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1500

Hoje alcancei o artigo de número 1500 no meu humilde blog “Orelhas de Vidro”. Não é muito quando comparado às pessoas que realmente escrevem e sabem fazê-lo. Entretanto, eu comecei a escrever pelas razões mais clichês do mundo: uma grande angústia e a percepção clara do término que se aproxima. Achei que deveria deixar escritas as minhas ideias, assim mesmo escondidas em um blog, mas que poderiam produzir curiosidade em algum passante desavisado que se interessasse por isso no futuro.

Fui um “late bloomer”; comecei a escrever de verdade aos 40 anos e nunca mais parei. Escrevo freneticamente todos os dias. Não me preocupo com a qualidade, por certo, apenas em verter meus pensamentos para a escrita, como percebendo que, se não forem para o papel, estarão perdidos para sempre “como lágrimas na chuva”. Como diria meu irmão: “A qualidade é desprezível, o que importa é a quantidade”.

Há muitos anos uma paciente de seus 60 anos me contava de suas agruras, dores e desventuras. Morava com seu sobrinho de 20 anos de idade, “um menino muito complicado, doutor”. Disse-me que ele era a fonte de todas as suas preocupações – que acabavam vertendo para o corpo. O garoto veio morar com ela porque sua mãe – irmã da minha paciente – estava doente, com câncer, e não deveria durar muito pois o estado da doença era avançado.

– É por essa razão que ele é tão complexado, doutor. Ele não perdoa a mãe e reage com ódio, como se fosse se vingar dela atacando o mundo todo.

Pedi que continuasse…

– Ela engravidou com 15 anos doutor. Cuidamos da sua gravidez e depois ela passou a morar com nossa mãe e nosso pai. Dedicou-se a cuidar do seu filho e nunca mais quis saber de namorar. Depois que eles morreram ela continuou na casa cuidando dele, porém nunca aceitou nos contar quem é o pai. Na adolescência diante da insistência do meu sobrinho de encontrar seu pai biológico, ela disse: “Esse nome vai morrer comigo. Eu jamais direi quem é seu pai”. Havia muito ódio em suas palavras, mas o menino jamais aceitou esta negativa. Diante dos seus reiterados pedidos ela se fechou, a relação entre ambos se deteriorou e ele veio morar comigo, mas carrega consigo essa revolta, esse ódio. Por muitos anos tentei explicar à minha irmã que nenhum nome seria pior do que o seu silêncio, mas ela se manteve calada. Agora, doutor, ela está morrendo. O nome desse homem, como ela mesmo me disse, descerá ao túmulo com ela e meu sobrinho jamais poderá encontrar seu pai.

O peso dessas palavras eu sinto até hoje. O menino sabia que a morte da mãe enterraria um pedaço de si mesmo, e por isso não conseguia perdoá-la. A dor de ambos era violenta e corrosiva, mas podia ser sentida por mim, mesmo à distância.

Eu lembro dessa história porque é assim que me sinto a escrever. Cada história, cada piada, cada relato, cada lembrança vem carregado com o “nome do pai” que eu preciso dizer. Várias vezes, repetidas vezes. Escrevo porque não quero morrer sem dizer. Não quero descer à terra sem contar algo que só eu vi, uma perspectiva só minha ou uma ideia que me veio à mente repentinamente.

Escrevo apenas para dizer a mim mesmo que consigo enxergar, na curva da esquina, o dia em que estas ideias vão se desmanchar, perdidas no infinito cósmico. Como poeira de estrelas voltando ao sol.

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Valão

Há exatos 13 anos eu trabalhava em uma creche popular da capital fazendo trabalho voluntário. Essa instituição estava em uma vila extremamente pobre da cidade, uma zona de proliferação de doenças endêmicas, subnutrição e violência doméstica, cortada por um valão imundo e malcheiroso e controlada por uma facção poderosa do mundo das drogas. Uma vez uma equipe do Canadá veio me visitar para uma entrevista sobre humanização do nascimento no Brasil, e foi lá – no meio da miséria exposta de uma cidade grande – que resolveram gravar a matéria. Mas este é outro assunto…

Esta creche era controlada por uma freira extremamente carismática e poderosa. Próxima dos 70 anos, era extremamente respeitada na comunidade, inclusive pelos chefões das “bocas de fumo”, a quem recebia em sua salinha acanhada como uma verdadeira líder. Era também respeitada nos círculos da prefeitura e da Assistência Social do município, por ter uma personalidade forte, altiva e trabalhadora.

Um belo dia ela abre a minha sala de consultas com ar extremamente preocupado. Veio me dar uma notícia que considerava extremamente grave.

– Ele vai entrar com caminhões e retroescavadeiras, Ric. Vão invadir tudo aqui. Ele não tem respeito algum por nós, vai botar tudo abaixo!!”

Pedi que ela respirasse fundo e me contasse vagarosamente. “Ele”, era o prefeito, a ameaça atual. Prometera em uma reunião na qual ela esteve presente que um dos próximos projetos da prefeitura seria fechar o córrego imundo, o esgoto a céu aberto que dividia a comunidade, saneando a vila, acabando assim com as doenças surgidas da sujeira. Para isso precisaria derrubar e realocar os casebres que teimavam cair para dentro do valão.

– Mas irmã, ponderei, não é uma boa notícia? Não deveríamos estar felizes que a municipalidade resolveu finalmente olhar para essa parte esquecida da cidade? Não lhe parece uma bênção que um prefeito tenha finalmente prestado atenção em nossa existência?

Minhas palavras pareciam não fazer sentido para ela. Ela continuava ansiosa e agitada, e me descrevia a promessa como uma invasão, a destruição do seu lugar, da sua vila, da sua comunidade.

– Não confio nesse prefeito. Ele não tem boas intenções. Tudo o que ele quer é desmanchar nossa comunidade, botar tudo abaixo, fazer uma avenida cheia de carros cruzando aqui pelo meio, disse ela apontando para a margem do córrego.

Tentei mais uma vez argumentar, mas sem sucesso.

– Não me parece nada disso, irmã. Prefiro acreditar que essas coisas inevitavelmente aconteceriam. Um dia alguém daria um basta a esta vergonha, esta pobreza, esse descaso. Talvez, no futuro sequer será necessária a existência desta…

Parei. Foi nesse momento que olhei nos seus pequenos olhos azuis e percebi onde residia a sua angústia. Envergonhado, parei de falar sem terminar a frase. Ela, por caridade, fingiu não perceber que eu havia encontrado o âmago do seu desespero.

Uma vida toda ligada a curar feridas, oferecer comida aos famintos, ensinar meninos na arte da confeitaria, aulas de dança, creche e berçário para mulheres imersas na pobreza, acolhendo os viciados que a ela recorriam e se tornando a grande referência na comunidade, mais conhecida até que o próprio Papa, a quem devotava suas preces diárias. E agora, um prefeito janotinha pretendia acabar com a sua clientela. Os outrora famintos, desnutridos e ávidos de caridade poderiam receber pelas mãos do governo o que ela sempre ofereceu por caridade e amor. O progresso poderia acabar com sua importância, seu trabalho, sua missão de vida e até com sua identidade.

Pela primeira vez tive contato com esse sentimento paradoxal: a aceitação da dor alheia pelo gozo de ser o remédio. A irmã tratava os moradores da vila como seus próprios filhos e agora sofria as dores do abandono que se anunciava. Como toda mulher que vê os filhos saindo de casa, ela também sofria pela perda de sua família e sua função.

Em seus olhos pude ler, escrito com as tintas de suas lágrimas: “e se todos forem, o que será de mim?”, e pude entender sua dor e sua angústia.

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Contrariedades

Meu pai há muitos anos foi fazer uma uroscopia no hospital Ernesto Dornelles. Ao acordar da anestesia geral, e ainda tonto, eu me aproximei dele e perguntei como estava.

– Estou bem, não estou sentido nada, só uma zonzeira. O médico passou aqui e me deixou uma única orientação.

– E qual foi?, disse eu do alto da minha inocência, imaginando que era algo sobre a sonda ou algum medicamento.

– Ele falou que estou liberado para fazer tudo, mas devido à minha condição eu não devo ser contrariado em nada.

Disse isso e deu sua famosa risadinha britânica. Não importa a quantidade de boleta na mente; quem nasceu para esse tipo de piadinha nunca perde a oportunidade.

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Tagarela

Bla, bla, bla, bla…

Uma psicóloga me ligou hoje para conversar sobre um projeto interdisciplinar de levar suporte a meninas gestantes que vivem em condições precárias em um bairro muito pobre de Porto Alegre. Depois de escutá-la sobre esse projeto – pelo qual sou apaixonado há anos – comecei a explicar a ela minha perspectiva e as dificuldades que percebo para sua execução. Emendei a conversa falando sobre “centering pregnancy”, atuação profissional horizontal, grupos circulares, parto e sexualidade, doulas, tecnocracia, cesarianas, a necessidade da dor para par(t)ir, etc…

Subitamente eu me dei conta de algo gravíssimo. Na minha frente vi meu pai explicando sua dificuldade de conter ideias e pensamentos. Dizia ele: “Sou reservado e tenho problemas para conversar com desconhecidos, mas quando começo a falar tenho muita dificuldade de parar e me conter. Amarro um tema no outro, faço análises profundas, me empolgo, costuro os assuntos. Fico prisioneiro da empolgação”.

Percebi que ali estava mais uma maldição que herdei do meu pai. Não consigo parar, “engato uma quarta” e fico sem freios. As pessoas se assustam, ficam desconfiadas e temerosas. Não as culpo; eu faria o mesmo.

Sei que ponho muita coisa a perder pelo meu jeito. Fico envergonhado de ser assim. Como todo viciado, prometo que não vou fazer mais isso, que vou permanecer em silêncio e não vou atropelar as etapas naturais dos encontros para não gerar desconforto. Mas…. passa um tempo e lá estou eu de novo avançando o sinal e falando em demasia.

A gente tenta por muito tempo se afastar dos determinismos familiares, mas conforme o tempo passa percebe que percorre a trilha dos seus significantes, mesmo que de forma inconsciente. As vezes me dou conta que minha fobia social fica cada vez mais semelhante à dele, minha tristeza debochada também, assim como a matraca imparável.

Para todos que já foram vítimas das minhas conversas peço perdão. A pandemia e o isolamento pioraram essa angústia de falar, mas sei o quanto isso irrita quem se aproxima. Eu prometo com o tempo melhorar.

Juro, foi a última vez…

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Dentista

Hoje meu neto foi ao dentista e esse fato mobilizou traumaticamente a todos. Mas, essa sua aventura me fez lembrar minhas próprias experiências prévias com dentistas e dor.

Fui à dentista quando tinha uns 7 anos de idade, e acho que sei até o edifício onde ficava o seu consultório, no bairro Menino Deus que Caetano cantou. Lembro também que era uma dentista bonitona e quarentona com um nome muito curioso e diferente. Algum tempo depois fiquei sabendo que era separada, ou “desquitada”, algo muito incomum na minha época onde os casamentos eram eternos e a separação era um estigma social, em especial para as mulheres.

Certa feita, enquanto me atendia, convidou uma amiga que estava na sala de espera para lhe dar algumas informações. Entretanto, a simples troca de informações se transformou em um bate papo entre duas mulheres maduras. Enquanto ela fazia curativos nos meus dentes iniciaram uma conversa sobre assuntos absolutamente banais, até o momento em que resolveu dizer à amiga algo do tipo:

“Sim, mas é exatamente isso que nós mulheres sempre procuramos nos homens”.

Ato contínuo, olhou para mim um pouco constrangida e completou: “… mas acho que essa não é uma conversa que um menino de 7 anos deveria estar ouvindo. Esqueça isso tudo”.

Sua conversa e o comentário que se seguiu demonstraram duas coisas para mim: a primeira é a negação renitente, contra todas as evidências, de que as crianças estão atentas a tudo o que os adultos dizem. Para ela, um menino de 7 anos objetualizado em uma mesa cirúrgica era não mais que um ser inerte e passivo, e não alguém que captava avidamente todas as sensações, odores, palavras e sentidos do ambiente. A pergunta “o que ela estava querendo dizer sobre os homens?” me acompanha até hoje. A segunda lição que brotou desse encontro foi que exatamente por ter pedido que “esquecesse a conversa” estou aqui contando uma história erótica que me ocorreu há mais de meio século.

Aqui vai um ensinamento interessante: se quiser que alguém mantenha vivo na memória um evento perturbador peça que o tire da sua mente. Depois dessa proibição não haverá como apagar.

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Visita

Ela parecia estar acordando quando virou o rosto para mim. Sua face estava mais corada, por certo, que da última vez que a vi, e também não tinha algodões no nariz. Abriu os olhos com sofreguidão e balbuciou algumas palavras que não entendi. Por instantes suas pupilas passearam pelo alvo da conjuntiva olhando ao redor, tentando reconhecer o lugar; logo depois ensaiou um sorriso. Tentei ser econômico nos gestos para não assustá-la, mas levantei a mão aberta até a altura do ombro e curvei os lábios para cima, sorrindo.

Humm, está tudo arrumado aqui, disse ela colocando as mãos espalmadas sobre a cama. Vestia uma saia cinza e um suéter cor de vinho escuro. Parecia muito mais jovem, pelo menos 40 anos a menos. Sua pele perdera muitas rugas enquanto suas bochechas ganharam vigor e seus cabelos o viço que me acostumei a conhecer.

Com a ajuda de uma auxiliar sentou-se na cama e girou o corpo em minha direção, deixando as pernas brancas penduradas e as meias de cor bege apontadas para mim. Ao sentir-se mais forte ergueu os ombros e respirou fundo. Depois sorriu e me olhou nos olhos.

– Bom saber que está aqui. Chegue mais perto, meu filho.

Com um passo tímido cheguei mais próximo da cama. Ela ergueu as mãos magras e as colocou sobre meus ombros, enquanto aproximava seu rosto do meu. Acercou-se do meu ouvido e sussurrou baixinho as palavras, as quais guardei na mente sem nada dizer em resposta, como se aquela fosse uma verdade há muito conhecida.

– Voltei só para lhe dizer isso. Estou com sono, preciso voltar.

Recostou-se novamente na cama enquanto sua auxiliar lhe ajeitava a cabeça. Cruzou os braços sobre o peito e fechou os olhos, mantendo ainda um sorriso preso nos lábios. – Descanse, mãe. Até breve.

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Desejos

Há muitos anos, depois da aposentadoria, meu pai se deu de presente um carro importado. Bonito e vistoso, mas claramente exagerado para um sujeito de classe média.

Passado um ano da compra meu irmão viu estacionado perto de sua casa o recém lançado novíssimo modelo desse mesmo carro que meu pai tinha comprado no ano anterior. Como sempre, as mudanças eram pequenas. Faróis mais redondos, linhas levemente alteradas, alguma inovação tecnológica no painel com desenho diferente, mais “arrojado”. O que conta mesmo – motor, chassis e lataria – ficam iguais de um ano para outro, mas, o que importa é o impacto da aparência gritando na cara dos outros.

Quando viu o carro ficou impressionado com o luxo e a sofisticação. A frase que me disse, entretanto, é que foi curiosa:

– Vi o novo modelo do carro que o pai comprou. Cheguei a ficar com pena dele dirigindo aquele carro velho.

Sim, como dizia Sêneca, “a pobreza não vem da escassez de recursos, mas da proliferação dos desejos”. Toda a riqueza acima do limite das necessidades é governada pelos desejos, e estes são infinitos e incontroláveis. Um carro importado, lindo e sofisticado, pode virar pó diante da comparação com uma variedade mais nova e mais moderna. Não é a falta de recursos que o torna velho, mas o desejo despertado pela novidade.

Meu irmão nada disse para o meu pai, mas também acho que ele não cairia no truque. Apesar de ser admirador de carros charmosos ele não sucumbiria tão facilmente à armadilha da comparação. Curiosamente, esse carro cheio de símbolos de opulência só lhe ofereceu problemas e dores de cabeça, inclusive o desastre de ter o carro roubado em um assalto à mão armada. Eu havia lhe avisado que seu carro era um “chama-ladrão“, mas parece que o desejo de realizar um sonho infantil foi maior que o bom senso.

Depois desse episódio traumático resolveu refrear seus desejos e voltou a ter carros mais simples, como fazem as pessoas de juízo.

(Imagem meramente ilustrativa. Afinal, esse modelo aí já é velho e tem mais de 3 anos)

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O Cristal Trincado

Uma amiga minha me disse, há mais de 30 anos, que o amor é um cristal de delicada estrutura; uma vez trincado não há forma de consertá-lo. Ela me contou que teve seu primeiro filho na sua cidade natal, 200 km da capital onde morava, quando sozinha foi visitar sua família no interior. Tão logo a criança nasceu, conseguiu contatar seu marido por telefone (não havia celulares na época) e lhe contou a novidade, pedindo que ele viesse imediatamente conhecer o bebê. Ele respondeu que estava “atolado de serviço” mas que no fim de semana, “sem falta”, iria até o interior conhecer seu filho. Veio a conhecê-lo com 5 dias de vida.

Segundo ela, naquele exato instante, ao desligar o telefone e fechar os olhos pôde escutar a rachadura percorrendo a pele transparente do cristal, e os anos que se seguiram foram gastos na vã tentativa de remendar o que não tinha mais conserto. Entre os professores da obstetrícia havia um que se destacava dos demais por sua juventude e seu interesse na medicina baseada em evidências. Fazia contraste com a velharia da faculdade, que agia e pensava na base do “assim que eu faço há mais de 30 anos”, sem se preocupar com evidências bem embasadas. Este jovem catedrático era o que Marsden Wagner chamava de “liberal”, e avisava ser um dos profissionais mais perigosos. Parece ser aberto às novidades, mas apenas para aquelas que não ameacem sua autoridade e seu poder.

Durante uma aula eu fui, por certo, o único estudante que se deixou impressionar com um fragmento de frase que ele proferiu, dita de passagem entre uma e outra explicação. O resto da turma apenas concordou como se fosse algo tão somente óbvio. Disse ele: “Quando nós determinamos a via de parto para a paciente, ela deve ser preparada para….“. Para mim ficou claro, como nunca até então, que a forma como um bebê vai nascer é algo determinado por uma autoridade alheia ao binômio mãebebê. Algo de fora, um saber externo que transforma gestantes em objetos inertes e silenciosos, à mercê das ordens e comandos dos médicos. Por isso era possível determinar a forma como seu bebê seria trazido à luz. Foi nesse instante que percebi que as mulheres eram alijadas das decisões sobre o parto. Também ficou claro, a partir desse momento, que qualquer mudança na atenção ao parto seria bem vinda, desde que jamais atingisse o centro nevrálgico do paradigma médico: a posição objetual da gestante como condição essencial para a prática de sua arte.

Quando ouvi múltiplas vezes o eco de suas palavras reverberando pelos anos seguintes percebi que um projeto de reforma profunda na atenção ao nascimento só poderia emergir se subvertesse essa lógica. Por isso a frase “Humanização do nascimento é garantir o protagonismo à mulher”, pois enquanto não houver a mudança dessa narrativa – e o médico continuar “determinando” vias de parto a despeito do desejo das mulheres – manteremos a mesma tutela secular do patriarcado sobre o corpo e o desejo de gestantes. Essa aula foi o meu “trincar do cristal”, e depois dela eu nunca mais pude olhar a atenção ao parto se não fosse por uma perspectiva libertária.

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Espaços estanques

Estava eu aqui pensando nos limites entre “vida profissional” e “vida privada” quando lembrei de um dos meus encontros com as parteiras do México – em especial Angelina Martinez, de quem tenho a honra de ser amigo até hoje. Em uma de nossas visitas à sua Casa de Parto em Temixco, próximo de Cuernavaca, depois de uma manhã atribulada resolvemos fazer uma pausa para almoçar.

Enquanto comíamos a deliciosa comida que sua nora nos preparava vi Angelina cruzar a cozinha da casa e entrar em seu quarto segurando a mão de uma grávida. Alguns minutos depois, saiu com a gestante, despediu-se dela e se uniu à nós na mesa. Intrigado com a cena, perguntei-lhe quem era.

Ahh, disse Angelina, apenas uma cliente que veio fazer “rebozo”. Como os leitos da Casa de Parto estavam todos ocupados eu a trouxe para cá e fiz a “sobada” e o rebozo na minha própria cama mesmo.

A sua explicação me deixou espantado. Tendo passado muito tempo nos Estados Unidos visitando consultórios médicos – onde o contato é restrito aos rígidos limites profissionais e onde sequer o telefone pessoal do médico se tem acesso – aquela cena me chocou. A naturalidade com que Angelina mesclou espaços privados com públicos estava muito além da minha experiência até então.

Pensei nas roupas brancas, no estetoscópio pendurado no pescoço, no dialeto mediquês, nas várias salas que precisa-se vencer até chegar ao profissional, na mesa que separa corpos e hierarquias, nos diplomas na parede e no discurso empolado e pude perceber com inusitada clareza que são todos tão somente artifícios produzidos para afastar os médicos de seus pacientes, numa espécie de redoma de significados e palavras que, ao mesmo tempo que os protege, também os exalta. Criamos barreiras para não permitir que o paciente enxergue nossa humanidade, permitindo a eles apenas a visão idealizada que constroem sobre nós.

Angelina não precisava desses signos e por esta razão não usava nenhuma barreira para afastar seu mundo do mundo de suas “gorditas”. Depois desse dia passei a enxergar de forma mais crítica todas as formas que criamos para manter separados estes espaços.

Obrigado também por isso, Angelina.

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Careca

Eu já falei muitas vezes que nasci sem o chip do “amor aos animais”, e é verdade. Não tenho este tipo de sentimento de proximidade com os bichos e não consigo suportar em minha retina imagens antropomorfizadas de cães e gatos. Não os vejo como “crianças”, anjinhos, amigos ou parceiros. São bichos, e tenho certeza que eles gostam do que são. Não gosto de promiscuidade, gente dormindo com cachorro ou bicho de banho tomado com perfume.

Há muitos anos escutei uma frase de um veterinário homeopata que me marcou muito: “Consigo perceber com facilidade as vantagens emocionais de manter os animais domésticos próximos de nós, em especial para os velhos e as crianças, mas tenho dificuldade em encontrar vantagens que eles possam ter com a nossa presença”.

Isso dito, e reconhecendo minhas limitações, eu por vezes me questiono o que seria uma boa vida para um desses animais. Será que um gato castrado que faz companhia para uma senhora viúva em um apartamento é… “feliz”? E quanto a um cachorro que mora no pátio de uma casa, será ele mais feliz que um primo seu que mora na rua? O Vagabundo era mais infeliz que a Lady? Deveria invejá-la ou ter pena de sua prisão maravilhosa?

Penso nisso quando lembro da cadela da Comuna, a matriarca de nossa pequena matilha. Seu nome foi dado pelo meu neto Oliver em homenagem aos seus dois avós homens: “Careca”. Foi encontrada há muitos anos vagando pela nossa rua, que é um tradicional ponto de “desova de cães”. O esquema é conhecido: Chega o carro, diminui a marcha até parar, abre-se a porta do carona e ali o bichinho é deixado.

Para o azar da Careca não apenas foi deixada por sua antiga família, mas ao ser largada na rua foi atropelada, quebrando o quadril. Quando foi encontrada (horas? dias?) depois pelo nosso caseiro Márcio ela carregava apenas uma fina camada de pelo sobre uma montoado de ossos. Magra, feia e manca. Estava nas últimas.

Que fazer? Bem, o que fizemos foi acolhê-la e tratar seus machucados. Posteriormente, Luiz Augusto a levou para ser castrada. Acabou ficando na Comuna como guardiã, parceira de brincadeiras das crianças e caçadora de quero-queros. Hoje é uma senhora feliz, bem alimentada – apesar de continuar manca pelo acidente.

Olho para a Careca como um símbolo de resiliência e de fé. Depois do abandono e do acidente que lhe causou sequelas ela tinha apenas um destino sombrio à frente. Todavia, acabou recebendo como prêmio o “Éden Canino”, vivendo no melhor lugar onde um cão jamais sonharia viver. Livre, solta, independente, sem coleiras, sem espaços exíguos, sem opressão e sem regras. Careca tem a felicidade que eu gostaria de ter. Carrega no corpo a marca de sua vida de desventuras, mas conseguiu vencer a despeito de suas tragédias.

Está pronta para reencarnar como uma menina na próxima vida. Espero apenas que ninguém tenha a ideia de lhe colocar este apelido.

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