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Brilhar ou Refletir

Minha mãe sempre dizia que as “palavras carregam energia”, mas Freud já dizia isso antes dela. As palavras desnudam nossos conceitos, que por sua vez modulam nossas atitudes. Quando, mesmo há muitos anos durante a residência, um colega me dizia que havia “feito cinco partos no último plantão” aquilo me informava de forma muito clara como era o específico olhar desse profissional sobre seu trabalho. Uma das questões mais delicadas sobre o ofício das doulas (mas também funciona sobre o trabalho de parteiras e médicos) se relaciona com o protagonismo dos profissionais no cenário do parto. Eu conheço muitas doulas que falam exatamente isso que foi dito aqui em cima: “minhas mãezinhas”, “minhas barrigas”, etc., e isso me parece uma necessidade (absolutamente humana, por certo) de ser protagonista do evento, junto com a mãe. Mesmo entendendo essa necessidade eu acredito que tais questões devem ser educadas e controladas em todos aqueles que trabalham com nascimento humano.

Max sempre me disse que “parteiros não devem ser os que brilham, mas os que refletem a luz”. Portanto concordo plenamente com a ideia de que precisamos nos educar para uma essencial humildade sobre nosso papel como cuidadores do parto. E gosto de pensar que quando brilhamos demais sempre é à custa de um desaparecimento da luz que emana de quem está parindo. Claro que muitas vezes o protagonismo dos profissionais é necessário, como no caso de uma medicação adequada ou uma cesariana salvadora. Entretanto, tal expropriação pode ocorrer de forma abusiva, como a alienação que brota de uma cesariana desnecessária e as consequências funestas que ela pode trazer para uma mulher que realmente deseja parir, mas também pode ser através de uma palavra mal colocada que, mesmo sutilmente, desloca a gestante do centro de nossas atenções, retirando dela a liberdade e o poder de tomar decisões.

Por parte dos profissionais de saúde ocorre uma intromissão (sempre bem intencionada, por certo) numa relação que apenas se inicia: a família que se forma em frente aos nossos olhos. Para além das questões relacionadas com a mãe, a construção da paternidade é ainda mais delicada do que a da maternidade, porque nossa (masculina) participação (ao contrário da materna) é dispensável e (portanto) frágil. Dessa forma, por nos faltar a materialidade visceral dessa ligação, ela precisa ser construída pelas palavras. Entretanto, muitas vezes os profissionais de saúde – que deveriam ser elementos facilitadores dessa ligação – funcionam como os principais obstáculos para a elaboração da conexão pai-filho. Se essa intromissão é ruim para a mulher, deslocada do centro das decisões, para o pai pode ter um efeito decisivo e dramático, que poderá se tornar o capítulo final de um afastamento que talvez nunca mais possa ser consertado. Nós, os profissionais da saúde, nos encontramos exatamente no vértice dessa encruzilhada, e temos a possibilidade de levar nossos clientes a uma experiência positiva de ligação afetiva. Todavia, nossas atitudes e nossas palavras podem se tornar desastrosas e produzir marcas profundas de afastamento.

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Violências Dissimuladas

O homem se distingue dos outros animais por ser o único em que a violência que pratica pode ser escondida, escamoteada e não percebida. Para um leão, um macaco, um rinoceronte, uma mordida é uma mordida, uma patada é uma patada. Já entre nós, ditos humanos, a violência pode ser praticada ao extremo sem que seja necessário levantar um dedo. As violências institucionais, principalmente no que diz respeito ao parto, se enquadram entre as “agressões invisíveis” nas sociedades contemporâneas. Pior: ao não marcarem o corpo elas se direcionam diretamente à alma, e lá, nos movimentos obscuros do inconsciente, elas crescem, se transmutam, se agrandam e ferem. Tal qual um cravo inserido na carne, as memórias tristes dos abusos, humilhações e maus tratos cometidos no nascimento permanecem por anos a gerar tristeza e ressentimento. “Violência no parto” é um dos piores tipos de agressão contra a mulher, pois as feridas que aí são geradas se mantêm até o fim da vida.

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Nascer na Bulgária

Para quem quiser como é a assistência ao parto na Bulgária, o texto abaixo foi enviado a mim pela minha colega parteira Olga Ducat, de Sófia. Existem dados bastante interessantes, como a queixa sobre a rudeza na atenção às gestantes, o número crescente de partos desassistidos, a extrema medicalização dos nascimentos e a proibição de partos domiciliares (até agora, mas depois do julgamento da corte dos direitos humanos da Comunidade Europeia as coisas tendem a mudar). 

BULGÁRIA

General data

A small country by the black sea.
Democracy since 1994.
The population of Bulgaria is about 7.494.000 inhabitants
Babies born per year (2010): 76 000
There are about 130 maternity wards
There are no birth centers
The title “Baby-friendly hospital” is awarded to 12 hospitals.
Maternal mortality rates  – 13 per 100 000 (2008)
Infant mortality rates – 11.0 (2010)
Neonatal mortality rate – 7 (2010)

Pregnancy Care

The standard pregnancy care covered by national health insurance includes 9 free visits, some basic blood and other tests, and 2 ultrasounds – one during the first trimester and one between 16-20 weeks. Most women prefer to visit an ob-gyn during pregnancy but there is an option to visit a GP – some GPs implement the obligatory program “Maternity care”. However, many pregnant women choose to visit private consultancies despite the high expenses because of the special attention they are hoping to get. There is no practice for the obstetrician who takes care of you during pregnancy to attend your birth. Most obstetricians who work in hospitals also have private practice. So women who want a particular obstetrician to attend their birth are often forced to visit their private consultancies as well. Many women combine regular and private pregnancy care and visit two obstetricians in order to be sure that everything is all right. Every visit in a private consultancy includes ultrasound.

Preparation for birth

Some hospitals organize birth preparation courses or single lectures by a midwife or an obstetrician. The majority of hospitals have open door days once a month when future parents can see the delivery room, the neonatal ward, the rooms and ask questions. There are also privately run childbirth classes but most of them do not really inform women, they rather make them “fit into the system”. They describe the routine medical interventions but do not discuss their necessity or risks. There are also alternative childbirth classes – with focus on the normal physiology of birth, hormones during labour and delivery, alternative pain relief methods, routine hospital medical interventions and their risks, how to prepare your birth plan, how to communicate to the hospital personnel, etc. A lot of centers organize prenatal yoga or gymnastics.  More and more women inform themselves from books and the internet.

Birth place

With very little exceptions all women in Bulgaria give birth in hospitals. Homebirth is not regulated by Bulgarian law. There are no birth centers. There are only 3 hospitals in the country where water birth is available and there are very few doctors trained to attend water births.
The majority of hospitals charge for additional services such as birth in a private VIP delivery room, choosing a medical team, presence of the father. The cost of birth with the above extras exceeds the average monthly salary in Bulgaria.

There is a public and a private system. It is normal to pay in the public system too, under the table to doctors and midwives. By law you are entitled to have a person with you at birth, but many times you have to pay for that too.

The informed consent

The informed consent form includes description of the routine interventions that could be performed during birth, but the risks are not mentioned. Often there is no additional explanation by the personnel. Usually the woman signs this form while being admitted into the maternity ward when she has contractions and is unable to concentrate on the text. She can refuse signing the document, but it is very likely that this will affect negatively the personnel’s attitude. Birth plans are not commonly practiced yet. Parent attempts to make demands are usually not received well and they are often disregarded.

Interventions

Childbirth in Bulgaria is extremely medicalised. Most people only make a distinction between cesarean and “normal” birth and a lot of women don’t even realize they have another choice. On the basis of anectotal evidence from women birth stories there is practically no natural birth without interventions.

The cesarean rates are constantly growing in the last years. According to the WHO data base the cesarean rate in Bulgaria in 2002 is 17%. In 2006 the rate is 24% (from 73 978 births more than 18 000 of them are c-sections). The official cesarean rate in the 3 major hospitals in Sofia is 45%, in private hospitals it is even higher.

Midwives

Number of midwives – 3401 (2007)
Number of obstetricians/gynecologists -1356 (2007)

Midwifery has a longstanding tradition. The first midwives were taking their education in Saint Petersburg, at a school that was made after the Dutch model in the 18th century. Midwifery was given till the socialist regime was ending the home birth and every woman was giving birth in hospital setting. Midwives were no longer a freestanding professional but the assistant of the obstetrician. There was no midwifery organization till 2011.

Midwives were supposed to be member of the medical care givers organization. An organization, that only looks after the institutionalized caregivers interests.

Midwifes in Bulgaria are very dependent on the doctors, in fact they play the role of obstetric nurses. They are not allowed to work independently. Every birth in a hospital must be attended by an obstetrician. Compared with the obstetricians their salaries are extremely low.

Doula

The first Bulgarian doula started working in Sofia in the end of 2010. At the moment there are about 50 doulas in a process of a certification. 3 doula workshops were organized – one of them by DONA International, and two by European Perinatal School.

A lot of medical professionals have negative attitude to doulas. Another problem is that if you want to have a companion during birth, in the majority of hospitals you have to arrange an individual delivery room and to pay for all the VIP services. This is not accessible for most of the women. Besides that the attendance of more than one companion is not advisable/not allowed in most of the hospitals, so the woman has to choose between her partner and doula. Doulas usually charge about 100-150 EUR for their services.

Homebirth

Home birth was forbidden till Bulgaria became member if the EU and the directives can be mentioned. In fact it is not regulated by Bulgarian law and it is hard to find a doctor or a midwife who would attend homebirth. This stops mothers who would like to give birth at home. The idea of homebirth itself is revolutionary for Bulgaria; most people consider it terribly irresponsible, bordering on insanity.

The main arguments of doctors against homebirth are undeveloped infrastructure, heavy traffic and the impossibility to take the necessary equipment into the house. However there is an interesting tendency in the last few years – the number of planned unassisted homebirths has increased. The difficult situation in hospitals, the routine interventions and the rude attitude of the personnel force some parents to make this choice. Usually they inform themselves from the internet and order literature and home birthing sets from abroad. These births are usually assisted by the father. Sometimes doulas attend such births.

Women are very active for their rights in Bulgaria and are many times in the public eye with claims for change.

Postnatal care

After discharge from hospital the mother and the newborn are visited by a pediatrician (the baby’s GP). They do a routine check up of the baby and offer advice about breastfeeding and how to care about the baby. (Usually the recommendation is breastfeeding on a 3 hour schedule). Two weeks after birth they usually weigh up the baby in the pediatricians consulting room, after that the mother and baby attend monthly pediatric appointments. There is a postnatal gynecological appointment for the mother 6 weeks after delivery.

Breastfeeding and maternity leave

The situation with breastfeeding in Bulgaria is changing for the better during the last years. Some hospitals already have breastfeeding support consultants.

As of January 2009 mothers in Bulgaria receive 90% of their salary during the first year of their maternity leave. The law allows 2-hour paid leave within the working day to breastfeed the baby until 8 months old and 1 hour on prescription after that, but very few women are aware of this possibility.

Olga Ducat, Sófia – Bulgária

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Curso de Humanização do Nascimento

Este curso é aplicado em 10 módulos de 4 horas, totalizando 40 horas de aulas. Cobre desde os elementos iniciais da fecundação e início da gestação, até o pré-natal, a assistência ao parto, amamentação e cuidados iniciais com o recém-nascido. É oferecido para os profissionais que pretendem atuar em equipes interdisciplinares de atenção ao parto e nascimento, com ênfase na humanização, na visão integrativa e na Medicina Baseada em Evidências.

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Pré-história da Cidadania

Depois das turbulências sobre parto domiciliar, onde a população civil, a liberdade e a autonomia das mulheres saíram vitoriosas (as determinações do CREMERJ foram solenemente cassadas e nenhuma sanção foi aplicada ao nosso colega), resta ainda uma pergunta para qual não tivemos resposta: Porque a preocupação tão vigorosa com os partos domiciliares por parte do CREMERJ? Será mesmo para “proteger” mães e bebês? Se isso for verdade, porque nunca houve um alerta vigoroso contra as cesarianas desmedidas e abusivas, que são comprovadamente perigosas para o binômio mãe-bebê e não têm respaldo de nenhuma instituição internacional como a OMS, Biblioteca Cochrane, FIGO, RCOG entre tantas outras? Pelo contrário: o Brasil é visto como um país de abusos, de falta de rigor científico, de apatia do setor público e de uma libertinagem médica no que tange à realização de cesarianas.

Ao mesmo tempo em que o Parto Domiciliar é atacado, mesmo provando ser seguro por fontes diversas – e de forma reiterada – a cesariana imposta à população de mulheres desse país não é combatida pelas entidades representativas dos médicos. Se o interesse era “proteger a população”, qual a razão para o silêncio diante da epidemia de cesarianas? Porque se calam as entidades quando a proteção das mulheres esbarra nos interesses corporativos? Afinal, essas entidades se interessam em resguardar a saúde da população, ou apenas salvaguardar benefícios, vantagens e o poder conquistado?

Queremos, nós médicos, um CFM que se coloque ao lado da saúde das mulheres, e não afastado delas, olhando para o próprio umbigo. Atitudes como a do CREMERJ colocam os médicos como vilões da modernidade, atrelados aos interesses menores e pessoais, sem uma visão de saúde ligada à liberdade, assim como às escolhas e recusas informadas.

Por quanto tempo ainda nos manteremos na pré-história da cidadania?

Veja o link abaixo:

CFM nunca advertiu sobre riscos da cesariana

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,entidade-jamais-advertiu-sobre-riscos-de-cesarea-,914802,0.htm

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Cesariana “Humanizada”

O problema de expressões como “cesariana humanizada” ocorre porque existe um conceito no mundo da humanização do nascimento de que tal procedimento cirúrgico não pode ser chamado de “humanizado”, pois lhe falta um elemento essencial na humanização: o protagonismo. Sem o resgate do protagonismo nunca haverá verdadeira humanização. Portanto uma cesariana pode ser “humana”, gentil, digna e respeitosa, mas jamais “humanizada”, pois carece do elemento mais fundamental para contemplar essa definição. Não existe “apendicectomia humanizada”, “histerectomia humanizada”, ou qualquer cirurgia que mereça esse epíteto, pois o protagonismo será sempre do médico, e jamais da paciente. Numa cesariana a mesma coisa. Cesariana é cirurgia obstétrica, não é parto; portanto é um procedimento técnico, regido por protocolos médicos, e nesse contexto as mulheres são necessariamente passivas. O parto, pelo contrário, é ativo. É algo que a mulher faz, e não ao qual é submetida. Somente aí poderão aparecer os elementos constitutivos e definidores da humanização: o protagonismo, a visão integrativa – que inclui os aspectos biológicos, psíquicos, socais, emocionais e espirituais – e a firme vinculação com a medicina baseada em evidências.

Hoje em dia eu acredito que o ativismo só tem sentido quando está focado no bem estar subjetivo daqueles que procuram assistência. Até a biblioteca Cochrane se vacinou contra esse tipo de essencialismo obliterante e homogeneizante ao difundir a Medicina Baseada em Evidências. Creio também que nossas convicções, por mais adequadas e humanistas que sejam, não podem solapar a individualidade. Sou um defensor da liberdade, e acredito mesmo que o individualismo – mesmo com sua tendência egocêntrica – é o único anteparo que temos à barbárie. Com a ideia onipresente de que cada mulher é diferente da outra fica impossível dizer “eu jamais faria isso“. No que concerne a um evento tão complexo como o parto, é injusto condenar mulheres que optam por uma cesariana “sem andar 100 km calçando seus mocassins“, assim como não é adequado julgar um médico que, por alguma razão bem específica realizou uma cesariana a pedido, sem indicações clínicas evidentes. Se isso não nos autoriza a realizar cesarianas à rodo, pelo menos nos mostra que existem exceções, e que algumas vezes elas podem ser justificadas.

A multiplicidade das circunstâncias e a infinidade incontável de histórias constitutivas do sujeito fazem do parto um evento absolutamente único, vinculado às formas mais primitivas de organização psíquica. O nascimento conjuga no mesmo evento morte, vida e sexualidade, no dizer de Holly Richards. Como imaginar, então, que sua manifestação não seja repleta de dilemas únicos e de profunda complexidade? Portanto, a partir do momento em que aceitamos a visão complexa e subjetiva do fenômeno humano, expresso no nascimento, as posturas “fechadas” como “eu sempre” ou “eu nunca” acabam se tornando slogans do passado, anacrônicos, que apenas nos lembram dos ímpetos da juventude, mas que necessitam da  sabedoria que vem com o amadurecimento.

Mesmo que não compactuemos com a barbárie das cesarianas desmedidas, isso não pode significar abandonar as pessoas em função de suas escolhas. Podemos condenar as cesarianas sem indicação clínica, mas não as pessoas que, movidas por traumas, sofrimentos passados ou até desinformação, fazem escolhas que nos parecem inadequadas. Nosso compromisso é em primeiro lugar com aqueles que precisam de nossa ajuda, e em segundo lugar com nossos ideais. Todavia, isso não significa abrir mão da radicalidade de nossas propostas, que se direcionam ao bem estar, à segurança, à liberdade e à autonomia de nossos pacientes. Nada disso; tal posicionamento reforça a ideia de que não nos cabe julgar as motivações recônditas que determinam as escolhas que nossos pacientes fazem. Quando defendemos o arrefecimento das posturas radicais, não o fazemos pela desistência aos ideais. Pelo contrário: é para que os mesmos sonhos não se dissolvam no calor da arrogância ou na insensatez dos extremismos. Todas as ideias renovadoras na humanidade precisam ser bafejadas pela visão humanista, que coloca o Homem como centro de nossas ações. Nossa luta por partos humanizados só pode ter sentido se nos lembrarmos constantemente de que as ideias de nada valem sem as pessoas.    

E só pode ser para elas, em sua característica única, a nossa atenção.

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Carta Aberta à Sociedade

Carta aberta

Nós, médicos humanistas, enfermeiras-obstetras e obstetrizes, todos os profissionais, entidades civis, movimentos sociais e usuárias envolvidos com a Humanização da Assistência ao Parto e Nascimento no Brasil, vimos através desta presen te Carta manifestar o nosso repúdio à arbitrária decisão do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (CREMERJ) de encaminhar denúncia contra o médico e professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) Jorge Kuhn, por ter se pronunciado favoravelmente em relação ao parto domiciliar em recente reportagem divulgada pelo Programa Fantástico, da TV Globo.

Acreditamos estar vivenciando um momento em que nós todos, que atendemos partos dentro de um paradigma centrado na pessoa e com embasamento científico, estamos provocando a reação violenta dos setores mais conservadores da Medicina. Pior: uma parcela da corporação médica está mostrando sua face mais autoritária e violenta, ao atacar um dos direitos mais fundamentais do cidadão: o direito de livre expressão. Nem nos momentos mais sombrios da ditadura militar tivemos exemplos tão claros do cerceamento à liberdade como nesse episódio. Médicos (como no recente caso no Espírito Santo) podem ir aos jornais bradar abertamente sua escolha pela cesariana, cirurgia da qual nos envergonhamos de ser os campeões mundiais e que comprovadamente produz malefícios para o binômio mãebebê em curto, médio e longo prazo. No entanto, não há nenhuma palavra de censura contra médicos que ESCOLHEM colocar suas pacientes em risco deliberado através de uma grande cirurgia desprovida de justificativas clínicas. Bastou, porém, que um médico de reconhecida qualidade profissional se manifestasse sobre um procedimento que a Medicina Baseada em Evidências COMPROVA ser seguro para que o lado mais sombrio da corporação médica se evidenciasse.

Não é possível admitir o arbítrio e calar-se diante de tamanha ofensa ao direito individual. Não é admissível que uma corporação persiga profissionais por se manifestarem abertamente sobre um procedimento que é realizado no mundo inteiro e com resultados excelentes. A sociedade civil precisa reagir contra os interesses obscuros que motivam tais iniciativas. Calar a boca das mulheres, impedindo que elas escolham o lugar onde terão seus filhos é uma atitude inaceitável e fere os princípios básicos de autonomia. Neste momento em que o Brasil ultrapassa inaceitáveis 50% de cesarianas, sendo mais de 80% no setor privado, em que a violência institucional leva à agressão de mais de 25% das mulheres durante o parto, em vez de se posicionar veementemente contrários a essas taxas absurdas, conselhos e sociedades continuam fingindo que as ignoram, ou pior, as acobertam e defendem esse modelo violento e autoritário que resulta no chamado “Paradoxo Perinatal Brasileiro”. O uso abusivo da tecnologia contrasta com taxas gritantemente elevadas de mortalidade materna e perinatal, isso em um País onde 98% dos partos são hospitalares!

Escolher o local de parto é um DIREITO humano reprodutivo e sexual, defendido pelas grandes democracias do planeta. Agredir os médicos que se posicionam a favor da liberdade de escolha é violar os mais sagrados preceitos do estado de direito e da democracia. Ao invés de atacar e agredir, os conselhos de medicina deveriam estar ao lado dos profissionais que defendem essa liberdade, vez que é função da boa Medicina o estímulo a uma “saúde social”, onde a democracia e a liberdade sejam os únicos padrões aceitáveis de bem estar. Não podemos nos omitir e nos tornar cúmplices dessa situação. É hora de rever conceitos, de reagir contra o cerceamento e a perseguição que vêm sofrendo os profissionais humanistas. Se o CREMERJ insiste em manter essa postura autoritária e persecutória, esperamos que pelo menos o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP) possa responder com dignidade, resgatando sua função maior, que é o compromisso com a saúde da população.

Não admitimos, não permitiremos que o nosso colega Jorge Kuhn seja constrangido, ameaçado o u punido. Ao mesmo tempo em que redigimos esta Carta aberta, aproveitamos para encaminhar ao CREMERJ, ao CREMESP e ao Conselho Federal de Medicina (CFM) nossa Petição Pública em prol de um debate cientificamente fundamentado sobre o local do parto. Esse manifesto, assinado por milhares de pessoas, dentre os quais médicos e professores de renome nacional e internacional, deve ser levado ao conhecimento dos senhores Conselheiros e da sociedade. Todos têm o direito de conhecer quais evidências apoiariam as escolhas do parto domiciliar ou as afirmações de que esse é arriscado — se é que as há.

http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=petparto

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Aprendendo com o “Inimigo”

Nunca será demasiado ressaltar a importância de conviver em intimidade com os contraditórios, aprender com as diferenças e usá-las como um teste permanente para a solução das dúvidas e desafios que surgem no desenrolar do processo. Mais do que “respeitar as diferenças” é necessário saudá-las, aproximá-las de nós, conviver com elas e retirar delas todo o ensinamento possível.

Rechaçar o outro, expurgá-lo, castrá-lo e exilá-lo não ajuda no crescimento de nenhum movimento. Os conflitos, tanto quanto as quedas de um rio, são os propulsores de energia. Sem discussões, por mais que sejam acirradas – e até mesmo duras – não saímos da morosidade paralisante dos consensos. A diferença entre a briga e a discussão é que na segunda dois se propõe a escutar; discutir vem do termo latino “discutere“, que deriva de “quatere” que significa sacudir. Dessa forma, “discutir” significa sacudir algo para separá-lo. Uma discussão é mesmo uma “sacudida”, uma convulsão de ideias e propostas, mas quando as partes aceitam a existência da palavra do outro o processo pode levar a uma conciliação em que os dois polos do debate acabam crescendo e se modificando.  

Um dos problemas que eu sempre diagnostiquei na humanização do nascimento era a palestra para os “convertidos”; a fala que se repetia para os mesmos. Ali sempre reinava a paz e evitavam-se os conflitos; perdemos muito tempo com essa ilusão de paz e harmonia. Com a proliferação dos vídeos, peças de teatro e documentários relacionados à problemática do nascimento no mundo ocidental, mudamos um pouco o nosso direcionamento e acabamos por atingir um público mais abrangente, e isso deu um impulso enorme às nossas propostas. Em contrapartida ao crescimento do número de interessados nesse tema, acabamos por criar adversários violentos e até mesmo cruéis, como os fatos recentes puderam comprovar. Todavia, continuamos a entendê-los como “inimigos”, sem entender a possibilidade renovadora que eles nos propiciam. Deixamos de escutar o preceito bíblico que diz que “os inimigos são os teus verdadeiros amigos”, e pecamos por esquecer as palavras de Oscar Wilde: “Devem-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência”. Sim porque a inteligência dos inimigos nos provoca crescimento e fortalecimento.  

Talvez esse seja o passo mais complicado para o ativismo, qualquer que seja, dos palestinos, dos grupos homossexuais, dos “verdes” e dos ativistas da humanização: como aprender a compor com os desiguais, instruir-se com suas teses e aceitar avanços lentos e graduais. Para mim a resposta continua sendo a sensibilização afetiva, sobre a qual podemos descarregar uma tonelada de evidências, assim como projetos que coloquem a mulher e sua saúde em primeiro plano.

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A Ousadia de Discordar

Como de hábito, meu filho Lucas selecionou uma pérola de sabedoria, inteligência, poder de síntese e simpatia nas páginas do TED. A palestrante Margaret Heffernan fala com brilhantismo da importância dos conflitos e do convívio com os diferentes. Mas, ao contrário do que poderíamos esperar, ela não faz uma pregação ao estilo “respeite aqueles que divergem de você“. Não… ela vai muito mais além. Ela diz da importância de trabalharmos com pessoas que pensam de maneira diferente, pois esta é a única maneira de calibrarmos o nosso trabalho e mostrar que ele está correto. Conviver com os que pensam como nós produz letargia e acomodação. Por sua vez, o contraditório é estimulante e induz ao progresso, das pessoas, corporações ou nações.

A palestrante produz em 20 minutos uma das mais fantásticas palestras do TED que eu escutei nos últimos anos. Curiosamente eu havia acabado de postar aqui no meu humilde blog um artigo chamado “Mudança de Paradigma” onde exponho a minha crítica ao racionalismo exacerbado como proposta de mudanças paradigmáticas na cultura. Minha tese é centrada na ideia de que as modificações profundas se dão a partir de mudanças de ordem afetiva, psicológica e emocional. Somente depois que tais elementos forem mobilizados é que a abertura para o conhecimento poderá plantar as sementes da mudança. Lucas enviou-me essa palestra sem saber do sofrimento por que passei por ter ousado discordar do senso comum, de ter coragem de me posicionar contra algo que intuía ser uma agressão ao direito soberano de livre expressão. Mas eu percebia que, mais do que simplesmente uma crise de posturas e opiniões, eu estava diante de uma tensão causada pelos diferentes caminhos propostos no ideário da humanização, e a discordância verdadeira se escondia no que não havia sido dito. Talvez alguns colegas houvessem percebido e preferiram se calar – e talvez apenas eu tenha essa opinião – mas a verdade é que eu resolvi aceitar o desafio do conflito e dizer minhas propostas.

Continuo acreditando que o caminho mais seguro para a humanização do nascimento seja através da sensibilização, do afeto, do carinho reconquistado e de uma abordagem humana e pessoal. A trajetória do “nascimento na perspectiva do sujeito” nos obrigará a repensar os modelos, protocolos e rotinas, abrindo um campo muito mais vasto de atenção às gestantes, fazendo de cada nascimento uma história única e inigualável. O grande erro das sociedades contemporâneas, no dizer de Wenda Trevathan, é a incapacidade do sistema médico ocidental de reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas, psicológicas e sociais do nascimento, mesmo que as evidências dessa falha sejam facilmente reconhecíveis pelos profissionais que atuam na atenção ao parto. Não faltam estudos, análises e pesquisas para demonstrar tal desacerto e disparidade. O problema é que “saber” não é suficiente. O conhecimento segue as mudanças, e não as provoca. Antes de informar é preciso transformar, subverter, modificar, revirar a terra de nossas convicções envelhecidas, para assim torná-la fértil para a semeadura do saber. Termino com as palavras finais de Margaret Heffernan sobre a “abertura” das consciências:

“Informação livre é algo fantástico; redes abertas são essenciais. Entretanto, a verdade não nos libertará até que desenvolvamos as habilidades, o hábito, o talento e a coragem moral para utilizá-los. Franqueza e sinceridade não são o fim; são o começo.”

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As Questões Primordiais

“Sou amigo de Platão, mas amo ainda mais a verdade”.
– Aristóteles –

É por vezes difícil e desafiador reconhecer os valores mais profundos embutidos em nossas atitudes e no nosso discurso. Por vezes nos deixamos ofuscar pelo brilho das teses que defendemos sem nos dar conta de que, por baixo da tela fúlgida que encobre o que ardorosamente defendemos, existe uma questão filosófica mais ampla e complexa. A liberdade de falarem o que não me agrada é um assunto que sempre tomei como “sagrado”, assim como o direito ao contraditório, a busca da pluralidade das expressões, a liberdade resguardada e a necessidade de suportar opiniões contrárias, tanto quanto a importância de devolver as agressões com argumentos e não com violência. Quando tratamos das teses humanistas do nascimento é importante ter em mente que para combater o excesso de cesarianas (entre outras intervenções abusivas) é essencial que fundamentemos nossa causa com ideias e argumentos, e não com agressões e xingamentos. Para a defesa das minorias nossa postura não pode se afastar desse mesmo ideário: devemos utilizar a argumentação embasada na fraternidade e nos ideais humanísticos, sem cair na tentação de usar as mesmas armas cerceadoras daqueles que nos atacam.

As violências cometidas contra opiniões sobre o parto domiciliar são graves por ferirem o direito de livre expressão, em especial por atacarem algo que a medicina baseada em evidências comprova como sendo lícito, adequado e até mesmo benéfico. O parto domiciliar é passível de debate, com profusão de argumentos livremente expressos de ambos os lados. Aliás, essa é a solicitação veemente que fazem os defensores da humanização do nascimento: um debate plural, cientificamente embasado e livre sobre o local de parto. Entretanto, algo muito mais importante do que o local do parto e sua segurança é a garantia que o estado de direito oferece aos cidadãos de que suas opiniões possam ser expressas sem coerção ou constrangimento. Posso não concordar com um colega que defenda “cesarianas para todos”, mas não ousaria impedi-lo de manifestar suas teses e seus argumentos. O que aconteceem muitos lugares é grave exatamente porque agride um dos preceitos fundamentais das democracias modernas: a liberdade de falar o que alguns não querem ouvir. Numa sociedade livre tal preceito está acima de qualquer consideração.

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