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O Jardineiro Fiel

No corredor comprido e gelado do Hospital escola subitamente escuto uma voz ao meu lado, de alguém que acompanhava meus passos.

Ricardinho, disse ele. Quanto tempo!!

Olhei para o lado e encontrei um rosto conhecido. Sim, Gustavo – ou Guta – um amigo de infância, colega de escola. Jogamos muita bola juntos. Ele tinha um irmão mais moço, cujo nome não lembrava. Percebi que ele carregava uma enorme pasta, quase uma mala, e estava vestido de terno e gravata. O sorriso fácil estampado no rosto não deixava dúvidas: ele era um propagandista da indústria farmacêutica, profissionais que circulam dos hospitais fazendo publicidade dos seus remédios e oferecendo brindes, presentes, amostras grátis e outras facilidades para os médicos.

Foi muito cedo que eu conheci a Ciranda de benefícios, agrados e presentes que cercam os médicos nesta junção entre medicina e capitalismo. Ainda na faculdade assistíamos as apresentações dos propagandistas nos intervalos das aulas no hospital. Já naquela época recebíamos deles todo o tipo de agrado. Quando estava no último ano da Escola Médica, prestes a me formar, fomos em um grupo de doutorandos e residentes de ginecologia para um congresso sobre DST no Uruguai, onde um trabalho nosso seria apresentado. A viagem de ônibus – assim como os jantares, os lanches e até a bebida – foram pagos pelos laboratórios farmacêuticos. Era a semeadura, para que depois pudessem fazer a colheita.

– Conheces o Dr. F. aqui do hospital? perguntou meu amigo.

– Por certo que sim, Gustavo. Ele é o chefe do serviço. A equipe dele se reúne todas as segundas feiras. Precisas falar com ele?

– Ahh, se você pudesse me arranjar um encontro, mesmo informal aqui na cafeteria, isso seria o máximo. Eu represento o Laboratório N* e estamos lançando uma nova droga. Chama-se…

Ele me descreveu com pormenores o remédio que estava querendo apresentar ao meu chefe. Tratava-se de um medicamento anti-inflamatório não esteroidal, algo que nos próximos anos se tornaria um tremendo sucesso. Ele parecia excitado em me falar dessa droga, de tudo o que ela prometia, e como era importante que ela fosse padronizada na prescrição do hospital escola.

– Guta, disse eu, não passo de um mísero residente. Não tenho influência alguma sobre um médico famoso e importante como ele. Não creio que possa lhe oferecer ajuda.

Ele continuou com seu sorriso largo e explicou:

– Preciso chegar lá em cima, Ricardinho, nos chefes. É assim que funciona esse meu trabalho. Ele é um formador de opinião; se ele resolver padronizar “meu” remédio aqui e, mais ainda, se ele incorporar esta nova droga ao seu receituário pessoal não será sequer necessário falar com vocês. Ele é o “Papa”, e aquilo que o Papa escreve, os padres e as freiras copiam. Sacou? Por isso preciso “pegar” ele, o peixe grande.

Sorri para o meu velho amigo e o abracei. Desejei boa sorte e sucesso em sua empreitada. Hoje sei que foi plena de sucesso, já que o seu remédio se tornou um negócio multi milionário e um campeão de vendas. Mas, não foi a publicidade da droga o que ficou guardado em minha mente, nem a gravata extravagante ou o sorriso sedutor de meu amigo. O que eu nunca mais esqueci foi que aquela foi a primeira vez que me vi como “gado”, a ponta de lança de um negócio gigantesco, milionário e – muitas vezes – corrupto.

Depois de alguns anos desenvolvi um completo rechaço à mercantilização medicamentosa da saúde. Percebi o quão danosa esta relação entre dinheiro e saúde poderia ser e passei a ter uma visão crítica e – por vezes – ácida sobre estas questões. Com o tempo os propagandistas de medicamentos foram aos poucos deixando de me procurar, apesar de sempre tê-los tratado com educação e gentileza. Eu não era mais alguém em quem valia a pena investir tempo ou dinheiro.

Todavia, sempre fui fascinado por esse aspecto sombrio da medicina. Os propagandistas eram todos muito jovens (e os coroas, joviais), graduados na universidade, excelentes salários, bonitos, simpáticos, educados. Depois de alguns anos chegaram as mulheres. Uau, algumas eram de tirar o fôlego: sensuais, reservadas, simpáticas, lindas, conhecedoras do assunto. Todos eles nos envolviam magicamente apresentando os remédios com estudos de questionável qualidade, estatísticas igualmente frágeis, mas acompanhados de uma apresentação impecável.

Com os propagandistas aprendi muito. Não sobre drogas e seus usos, mas sobre o submundo da medicina. Depois de muitos anos eles acabavam criando confiança em mim e contavam o que ouviam nos consultórios.

– Um colega seu, aqui da Rua da Praia, ontem mesmo me disse: “Eu sempre prescrevi seu concorrente, mas posso mudar minhas receitas. O que você tem a me oferecer? Uma passagem de avião para o próximo congresso? A inscrição? Diga, o que eu ganho por esta troca?

– Sério? O pessoal trata vocês assim? Pedem agrados, presentinhos, passagens, inscrições….. propina? Em troca de uma mudança de receituário?

– Sim, claro. Nem sabe como é para montar os congressos. A jogada é assim: quando compram um “stand” de promoção de seus produtos isso lhes dá direito a uma palestra para promover um determinado medicamento. Podem convidar os seus próprios pesquisadores, sejam daqui ou do exterior. Acredite, sempre rola muita grana nesses eventos.

– Claro, mas esses agrados são só para os grandes, os “chefes de serviço”, os formadores de opinião. A chinelagem, o gado…. recebe uma caneta com o nome do remédio.

Dizia isso e mostrava para eles a canetinha que acabara de ganhar. Eles davam uma risada constrangida, tentavam explicar, mas era óbvio que eu era a ponta menos importante da equação das vendas. Peixe pequeno quando comparado àqueles que devotavam boa parte da sua energia para ocupar estes postos de poder. Agora eu entendia de onde vinha tanta energia para as disputas ferozes e violentas que meus colegas empreendiam para subir de importância dentro da corporação.

Com o tempo estes personagens foram escasseando da minha sala. Não vinham mais nem para tomar o sagrado cafezinho. Na volta do almoço eu os via aglomerados esperando os meus colegas de andar voltarem para as consultas da tarde. Eu ficava tentando imaginar como eles me enxergavam. Talvez como o tolo, o iludido, o ingênuo, o burro. Afinal, que mal poderia haver em receber estas amostras grátis, as suas belas palavras, suas agendas e seus porta-canetas?

Minha explicação para eles sempre foi: “Ninguém faz propaganda de pastel. Se estas empresas precisam contratar alguém como vocês para me fazer prescrever esta droga é porque, sem toda essa sedução, ela não se sustentaria”.

Já nesta época já me vinha à cabeça uma frase que me acompanhou até meu último dia de consultório: “Se a saúde baseada em evidências fosse realmente levada a sério a medicina praticada a partir de então seria um espetáculo completamente irreconhecível por nós”. Nenhuma propaganda seria necessária e os poucos medicamentos administrados seriam facilmente encontrados e muito baratos. As consultas seriam ricas de detalhes, plenas de envolvimento afetivo, orientação, exercícios, educação sobre caminhadas, comida de verdade, sexo, alegria, família, futebol, gargalhadas, etc.

Porém, nunca me deixei iludir. Eu bem sabia que a nossa medicina, capitalista e decadente, ainda reinaria por muitos anos, lucrando com nossas doenças e com nossa infelicidade.

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Guerra de autoridades

Ficar citando a opinião ou a perspectiva de médicos, químicos, virologistas, pesquisadores famosos a respeito da pandemia pode ter valor de alerta ou para estimular um debate saudável, mas não para determinar as condutas.

O que temos visto ultimamente na arena da Internet é uma guerra de autoridades. Meninos brigando por tamanho de pau. Disputa de egos. Infelizmente esta não é a arena adequada para descobrir a verdade e não se faz ciência com argumentos de autoridade, mas apenas com evidências atualizadas e bem avaliadas. Ficar citando o nome dos cientistas é pura perda de tempo e muito mais útil seria mostrar os estudos que eles publicaram, as análises feitas, as críticas de seus pares e os resultados encontrados.

H-Index não tem valor NENHUM diante de casos específicos. É uma medida de relevância no mundo acadêmico. São aqueles quadradinhos coloridos no peito dos generais. Valem para dar respeitabilidade a um pesquisador, mas não para mostrar as evidências em um determinado problema.

Certa feita 400 cientistas assinaram um documento contestando achados de Einstein. Este, quando ele viu o documento, respondeu: “Puxa, 400!! Não precisava tudo isso. Bastava apenas um com boas evidências.”

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Consulta Virtual

Depois de 35 anos de análise dei uma parada em função da pandemia. Fui convidado a continuar na modalidade “à distância”. Via Skype ou Whatsapp.

De pronto me neguei.

Entendo a necessidade de manter os atendimentos. Entendo que é possível manter uma análise à distância e compreendo o ineditismo da pandemia em termos de confinamento, mas não consegui aceitar para mim este modelo. Até porque não aceitaria atender assim, salvo emergências.

Após receber o convite fiquei pensando sobre as “sessões virtuais” e cheguei a conclusão que minha dificuldade em aceitá-las tem a ver com a sacralidade que reconheço nesse tipo de encontro.

Não apenas o contato direto com o terapeuta me parece essencial mas todo o ritual que o cerca – sair de casa, pensar no caminho, aguardar uns minutos antes de ser chamado, voltar para casa, ruminar sobre o que foi discutido, tomar decisões. Todos esses passos fazem parte do processo. Para além das terapias, também é um ritual que está impregnado na forma como se estabelecem os encontros médicos. Três décadas escutando pacientes me mostrou que existe muito mais numa visita ao médico do que as palavras ditas na brevidade de uma consulta.

Muitas vezes o não dito é mais importante do que o debatido, assim como as palavras podem ser menos importantes do que os silêncios. As vezes sobrevém a sedução de pensar “mas era algo simples, olhar um exame“, mas as coisas são simples tão somente na aparência. Cada encontro desses carrega um fardo de angústias, tensões, histórias, lembranças e um pedido sutil de ouvidos benevolentes em uma escuta gentil e respeitosa. Muitas consultas eliminam sintomas bastando para isso sentar e chorar um pouco.

Em silêncio.

Para além disso, as questões do “olhar”, que considero muito importantes, são fundamentais. Lembro das queixas de pacientes sobre seus médicos quando diziam “ele nem olhou para mim”. Isto é, ele não reconheceu sua dor, sua tristeza, sua angústia.

Sei que sou cafona, boko-moko e saudosista. Sei também que talvez não haja saída ou futuro para este médico que, não só estava presente mas ia na sua casa e sabia o nome do seu cachorro. Sei que os vínculos hoje são tênues e os médicos carregam epítetos estranhos e despersonalizantes como “médico do posto” ou “médico do convênio”, sem rosto, sem nome, sem estilo e sem história. Todavia, a velhice apenas deixou mais evidente uma crença da juventude:

“O maior remédio que um médico pode oferecer ao seu paciente é sua presença e sua escuta isenta de preconceitos, e nenhuma cura verdadeira ocorre sem vínculo” (adaptado de Balint)

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Vulvas defeituosas

Poucas coisas são mais emblemáticas do machismo estrutural da Medicina, da ginecologia e (em especial) da obstetrícia do que uma especialidade médica que se ocupa em consertar os erros essenciais da genitália feminina.

Não é necessário usar o argumento sexista de que deveria haver uma especialidade médica para ajustar os equívocos do aparelho reprodutor masculino também, e a razão é simples: nenhuma alteração seria necessária em qualquer dos gêneros, pois esta anatomia foi criada e modificada por milhões de anos de processo adaptativo. Não existe beleza que não seja simbólica, nem feiúra que não se faça pelo olhar que a cultura devota a um fato, objeto ou sujeito. Os conceitos de “belo” são produções de suas épocas, que o digam as divas gordinhas do século XVIII ou as roupas estravagantes dos anos 70.

A idéia de “consertar” genitais femininos só pode partir de um olhar diminutivo, defectivo e preconceituoso sobre a anatomia feminina. Apenas uma sociedade ainda soterrada nos conceitos patriarcais pode admitir que exista um estética “adequada” ou correta para vulvas. Acreditar que existe “algo a melhorar” é aceitar a inferioridade física da mulher como um fato.

Eu ainda fico mais surpreso ao ver tantas mulheres se submetendo à ideologia de defectividade dos seus corpos. Também ficava chocado com mulheres que me diziam ter “nojo” (era essa a palavra usada) de tudo relacionado à menstruação: cheiro, “sujeira”, sangue, manchas, dores, alterações de humor, etc. Nunca escutei um homem reclamando de seus testículos, mesmo sendo uma anatomia muito mais questionável (por quê do lado de fora do corpo??), e muito menos do pênis. Mas, incrivelmente, testemunhei mulheres descrevendo vulvas e vaginas como “feias”, “asquerosas”, e “nojentas”.

Claro que estes discursos são produções culturais. Não existe valor absoluto nestes conceitos. Meninas são ensinadas a desvalorizar seu corpo, a tratá-lo como equívoco e falha, enquanto os meninos o enxergam como potência e beleza.

Outro fato curioso é que na diretoria da “associação brasileira de ajeitadores de x*x*ca” está…. uma mulher, o que mostra que a visão diminutiva da mulher é tão forte e pervasiva que as próprias mulheres médicas precisam acreditar nela para exercer essa função. É verdade, mas bastaria observar como as médicas se comportam em relação ao parto para entender como a visão médica do feminino tem poder sobre as próprias mulheres que se propõe a tratar os corpos de outras mulheres.

Sempre haverá desculpa para explorar este tipo de mercado. A primeira é de que seria para ajustar problemas congênitos ou produzidos pelos partos – o que seria razoável – mas sabemos que a publicidade é direcionada às mulheres normais em busca de uma “xexeca perfeita”, um produto criado de forma proposital para vender todos os artifícios possíveis nesta busca – a exemplo do corpo com formas perfeitas que se busca nas “academias”.

A segunda desculpa é de que isso se deve a uma “demanda das próprias mulheres” a exemplo do que ocorre nas cesarianas, mas sabemos o quanto estas demandas são artificialmente produzidas pelas ideologias hegemônicas, que direcionam as mulheres a desconfiar de suas formas, nunca se satisfazerem do seu corpo e, no caso das cesarianas, não acreditar em na sua capacitação inata para gestar e parir com segurança. Assim, como ação inicial – cultural e subliminar – desacredita-se nas capacidades femininas insuflando-se desde a mais tenra idade uma desconfiança essencial e, como segunda etapa, vendem-se soluções cosméticas ilusórias para suprir esta falta, que vão das cesarianas às plásticas vulvares. Lucra-se com a destruição da autoimagem feminina, vendendo a elas a solução externa para um problema que foi criado no interior de suas almas.

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Filmagens

Sobre permitir filmagens de hospital somente mediante autorização. Para debater…

Sim, mas já pensou quem dá autorização para que o hospital seja filmado e fiscalizado? O delegado? O diretor do hospital? O diretor da maternidade? E dará em que circunstâncias?

Eu acredito que o melhor para o serviço público é ser absolutamente transparente. Como nos Estados Unidos (nas poucas coisas que eu concordo com as leis de lá): pode filmar tudo que seus olhos puderem enxergar em espaços PÚBLICOS. Não há expectativa de privacidade quando se está na rua ou em lugar de livre acesso. Qualquer cidadão com um celular na mão tem prerrogativas de “imprensa” e pode controlar e registrar o que é feito com o seu dinheiro aplicado nos impostos. Cada cidadão se torna um FISCAL do uso do dinheiro público.

Isto é: Pode filmar a polícia, os hospitais, a prefeitura, o trabalho dos funcionários públicos, desde que (e aqui o ponto FUNDAMENTAL) esteja em um local aberto ao público. Assim, você não pode invadir a sala de parto ou a sala cirúrgica de um hospital, mesmo que sejam hospitais PÚBLICOS. Não pode invadir a sala de interrogatório de uma delegacia de polícia ou a sala do prefeito, pois são espaços (de acesso) RESTRITOS, usados apenas por quem lá trabalha.

Uma medida como essa parece ser de proteção aos profissionais da saúde que são ameaçados por familiares pacientes – em especial os bolsonaristas hoje em dia. Entretanto, a resposta da sociedade para proteger profissionais e o seu trabalho não pode ser ESCONDER ou impedir que sejam registradas as suas ações que são públicas. Este tipo de “censura” serve muito bem aos governos totalitários que dificultam o acesso às informações do que ocorre dentro de espaços que, em última análise, pertencem a todos nós.

E vejam só…. percebam o que ocorreu com a assistência ao parto quando os centros obstétricos foram lentamente “invadidos”, primeiro pelos pais e acompanhantes nos anos 80, e depois pelas doulas neste século. Quantas transformações ocorreram exatamente porque as ações dentro do centro obstétrico puderam ser vistas, testemunhadas, fiscalizadas e registradas.

Mesmo que muitos profissionais tenham sido prejudicados por esta vigilância o saldo para a população é positivo. Muito mais importante é descrever as alas restritas dos hospitais e permitir que seja registrado o que está acontecendo, porque o segredo e a censura nunca são estratégias positivas em longo prazo.

Sobre o projeto de lei que deseja proibir as filmagens, clique AQUI.

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Fechamento

Sobre o fechamento de setores do Hospital da PUC de Porto Alegre (obstetrícia, neonatologia, pediatria e cirurgia pediátrica) escreve abaixo um médico que lá trabalhou por vários anos. Acredito apenas que seu diagnóstico final está equivocado; não é “neoliberalismo” o nome dessa doença, mas CAPITALISMO. Esse modelo econômico, quando aplicado à saúde é trágico e desumano. Como fica bem claro no texto, partos, nascimentos e crianças “não dão lucro”. Agora o hospital vai centrar suas ações na áreas que dão mais dinheiro e, via de regra, aquelas que produzem menos impacto na saúde da população. Ou alguém ainda vai discutir que um bom nascimento e uma boa infância são os caminhos mais seguros para uma vida saudável?

Ahhh, não sei se é o caso do colega, mas quando lembro do apoio entusiasmado dessa corporação em favor de Aécio, depois os ataques contra Dilma, pela prisão injusta de Lula e finalmente a favor da eleição de Bolsonaro eu fico pensando… o que esperavam depois de tantas escolhas insensatas e umbigocêntricas?

A partir de agora sugiro aos guardas do hospital que, quando forem obrigados a mandar uma grávida ou uma criança doente à procura de outro hospital, que orientem os pacientes para que peçam ajuda à “mão invisível do mercado”. Talvez assim eles mesmos passem a entender que saúde NÃO é negócio. Talvez pela dor possam compreender que assistência à saúde é um direito humano básico, essencial e inalienável, a que todos devem ter direito, não obstante sua condição econômica.

E viva o SUS.


Texto de José Beltrame Cusco

“Hoje é um dia muito triste para mim. Daqui a pouco vou para o Hospital São Lucas da PUC-RS para o que será o meu último plantão na instituição – e dentro de poucos dias serei demitido, juntamente com outros colegas. Trabalho no Centro Obstétrico e este será fechado, extinto, como também os serviços de Pediatria, neonatologia e Cirurgia Pediátrica. A justificativa? É porque estes serviços “não dão lucro para o hospital.” Alguns colegas, professores com muitos anos de casa e um trabalho de qualidade notável já foram demitidos sem a menor consideração, inclusive pegos de surpresa, porque ninguém da direção teve a mínima decência de consultar os profissionais.

No aspecto pessoal, vou perder uns 30% dos meus ganhos, o que causa impacto mas não chega a ser nenhuma tragédia, porque ainda dará pra ter um padrão de vida confortável. Muito pior é para alguns profissionais que trabalham exclusivamente lá. E muito pior é o impacto no sistema de saúde pública da cidade, e para as pacientes do SUS que atendemos sempre com toda a atenção e o cuidado que elas merecem. E para as crianças e seus pais aflitos com as doenças que atingem os pequenos. E agora? Que se virem, que procurem outros hospitais – que vão ficar ainda mais sobrecarregados.

Há prejuízo também para os médicos residentes, que prestaram um concurso difícil para fazer sua especialização no hospital de sua escolha, com qualidade, e que serão realocados para outros hospitais que jamais escolheriam. E prejuízo ao alunos do curso de Medicina da PUC, que não terão onde acompanhar atividades práticas em duas áreas importantíssimas da medicina (pediatria e obstetrícia) e terão que “pipocar” por outras instituições… O curso de Medicina da PUC, com mensalidade caríssima, já foi considerado o melhor curso entre as universidades particulares – e vai deixar de ser. Mas a mensalidade não vai baixar, é óbvio.

Eu fiz minha formação como especialista no Hospital de Clínicas, que felizmente tem outra cultura e outra visão como instituição, mas trabalho no hospital da PUC praticamente desde sempre, desde que acabei minha formação. Eu fico muito triste com isso, mas a indignação é maior que a tristeza. O nome disso?

Neoliberalismo.”

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Ainda cloroquina

Não creio em razões políticas para a manutenção da Cloroquina como opção para a pandemia, mesmo após as repetidas informações sobre sua inefetividade, partindo de organizações de saúde e de governos. Creio que o buraco é outro.

As verdadeiras razões jazem nas profundezas do inconsciente e são derivadas da pressão do “imperativo tecnológico” sobre as ações médicas. Existe uma pressão positiva sobre a ação dos profissionais da Medicina, uma expectativa de “algo a ser feito”. Não se admite que alguém com essa responsabilidade social – como o médico – não aja positivamente, ativamente. Essa é uma lei não escrita que regula a medicina.

Se uma pessoa morre de Covid SEM o uso de Cloroquina a família, os colegas e até a opinião pública (mídia) podem acusar o profissional de negligência, por não usar algo que “muitos outros dizem salvar vidas”. Por outro lado, se o sujeito morre de Covid tendo usado a Cloroquina – mesmo que a morte tenha ocorrido pelos seus efeitos tóxicos (!!!!) – ainda restará ao profissional dizer “fizemos tudo ao nosso alcance”. É raro um médico ser acusado por ter FEITO algo, e o comum é o acusarem por NÃO ter feito o que se supõe deveria fazer.

Ciência e evidências científicas desempenham um papel pouco expressivo nas escolhas médicas. Elas são majoritariamente tomadas por pressões de ordem subliminar. Médicos prezam seus empregos, sua qualidade de vida e seu status – como qualquer outra profissão. Enfrentar as acusações em nome do rigor científico e de suas convicções é raríssimo. Se as evidências e estudos sistemáticos REALMENTE guiassem o proceder médico a medicina desta forma empregada seria absolutamente irreconhecível.

Alguns meses depois de formado encontrei colegas de residência que me diziam: “Essa história de parto normal é muito bonita, mas não funciona no mundo real. Na cidade do interior onde trabalho as mulheres chiques (esposas da elite interiorana) marcam cesariana. Se eu negar serei mal falado na cidade, e vão espalhar que ‘não sei operar’. Se eu tentar esclarecer serei chamado de ‘Joãozinho-do-passo-certo’. Todavia, se eu ceder e operar sem justificativa serei abraçado, reconhecido, bem pago, elogiado e jamais serei questionado. Só um maluco suicida faria uma opção diferente desta última.”

Nas escolhas deste colega, onde está a ciência? Mas, quem pode dizer que esta escolha é irracional? Pode ser equivocada e cínica, mas quem a toma tem suas razões.

Médicos são guiados pela mão invisível da cultura. São produzidos pelo cadinho de valores que nela transitam. São PRODUTOS culturais, assim como a medicina que praticam. Aqueles que ousam questionar os pilares sobre os quais se assenta esta prática vão receber a resposta dura e inexorável dos representantes do modelo hegemônico. Não há mudança sem luta – e sem mártires.

Não se trata de culpar as ações de médicos que – por medo ou oportunismo – mantém os modelos intocados, mesmo quando claramente insensatos e sem base científica. Mais importante é mudar a cultura através da educação. Um povo educado produz médicos menos agressivos e mais seguros. Houvesse mais educação para todos sobre ciência e a discussão sobre a Cloroquina teria uma face muito mais racional e simples.

É o nosso atraso que mantém o debate em bases tão primitivas.

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Vigilância fetal

Sobre vigilância fetal:

Minha pergunta é simples, até singela: haverá uma justificativa comprovada dos benefícios da vigilância ostensiva sobre o bem estar fetal se forem retirados todos os condicionantes tecnocráticos da assistência ao parto?

A ausculta fetal faz parte do cenário da assistência ao parto, assim como os exames de toque sequenciais e sistemáticos. Estes últimos só agora – e muito timidamente – começam a ser questionados. Já a ausculta se mantém intocada e impávida. Ambos os exames produzem poderosas mensagens subliminares: o profissional é quem diz do andamento do parto, e estabelece o bem estar do bebê. Só ele tem o livro de códigos para saber o que houve, quanto falta e se tudo está bem. As mulheres e seus maridos são passivos observadores da tradução que o profissional faz a partir destes sinais. Um poder gigantesco, acreditem…

Porém, sempre houve em mim uma dúvida corrosiva sobre a real necessidade destas invasões, ou quais os limites desta intervenção. Se fosse possível eliminarmos o stress, o isolamento (físico e psíquico), o medo, o pânico induzido, a separação, as drogas indutoras, os anestésicos, a linguagem agressiva e a própria hospitalização – ápice da objetualização da gestante – continuaria sendo válido o tratamento do bebê como “bomba relógio”, prestes a explodir? Qual o real percentual de bebês que produzem transtornos perceptíveis em partos livres do artificialismo da medicina atual? Talvez ninguém tenha essa resposta…

Quem sabe esta ação panóptica sobre o bebê se justifica apenas pelo ordenamento tecnológico que o antecede?

Será esta ausculta o resultado natural que criamos para remendar o estrago anterior criado pela profunda desnaturalização do parto pelas culturas contemporâneas?

Parto desnaturalizado = punch 1
Vigilância fetal = punch 2

Ou…

A polícia brutal que temos e a vigilância sobre pretos e pobres não é o resultado da sociedade de classes? Eliminadas as castas e a brutalidade de sua injustiça quanto ainda precisaríamos de polícia?

Creio que tratamos como necessidade o que é, em verdade, a criação artificial derivada de uma deturpação.

Não é?

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Cloroquina, a droga da direita

Entrei em uma conversa numa página que criticava o uso da Cloroquina com a tese de que não há evidências de que esta droga produza benefícios, além de existirem suspeitas fortes de que seus efeitos colaterais suplantariam seus possíveis efeitos benéficos. Nada a discordar deste tipo de postura, por certo.

Resolvi, entretanto, responder dizendo que o mesmo comportamento de desconfiança com a Cloroquina deveria nos nortear em relação às vacinas – que estão sendo produzidas às pressas, nas coxas, e sem qualquer garantia de eficácia “in vivo” ou de que seus efeitos colaterais suplantam seus possíveis benefícios. Para mim é fundamental cultivar a coerência diante destas soluções exógenas criadas para tratar um desequilíbrio que – ao meu ver – tem relação com nossa ação destrutiva com o meio ambiente.

Sem surpresa fui atacado por pessoas desta página porque (ahhh, a velha falta de interpretação de texto!!) acreditaram que meu comportamento cioso com relação às vacinas (que estão para ser colocadas no mercado a “toque de caixa”), significava uma defesa da Cloroquina. Em verdade, era apenas um pedido de coerência. Se ainda guardamos na memória os desastres que já aconteceram com o uso insensato de drogas, deveríamos multiplicar nosso cuidado com uma vacina sem garantias. Não esqueçam da Talidomina, dietilbestrol, Vioxx, Rx na gestação, etc…

Porém, o que mais me chama a atenção nessas manifestações é a equação simplificadora presente nas mentes mais ingênuas. Para estes – que são até da esquerda!!! – a Cloroquina é uma droga de “direita”, pois o Bolsonaro e o Trump a defendem (ok, esquecem que Maduro, o cruel comunista, também). Por seu turno, as vacinas são de “esquerda”, porque são feitas por “cientistas”, que usam a ciência como ferramenta, sendo esta filha da razão, que é claramente de “esquerda”, em contraposição ao “misticismo” e ao “obscurantismo” que são de “direita”.

Se é importante combater a chaga do negacionismo – na história, na política e nas ciências – também é essencial entender como esta colocação de antípodas é absurda. A ciência NÃO é de esquerda, e nem de direita. Ela é apenas uma ferramenta para solucionar problemas. As vacinas, por exemplo, são medicamentos produzidos pelas indústrias mais poderosas do mundo capitalista, tanto do ponto de vista do imaginário popular quanto dos poderes sobre os governos. Achar que as vacinas – ou qualquer outra droga – representam a “Ciência” é uma conclusão tosca, em especial num planeta em que o sistema capitalista é dominante. Vacinas são drogas como quaisquer outras e sobre elas devemos ter a mesma exigência de segurança e eficácia.

A retórica das esquerdas precisa se aprimorar. A Cloroquina não é uma droga do “mal”, ou “conservadora”. Ela apenas é inútil para o uso nesta pandemia, pelo menos até onde os estudos recentes comprovam – o que pode até mudar. Para as vacinas, o mesmo raciocínio isento e equilibrado deve ser utilizado: tudo bem, desde que sejam adequadamente testadas e comprovadamente eficientes para oferecer proteção à população (tarefa que dura muitos anos para se alcançar), mas enquanto isso teremos apenas um remédio “mágico”, sem comprovação – como a Cloroquina.

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Lugares

Durante minha experiência na obstetrícia conheci centenas de médicos, boa parte deles vivamente interessados na humanização do nascimento. Muitos me escreviam longos emails, me chamavam pelo MSN, me procuravam em congressos e me perguntavam questões relativas à prática cotidiana.

Uma parte deles se achegava pelas evidências científicas, outros pelos aspetos emocionais (mãe, pai, família) enquanto alguns mais pela questão jurídica e dos direitos reprodutivos e sexuais. Algumas adaptavam sua prática obstétrica ao ideário feminista conjugando áreas tão afins e próximas. Alguns se aproximavam percebendo um filão, um nicho de mercado a ser explorado, mas estes eram os que mais rapidamente retornavam a uma prática intervencionista ao verem as dificuldades e os obstáculos à frente.

Muitos resistiram, mas igualmente vi muitos médicos desistindo, não importando a porta pela qual haviam entrado. Aqueles estimulados pelas evidências frequentemente se embaralhavam nos números, nos estudos contraditórios e nas estatísticas, sem perceber as dimensões psicológicas, emocionais, sociais e espirituais do fenomeno que tinham diante de si. Aqueles que se jogavam na aventura do parto humanizado pela questão emocional com frequência davam um passo atrás diante do primeiro resultado negativo, ou quando os pacientes os abandonavam à própria sorte. As emoções nos tornam frágeis, e enfrentar a engrenagem da corporação é penoso…

Os que se interessavam pelas questões jurídicas eram muitas vezes prisioneiros de um senso de justiça incoercível e punitivista, enredando-se em ressentimentos que, não raramente, brotavam de suas próprias experiências traumáticas. Também as feministas em algumas ocasiões deixavam que sua paixão pelo feminino ofuscasse em demasia os significados do parto humanizado para o casal, e para o pai que também nascia.

Entretanto, ao largo do crescimento consistente da consciência nos benefícios da humanização, reconheço que o fator que mais afasta profissionais da seara do parto normal e fisiológico é….. o lugar.

Sim, o grande vilão é a topografia, o lugar onde o médico se situa na correlação de forças do nascimento. A perda dessa posição de poder – uma outorga da cultura sobre a figura do médico – é o que mais os afasta do ideário da humanização e o que mais produz nostalgia naqueles que por ele um dia se interessaram.

“A função do parteiro é fazer-se de vidro, cobrir-se de transparências, apagar-se. Agir tão somente no desvio em direção à patologia, quando então deve assumir sua imagem exuberante.”

Sem o reconhecimento de que seu lugar é secundário no parto, e de que sua função não é brilhar, mas permitir que a mulher brilhe em seu momento mais feminino, toda a humanização será apenas parcial. É a abdicação desta posição, tão sedutora quanto enganosa, o que mais torna difícil a adoção de uma prática humanizada na atenção ao parto.

Por esta razão a parteria tem uma vantagem inalcançável. Sendo esta arte muito menos poderosa – embora muito mais qualificada – afastar-se dos falsos poderes é uma tarefa muito mais simples.

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