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Fechamento

Sobre o fechamento de setores do Hospital da PUC de Porto Alegre (obstetrícia, neonatologia, pediatria e cirurgia pediátrica) escreve abaixo um médico que lá trabalhou por vários anos. Acredito apenas que seu diagnóstico final está equivocado; não é “neoliberalismo” o nome dessa doença, mas CAPITALISMO. Esse modelo econômico, quando aplicado à saúde é trágico e desumano. Como fica bem claro no texto, partos, nascimentos e crianças “não dão lucro”. Agora o hospital vai centrar suas ações na áreas que dão mais dinheiro e, via de regra, aquelas que produzem menos impacto na saúde da população. Ou alguém ainda vai discutir que um bom nascimento e uma boa infância são os caminhos mais seguros para uma vida saudável?

Ahhh, não sei se é o caso do colega, mas quando lembro do apoio entusiasmado dessa corporação em favor de Aécio, depois os ataques contra Dilma, pela prisão injusta de Lula e finalmente a favor da eleição de Bolsonaro eu fico pensando… o que esperavam depois de tantas escolhas insensatas e umbigocêntricas?

A partir de agora sugiro aos guardas do hospital que, quando forem obrigados a mandar uma grávida ou uma criança doente à procura de outro hospital, que orientem os pacientes para que peçam ajuda à “mão invisível do mercado”. Talvez assim eles mesmos passem a entender que saúde NÃO é negócio. Talvez pela dor possam compreender que assistência à saúde é um direito humano básico, essencial e inalienável, a que todos devem ter direito, não obstante sua condição econômica.

E viva o SUS.


Texto de José Beltrame Cusco

“Hoje é um dia muito triste para mim. Daqui a pouco vou para o Hospital São Lucas da PUC-RS para o que será o meu último plantão na instituição – e dentro de poucos dias serei demitido, juntamente com outros colegas. Trabalho no Centro Obstétrico e este será fechado, extinto, como também os serviços de Pediatria, neonatologia e Cirurgia Pediátrica. A justificativa? É porque estes serviços “não dão lucro para o hospital.” Alguns colegas, professores com muitos anos de casa e um trabalho de qualidade notável já foram demitidos sem a menor consideração, inclusive pegos de surpresa, porque ninguém da direção teve a mínima decência de consultar os profissionais.

No aspecto pessoal, vou perder uns 30% dos meus ganhos, o que causa impacto mas não chega a ser nenhuma tragédia, porque ainda dará pra ter um padrão de vida confortável. Muito pior é para alguns profissionais que trabalham exclusivamente lá. E muito pior é o impacto no sistema de saúde pública da cidade, e para as pacientes do SUS que atendemos sempre com toda a atenção e o cuidado que elas merecem. E para as crianças e seus pais aflitos com as doenças que atingem os pequenos. E agora? Que se virem, que procurem outros hospitais – que vão ficar ainda mais sobrecarregados.

Há prejuízo também para os médicos residentes, que prestaram um concurso difícil para fazer sua especialização no hospital de sua escolha, com qualidade, e que serão realocados para outros hospitais que jamais escolheriam. E prejuízo ao alunos do curso de Medicina da PUC, que não terão onde acompanhar atividades práticas em duas áreas importantíssimas da medicina (pediatria e obstetrícia) e terão que “pipocar” por outras instituições… O curso de Medicina da PUC, com mensalidade caríssima, já foi considerado o melhor curso entre as universidades particulares – e vai deixar de ser. Mas a mensalidade não vai baixar, é óbvio.

Eu fiz minha formação como especialista no Hospital de Clínicas, que felizmente tem outra cultura e outra visão como instituição, mas trabalho no hospital da PUC praticamente desde sempre, desde que acabei minha formação. Eu fico muito triste com isso, mas a indignação é maior que a tristeza. O nome disso?

Neoliberalismo.”

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Ainda cloroquina

Não creio em razões políticas para a manutenção da Cloroquina como opção para a pandemia, mesmo após as repetidas informações sobre sua inefetividade, partindo de organizações de saúde e de governos. Creio que o buraco é outro.

As verdadeiras razões jazem nas profundezas do inconsciente e são derivadas da pressão do “imperativo tecnológico” sobre as ações médicas. Existe uma pressão positiva sobre a ação dos profissionais da Medicina, uma expectativa de “algo a ser feito”. Não se admite que alguém com essa responsabilidade social – como o médico – não aja positivamente, ativamente. Essa é uma lei não escrita que regula a medicina.

Se uma pessoa morre de Covid SEM o uso de Cloroquina a família, os colegas e até a opinião pública (mídia) podem acusar o profissional de negligência, por não usar algo que “muitos outros dizem salvar vidas”. Por outro lado, se o sujeito morre de Covid tendo usado a Cloroquina – mesmo que a morte tenha ocorrido pelos seus efeitos tóxicos (!!!!) – ainda restará ao profissional dizer “fizemos tudo ao nosso alcance”. É raro um médico ser acusado por ter FEITO algo, e o comum é o acusarem por NÃO ter feito o que se supõe deveria fazer.

Ciência e evidências científicas desempenham um papel pouco expressivo nas escolhas médicas. Elas são majoritariamente tomadas por pressões de ordem subliminar. Médicos prezam seus empregos, sua qualidade de vida e seu status – como qualquer outra profissão. Enfrentar as acusações em nome do rigor científico e de suas convicções é raríssimo. Se as evidências e estudos sistemáticos REALMENTE guiassem o proceder médico a medicina desta forma empregada seria absolutamente irreconhecível.

Alguns meses depois de formado encontrei colegas de residência que me diziam: “Essa história de parto normal é muito bonita, mas não funciona no mundo real. Na cidade do interior onde trabalho as mulheres chiques (esposas da elite interiorana) marcam cesariana. Se eu negar serei mal falado na cidade, e vão espalhar que ‘não sei operar’. Se eu tentar esclarecer serei chamado de ‘Joãozinho-do-passo-certo’. Todavia, se eu ceder e operar sem justificativa serei abraçado, reconhecido, bem pago, elogiado e jamais serei questionado. Só um maluco suicida faria uma opção diferente desta última.”

Nas escolhas deste colega, onde está a ciência? Mas, quem pode dizer que esta escolha é irracional? Pode ser equivocada e cínica, mas quem a toma tem suas razões.

Médicos são guiados pela mão invisível da cultura. São produzidos pelo cadinho de valores que nela transitam. São PRODUTOS culturais, assim como a medicina que praticam. Aqueles que ousam questionar os pilares sobre os quais se assenta esta prática vão receber a resposta dura e inexorável dos representantes do modelo hegemônico. Não há mudança sem luta – e sem mártires.

Não se trata de culpar as ações de médicos que – por medo ou oportunismo – mantém os modelos intocados, mesmo quando claramente insensatos e sem base científica. Mais importante é mudar a cultura através da educação. Um povo educado produz médicos menos agressivos e mais seguros. Houvesse mais educação para todos sobre ciência e a discussão sobre a Cloroquina teria uma face muito mais racional e simples.

É o nosso atraso que mantém o debate em bases tão primitivas.

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Vigilância fetal

Sobre vigilância fetal:

Minha pergunta é simples, até singela: haverá uma justificativa comprovada dos benefícios da vigilância ostensiva sobre o bem estar fetal se forem retirados todos os condicionantes tecnocráticos da assistência ao parto?

A ausculta fetal faz parte do cenário da assistência ao parto, assim como os exames de toque sequenciais e sistemáticos. Estes últimos só agora – e muito timidamente – começam a ser questionados. Já a ausculta se mantém intocada e impávida. Ambos os exames produzem poderosas mensagens subliminares: o profissional é quem diz do andamento do parto, e estabelece o bem estar do bebê. Só ele tem o livro de códigos para saber o que houve, quanto falta e se tudo está bem. As mulheres e seus maridos são passivos observadores da tradução que o profissional faz a partir destes sinais. Um poder gigantesco, acreditem…

Porém, sempre houve em mim uma dúvida corrosiva sobre a real necessidade destas invasões, ou quais os limites desta intervenção. Se fosse possível eliminarmos o stress, o isolamento (físico e psíquico), o medo, o pânico induzido, a separação, as drogas indutoras, os anestésicos, a linguagem agressiva e a própria hospitalização – ápice da objetualização da gestante – continuaria sendo válido o tratamento do bebê como “bomba relógio”, prestes a explodir? Qual o real percentual de bebês que produzem transtornos perceptíveis em partos livres do artificialismo da medicina atual? Talvez ninguém tenha essa resposta…

Quem sabe esta ação panóptica sobre o bebê se justifica apenas pelo ordenamento tecnológico que o antecede?

Será esta ausculta o resultado natural que criamos para remendar o estrago anterior criado pela profunda desnaturalização do parto pelas culturas contemporâneas?

Parto desnaturalizado = punch 1
Vigilância fetal = punch 2

Ou…

A polícia brutal que temos e a vigilância sobre pretos e pobres não é o resultado da sociedade de classes? Eliminadas as castas e a brutalidade de sua injustiça quanto ainda precisaríamos de polícia?

Creio que tratamos como necessidade o que é, em verdade, a criação artificial derivada de uma deturpação.

Não é?

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Cloroquina, a droga da direita

Entrei em uma conversa numa página que criticava o uso da Cloroquina com a tese de que não há evidências de que esta droga produza benefícios, além de existirem suspeitas fortes de que seus efeitos colaterais suplantariam seus possíveis efeitos benéficos. Nada a discordar deste tipo de postura, por certo.

Resolvi, entretanto, responder dizendo que o mesmo comportamento de desconfiança com a Cloroquina deveria nos nortear em relação às vacinas – que estão sendo produzidas às pressas, nas coxas, e sem qualquer garantia de eficácia “in vivo” ou de que seus efeitos colaterais suplantam seus possíveis benefícios. Para mim é fundamental cultivar a coerência diante destas soluções exógenas criadas para tratar um desequilíbrio que – ao meu ver – tem relação com nossa ação destrutiva com o meio ambiente.

Sem surpresa fui atacado por pessoas desta página porque (ahhh, a velha falta de interpretação de texto!!) acreditaram que meu comportamento cioso com relação às vacinas (que estão para ser colocadas no mercado a “toque de caixa”), significava uma defesa da Cloroquina. Em verdade, era apenas um pedido de coerência. Se ainda guardamos na memória os desastres que já aconteceram com o uso insensato de drogas, deveríamos multiplicar nosso cuidado com uma vacina sem garantias. Não esqueçam da Talidomina, dietilbestrol, Vioxx, Rx na gestação, etc…

Porém, o que mais me chama a atenção nessas manifestações é a equação simplificadora presente nas mentes mais ingênuas. Para estes – que são até da esquerda!!! – a Cloroquina é uma droga de “direita”, pois o Bolsonaro e o Trump a defendem (ok, esquecem que Maduro, o cruel comunista, também). Por seu turno, as vacinas são de “esquerda”, porque são feitas por “cientistas”, que usam a ciência como ferramenta, sendo esta filha da razão, que é claramente de “esquerda”, em contraposição ao “misticismo” e ao “obscurantismo” que são de “direita”.

Se é importante combater a chaga do negacionismo – na história, na política e nas ciências – também é essencial entender como esta colocação de antípodas é absurda. A ciência NÃO é de esquerda, e nem de direita. Ela é apenas uma ferramenta para solucionar problemas. As vacinas, por exemplo, são medicamentos produzidos pelas indústrias mais poderosas do mundo capitalista, tanto do ponto de vista do imaginário popular quanto dos poderes sobre os governos. Achar que as vacinas – ou qualquer outra droga – representam a “Ciência” é uma conclusão tosca, em especial num planeta em que o sistema capitalista é dominante. Vacinas são drogas como quaisquer outras e sobre elas devemos ter a mesma exigência de segurança e eficácia.

A retórica das esquerdas precisa se aprimorar. A Cloroquina não é uma droga do “mal”, ou “conservadora”. Ela apenas é inútil para o uso nesta pandemia, pelo menos até onde os estudos recentes comprovam – o que pode até mudar. Para as vacinas, o mesmo raciocínio isento e equilibrado deve ser utilizado: tudo bem, desde que sejam adequadamente testadas e comprovadamente eficientes para oferecer proteção à população (tarefa que dura muitos anos para se alcançar), mas enquanto isso teremos apenas um remédio “mágico”, sem comprovação – como a Cloroquina.

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Lugares

Durante minha experiência na obstetrícia conheci centenas de médicos, boa parte deles vivamente interessados na humanização do nascimento. Muitos me escreviam longos emails, me chamavam pelo MSN, me procuravam em congressos e me perguntavam questões relativas à prática cotidiana.

Uma parte deles se achegava pelas evidências científicas, outros pelos aspetos emocionais (mãe, pai, família) enquanto alguns mais pela questão jurídica e dos direitos reprodutivos e sexuais. Algumas adaptavam sua prática obstétrica ao ideário feminista conjugando áreas tão afins e próximas. Alguns se aproximavam percebendo um filão, um nicho de mercado a ser explorado, mas estes eram os que mais rapidamente retornavam a uma prática intervencionista ao verem as dificuldades e os obstáculos à frente.

Muitos resistiram, mas igualmente vi muitos médicos desistindo, não importando a porta pela qual haviam entrado. Aqueles estimulados pelas evidências frequentemente se embaralhavam nos números, nos estudos contraditórios e nas estatísticas, sem perceber as dimensões psicológicas, emocionais, sociais e espirituais do fenomeno que tinham diante de si. Aqueles que se jogavam na aventura do parto humanizado pela questão emocional com frequência davam um passo atrás diante do primeiro resultado negativo, ou quando os pacientes os abandonavam à própria sorte. As emoções nos tornam frágeis, e enfrentar a engrenagem da corporação é penoso…

Os que se interessavam pelas questões jurídicas eram muitas vezes prisioneiros de um senso de justiça incoercível e punitivista, enredando-se em ressentimentos que, não raramente, brotavam de suas próprias experiências traumáticas. Também as feministas em algumas ocasiões deixavam que sua paixão pelo feminino ofuscasse em demasia os significados do parto humanizado para o casal, e para o pai que também nascia.

Entretanto, ao largo do crescimento consistente da consciência nos benefícios da humanização, reconheço que o fator que mais afasta profissionais da seara do parto normal e fisiológico é….. o lugar.

Sim, o grande vilão é a topografia, o lugar onde o médico se situa na correlação de forças do nascimento. A perda dessa posição de poder – uma outorga da cultura sobre a figura do médico – é o que mais os afasta do ideário da humanização e o que mais produz nostalgia naqueles que por ele um dia se interessaram.

“A função do parteiro é fazer-se de vidro, cobrir-se de transparências, apagar-se. Agir tão somente no desvio em direção à patologia, quando então deve assumir sua imagem exuberante.”

Sem o reconhecimento de que seu lugar é secundário no parto, e de que sua função não é brilhar, mas permitir que a mulher brilhe em seu momento mais feminino, toda a humanização será apenas parcial. É a abdicação desta posição, tão sedutora quanto enganosa, o que mais torna difícil a adoção de uma prática humanizada na atenção ao parto.

Por esta razão a parteria tem uma vantagem inalcançável. Sendo esta arte muito menos poderosa – embora muito mais qualificada – afastar-se dos falsos poderes é uma tarefa muito mais simples.

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Adeus Renan

Depois de uma longa espera, o jornalista Renan Antunes (do DCM) finalmente recebeu um rim novo por meio de um transplante. Trabalhei muitos anos com doentes renais antes de me formar em Medicina e sei o quanto um transplante significa para um doente renal crônico amarrado a uma máquina. Depois da cirurgia – que teve o sucesso esperado – Renan estava feliz e radiante com a oportunidade de recomeçar sua vida ao lado da família. Poucas semanas depois do transplante eclode a pandemia do Covid. Renan era do grupo de risco pelas medicações imunossupressoras utilizadas como estratégia para evitar a rejeição do rim transplantado. Era natural que ficasse angustiado e com medo da contaminação.

Surgem sintomas respiratórios e ele vai ao hospital. Avisa de sua falta de ar assim como de sua condição especial de imunodeprimido. Faz o teste para Covid e logo depois é liberado para casa, mas com uma receita nas mãos que se mostraria desastrosa. Premidos pelo medo e pela pressão da opinião pública – onde se encontram figuras públicas como o presidente da República – os médicos receitam Hidroxicloroquina; muito provavelmente “por via das dúvidas”. Complicações cardíacas tiraram sua vida poucas horas depois. Arritmia, disseram. Logo depois vem o resultado do exame para o corona vírus: negativo.

O que matou Renan Antunes?

Não vou jogar os médicos aos leões, por certo. Tenho certeza que fizeram o que lhes parecia melhor. Vão sofrer ataques e agressões, mas prefiro me colocar no lugar de quem toma decisões dramáticas em situações críticas. Atire a primeira pedra aquele que…

Entretanto, creio que está é uma morte que poderia ser evitada não fosse a ideologia que EMPURRA os profissionais a usarem tecnologia, mesmo quando sua utilidade não é garantida ou quando seus malefícios aumentam – ao invés de diminuir – os riscos em uma determinada enfermidade. A isso chamamos de “imperativo tecnológico”, que não é um mito da medicina, mas cultural; não apenas os médicos são afetados, os pacientes também. Renan morreu por uma série de mitos. O mito da transcendência tecnológica, o mito da inocuidade das drogas, o mito da autoridade suprema dos médicos. Acabou sendo vítima do medo que os profissionais da saúde tem de esperar e não medicar. Medo de “nada fazer”.

Como no parto, a suprema sabedoria da clínica está na “lentidão dos atos que se aproxima da imobilidade”, reservando a ação heroica apenas para os casos dramáticos onde a ação se faz imperiosa. Talvez – e aqui apenas uma suposição – o nada fazer seria a mais justa e correta atitude. Renan estaria hoje fazendo um escalda-pés em casa e tomando chá de limão com mel (além das drogas para prevenir a rejeição). Mas para que isso acontecesse teríamos que abrir os olhos para tantos mitos (do grego mythós, de mýein = fechado) que não nos permitem enxergar que em Medicina, na maioria das vezes, menos é mais.

Siga em paz, Renan…

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Pura Histeria

A paciente chegou aos gritos no hospital e em vão eu tentava acalmá-la. Não a culpo. Para alguém com dor excruciante chegar em um hospital e a primeira pessoa que se aproxima é um estudante de medicina com 22 anos e cara de 18 não pode ser uma recepção das melhores.

“Estou com uma gravidez ectópica rompida!!”, gritou ela. “Estou com sangramento interno e preciso de uma cirurgia urgente!!” Imediatamente pensei se tratar de uma paciente que também era médica, mas nem tive tempo de lhe perguntar de onde vinha esse diagnóstico na ponta da língua. Enquanto gritava e se remexia freneticamente na maca o médico de plantão chegou para avaliar o caso.

“Pode chamar a equipe. Sei que vou precisar de uma cirurgia”, disse ela ao velho obstetra plantonista. O médico aproximou-se com a mão de seu abdome e ela reagiu retirando-a com energia e curvando o corpo.

“Não me toque!! Eu sei o que tenho!! Já tive uma gravidez ectópica no passado. Sei do que estou falando”.

“Você é da área da saúde?”, perguntou o obstetra.

“Sou costureira, mas sei o que estou sentindo”, disse ela sem meias palavras. “Mexa-se doutor, estou com dor!!!”

Levamos a paciente para a sala ao lado. O obstetra me disse que faria uma punção de fundo de saco vaginal. A presença de sangue nos daria a informação de que havia hemorragia interna, sangue livre na cavidade.

Enquanto era colocada na posição ginecológica o velho obstetra pisca o olho e me diz “Vamos ver até onde vai essa histeria”.

Paciente posicionada, seringa, agulha, espéculo. A punção imediatamente encheu a seringa de sangue vermelho vivo. Ele me olhou incrédulo e disse, sussurrando: “Chame o anestesista e já vá para o bloco. Pode ir se escovando”.

Abrimos o abdômen que trazia as vísceras empapadas em sangue. A trompa esquerda mostrava uma ruptura, do tamanho de uma pequena moeda. Fizemos a hemostasia, estancamos a hemorragia, lavamos o abdome, secamos e retiramos o sangue da cavidade. Fechamos a cirurgia e iniciamos a reposição de sangue. A paciente despertou alguns minutos depois do último ponto, olhou nos meus olhos e disse, ainda confusa e sonolenta: “Obrigado por ter acreditado em mim”.

Mal sabia ela que eu não merecia o agradecimento. Eu não havia acreditado em sua história. Achei que era “H”, ou “HY”, “Piti”. Apostei que a seringa viria vazia. Achei mesmo que era “pura histeria”. Pensei que uma dor por gases presos a havia feito recordar a experiência prévia que teve com uma gravidez ectópica rota, e isso a fez entrar em desespero. Parecia um paroxismo agudo de ansiedade, histriônico, que não teria relação com um quadro clínico compatível.

Ledo engano. Seu quadro era clássico. O exame realizado confirmou a sua suspeita, e não a nossa. No dia seguinte, quando tomava café para voltar para casa, o velho obstetra me encontrou no refeitório acanhado do hospital e disse: “O fato de ter cara, focinho e trejeitos de histeria não deve nos cegar para as alternativas. Nunca se deixe ludibriar pelas aparências”.

Verdade, mas hoje eu acho que a melhor frase seria: “Escute as mulheres. Elas sabem o que ocorre nas suas entranhas, mais do que nós mesmos. Nenhum equipamento pode ser tão preciso quanto a experiência que a dor nos oferece”.

Lembrei dessa história, ocorrida no início dos anos 80, porque ela guarda um detalhe interessante: o diagnóstico da hemorragia interna foi feito “à moda antiga”, com a punção do fundo de saco de Douglas. Hoje em dia faríamos uma ecografia de urgência, e imediatamente levaríamos a paciente para a cirurgia. Entretanto, na pequena cidade na periferia da capital onde eu me encontrava não havia nenhum aparelho de ultrassom. Mesmo na capital, não havia mais do que 3 ou 4. Nossa única chance era o modelo ancestral, aprendido com os médicos de épocas passadas.

Essa, por certo, teria sido uma ecografia médica, com claras indicações para sua realização. Entretanto, a maioria das ultrassonografias feitas nas clínicas de diagnóstico por imagem de hoje são do tipo “recreativas”, uma criação do final do século XX e início do XXI. Elas servem como “diversão para toda a família”. Aliás, deveria ser colocado na porta da sala de ultrassom uma lista de piadinhas de pepeca e piupiu que serão inevitavelmente usadas durante o exame. De minha parte, fico feliz que tenham adotado o termo “ultrassom recreativo” que eu criei há muitos anos e que, junto com o ultrassom “médico” e o ultrassom “sedativo”, compõem os tipos básicos deste exame.

Eu guardo respeito pelas tecnologias, até porque elas são um apanágio da criatividade humana. Conheci a medicina antes que o recurso ultrassonográfico estivesse à disposição dos profissionais. Conheci os pré-natais quando o sexo dos bebês ainda era um mistério, e o gênero do bebê por chegar era motivo de piadas e gracejos dos cunhados. Apostas de cerveja, sonhos com baús e serpentes e alegria esfuziante pela surpresa no dia do nascimento. Meus filhos nasceram como a última leva de bebês cujas mães chegavam ao hospital sem o nome bordado pela avó nas roupinhas novas.

Hoje, essa realidade desapareceu, dando espaço para um mundo sem magia, sem presságios, sem apostas, sem dúvidas e sem surpresas. Os médicos tem a chave, uma varinha de condão tecnológica que nos conta o final do livro sem que seja preciso ler até o final.

Na atualidade a decisão de NÃO fazer ecografias de rotina em uma gravidez de risco habitual é uma experiência de isolamento, mas também uma afronta aos poderes instituídos. A mulher que decide se abster de fazer ultrassons (minha nora teve essa coragem) é tratada pelas outras mulheres como “louca” ou “egoísta” – por pensar em si quando deveria “se preocupar com o bebê”.

Os médicos ficam estupefatos diante dessa recusa, muitas vezes se tornam agressivos, e fazem críticas – sutis, veladas e por vezes explícitas. A obrigatoriedade de se adaptar a esse modelo tecnológico invasivo é sufocante. Por isso muitas mulheres me disseram, nos últimos anos, coisas como: “Eu não quero e sei que não há necessidade alguma de fazer este exame. Sei também que não há evidências para seu uso de rotina, mas não aguento mais a pressão de todos, da família, do marido e das amigas. Desisto.

Como não entender a angustia gerada por toda essa pressão?

Agora as mulheres grávidas não estão fazendo mais tantas ecografias de rotina por causa da pandemia, entretanto tenho dúvidas se daqui uns meses – com milhões de ecografias a menos e resultados perinatais iguais ou até melhores – as pessoas vão conseguir ligar os pontinhos e perceber o quanto de dinheiro é jogado fora com exames inúteis empurrados goela abaixo de médicos e pacientes por uma mitologia de transcendência tecnológica que jamais comprovou ser imprescindível como exame de rotina para gestações de risco habitual.

Estarei esperançoso para que a pandemia de Covid possa nos fazer reavaliar a aplicação das “tecnologias de separação” custosas e sem evidências a lhes dar suporte. Se é verdade que ainda existe espaço para o uso desta tecnologia, como no caso da costureira e sua gestação ectópica, é necessário reavaliar o quanto esta intromissão no espaço sagrado da intimidade do ventre traz de perdas para as mulheres. Do alto de quase quatro décadas pensando sobre o tema eu me pergunto quando é que as vamos perceber o quanto perdem as gestantes cada vez que sua intimidade é devassada pela tecnologia? Quando vamos nos dar conta que o abuso dessas ferramentas expropria delas o controle sobre seus próprios corpos?

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Medicina e arte

(a partir de uma conversa com Eva Saints)

Lembro de ter comentado que o uso da máscara cirúrgica satisfaz muito mais a nossa fantasia da proteção do que a própria efetividade do recurso. Nós nos sentimos protegidos, mesmo que essa sensação não tenha um suporte muito claro em evidências. Durante muitos anos usamos máscaras para a atenção ao parto normal e só com muito esforço e convencimento reconhecemos sua inutilidade na assistência ao parto vaginal. Da mesma forma os médicos indicam repouso numa situação de ameaça de aborto porque sabem que, caso o aborto efetivamente ocorra, é natural que os pacientes – premidos por suas próprias culpas imaginárias – tracem uma linha entre não repousar e abortar. Ao fazerem isso resolvem dois problemas: estabelecem uma causalidade para sua tragédia pessoal e encontram um culpado fácil e próximo para sua desgraça: o médico descuidado que não enfatizou o repouso. Enchem a boca para dizer “erro médico”.

Os médicos sabem que em casos de aborto muito inicial as causas quase sempre são desacertos genéticos incompatíveis com a vida. Nem a bênção do Papa poderia criar um embrião que sequer chegou a se formar por falhas na conjugação dos gametas. Por esse entendimento, o sangramento seria a limpeza natural de um projeto que não seria passível de continuação.

Entretanto, mais do que simplesmente tratar o inevitável há que se reconhecer os medos e angústias que dominam um cenário de perda – como os abortos ou os óbitos fetais precoces. Acima de tudo o paciente que sofre perdas se acha culpado pelos que causou a si mesmo e aos que o amam. Essa culpa é insuportável para a maioria, e a forma mais fácil de se livrar dela é através da “diversão”, ou seja, desviando a responsabilidade da sua perda, livrando-se do peso da culpa através do encontro de um culpado outro. Por isso mesmo, por saberem da natural propensão humana de autoproteção, os médicos SEMPRE vão procurar se proteger diante da inevitável busca que os seres humanos fazem pelos culpados – verdadeiros ou não – das suas mazelas.

Assim, mesmo sabendo ser uma recomendação inútil, ele indica repouso absoluto. Melhor determinar uma ação desnecessária – e por vezes enfadonha – do que suportar os dedos injustamente apontados para si.

Há um exemplo ainda mais curioso de práticas “mágicas” que aprendi com os cirurgiões plásticos. Eles sabem muito bem que o resultado das suas cirurgias dependem – em grande monta – das características subjetivas de cicatrização dos seus pacientes. Mesmo com a mão mais qualificada e a técnica mais apurada e moderna, nenhum cirurgião está livre de encontrar um queloide (cicatriz grossa e larga) em seus clientes. Desta forma, para evitar serem acusados de má prática usam de um estratagema esperto.

Depois da cirurgia – por exemplo, cirurgia de redução de mamas ou uma abdominoplastia – eles fazem uma recomendação absurda e praticamente impossível de cumprir: pedem para a paciente ficar 14 dias imóvel na cama sem se mexer, fazendo inclusive suas necessidades com auxílio de uma “comadre” e um “papagaio” (coletores de fezes e urina).

Essa é uma determinação praticamente impossível de cumprir para um paciente que se submeteu a uma cirurgia simples e não cavitária como as descritas acima. Depois de 3 dias deitado, e não sentindo dores fortes, a paciente normalmente vai se levantar – mesmo com auxílio – e vai fazer suas necessidades de forma autônoma – e digna, pois não sente nenhuma necessidade de se manter imóvel em uma cama, o que por si só já é uma “tortura”.

Quando volta ao médico para revisão, diante de qualquer problema de cicatrização, o médico vai imediatamente questionar: “Mas diga lá, quantos dias ficou imóvel?”

O paciente constrangido responde: “Ah. Doutor, eu fiquei 5 dias (mentira, ficou 3) mas depois não aguentei e fui fazer xixi no banheiro, que fica bem pertinho“.

Ahhh“, grita o médico sem esconder a euforia. “O que foi que eu disse? Não obedeceu minhas recomendações e agora aconteceu isso“.

Pronto, o médico está livre de qualquer acusação e o paciente baixa os olhos, sentido para si uma culpa que não é de ninguém, mas que o médico espertamente desviou antes que pudesse acertá-lo.

A medicina, é muito mais a arte da compreensão das fantasias e angústias de seus pacientes do que a ilusória busca por uma droga salvadora.

PS: é claro que uma comunicação livre e honesta entre o paciente e seu médico poderia evitar boa parte desses jogos e dessas performances. Entretanto, nossa medicina procura se aprofundar muito mais nas tecnologias de afastamento (exames, imagens, drogas, cirurgias) do que nas práticas que promovem a conexão íntima e profunda entre o doente e seu cuidador. Se esta ligação entre os personagens desse encontro fosse entendida como primordial, as consultas que hoje duram não muito mais do que 15 minutos passariam a durar mais de uma hora, mas isso se choca com o tempo que os médicos aceitam despender para cada con$ulta. As lacunas de explicações que se formam nesse contato são preenchidas por determinações fantasiosas, homogeneizantes, por vezes inúteis e que não respeitam a unicidade de cada sujeito, o que deveria ser a alma de todo encontro médico-paciente. Sem conexão e vínculo não existe uma verdadeira e profunda medicina, apenas o exercício alienante e ilusório do paciente em colocar no outro a glória ou o fracasso de sua cura.

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Gurus e súditos

O surgimento de gurus pressupõe (ou estimula) a supressão temporária (nos casos graves, definitiva) do senso crítico. De Jesus a Lula a veneração aos ídolos esvazia as almas dos seguidores. Esses que por ora estão nos portais do inferno, como João de Deus, Abdelmassi, Elizabeth Holmes, etc já tiveram legiões de fãs. Cuidado, ponderação e canja de galinha continuam não fazendo mal à ninguém…

Por essa razão os Estados democráticos no mundo inteiro só homenageiam seus heróis postumamente, para evitar surpresas. Mesmo assim, nem isso é suficiente para evitar dissabores, como provam as estátuas derrubadas do general Lee, do Lênin e do Stálin e – se Deus quiser – um dia será a vez da derrubada do monumento aos genocidas carniceiros bandeirantes.

Quase todos os youtubers são muito queridinhos quando comparados com qualquer terraplanista e negacionista, mas qualquer sujeito em evidência que se põe a falar de ciência lá pelas tantas começa a misturar ciência com autoridade acadêmica – que não são coisas necessariamente unidas. Aí mora o perigo, quando se iludem com a ideia de que a ciência é um ente “imaterial e positivo“, infenso à veleidade humana, e não uma entidade criada e conduzida pela alma corrupta dos homens.

Mais cedo ou mais tarde começam a dar pitaco em assuntos controversos. Muitos disseminadores de ciência se perderam por isso. Um deles, muito famoso por tratar de questões da filosofia, resolveu falar de comunismo e trocou os pés pelas mãos, e desse assunto só sai besteira. As luzes da ribalta danificam a maquiagem. Espero que não a de Rita com Hunty, mas até dela eu guardo distância segura para não me entusiasmar demais com o ineditismo e a qualidade ímpar do seu personagem.

Não seria a primeira vez que um personagem em evidência larga uma declaração ao estilo “…quem acredita nessas coisas são os mesmos que não tem fé nas vacinas, acreditam em homeopatia e fazem parto em casa“. E aí? Como fica o (meu) nosso amor? “Eu me desiludi com ele…” diz a moçoila, mas aí o vovô Ric lembra que para se desiludir é preciso primeiro…. se iludir.

Nesses momentos em que é fundamental cativar uma audiência segura é que aparece o ideólogo por trás do cientista – algo que todos carregamos. Esse erro muitos cometeram com aquele “médico do Fantástico”, menos eu que conhecia seu passado de desprezo pelo parto normal e sua visão preconceituosa com a medicina suplementar – da acupuntura, passando pela fitoterapia, até chegar à homeopatia.

Por estas razões eu acho bom ter cuidado sempre. Aliás, o cuidado que sempre pedi que as pessoas tivessem comigo mesmo, mas que não vejo ser estimulado por algumas “estrelas” que estão em evidência. Antes de escrever “mito” pra algo bonitinho que eu escrevi lembre que ali na esquina vai fatalmente se decepcionar, porque eu não tenho compromisso algum com a tarefa de agradar prosélitos.

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(In)Dignidade Médica

Entrei nesse grupo – incluído por alguém – há pouco menos de 10 anos e pude testemunhar o pior da espécie humana nos 15 minutos que consegui permanecer naquele antro pestilento de reacionarismo e racismo. Os médicos – como grupo e como corporação – são a escumalha fascista da sociedade. Sua representação política (CRMs e CFM e até os sindicatos) são fiéis representantes do que existe de pior na sociedade brasileira.

O racismo, o fascismo, o preconceito de classe, a arrogância, o preconceito de gênero (as agressões contra Dilma eram misóginas e nojentas) e o TOTAL descompromisso com a saúde da população estão representados nestes órgãos. Só o que vale é a proteção do quinhão, dos privilégios, das vantagens e dos benefícios. Sanguessugas do povo, aproveitadores e enganadores.

E não digo isso agora; minha visão negativa da estrutura dessa corporação tem a idade da minha inserção nela. “Dignidade Médica” é apenas a ponta de lança mais desavergonhada do fascismo da nossa classe médi(c)a. Puro lixo.

Sim, há muitos médicos de qualidade técnica, ética e moral, mas nenhum nesses lugares.

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