Arquivo da categoria: Parto

O parto de cada uma

A foto acima causou furor na internet ao mostrar uma mulher que recém havia parido tomando um refrigerante enquanto mexia no seu celular. Aos seus pés o bebê, com poucos  minutos de vida. A fúria de algumas pessoas causa espanto. Talvez tenham dificuldade para encontrar coisas realmente relevantes para se “enfurecer”. Tomar uma Coca Cola e a avisar os amigos pelo celular do nascimento de seu bebê está entre as milhares de atitudes que já testemunhei imediatamente depois do parto.

Entretanto, o comportamento das pessoas ao rejeitarem a imagem é revelador do conceito subjacente que os anima: a puérpera como um ser divino, angelical e puro, onde o mundano não tem vez e a química do refrigerante não passa de um veneno mortal a ameaçar seu leite sagrado.

Tolice. Basta ver mulheres recém paridas para perceber como suas perspectivas de mundo permanecem únicas. Se há aquelas que obedecem o ordenamento delas exigido (amor incondicional, lágrimas, promessas de amor, etc) existem outras cuja tranquilidade e senso prático tomam corpo e determinam seu comportamento. Aceitar que as mulheres possam ser diferentes do que esperamos delas é sinal de maturidade cultural na busca por equidade.

Por outro lado, essa foto é um artefato altamente pedagógico. Faz lembrar aquelas imagens de parto orgásmico, cheias de alegria esfuziante, onde as pessoas atônitas se perguntavam: “Como assim? Prazer? Não… isto está errado!!!”

Eu digo agora, jocosamente: “Como assim beber refrigerante e falar com os amigos? Não…. isto está errado!!!”

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Porta aberta

Eu concordo que romantizar parto e maternidade é um erro que pode custar caro. Lembro muito bem da frustração de mulheres que idealizaram seus partos de forma muito intensa e irreal e acabaram em cesarianas. Para estas a perda do “parto ideal” produz uma queda ainda maior por causa das expectativas criadas sobre o evento. Por esta razão é importante transmitir a elas a noção de que no parto, no amor e no sexo não há garantias e que é melhor que estejam preparadas para os reveses que podem vir a ocorrer.

Entretanto, também não é justo oferecer a elas uma visão negativa e catastrófica do parto e amamentação com a desculpa de que, assim “preparadas” para o pior, não serão pegas de surpresa. Para tudo há que buscar a moderação e o “caminho do meio”. Transformar o parto em um circo de horrores serve apenas àqueles que desejam manipular pelo terror.

Depois de atender por mais de 30 anos a estes eventos, com toda sorte de resultados, a minha postura se baseava numa frase que meu pai repetia: “Visualize o melhor, prepare-se para o pior“. Zeza tinha também uma expressão muito boa para esse dilema: “Você pode enaltecer o quanto quiser as virtudes do parto e da amamentação, mas deixe sempre uma porta aberta em seu discurso para permitir que a esperança entre quando os projetos não ocorrerem como os idealizamos.

Essa porta é o segredo, e sei o quanto é difícil mantê-la aberta. Entretanto, este é o ponto nevrálgico da preparação: capacitar as mulheres para que possam lidar com maturidade seja qual for o resultado.

(De uma conversa com Andreia Moessa De Souza Coelho)

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

O que querem as mulheres?

Em um trabalho de 2002 a enfermeira e pesquisadora Ellen Hodnett reuniu 137 relatórios (estudos descritivos, ensaios randomizados e revisões de intervenções no parto) sobre os fatores que influenciam as avaliações de mulheres sobre suas experiências de parto. Quatro foram os fatores essenciais:

  1. Expectativas pessoais;
  2. A quantidade do apoio recebido dos profissionais;
  3. A qualidade do relacionamento cuidador/paciente e
  4. O seu envolvimento na tomada de decisões

Estes fatores parecem ser tão importantes e primordiais que sobrepujam as influências de idade, status social, etnia, preparação para o parto, ambiente físico do centro obstétrico, dor, imobilidade, intervenções médicas e continuidade nos cuidados.

Para este estudo os fatores afetivos e psicológicos sobrepujam as questões técnicas da assistência, a preparação de pré-natal, a continuidade no cuidado e inclusive a dor. Surpresos?

A conclusão de Ellen Hodnett é marcante:

“As influências da dor, do alívio da dor e das intervenções médicas intraparto na satisfação subsequente não são tão óbvias, tão diretas e nem tão poderosas quanto as influências das atitudes e comportamentos dos cuidadores”.

Uau!!!

Assim sendo fica mais fácil entender o sucesso do “Dr Frotinha”. Mesmo sendo um cesarista, sem vinculação com a Medicina Baseada em Evidências e com práticas agressivas, violentas, dolorosas e muitas vezes perigosas e ineficazes, sua abordagem afetiva e próxima pode oferecer às gestantes suas necessidades primordiais de afeto, reconhecimento e participação nas decisões. Assim, mesmo oferecendo uma assistência de baixa qualidade e desvinculada da ciência obstétrica, ele é capaz de transmitir uma ideia de cuidado, um clima de atenção e uma percepção de autonomia (mesmo quando ilusórias).

É evidente que não podemos nos colocar diante de um falso dilema. Não há porque contrapor a atenção centrada na pessoa e uma abordagem que estimula a autonomia com as evidências científicas e a prática humanizada. É, em verdade, exatamente o que a Humanização do Nascimento se propõe. É plenamente possível oferecer às mulheres o “melhor de dois mundos”. Não precisamos mais de profissionais “capengas” que ofereçam apenas um aspecto da atenção, relegando o outro lado ao desprezo.

Entretanto, este estudo evidência que, quando olhamos para o parto pela perspectiva das mulheres é importante não esquecer que o parto é um processo sexual e afetivo acima de qualquer outra consideração. Não é o medo da dor ou do excesso de intervenções o que mais as domina, mas o temor pela rudeza nas relações e o medo de não ser ouvida nas decisões sobre seu corpo e seu bebê.

Aceitar essa perspectiva nos ajuda a entender o que se passa na mente de uma mulher que vai parir. Se as ferramentas tecnológicas são capazes de nos garantir a devida segurança diante das patologias é fundamental entender que a maioria delas não tem muito mais de 100 anos de idade, enquanto o cuidado amoroso, empático, doce e próximo oferecido às mulheres têm a exata idade da existência do gênero humano nesse planeta.

Mais do que treinar profissionais de parto para uma atenção cientificamente embasada é também essencial selecionar aqueles que percebem na assistência sensível e amorosa o caminho mais seguro para um parto satisfatório.

PS: O nome disso é “sincronicidade”. Escrevi o texto acima – que fala dos aspectos emocionais e psicológicos como preponderantes na qualidade da avaliação das mulheres sobre o parto – após rever o trabalho da enfermeira Ellen Hodnett sobre o tema. Procurei uma foto sua para ilustrar o texto e lembrei no nosso breve encontro no Chile em 2012. Tinha na memória uma foto que tiramos juntos, mas sabia que jamais a encontraria e acabei colocando uma encontrada na internet.

Naquela data eu fiz a ela apenas uma pergunta: “É possível melhorar este sistema de atenção ao parto centrado no trabalho médico?”, ao que ela me disse apenas “não, este modelo não tem futuro”. Depois ambos falamos de netos; do seu que recém havia nascido em casa (e do vídeo do nascimento dele que tinha o barulho do aspirador de pó do andar de cima) e do meu primeiro, que nasceria alguns meses depois, de cuja existência eu havia sido avisado dois ou três dias antes.

Pois 20 minutos depois de publicar o texto baseado em seu trabalho o Facebook me lembra do aniversário de 6 anos desse encontro. Mais ainda: me mostra a foto que eu jamais encontraria se fosse procurar. Como explicar essa coincidência?

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Velhas novidades

Após 45 minutos de explanações sobre o melhor modelo arquitetônico e as formas de organizar pessoas em centros obstétricos para maximizar resultados o palestrante solta a frase definitiva que eu, secretamente, já gritava em minha mente: “Estamos aprimorando um produto que as mulheres não querem comprar”.

Bingo!!! Ufa, felizmente ele falou o que era indispensável. Nenhum – literalmente – sistema pode funcionar enquanto dádiva; qualquer um pode ter sucesso se for por conquista. Se esses modelos não partirem de uma MUDANÇA CULTURAL onde as mulheres sejam encorajadas a tomar as rédeas do processo nunca haverá verdadeiro protagonismo e no máximo teremos “sofisticação de tutela”.

Portanto, somente a mudança de baixo para cima, envolvendo as mulheres e suas associações representativas, poderá produzir um sistema que seja realmente eficiente e produza resultados consistentes em longo prazo.

Outra frase marcante, esta do sociólogo Raymond DeVries: “nenhum estudo muda a realidade; eles servem para oferecer substrato científico para nossas crenças e desejos”.

Se a ciência e as pesquisas médicas tivessem esse poder nenhuma episiotomia seria realizada há mais de 30 anos e nenhum país teria taxa de cesarianas superiores a 15%. Medicina e toda a assistência à saúde são questões políticas e respondem às leis de poder e pressão, como toda e qualquer decisão política.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Educação

Eu me convenci da falha no modelo há muitos anos, exatamente no período em que se acreditava (e quando se apostava) na possibilidade de “educar” médicos para o modelo humanístico. Nessa época me vieram à mente as palavras de um psicólogo americano humanista chamado Carl Rogers que afirmava “Perdemos recursos e tempo demais com treinamento que seriam mais bem usados em seleção“. Isso para mim foi revelador…

A revolução nunca se faz na cabeça, sempre no coração. Só depois a razão toma as rédeas. Ou como dizia Raymond DeVries, “Nenhum estudo muda a realidade; eles servem para oferecer substrato científico para nossas crenças e desejos”.

Em outras palavras: de nada adianta treinar médicos para que façam algo que não gostam, não querem e não desejam. Médicos não são formados para a atenção ao parto porque TODA a lógica da medicina é direcionada à INTERVENÇÃO. Não é por acaso que já os estudantes, no início da sua formação, se interessam por cirurgia: ela é o ápice do modelo. Como seria possível passar 9 anos de escola médica ensinando as intervenções e suas possibilidades e mostrando como elas garantiram status social ao médico (e dinheiro, por consequência) para depois exigir que na atenção ao parto nada do que foi aprendido pudesse (ou devesse) ser usado. Como exigir que, depois de tanto treinamento, o jovem médico use suas maravilhosas ferramentas em apenas 10% das ocasiões? Como pedir que ele abra mão exatamente daquilo que lhe confere importância na sociedade e lhe diferencia do modelo das “parteiras, curandeiras e bruxas”?

Ora… o erro é flagrante. Não devemos despender tantos recursos em treinar estes profissionais. A experiência mostra que isso é inútil. Toda essa campanha do “parto adequado” (nome criado para desprestigiar o nome “parto humanizado” – usado por nós) aplicada aos hospitais privados para termos um decréscimo de 1% na taxa de cesarianas!!! Sim, um por cento…. esse é o tamanho do impacto da “educação” e do controle sobre o trabalho médico.

Para mudar de verdade os números só se tivermos a coragem para trocar o paradigma e incentivar a SELEÇÃO adequada dos profissionais. Pior (ou melhor); elas já existem e são as parteiras profissionais, que durante 99% do tempo de existência da nossa espécie foram as responsáveis por essa tarefa. Obstetrizes e enfermeiras obstetras serão as principais atendentes do parto normal no Brasil. Podem me cobrar, ou lembrem dessa minha profecia quando eu já tiver partido.

Pedir para médicos atenderem ao parto foi uma aventura tecnicista recente, e um fracasso retumbante para o parto normal e fisiológico. A medicalização dos ciclos vitais (nascer e morrer, em especial) precisa ser combatida porque ela significa um passo seguro para a artificialização da vida e a perda do que existe de humano em nós.

Precisamos mais bom senso e menos ganância…

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Repercussões sobre o debate

Legalizar o aborto significa apenas que a gente combina com a mãe que ela não vai morrer. Entretanto, lembrem que é plenamente possível apoiar a humanização do nascimento e ser contra ou a favor da legalização do aborto. Estes são dois assuntos diferentes que possuem suas interfaces, mas podem ser analisados separadamente.

É claro que a humanização e a legalização são temas progressistas e que apontam na mesma direção: protagonismo da mulher e autonomia em suas decisões. Todavia, não existe nenhum problema lógico ou incompatibilidade em ser a favor de um e contra o outro. A minha posição, por exemplo, não é compartilhada por muita gente que debate humanização no Brasil e no mundo: sou a favor da legalização mas jamais atenderia um aborto, por uma questão de “isenção de consciência”. Entretanto, isso não me torna menos “humanizado” pois continuaria a honrar os princípios fundamentais da humanização do nascimento: protagonismo garantido à mulher, interdisciplinaridade e MBE.

Palavras bonitas, cheias de amor à vida, carregadas de paixão por fetos e nenhuma consideração pelas mulheres que morrem todos os dias em abortos clandestinos. Torquemadas e Savonarolas ainda queimam, em nome de conceitos abstratos, bruxas e hereges que ousam se preocupar com seu semelhante.

Ser contra a legalização é permitir que tudo se mantenha como agora, quando milhares de mulheres jovens perdem a vida em abortos clandestinos, a despeito de muitas delas terem orientação e educação. Ser contra a legalização é ser a favor do “Apartheid da morte”, onde ricas abortam e pobres morrem tentando.

A propósito da isenção de consciência, e a aparente contradição do “sou a favor mas jamais faria”, posso dizer que sou a favor de que as mulheres tenham esse direito mas eu não aceitaria fazer isso porque trabalhei a vida inteira com a vida, enquanto um aborto é a interrupção de um projeto de vida. É uma questão eminentemente pessoal. Mais ou menos como “Sou carnívoro mas não mataria uma vaca para comer“. Ou, “respeito as prostitutas e dou apoio às suas reivindicações, mas não uso seus serviços“. Existem muitos exemplos de fatos que lhe atingem pessoalmente, mas que você aceita em um nível social.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Expropriação do parto

Assisti não mais de 3 minutos da fala de um obstetra do centro do país com o tema “Você quer estar certa ou obter resultados?“. Logo me dei conta de que estava diante da mesma retórica de risco que escuto há 40 anos e que – ao se analisar em profundidade – serve como substrato ideológico para a submissão das mulheres ao controle médico no momento apical de sua feminilidade: o parto. Em suas palavras encontrei o mesmo discurso da “mulher bomba relógio” que justificaria a perda total de autonomia e que colocaria o médico como o único sujeito capaz de tomar atitudes em seu nome. O resumo de sua fala poderia ser “Você quer ser livre ou continuar vivo?”. Ou ainda “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Só vais te manter viva se for por mim“.

Para este médico reduzir-se a uma fiel e subserviente paciente, curvada diante de seu saber absoluto, é a única maneira de sobreviver à terrível jornada da gravidez e do parto. Sua voz parece surgir das catacumbas, colocando para o exterior um paradigma mumificado e bolorento. Entretanto, não há mais espaço no mundo contemporâneo para acorrentar as mulheres a um paradigma que as coloca como coadjuvantes no nascimento dos próprios filhos!!! Não há mais lugar para uma visão iatrocêntrica, focada no profissional, sem que a mulher possa escolher como e onde vai parir. Não se justifica mais a falta de conexão com as evidências científicas que mostram o parto domiciliar como tão seguro quanto o hospitalar no que tange mortalidade materna e neonatal, e com inúmeras vantagens acessórias.

O que resta de verdade após escutar essas mensagens de anacronismo e preconceito é que vozes carcomidas pelo tempo e visões antiquadas sobre a mulher e o feminino não devem se manter como hegemônicas; é preciso que a voz dos profissionais humanizados se faça ouvir cada vez mais na Academia e que sejam estes novos modelos os principais canais a informar as pacientes. Chega de ouvir médicos falando sem embasamento científico e sem qualquer conhecimento de causa.

Quando a proposta se resume a “Você quer estar certa ou ter resultados” na verdade estamos diante de outra demanda: o desejo de que se abra mão de toda a autonomia e que se sucumba à ordem hierárquica perversa de expropriação do parto.

Que a onda verde atinja esses médicos para que a liberdade deixe de ser slogan e vire prática cotidiana.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

A real natureza das doulas

Um dos aspectos mais transformadores e radicais na ação das doulas é muito pouco comentado. Em verdade, nunca vi ninguém falar isso abertamente como um elemento central do trabalho delas. Vou contar uma história que me marcou na vida como estudante e espero que auxilie a aclarar meu ponto de vista.

Nos primórdios da década de 80 estava eu atendendo um pós-parto no hospital como estudante, doutorando provavelmente. Enquanto avaliava a puérpera sob meus cuidados adentrou a sala um professor Tubarão cercado pelos seus alunos-rêmoras para atender uma paciente do outro lado da sala. Falaram com ela durante cinco minutos e depois saíram da sala com seus aventais esvoaçantes, suas canetas Parker e seus estetoscópio estrategicamente pendurados no pescoço, como correntes prateadas de periferia.

Na sala permanecemos eu com minha paciente, a moça atendida pela equipe e uma jovem senhora da limpeza. Logo após a saída da equipe a moça examinada tinha o semblante preocupado e estava quase chorando. Olhei de relance para ela tentando não ser intrusivo, enquanto anotava dados da minha paciente. O que se seguiu a este meu olhar dirigido a ela foi revelador.

A moça angustiada chamou a jovem senhora da limpeza e disse: “Dona Juraci (já deviam se conhecer de outro dia), eles disseram que é melhor eu me operar. Estou com medo. O que a senhora acha?”

Naquele instante me subiu um arrepio pela espinha dorsal. “O que a senhora acha?”. Ela era a MULHER DA LIMPEZA!!!! Como ousava perguntar isso a uma empregada dentro de um hospital e na frente de um médico (ok… eu nem parecia com isso nessa época, nem com estetoscópio no pescoço). Achei a cena absurda, quase ofensiva. Desrespeitosa, por certo. Como ousa!!!!

Precisou bastante autocrítica e análise para entender a cena que eu testemunhara. E levou tempo.

Em verdade a moça examinada pela equipe fez a pergunta para a única pessoa que compartilhava com ela valores, experiências, temores e vivências. Ela fez um pedido de ajuda para uma igual, alguém que falava seu idioma, que poderia entender suas dúvidas e que tinha sintonia consigo. Perguntou para a única pessoa com quem teria liberdade para expressar suas angústias sem ser desprezada.

A equipe médica era ameaçante, como sempre é a medicina. Seu higienismo, sua objetualização dos corpos, seus valores burgueses, seus preconceitos com pobres, seus jargões, seu palavreado empolado e difícil, suas regras e imposições são sempre uma ameaça aos doentes. Médicos inspiram medo, como pais severos. A senhora da limpeza era um porto seguro com quem podia “se abrir”, falar dos seus medos, seus temores e ansiedades sem ser julgada ou reprimida.

Pouca gente fala que a doula é valorosa exatamente por ser tão mulher quanto suas clientes. O fato de não ser uma profissional da saúde é uma VANTAGEM SUBJETIVA que as doulas carregam. Elas podem ser parceiras em condições de igualdade. Se fosse possível a moça diria a equipe “Ok, eu deixo vocês me operarem, desde que a Juraci possa entrar comigo. Ela vai defender meus direitos a partir da MINHA PERSPECTIVA DE MUNDO, e não dos saberes técnicos que os senhores apresentam. Quero comigo alguém que possa entender minha doença (ilness) na perspectiva única do paciente, e não pelos olhos de médicos que tratam apenas da objetividade destas doenças (diseases).”

Foi um momento grandioso para um jovem estudante que teve a oportunidade de aprender o que é adoecer na perspectiva de quem sofre o mal, e não apenas de quem o observa objetivamente.

1 comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Parto

Calaboca

Não tenho nenhuma dúvida dos meus inúmeros privilégios, e mais alguns que a maioria nem percebe. Entretanto, nenhum deles me obriga a ficar quieto diante de uma discordância ou mitificar a fala alheia como se fosse dotada de valor inquestionável. Não; reconhecer seus privilégios e de onde provém sua fala não é o mesmo que se calar culposamente e permitir que outra fala seja opressora. Oferecer o contraditório sem jamais atacar os sujeitos de quem discorda é um ato de civilidade.

Sei como começam as desqualificações e o “calaboca” sutil dos grupos que acreditam no monopólio das narrativas – que se expressa pelo desprezo à fala alheia – mas sei também onde terminam. Para mim o “lugar de fala” é um câncer que impede o debate, mesmo que eu concorde plenamente com a ideia que o sustenta. Entretanto, esse recurso é usado de forma a criar exclusividade de discursos que, por serem incontestes e não sofrerem contraditório, viram dogmas pétreos que emperram qualquer movimento. E podemos citar qualquer movimento libertário pois, mais cedo ou mais tarde, a sedução de ter a fala última (ou única) nos debates contamina qualquer ativista.

No movimento de humanização do nascimento esse problema ocorreu desde o seu surgimento e certamente 70% da minha reconhecida e inquestionável antipatia vem do fato de que eu nunca baixei a cabeça para as pessoas que me mandaram calar a boca, até porque acho que feminismo, parto, nascimento, racialismo, direitos LGBT ou Palestina Livre são assuntos humanos que me atingem direta ou indiretamente, e por essa razão eu tenho o direito – e o dever – de me manifestar diante de erros ou condutas que considero equivocadas.

Sobre o fato recente, a morte violenta de um ser humano me atinge diretamente, mesmo que eu não seja mulher, negra ou lésbica, porque compartilho com Marielle algo muito mais importante do que estas diferenças: a minha condição humana. Se é impossível entender por completo a “dor de ser quem ela foi”, existem dentro de mim dores que só eu sei e apenas eu compreendo a dimensão, mas que podem produzir ressonância com as dores dela por similitude, assim como os sofrimentos de tantas outras pessoas. Para isso Terêncio já dizia “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”, deixando claro que qualquer experiência do humano existe em todos nós e pode ser despertada pela empatia.

Se as pessoas não entenderem essa ideia simples também de nada adiantará fazerem campanhas por qualquer solidariedade, porque se nada além do meu mundo particular me diz respeito como seria possível mobilizar alguém na busca por ajuda?

Enclausurar as falas e as ideias e liberá-las apenas aos escolhidos é sintoma de degeneração e fragilidade. Escutar todas as vozes, em especial as discordantes – mesmo respeitando e hierarquizando os lugares de onde elas provém – é um elemento de sucesso de um movimento.

Sou solidário ao movimento palestino e não passo de um branquelo de origem europeia, mas das vítimas da limpeza étnica só recebo abraços e sorrisos pela minha simpatia à sua luta de libertação. Talvez porque eles não precisem me odiar para forjar uma identidade.

Jamais aceitarei “calaboca” disfarçado de “lugar de fala”.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Violência

Rumos

Fatos que teremos de encarar nos próximos anos na atenção ao parto:

O modelo “um obstetra para uma gestante” está moribundo; é um doente terminal. Ele ainda sobrevive apenas a partir de 3 elementos:

  1. A indústria da cesariana
  2. O engodo do “parto normal se tudo der certo”, uma espécie de falsa propaganda criminosa.
  3. Meia dúzia de abnegados Kamikazes que aos poucos vão se aposentando, sendo excluídos, adoecendo, desistindo por exaustão e/ou desilusão.

“Não existe humanização do nascimento sem humanizar e proteger o trabalho dos cuidadores” já dizia meu colega Max há mais de 30 anos. O futuro aponta claramente para as “cooperativas” de parteiras profissionais ou para as Casas de Parto, com pré-natal coletivo e rodízio de cuidadores para atenção no momento do parto. O resto cai nas possibilidades acima.

Quando terminei meu sacerdócio pela humanização estava atendendo 80 pacientes por ano, o que ultrapassa em muito o número de excelência e qualidade. Não tinha férias tranquilas, nem descanso garantido e sequer paz de espírito em função do bullying. Portanto, o trabalho em equipe colaborativa não se trata sequer de uma escolha a ser dada aos pacientes, mas uma imposição para os próximos passos da atenção ao parto.

O tempo dos abnegados e daqueles movidos por pura paixão está no fim. Aceitemos isso e humanizemos (também) os humanizadores.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto