiros e imaginários – para os filhos e netos. No meio da tarde, e com muita dificuldade respiratória, chamou meu pai e disse “Deu…”. Fechou os olhos, expirou pela última vez e foi encontrar minha avó no outro plano.

Até pouco antes de morrer mantinha o hábito de tomar whisky “on the rocks” todas as tardes. Um dia uma parente notou o copo servido ao seu lado e tentou retirá-lo discretamente. Quando viu, meu avô puxou o copo para si e disse “não mexa no meu scotch!!”, ao que ela falou “não faz bem para você tomar isso todos os dias”. Ele respondeu com aquela cara vermelha e mau humorada dos ingleses: “Tenho mais de 90 anos e vou partir em breve. Deixe-me ao menos morrer feliz”.

Cena 2: Trabalhei muitos anos com pacientes renais em uma clínica de diálise. Os pacientes tinham dietas severas, com ausência quase total de sal, o que torna a comida sem sabor algum. Havia entre eles um garoto de 20 anos que morava na periferia da minha cidade. Era dependente químico, tinha um bebê recém nascido e os rins destruídos. Sobrevivia pela hemodiálise que fazia duas vezes por semana. Mais de uma vez fui buscá-lo no banheiro onde se escondia para comer pó de K-Suco. Uma segunda-feira sua esposa ligou para a clínica dizendo que ele não viria fazer a diálise. Montou uma festa em casa no fim de semana onde bebeu, comeu de tudo e avisou que seria seu último dia de vida. Disse “não quero mais viver uma vida sem gosto”. Morreu no domingo à noite.

Cena 3: o Garoto da Bolha, filme com John Travolta e baseado em fatos reais. Ausência de funcionalidade do sistema imunológico, o que o obrigava a viver dentro de uma bolha. O filme inteiro é sobre a vida insuportável e solitária do garoto, preso em seu mundo de plástico. A cena final do filme é sua fuga da bolha e o contato com o mundo de verdade.

Essas histórias me vem à memória quando acusam de irresponsáveis (com razão) as pessoas que resolvem fazer festa, abraçar, beijar, transar, ir à praia e fazer compras. Talvez o pensamento simplista delas seja “de que vale a vida sem poder vivê-la de verdade?”.

Para mim é fácil apontar o dedo para essa gente, já que tenho os genes da fobia social e vou passar o resto da minha vida isolado e solitário, mas o que dizer das “pessoas das pessoas”, os extrovertidos, os amorosos, os carentes e os amantes? É justo acusá-los de exigirem o direito de viver uma vida feliz, ao lado de quem amam?

Sim, eu sei. A pandemia, o afastamento, o vírus, a segurança dos OUTROS e não apenas a sua, etc. Tudo isso é verdade é não há como discordar. Eu apenas acho errado condenar ao inferno as pessoas que se rebelam contra uma vida infeliz e encarcerada. Se podemos condenar as atitudes que negligenciam a epidemia também acho que é justo entender quem apenas sonha com uma vida miseravelmente normal.

1 comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

Vitamina poderosa

Acordei esta manhã ainda com o som da piada que Zeza me contou no sonho. Ela estava na cozinha preparando uma “batida” com várias frutas e ervas quando me aproximei e perguntei para o que servia.

– Essa é a mais poderosa mistura desintoxicante que existe para o organismo feminino, mas tão forte que só pode tomar duas doses. A primeira limpa todas as impurezas do intestino. A segunda – e última – limpa os resíduos tóxicos do fígado e dos rins.

– E o que acontece se tomar mais uma?

Ela se aproximou de mim e sussurrou:

– Não pode, é muito forte. Se tomar a terceira dose o marido vai embora.

Eu me auto trolei em sonho. Pode?

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Surdez

Acabei tomando contato com a medicina americana em diversas ocasiões, seja ao consultar com um terapeuta “holístico” em Cleveland há uns dez anos, seja pelos inúmeros contatos que tive durante as consultas a que fui convidado a assistir de amigos meus que moram por lá.

Eu já descrevi anteriormente as minhas impressões sobre a assistência médica americana, que pode facilmente ser considerada a mais tecnocrática das práticas de saúde do mundo, entretanto, pensei em mais uma vez descrever minhas ideias. Para a medicina americana – ou estadunidense – o ápice da atenção é oferecido através do acesso e uso da tecnologia – o mito da transcendência tecnológica. Quando mais sofisticados os testes e tratamentos, mais valorizados são os médicos pela cultura como um todo – e isso inclui médicos e pacientes. A adesão ao paradigma exógeno de doença e adorcista de terapêutica é explícito e propagado como superior: tecnologia é sinal inequívoco de qualidade.

Para além desse paradigma existe um afastamento quase religioso dos profissionais em relação aos pacientes. A vida do médico fora do ambiente das consultas é algo interditado àqueles. O cenário onde se encenam os encontros são os únicos locais onde os médicos serão acessíveis. Lembro vividamente do assombro do marido americano de uma paciente que atendi em Porto Alegre quando ofereci a ambos um cartão onde constavam os telefones da minha casa e o meu celular. “Eu nunca vi isso em toda a minha vida“, disse ele assombrado.

Os consultórios padrão de médicos americanos ficam em “centros profissionais”, um modelo multiprofissional que tentam implantar no Brasil também. São salas gigantes onde muitos funcionários trabalham, desde as recepcionistas até as “auxiliares de médicos”, que são profissionais formadas para dar assistência ao trabalho de consultório. São elas que medem seus sinais vitais – vestidas com as indefectíveis roupinhas de bloco cirúrgico – fazem perguntas típicas da anamnese, escrevem suas queixas, avaliam sua receita anterior e anotam tudo em sua ficha. Saem da sala com um sorriso e avisam que o doutor em breve chegará.

Minutos depois chega o(a) medico(a) acompanhado(a) por esta assistente, a qual segura o tablet com as anotações na mão. Fica claro pela sua postura e atitude que a conversa não vai demorar mais do que 5 a 10 minutos. Também é óbvio que as consultas obedecem um modelo “fordista” de linha de montagem. Enquanto a auxiliar aplicava o questionário o médico estava em outra sala, com outra auxiliar, e enquanto nos atendia outra auxiliar já preparava a próxima paciente. Via de regra, o médico dá uma olhada superficial nas anotações da assistente (queixas, drogas, exames, etc) e faz algumas perguntas absolutamente simples sobre o caso. Faz a consulta de pé, na frente da paciente, com a fantasia típica de médico (avental, estetoscópio no pescoço, canetas, brilhantina no cabelo, perfume, etc). Quase nunca olha nos olhos; 70% do tempo olha para a ficha.

Quando minha amiga explicou que eu era “um médico do Brasil visitando o país” apenas sorriu como que a dizer “poderia ser o Papa, não faz diferença alguma”. Não foi arrogante, sequer antipática, apenas agiu como se eu não estivesse ali. E pela conversa, minha presença não faria mesmo nenhuma diferença. Inobstante a especialidade do profissional a consulta é absolutamente técnica, objetiva e específica, nenhuma questão pessoal, afetiva ou emocional é tangenciada, por mais que estes temas sejam evidentes na queixa principal.

Qualquer pergunta que seja de outra especialidade – por exemplo, perguntar para um gastroenterologista sobre o aparecimento de feridas nos pés – é rechaçada imediatamente com a indicação para procurar um colega. Não se misturam as especialidades. A consulta termina com a paciente sendo orientada a passar no guichê para pegar a receita, a nova solicitação (gigantesca) de exames e os remédios, que são vendidos ali mesmo.

Para um profissional com formação em homeopatia, como eu, ou que fez um longo percurso pela psicanálise – onde uma consulta pode durar 60, 90 minutos divagando por inúmeros pontos significantes da vida do paciente – o modelo técnico das consultas americanas é chocante. Olhar para um paciente como sendo formado por órgãos estanques e desconectados, com um corpo fatiado em especialidades, medicado de forma ostensiva, desconsiderado enquanto sujeito, objetivado e coisificado em seus constituintes químicos e hormonais, é uma experiência impressionante e chamativa.

Não posso dizer que esse é o pior modelo de atenção à saúde que eu já vi, até porque não me sinto em condições de ser o juiz desse certame. Todavia, a incapacidade de enxergar a energia vital imanente do corpo que sofre, o laço etéreo e espiritual que une os significados aos sintomas e o sofrimento psíquico como ferramenta diagnóstica que denuncia as características últimas do sujeito é para mim um desperdício brutal da arte médica.

Se é verdade que “aquilo que o paciente traz como sintoma é seu verdadeiro tesouro”, a surdez contemporânea aos lamentos profundos das almas é o mais claro sintoma da doença da Medicina. Que não sejamos também nós surdos à dor que ela tão evidentemente nos mostra.

Veja mais sobre “Medicina Americana” neste outro post publicado em 2017.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Medicina

Mãe 90 anos

Hoje minha mãe estaria completando 90 anos. Este é o primeiro aniversário sem ela. Acho até engraçado um velho ter saudade da mãe, mas eu creio que chegar à minha idade ainda tendo sua mãe viva ate a pouco foi um milagre e uma bênção.

A maioria das pessoas ao meu redor não tem sequer memória de suas avós e perderam suas mães faz tempo. Com o inédito adiamento das gravidezes, colocadas pela primeira vez na história preferencialmente na quarta década, as pessoas se tornam avós muito tarde, muitos com até 70 anos!! Os avós se tornam figuras raras e fugazes, e os bisavós tão somente quadros nas paredes.

Consegui que meus netos tivessem, por um curto período, quatro de seus oito bisavós, e acho isso algo formidável em um mundo onde pela primeira vez na história se questiona o preceito de “crescer e multiplicar”.

Fora isso, digo apenas a frase que meu pai sempre repete: “Ela foi uma mulher extraordinária”.

Bença mãe…

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Voltar ao passado

Penso muito em voltar no tempo. Fico imaginando às vezes me concentrar até entrar em transe, aparecer em uma data do passado e mergulhar nela, como no filme “Somewhere in Time”. O problema é pensar em qual data eu gostaria de chegar.

Algumas vezes penso em retornar instantes antes de fatos traumáticos, mas outras vezes volto à escola, à infância, à minha casa no interior. Tipo, para falar com meu avô que morreu quando eu tinha três anos, ou reencontrar minha mãe e minha avó Irma. Também para rever a turma da rua ou os amigos da escola. Voltar naquele momento especial e ter coragem de dizer algo que não falei – por medo. Mas também voltar para ficar calado quando disse alguma bobagem que magoou alguém.

Essas viagens sempre me oportunizam pensar “como seria se…”, mas, mesmo que fosse possível ajeitar alguns erros do passado, uma viagem no tempo seria uma angústia brutal. Fico imaginando encontrar a mulher da minha vida e dizer a ela as palavras que sempre achei que deveria ter dito, só para depois perceber que o segredo de sua paixão foi mesmo ter sido bobo, tolo e desajeitado. E se dessa vez ela não me quisesse? Perderia instantaneamente meus filhos e netos e passaria a eternidade imaginando em que outra barriga teriam nascido.

Eu seria um perdido, vagando pelas ruas, imaginando encontrar em outros corpos as almas que perdi. A volta ao passado seria um martírio infinito, uma coleção de dores e tristezas. Uma “saudade do que nem cheguei a ser“. Talvez sejamos feitos dos próprios erros que cometemos, e mesmo os piores deles constroem o que somos hoje. Perdê-los talvez signifique retirar de nós a nossa própria essência.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

Travessuras

Ontem meu neto Henry caiu caiu da árvore e logo depois quando se levantou do chão disse entre lágrimas e choro: “quebrei o ossinho do meu braço”. Meu mundo (que já se equilibra com dificuldade e está cambaleante) caiu diante de sua dor e sua angústia. Ao ver que a dor não passava seu pai o levou ao hospital e constataram a fratura. Depois de velho eu tive a chance de reviver a angústia causada pelas travessuras infantis e as marcas que elas produzem na nossa alma.

Enquanto se preparavam para ir ao hospital eu procurava algumas medicações enquanto Zeza contava histórias para que ele se acalmasse. Foi então que eu lembrei para o que servem os avós: eles são úteis para lembrar aos filhos que não se apavorem com as tempestades; por pior que sejam, sempre haverá um amanhecer. O que os velhos podem oferecer de melhor aos jovens é sua própria velhice e a esperança de sobrevivência que ela representa.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

O Velho Soldado

Ele já havia passado dos cinquenta anos, e isso era denunciado pela cor dos cabelos e pela falta deles bem no centro da cabeça. Era um oficial da reserva e estava acompanhando a esposa, que carregava o indefectível sacolinha de exames. Haviam me procurado cheios de indignação. Falavam em processar o médico que os havia atendido no parto anterior, cujo bebê tinha pouco mais de um ano e meio. Primeiramente tentei acalmá-los, mas ele era o mais bravo e inconformado.

– Não tem desculpa isso, doutor, e o senhor bem sabe. Como pode uma mulher engravidar depois de ter ligado as trompas? Eu já tinha 4 filhos, nem queria mais nenhum. Já marquei a cesariana com seu colega para a minha mulher poder “desligar” as trompas. Cinco é um bom número, não acha? Eu estava conformado, mas agora olha esses exames!!! Será possível que dar um nó num tubinho é assim tão difícil?

Mostrou o Planoteste recém feito que se mostrava positivo.

Sua esposa, que tinha se mantido calada até então, resolveu falar.

– Sim, doutor, vou ter meu 6º filho agora, depois de ter realizado uma cesariana para ligamento das trompas. Foi seu colega, o Dr. Eustáquio* quem a fez. Isso não pode ficar assim.

Ela estava no meio da gestação, por volta de 20 semanas. Tinha 4 partos normais e uma cesariana, exatamente aquela realizada com o único objetivo de realizar a ligadura das trompas.

Expliquei demoradamente que, por melhor que uma cirurgia tivesse sido realizada não há como descartar uma recanalização. Disse também que confiava na capacidade do Dr. Eustáquio e que culpá-lo por este incidente era injusto e não levaria a nada.

Apesar das minhas explicações eles se mantiveram indignados, acreditando que esta gestação era fruto de uma falha do profissional. Terminamos aquela consulta inicial e marcamos a seguinte. Todavia, à medida que o pré-natal prosseguia, eu consegui convencê-los de que pensar no passado de nada ajudaria a enfrentar o novo desafio. Mais importante era planejar esta nova vida que chegaria. Falei para eles os conselhos usuais para a gestação e deixei claro que qualquer projeto de nova ligadura só poderia ocorrer no pós parto.

Assim se fez. Depois mais alguns meses ela entrou em trabalho de parto e pariu lindamente seu filho na mesa de cócoras que eu havia introduzido Centro Obstétrico do nosso acanhado hospital. Desta vez, ao contrário de todas as outras gestações, o marido esteve presente durante todo o processo. Assistiu extasiado o nascimento de seu sexto e último filho.

Na consulta imediatamente após o parto, a face do esposo estava transformada. Ao invés de me cumprimentar de forma protocolar me deu um longo abraço. Falou da alegria de ter testemunhado algo tão impressionante como o nascimento de uma criança e que, agora de cabeça fria, agradecia à natureza marota que lhes pregou uma peça e permitiu a chegada do novo bebê.

– Sabe o que mais me impressionou? Eu cortei o cordão, doutor. Depois do nascimento contei para todos os meus velhos companheiros de quartel que eu mesmo havia cortado o cordão umbilical. Eu senti com a tesoura que o senhor me deu a textura daquele fio que leva sangue para o bebê!! Descrevi esta cena para minha turma como uma criança conta o brinquedo novo para seus amigos da escola. Foi algo inesquecível!!

Sorri da sua euforia diante da magia do nascimento. Disse a eles apenas que o nascimento de uma criança também serve para desarrumar nossas certezas e para mostrar nossas potencialidades humanas. Nascer é bem mais que chegar neste mundo; é fazer o mundo se transformar pela nossa chegada.

Quando levantei de novo o olhar, o velho soldado chorava.

* Nome fictício

(Lembrei dessa história depois de nossa breve conversa tão cheia de lembranças bonitas, Luciane Chiapinotto)

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Mundos distintos

A jovem entrou no consultório carregando em uma mão a carteirinha de papelão surrado e na outra sua mãe, quase tão miúda quanto ela. À frente sua lustrosa barriga de 9 luas.

Sentou -se à minha frente e sorriu timidamente. Sua mãe começou a falar e eu a interrompi suavemente com a mão espalmada à frente. Por certo que a menina de olhar triste era “dimenor”, com o elas falavam, mas nem por isso deveria ter sua voz silenciada.

– Jéssica o meu nome.

Perguntei detalhes da sua gravidez enquanto desdobrava o papel amarrotado de seu pré-natal.

– Tive algumas dores e minha mãe disse pra eu vir ao hospital.

A mãe sussurrou em seu ouvido “fala do escorrimento”, mas eu escutei sem a necessidade que ela repetisse. Expliquei da normalidade de secreções inocentes pela descamação das células e pela produção de muco. Ela concordava balançando a cabeça, sem dizer palavra.

Procurei na folha de papel sua data de nascimento, mas me confundi com a letra ruim do prenatalista. Perguntei diretamente à ela.

– Tenho 14 anos, disse ela, sem parecer ter qualquer problema com essa informação.

Minha filha tinha apenas 5 anos na época. Não conseguia imaginar que em uma década ela pudesse estar sentada à frente de um médico numa consulta de pré-parto.

Por alguns instantes fiquei olhando os números esparsos de seus exames enquanto minha mente vagava pela realidade tão distante da minha. Dois universos completamente diversos se chocavam naquela pequena sala de entrevistas do hospital na periferia pobre de uma cidade grande.

Ali estava eu, o escafandrista. Mergulhado num oceano de significantes tão diversos da minha história, eu respirava por um tubo conectado aos meus valores e experiências de vida, traduzindo o idioma estranho e complexo que as pacientes falavam. Mas também em minha mente havia a certeza que não é possível entender as dores, os dramas, as tragédias, as alegrias e as conquistas sem se despir das vestes que separam estes mundos e deixar-se banhar pelas águas do campo simbólico onde atuamos.

Fiz os exames de rotina ao lado da mãe que, comportada, nada falou. Não havia motivo para preocupação, e bastava aguardar as dores que, por certo, chegariam em breve.

Olhei mais uma vez seu rosto e, incontido, resolvi cometer o erro fatal de traduzir sua vida pelos meus olhos. Sem dúvida, um erro juvenil e tolo, mas que hoje coloco na conta da presunção e arrogância da minha pouca idade.

– Mas, Jéssica, não é muito cedo?

Uma pergunta tola, sem sentido, sem valor e que só poderia produzir culpa e vergonha. Para ela, naquele dia; para mim hoje.

Para minha surpresa ela abriu um sorriso e disse sem titubear

– Não acho doutor. Já sou casada há dois anos e penso que é a hora de ter meu bebê.

Fechou seu cartão de pré-natal, levantou-se e chamou a mãe. Esta, que antes dos 30 anos já se preparava para ser avó, me cumprimentou com sua mãozinha frágil e sorriu sem jeito.

Mundos distintos.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Gratificações

Há alguns anos fui convidado a participar de um evento em uma universidade local onde profissionais de múltiplas áreas tratavam de suas perspectivas específicas na área da saúde. A mim coube falar de “Humanização do Nascimento”, por certo.

Como estávamos no ambiente acadêmico minhas palavras foram recebidas com reserva por alguns professores presentes, em especial aqueles ligados à neonatologia. Para a imensa maioria desses médicos a humanização do nascimento é um tabu. Sua formação é centrada na atenção dos quadros mais complexos e limítrofes e quase nenhuma atenção (ou importância) é dada para a observação e a atitude não intervencionista da imensa maioria dos casos. Aliás, este o grande paradoxo do atendimento ao parto normal pela medicina: treinar exaustivamente para o enfrentamento de situações raras e pouco para o normal e o fisiológico, que são a regra no nascimento humano.

Porém, logo após a minha palestra entrou na sala uma nutricionista especializada em crianças com paralisia cerebral grave, e eu resolvi permanecer para ouvir suas palavras. Ela começou sua palestra deixando claro ser importante desmistificar a relação do parto normal com esta condição, o que já me deixou muito feliz. Depois disso começou a descrever as estratégias nutricionais usadas em crianças severamente comprometidas, em estados quase vegetativos.

Foi no seu relato apaixonado sobre a atuação sobre estas crianças que eu comecei a me questionar sobre nosso sistema de recompensas.

Tenho uma amiga que adora presentear seus netos. Compra para eles todas as bugigangas eletrônicas da moda. Certa vez eu lhe perguntei o porquê de tantos presentes e ela respondeu, de forma sincera e aberta: “Você precisava ver a carinha dela quando abriu o presente!!” Foi aí que eu formulei a minha tese de que os presentes são iscas que damos às crianças para recebermos o verdadeiro pagamento, aquele que vem com sua gratidão e seu amor. Somos os agraciados, não eles; garantimos o “presente do afeto” deles para nós mesmos.

O mesmo na medicina. Para mim é fácil ver o quanto trabalhar com o nascimento humano pode ser gratificante. O choro, a emoção, as lágrimas, a alegria contagiante dos casais e das famílias, a vida que (re)nasce em cada parto, o futuro da humanidade garantido, etc., são todos presentes que recebemos. Para cada parto, uma tonelada de agradecimentos, abraços, felicitações. Quem é, afinal, “presenteado” com o bebê?

Entretanto, quando eu vi a dedicação àquelas crianças, algumas delas quase irresponsivas – os muito severos – e o carinho devotado a elas eu percebi o quanto é necessário entender que a verdadeira gratificação vêm do sentido mais amplo da tarefa, e não das miudezas e dos agradecimentos que, por mais que sejam presentes maravilhosos para enfrentar as agruras da tarefa, não podem ser a única moeda simbólica para o nosso trabalho.

Senti vergonha da minha euforia diante das conquistas por nascimentos dignos e respeitosos. Senti pena de mim pela alegria incontida nos cumprimentos recebidos. Pude ver naquela bela menina o quanto o amor pela tarefa é muito mais importante do que qualquer outra recompensa em jogo

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

Trânsito

Eu desenvolvi uma estratégia há mais de 20 anos a respeito da educação de motoristas. Na época eu já tinha essa vida dupla: a maior parte do tempo como pedestre e eventualmente como motorista. Portanto, eu tinha “lugar de fala” para criticar a forma como os motoristas eram abusivos em sua relação como aqueles que caminhavam pela cidade. Podia reclamar sabendo que eu também fazia parte do grande grupo motorizado que não respeitava a civilidade.

Uma das coisas que eu fazia era jamais apressar o passo quando andava por cima de uma faixa de pedestres, mesmo obrigando os motoristas a diminuírem a marcha ou eventualmente pararem o carro. Ora, pensava eu, o conceito de “faixa de segurança”ou “faixa de pedestres” é a continuação da calçada. Avançar uma faixa dessas é o mesmo que entrar sobre o passeio público e atingir alguém. Por isso eu fazia questão de me comportar como se estivesse caminhando na calçada, sem parar, sem diminuir o passo e sem dar passagem para os carros por medo do seu tamanho.

No início recebi buzinadas e xingamentos. Muitas caras feias. Gente abrindo o vidro lateral e gritando coisas. “Babaca”, “lesma”, “idiota”, “quer se matar?” etc. A tudo eu respondia com impassividade, sem levantar a cabeça, ou mostrando o dedo médio. Eu explicava às pessoas que era um projeto de “educação continuada”: somente se a gente assumir a posse das ruas os carros entenderão. Enquanto ficarmos acuados eles vão tomar conta do espaço, até porque é exatamente assim que funcionam as disputas de classe. Se você recua o espaço não fica vago, ele é imediatamente ocupado.

Fiz isso por anos e acabei vendo o sucesso dessa iniciativa. Não por minha causa, mas também pelo meu exemplo diário, eu testemunhei a lenta e constante mudança na atitude dos motoristas em relação aos transeuntes na cidade onde moro. Não é assim uma Zurique, mas já é muito mais seguro do que outrora.

Quando me perguntavam se eu não olhava para os lados quando atravessava uma faixa de pedestres eu respondia que “sim, olho bem para os lados“. A seguir vinha a pergunta: “mas, se você olha para os lados então não confia plenamente no seu método“. Eu sempre dizia que, por mais que eduquemos toda a população, ainda haverá pessoas desatentas ou perversas a ponto de passar por cima de quem está atravessando a rua. Portanto, se eu for atropelado em uma faixa de segurança a culpa jamais será minha, mas é minha responsabilidade tomar todas as precauções para que isso não aconteça diante do fato de que as eventualidades e os doentes existem.

A piada que me diziam aqui em casa era a cena da minha chegada ao céu, explicando para São Pedro as circunstâncias do meu atropelamento e dizendo: “Si, morri, mas eu estava certo”

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais