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Contextos

Li pelas redes sociais um texto onde a articulista tentava mostrar as dificuldades pelas quais Karol (do BBB) havia passado desde sua infância – difícil e penosa – para que nosso julgamento sobre suas atitudes egoístas ou preconceituosas pudesse ser contextualizado diante de uma vida de luta, dor e sofrimento. Esse texto veio logo depois de outro, de igual teor, que pedia mais amor ao julgar a transexual que, depois de pedir “mais aglomeração”, acabou falecendo pela Covid19. Também ela havia sido vítima de uma sociedade cheia de julgamentos, violência, incompreensões e cancelamentos. Muito antes ainda eu li a história de uma mãe estressada que bateu no seu filho pequeno durante uma viagem de ônibus porque ele insistia em colocar a mãozinha para fora da janela para brincar com o vento. Quando foi interpelada por outra passageira sobre a razão da violência ela desfiou uma série de pequenas tragédias cotidianas que colocavam aquela agressão dentro de um contexto maior, de privação e sacrifício. O nome do texto era algo como “Muitas vezes só o que ela precisa é de um abraço”. E foi mesmo com um abraço compassivo que o texto terminou.

Todos estes textos me chamaram à atenção por serem justos. Há que se conhecer o contexto para compreender a integralidade de qualquer ato desviante. Ortega y Gasset já nos ensinava: “Eu sou eu… e minhas circunstâncias”, mostrando que somos feitos de elementos alheios à nós, os quais pressionam por ações e atitudes.

Todavia, depois de ler estes textos eu fiquei com uma curiosidade: se no lugar de uma “lacradora“, artista negra e vinda dos estratos mais pobres da sociedade, de uma transexual marcada pelo desprezo e o abandono ou de uma mãe desgastada pela sua tripla jornada estivesse um homem, um abusador e agressor, haveria a mesma análise que tenta entender suas ações inseridas em um contexto de violência psicológica infantil? Sim, porque praticamente todos os abusadores e espancadores tiveram uma infância recheada de traumas e agressões, que são encenados pela vítima na fase adulta agora no papel do opressor. Ou esse raciocínio compreensivo só serve para minorias e oprimidos? Só é possível ser condescendente diante da possibilidade de identificação com o sofrimento alheio?

Pois eu faço o convite a que essa compreensão mais abrangente seja estimulada e assegurada a todos, e não somente àqueles grupos com os quais conseguimos desenvolver empatia. Até porque qualquer um de nós, seja preto, branco, homem, mulher, gay, trans, oprimido ou opressor já esteve diante de escolhas e acabou sendo o Torquemada de alguém.

Todos temos um lugar de dor onde se esconde nosso recalque. Meu singelo pedido é que, antes de julgar qualquer sujeito, é importante saber que todo mundo carrega feridas mal cicatrizadas e que é preciso entender aquele que comete erros dentro de seu contexto de vida. Todos nós, de uma forma ou de outra, cometemos delitos – com maior ou menor gravidade. Sem exceção…

Ser compreensivo e tolerante com os erros do próximo é bom e justo até porque é isso que esperamos que façam conosco. Todo mundo merece receber um julgamento de acordo com suas circunstâncias e contextos. Assim, o teste verdadeiro é tentar entender alguém cujas atitudes agridem nossa humanidade, procurando olhar para o criminoso (e não para seu crime) com a mesma justa compreensão com a qual julgamos a transexual ou a garota do Big Brother. E isso não significa perdoar crimes, mas entender os criminosos.

Justiça, amor e raio laser para todos.

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Fogueira das Vaidades

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Quando eu fiz residência em um hospital escola da minha cidade – há 30 anos – era do conhecimento de todos, desde quando você entrava no estágio do sexto ano de medicina, que o departamento era dividido ao meio. Havia dois “clãs”, dois grupos distintos de professores que historicamente se digladiavam e disputavam o poder de forma explícita e as vezes agressiva. O grupo que chamarei de “A” era o mais novo e o mais conectado com evidências e estudos, enquanto o grupo “B” era mais tradicional e conservador.

A chefia do serviço estava com o grupo “A”, mas sabíamos de processos judiciais que um grupo movia contra o outro pela primazia nas publicações. Havia um jovem e ambicioso  professor do grupo “A” que contava fofocas altamente comprometedoras de professores do outro grupo, e fazia isso na base da “camaradagem”, durante um plantão, um cafezinho no bar do hospital ou uma conversa privada. Eu achava aquilo estranho e antiético,  mas era difícil se posicionar quando existia um valor incomensurável depositado nessas figuras de autoridade. Preceptores de residência eram, e ainda o são hoje, figuras que concentravam um enorme poder.

Não havia escrúpulos. Era uma fogueira de vaidades e havia a todo o momento um convite para tomar partido. Se você era de um lado não podia ser do outro.

Certa feita fui testemunha de um fato curioso no plantão, que me fez repensar toda a minha profissão e o meu destino após a residência. Uma paciente acompanhada de sua mãe procura um professor do clã “B” e lhe faz um estranho pedido. Ele havia atendido o seu próprio nascimento há 20 anos e agora, grávida,  gostaria que ele a atendesse,  sendo o responsável pela assistência das duas gerações. Como era um atendimento privado o professor aceitou sem pestanejar.

O que a o paciente não sabia é que este professor nunca foi obstetra. Havia atendido o parto de sua mãe logo após se formar, mas imediatamente depois se dedicou à ginecologia e infertilidade. Não atendia um parto há no mínimo duas décadas.

No dia do parto a paciente internou durante o meu plantão, e só por isso soube de todos os detalhes. Avisei o professor que se limitou a dizer por telefone: “fiquem atendendo aí e me liguem quando ameaçar coroar”. Foi o que fizemos. Quando o parto se aproximava chamamos o professor, que efetivamente chegou quando o bebê despontava no introito vaginal.

O parto foi uma tragicomédia. O professor havia esquecido como segurar um bebê, e este escorregou de suas mãos. Para que  não caísse aparou com a perna. Sem saber o que fazer entregou o bebê ao pediatra, mas se esqueceu de cortar o cordão, e quase o bebê vai ao chão de novo. Nós, atônitos, assistíamos constrangidos. No final, “entre mortos e feridos salvaram-se todos”, mas rolou Kristelller,  episiotomia Transamazônica, corte prematuro do cordão, etc. Violência e despreparo.

Contei para a nossa turma que estava no plantão o que havíamos testemunhado e achamos graça, apesar do absurdo do atendimento.

Muda a cena para uns meses depois e durante um churrasco de confraternização dos residentes com professores do Clã “A” o jovem professor carreirista pede que eu vá até a sua mesa. Quando cheguei lá ele disse para todos:

Conte para nós o parto que o Dr Nosferatu atendeu no seu plantão.

Nosferatu” era como chamava o professor inimigo para nós. Havia chegado aos seus ouvidos o parto bizarro atendido por um professor do Clã “B”, e que eu tinha relatado aos colegas do plantão. Sem saber o que dizer contei as peripécias do parto para o público de colegas ávidos por uma fofoca.

Terminei a história e voltei para a minha mesa. Imediatamente me dei conta que eu havia sido usado como massa de manobra na luta das facções adversárias. O professor carreirista me usou para difamar um inimigo, que em verdade era um colega. Fui apenas “bucha de canhão”.

Tive uma sensação de culpa muito forte por participar daquela cena. Percebi também que não aceitaria viver minha vida profissional envolvido nas labaredas de vaidade do mundo acadêmico. Não queria pertencer a nenhum grupo ou facção, mas tudo me mostrava que não havia outro modo de  sobreviver.

O professor carreirista conta fofocas até hoje, e se mantém poderoso. O professor do grupo “B” já faleceu e eu, naquela churrascaria, fechei as portas da academia para mim para nunca mais querer abrir.

Eu não vejo esses personagens como desumanos ou perversos. Até no movimento de humanização do nascimento existem “clusters”, grupos que rivalizam, ressentimentos antigos e mágoas estimuladas a crescer pelo único adubo legitimamente humano: a vaidade.

Logo após minha saída da residência percebi que a maioria dos meus colegas tinha o sonho de trabalhar na Universidade. A tentação era muito grande pois tudo o que víamos era uma enorme concentração de poder nos professores, e todos os benefícios de prestígio social daí advindos. Minha dúvida era: como evitar o fato de que a motivação inevitavelmente se chocaria com a realidade.

A vida de um professor da universidade é ensinar, atualizar-se, dar aulas, acompanhar alunos e fazer pesquisa, mas estes aspectos eram os MENOS importantes para a seleção. É como se você fizesse um concurso para “body building” seduzido pelos músculos lustrosos dos Arnolds da vida e ao ser aprovado percebesse que precisava levantar peso todos os dias.

Talvez por esta razão específica da minha vivência, minha formação acadêmica foi pobre. Meus professores não tinham nenhum interesse – quanto menos talento – para o ensino. Usavam a universidade como insígnias de valor e poder, e não como ferramentas de transformação social. A seleção para estes cargos era feita de forma política e não levava em consideração a capacidade pedagógica ou o próprio desejo de ensinar.

Por outro lado o surgimento nos últimos anos de alguns professores de obstetrícia ligados às correntes de humanização do nascimento é a prova de que existe a possibilidade de reverter o  processo por dentro.

Se é possível produzir um papa um pouco mais aberto como Francisco emergido das entranhas do Vaticano, a Medicina também pode produzir – mesmo que lentamente – seus renovadores.

Quem viver, verá.

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Algumas explicações necessárias

Inquisição

Para pensar:

“E se…
Ao invés de usar tanta energia para destruir os adversários de nossas convicções nós a usássemos para melhorar nosso conhecimento e combater apenas as ideias, e não as pessoas? Quando vejo ódio lançado contra os ideólogos em qualquer questão eu sempre penso que tais ataques denunciam, entre outras coisas, uma fragilidade argumentativa. Duas alternativas: ou o sujeito não consegue aclarar seu pensamento para elaborar bons argumentos ou pior: ele não acredita no que diz.

É assim em qualquer lugar e em qualquer movimento. Eu, pessoalmente, sempre achei que isso inevitavelmente ocorreria. Eu nunca consegui ser domado, e o meu pai ainda no último domingo me dizia isso: Ele me botava de castigo e eu saía, dava uma palmada e eu saía, gritava comigo e nada de eu obedecer. Lá pelas tantas ele desistia e ficava pensando em uma alternativa que não incluísse a morte por eletrocussão ou afogamento. Mas meu temperamento não aceita que minha natural espontaneidade sofra censura ou cerceamento. Eu disse uma série de coisas que mantenho, pois não são ofensivas a ninguém e estão em plena sintonia com meu pensamento de combate ao patriarcado e ao machismo. Algumas pessoas não entenderam assim. Eu me senti a “desquitada” convidada a se retirar do clube tradicional porque “não fica bem uma mulher solta demais entre tantas senhoras de família”.

Neste caso minhas palavras ofenderam as feministas mais aguerridas. Sinto muito se meus conceitos mostram demais as pernas, ou minha posição expõe demais o decote. Neste caso específico eu me afastei de qualquer adjetivação e qualquer ataque pessoal a qualquer uma delas, que continuo acreditando serem pessoas do mais alto valor moral, e ativistas da melhor qualidade. Apenas não aceitam que minhas palavras sejam ditas perto delas.

 “Um sujeito que na vida só teve amigos ou é bobo ou não fez nada. Cultivar algumas inimizades é fundamental e, para alguns temperamentos, inevitável.”

O link que gerou a discórdia é um texto meu chamado “Machismo” que pode ser encontrado neste blog.  Meu crime foi dizer que o patriarcado não é a mesma coisa que o machismo; são coisas bem diversas, apesar de estarem relacionadas. Porém, na origem são diversos. O primeiro é um sistema de poderes artificialmente criado no mundo inteiro para resolver problemas circunstanciais, principalmente pela mudança do modelo nômade para o agrário. O segundo é uma “naturalização” de algo que é artificial. Um machista acredita que a superioridade masculina na cultura, que ainda se vê hoje em dia, não é obra da cultura, mas da natureza. Isto é: os homens são superiores porque são “melhores”.

Por outro lado, tanto o machismo quanto o patriarcado podem e devem ser combatidos agora. Não apenas o modelo de poderes pode ser mudado (se houver paz) como todos os preconceitos devem cair por terra. Entretanto, a simples menção do patriarcado como uma construção social ofendeu algumas mulheres, que acham que o patriarcado foi criado por “ódio às mulheres“. Ora, nem o racismo é feito por ódio, mas por interesses políticos e econômicos.

Mas… essas ideias simples foram mal recebidas, e a minha expulsão por expor “ideias machistas” foi solicitada. Antes que alguém propusesse um debate sobre isso eu pedi para a K* me expulsar. Mas reitero: as pessoas que pediram a minha expulsão são excelentes pessoas e mães maravilhosas, além de profissionais da mais alta qualidade. Houve uma discordância comigo e uma posição de revolta contra as minhas ideias, o que eu respeito. Se minha presença é insuportável ou desagradável cabe a mim sair, sem dramas.

O patriarcado foi tão necessário que nenhum lugar do mundo ousou desprezá-lo. A opressão das mulheres foi um subproduto, mas o objetivo era proteger os núcleos que surgiam com a agricultura. Os vassalos e suseranos também eram oprimidos pelo senhor feudal, mas a proximidade do reino lhes conferia segurança, e por esta razão o feudalismo foi tão bem sucedido. Tentar colocar a simples opressão como objetivo me parece ingenuidade. Não é assim que o mundo constrói suas rotas.

Nunca houve nenhuma sociedade matriarcal no mundo que tenha perdurado mais do que alguns poucos anos. Rainhas Elizabeth ou Vitórias foram sociedades MARCADAMENTE patriarcais. O mundo vitoriano era machista e o pudor era sua marca. A era Vitoriana foi a época em que Freud estudou a histeria, que nada mais é do que a marca no sujeito de um campo simbólico fortemente patriarcal e obliterativo sobre a livre expressão sexual da mulher.

Matriarcado é um mito; só existe nas fantasias de Amazonas e Xena. E, ao meu ver, ele nunca existirá. Não precisaremos ter uma opressão feminina para chegarmos à equidade. Nem Malinowski, que se equivocou de forma dramática em várias interpretações de comportamentos nativos (como o não reconhecimento da mãe como corresponsável pela carga genética filial), acreditaria em sociedades matriarcais. Uma sociedade assim, se existiu, fracassou pela sua fragilidade. Não haveria como, no passado, as mulheres terem poder político num contexto de guerras e invasões. Esse é meu ponto de vista, que é bem simples. Pode ser questionado ou combatido, mas as agressões que eu recebi falam muito mais de uma aversão a minha pessoa e o que eu represento (um homem falando dos direitos das mulheres) do que a legítima discordância de uma tese.

Não. .. o que se precisava eliminar é a possibilidade de alguém pensar diferente. Por isso minhas palavras (“invasão“, por exemplo) foram distorcidas de forma covarde e interesseira. A tese em si era pouco: seria preciso me pintar como um monstro machista que acredita que os lugares na sociedade são fixos e determinados por Deus. Isso foi o que deixou clara a raiva contida contra mim. A criação do “espantalho” denuncia a fragilidade das motivações expressas, e a existência de razões inconfessas.

Não sou feminista. Digo isso porque sempre fui excluído do debate feminista. Não sou feminista em RESPEITO ao feminismo, porque não me sinto em condições de debater com pessoas que não suportam que eu tenha ideias sobre esse tema. Sou aliado às principais teses do feminismo, e faço isso sem pertencer a nenhum “clube de mulheres” há mais de 30 anos. Entretanto não me filio e não me submeto a este movimento. Sou um livre pensador e isso é insuportável para muitas pessoas. Meu combate feroz ao machismo e ao patriarcado não precisa demonizar os homens e nem calar a sua voz, como eu vi e questionei.

Entenda: esse foi o meu crime: não concordar com a tese essencialista que coloca o patriarcado como uma invenção do “mal”. Quando faço uma leitura histórica (ela pode ser lida em Engels) do patriarcado como construção social eu não nego seus efeitos perversos para as mulheres, mas não preciso desconsiderar seu significado complexo e dinâmico. Posso ler o patriarcado da mesma forma como leio as ditaduras, tentando entender e contextualizá-las, sem a necessidade de criar justificar para sua aparição. Portanto, quem quer pregar a guerra de gêneros nunca terá em mim um aliado, e o cabresto que algumas mulheres quiseram me colocar nunca serviu.

Simone de Beauvoir entendeu a razão dessa construção, e percebeu também que o combate ao patriarcado não se dá demonizando-o (como as ditaduras) mas compreendendo seus contextos e suas características. Só entendendo as razões do nascimento e declínio do patriarcado é que poderemos planejar sua morte.

Vou repetir o que já falei anteriormente: as pessoas que se desentenderam comigo são grandes ativistas e mulheres inteligentes, e aqui não há nem um mísero grão de poeira de ironia. São mesmo pessoas muito especiais e vou continuar desejando o melhor para elas e seus trabalhos. Infelizmente as suas posições e, acima de tudo os seus desejos, não permitem que eu seja aceito, e não conseguiram tolerar minhas ideias a respeito da dinâmica de poderes nas relações de gênero. Fui muito claro e continuarei sendo: não há o que se desculpar. Mantenho minhas palavras e não retiro uma vírgula sequer, pois ainda acredito que elas estão corretas, salvo se argumentos suficientemente fortes me mostrarem o contrário.

Por outro lado, respeito o modo de ver de minhas “adversárias” (apenas neste debate). É assim que caminham as ideias ou, como dizia a minha mãe, “é nas quedas que o rio ganha energia”. Vou mais além: no dizer de Joseph Campbell “Where You Stumble Is Where Your Treasure Lies” (onde você tropeça, ali está seu tesouro). A humanização do nascimento se encontra em uma criativa encruzilhada, onde o ativismo feminista se encontra com as aspirações que enxergam o parto para além de um evento médico e para além de uma questão feminista, mas que opera para toda a humanidade. O debate, que poderia ser profícuo se houvesse mais compreensão e menos ataques pessoais, foi interrompido, mas será inevitavelmente reiniciado quando surgir um interlocutor mais hábil para trazer à discussão os temas que abordei. Como sempre eu disse algo que feriu pessoas e que as incomodou, mas penso no ditado japonês “Kokoro no sutemi” que fala de um “espírito de sacrifício” em que se deixa de lado a segurança e a estabilidade em nome de uma experiência com a unicidade.

É mais ou menos isso que sempre tentei oferecer: temas complexos ao debate das ideias, para que as arestas aos poucos pudessem ser aparadas em nome do crescimento de uma ideia em comum: o combate a um patriarcado cada dia mais anacrônico, a luta contra o machismo e outros sexismos, o empoderamento da mulher, seus direitos, suas conquistas e sua função de trazer os bebês ao mundo.

Sheila Kitzinger me disse uma vez do erro que ocorreu na Inglaterra quando Janet Balaskas foi convidada a se retirar de um grupo (agora não me lembro qual) a propósito de suas posições radicais (se não estou enganado algo a respeito de sua vinculação visceral com a liberdade de posição no parto). Sua saída acabou acarretando um atraso no debate da humanização do nascimento, e uma divisão desnecessária de um movimento nascente que apenas prejudicou a velocidade das transformações.

O mesmo fenômeno se repete agora. Uma questão que poderia ser tratada com uma conversa franca e sem emocionalismos acabou provocando um “manifesto” mal escrito e com uma série de inverdades, que mais revelam as mágoas e rancores de algumas ativistas do que um claro descontentamento com as ideias. Isso é ruim ao extremo, porque abafa a natural rebeldia das pessoas, mantém um pensamento monolítico e oficialista, não permite a criatividade e o livre fluir das ideias, e apressa a morte dos espaços de troca. Uma lástima, pois poderia ter sido evitado se o conflito se mantivesse no terreno das ideias. Sheila Kitzinger fala desse assunto em “The Politics of Birth“, um livro que deveria ser lido por “todxs xs ativistas” do parto e nascimento, para entender como agir diante de adversidades como esta. Sua postura de ativista do parto e FEMINISTA fica bem clara, e mostra como os radicalismos e as exclusões apenas atrasam o debate.

Meus escritos objetivavam fazer esta leitura: uma vivisecção (porque não haveria como fazer uma autopsia em um corpo que, mesmo envelhecido, ainda vive e respira) do patriarcado para entender sua existência desde o nascimento. Lembro dois fatos marcantes e que suscitaram o mesmo tipo de análise dolorida e marcante: o colaboracionismo francês sob o governo de Vichy na segunda guerra mundial e a ditadura no Brasil. Foi necessário entender os erros das esquerdas, as cegueiras dos resistentes assim como a docilidade francesa com a invasão teutônica hitlerista para poder banir a ditadura, o totalitarismo e o antissemitismo. Para acabar com o modelo patriarcal há que entendê-lo, mostrar porque esta escolha foi tão universal, tão forte, tão intensa e tão atual! Sem isso, e elegendo inimigos sem entender suas motivações e manobras defensivas, não poderemos prosseguir com avanços.

Outro ponto: Acho também que não devemos hiperdimensionar este fato. Existe uma linha ideológica que agora ficou bem evidente no “Vila”. É um portal de feministas que trabalham com o parto, o que é algo absolutamente respeitável (eu diria desejável). Entretanto, eu não sou feminista (pelas razões que já expliquei) apesar de defender há 30 anos com unhas e dentes TODOS os pressupostos feministas importantes e significativos aplicados ao nascimento. Como não suporto e não aceito cerceamento de ideias e obliteração de pensamento eu aceitei tranquilamente a minha expulsão. Sem traumas e sem dramas. Como podem ver pelo tamanho das minhas postagens, a minha vontade de escrever continua intacta, e espero que as meninas do Portal, livres do constrangimento gerado pela minha presença, possam continuar o trabalho junto às mães que sempre realizaram. É isso que eu honestamente desejo.

A resposta da sociedade nunca pode ser da mesma intensidade que aquela do sujeito. A primeira deve zelar pela civilidade. Já o sujeito, se incorre no crime, deve ser punido, mas a lei não pode ser tão ou mais violenta do que ele. Quando combatemos o modelo patriarcal e o machismo dominantes no cenário obstétrico não podemos responder com a mesma violência que testemunhamos na assistência ao parto. Como dizia Max sobre as falésias de Fortaleza:

Na costa desse recanto maravilhoso do litoral nordestino, erguem-se belíssimas e multicoloridas falésias, de onde se extrai a areia que é usada no artesanato local. Ao avistar as belas e altivas construções que embelezam o litoral, não pudemos deixar de imaginar por quantos milênios essas íngremes escarpas suportam a agressão continuada do poderoso oceano aos seus pés. Consegui, então, entender que, assim como elas, o processo de humanização do nascimento sofre com a violência daqueles que, por se negarem a enxergar a relatividade e a temporalidade de seus paradigmas, agridem o processo milenar do parto, acreditando serem as mulheres intrinsecamente incompetentes para conduzi-lo. Entretanto, não apenas o brio e a nobreza das falésias milenares nos trouxeram aprendizado. As coloridas encostas respondiam aos golpes do mar hostil colorindo de rosa as ondas que as agrediam. Da mesma forma deve proceder a humanização do nascimento, respondendo aos ataques do tecnicismo desmedido com a brandura das evidências e a suavidade de suas condutas.
(Entre as Orelhas – A Falésia do Parto Humanizado)

Assim deveria ser a nossa conduta: diante da violência desmedida modificar o paradigma e responder com suavidade e compreensão.Sim, mas como eu acho que a liberdade é o bem mais valioso, continuo fazendo a sua defesa e a da autonomia, em especial para as decisões das mulheres em relação aos seus partos. Foi pela minha defesa irrestrita disso, e pela minha particular visão do patriarcado, que fui expulso. Sim… eu fui convidado a me retirar, por pressão de outras meninas que lá escrevem. Portanto, sem meias palavras: expulsão é isso mesmo.

Não é fácil, para as pessoas movidas pela paixão do ativismo, se deparar com a decepção por alguém que não compactua com a visão dominante sobre um determinado tema. Isso é visto como uma traição, e a reação violenta que recebi foi por conta disso. As minhas falas eram vistas como um reforço de crenças alheias, e que deviam dar conta das expectativas destas pessoas, mas quando resolvi expressar uma opinião diversa do “mainstream” do feminismo – que para se fortalecer elege “inimigos” claros e fáceis de perseguir – eu fui jogado na fogueira e atacado com ferocidade por muitas ativistas. Num modelo muito emocional como este – eu circulo por diversos ativismos há décadas, do HIV, passando pela homeopatia, Palestina e Parto Humanizado – qualquer posição que relativize as bandeiras de luta é vista como uma heresia, uma deserção. Foi isso o que fiz para muitas delas: eu desertei da luta DELAS por tentar entender o patriarcado e o machismo sem as tintas que elas usam. Mas é claro: eu sou homem, branco, médico… nada pode ser pior que isso.

Essas “notas de esclarecimento” (foi publicada uma no blog do “Vila”) são documentos políticos. Não são a tradução exata do que ocorreu. Duas meninas que são articulistas do Vila pressionaram a K* pela minha saída. Outras pessoas, leitoras do portal (feministas e ativistas), também o fizeram. Ela me ligou tarde da noite muito constrangida se dizendo pressionada, e eu não tenho razões pra desconfiar disso. Para facilitar sua vida eu disse “faça o que achar melhor“. Ela então começou a explicar como funciona a “migração de conteúdo” e então eu saquei na hora que ela já há via tomado uma decisão, mas se pensava que eu me desculpar ia por pensar diferente estava enganada. Ela estava triste, mas desejava/gostaria que eu saísse. Eu apenas não dificultei nada para ela. Entendi seu sofrimento e compreendi sua dor, até porque sempre tivemos um bom relacionamento. Eu não faria o que ela fez, claro, mas não posso julgá-la.

Censurar alguém em nome de uma “pureza doutrinária”, ou como alguém falou, “podia ter escrito em outro lugar, mas não lá” me mostrou que as pessoas entendem a humanização do nascimento de forma fechada, dogmática e religiosa. Existem tabus, preconceitos e temas proibidos, que só podem ser tratados a portas fechadas. Então percebi que nunca deveria ter entrado em um portal com tal ordenamento; meu temperamento livre é avesso a isso. Deveria ter ficado quietinho e silencioso na minha caverna no “blogspot“.

Mas houve a pedra de tropeço e caímos. Resta agora levantar e seguir jornada porque, ao menos em tese, todos vamos para o mesmo lado.Eu prefiro olhar este episódio em perspectiva, e por isso eu acho que não é necessário que se dê tanta importância a isso. Essas crises sempre existem, em qualquer movimento de transformação. Se você for perguntar para qualquer uma das pessoas que me ofenderam qual a verdadeira razão para me atacar vai perceber que muitas delas nem sabem, ou pensam que é outra coisa. Portanto, sequer o debate foi “real”; ele foi uma espécie de catarse onde as pessoas fizeram discursos surdos, quase solilóquios, falando especificamente para o “Grande Outro” lacaniano, apenas para escutar em voz alta os seus próprios conceitos e a sua vinculação apaixonada com uma ideia. Na verdade nem era para mim que elas falavam, até porque eu concordava com 99% do que elas estavam dizendo (o problema do patriarcado, o machismo doentio da nossa sociedade, o parto sob o jugo de ambos, o machismo mortal e a importância de combater estes sistemas de opressão). Praticamente TUDO era concordância. Então porque as ofensas e o linchamento virtual?

Ora, porque não eram as ideias, era…. eu.

Eu hoje falei para uma menina inbox no Facebook que algumas manifestações de ativistas que são minhas queridas amigas eu as considero absolutamente reprováveis e contraproducentes. E porque não saio atacando ou batendo, chamando-as de “assassinas” ou “bandidas“, ou qualquer coisa assim? Bem, porque não é verdade, e também porque eu gosto dessas pessoas, mesmo que discorde. O problema não são as diferenças ideológicas, mas a rejeição à figura que represento.

No meu caso era o contrário: mesmo que eu estivesse 100% ao lado destas pessoas seria possível, torcendo uma palavra aqui (invasão) ou falseando um conceito ali (uma inexistente complacência com o machismo) e pronto: o inimigo está vestido para o jantar. Assim se cria o inimigo “espantalho” que desejamos, que fala o que não disse e nega o que em verdade disse existir. Quando eu disse que o patriarcado foi um “sucesso” (e isso é evidente, basta olhar qualquer sociedade no mundo) uma ex-amiga ativista interpretou viciosa e maldosamente esta frase como se eu estivesse exaltando o patriarcado e dizendo que as mulheres mortas pela violência que o patriarcado tolera eram coisas boas. Pessoas que usam este tipo de argumento cruel e mentiroso tem o coração cheio de ódio.

Esse foi o tipo de linchamento injusto e cruel que recebi, de pessoas absolutamente cegas pelas paixões e suas bandeiras, que se tornam MAIS IMPORTANTES que as pessoas, mais importantes que as mulheres, mais importantes que o parto normal, mais importantes que bebês, da mesma forma que os fanáticos religiosos jogam bombas, pois seu fanatismo é mais intenso que o amor ao próximo que a própria religião ensina. A desautorização da fala dos homens no cenário do parto (quando ele é tomado pelo viés feminista, que é um dos olhares legítimos deste debate) normalmente é violento e cruel com qualquer homem que queira falar. E se ele discordar dos dogmas (como eu sempre fiz) é coberto com uma chuva de clichês machistas. Esse é o problema: não aceitar a interlocução e não respeitar o contraditório.  

Sabe… quando a Laura Gutman falou sobre os “abusos” eu não gostei à primeira vista, mas depois que eu li um psicólogo fazendo um ataque violento a ela percebi que era uma raiva pelo que ela é, e uma leitura viciosa do que ela disse. Quando o Michel falou contra o pai na sala de parto eu não gostei, mas depois vi que ele tinha uma ligação com a etologia que o empurrava para este tipo de visão do parto. Mas, em nenhum momento eu, nem mesmo por um segundo, duvidei das boas intenções e da idoneidade e integridade intelectual de ambos. Poderia discordar (com o Michel muitas vezes) mas continuar admirando e reconhecendo a grandeza do seu trabalho. Com a Laura, que eu conheço pouco, o linchamento que eu comecei a ver tinha muito mais a ver com os traumas de algumas mulheres do que com os conceitos que ela trouxe à discussão (que são questionáveis, mas passíveis de debate). Comigo o linchamento tem a ver com algumas feministas que passaram a me odiar no passado por uma discussão com uma subcelebridade da área.

Foi neste momento eu percebi que NADA do que eu dissesse teria valor para elas. Nada mesmo, porque por enfrentar o poder monolítico de um discurso de exclusão masculina eu estava condenado eternamente.Portanto, o linchamento virtual – e até a defesa dele que eu testemunhei – não me surpreendem. Mas alguém tem que dizer que o Rei está nu, e que a agressão sistemática aos homens que participam do debate sobre o parto não ajuda ninguém.Vocês, por exemplo, acham mesmo que a discussão que iniciou toda esta celeuma era realmente sobre um “doulo“? Não, mas agora todos sabemos que não era… 

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Despedida

Bye bye

A partir de amanhã não faço mais parte do Portal “V. Mamífera”. Durante o tempo em que lá estive pude exercitar minha vontade de escrever, conjugada com uma necessidade praticamente insana de exorcizar pensamentos e ideias. Em função da minha inabilidade com as limitações políticas da escrita, e o desejo de dizer abertamente e sem anteparos a verdade de minha mente, acabei ferindo suscetibilidades de algumas parceiras do Portal que se sentem incomodadas com a minha presença, a ponto de exigir a minha expulsão. Meu pensamento, livre de amarras ideológicas e aberto para o embate no terreno das ideias, deixou algumas companheiras decepcionadas, o que acho respeitável e compreensível. É provável que na posição delas eu sentisse o mesmo. Entretanto, há alguns meses eu escrevi que faz parte de uma trajetória séria o cultivo de algumas decepções. Mais ainda, disse que “a não gostância dói, mas a unanimidade maltrata ainda mais“. Ser colocado numa posição de expectativa oblitera a liberdade de expressão, e é um castigo que não mereço.

Assim sendo me despeço dos colegas que cultivei e peço desculpas àqueles que decepcionei. Continuarei meus escritos solitários em meu futuro blog onde as pessoas poderão entrar se desejarem ler o que eu escrevo.

Peço perdão se minhas palavras feriram alguém, mas no embate das ideias isso pode ocorrer a qualquer momento. É inevitável que o atrito gere calor, que para muitos é insuportável. Minha saída objetiva, acima de tudo, manter ativo um portal que foi construído com muito carinho pela doula Kalu Brum com o desejo de estimular o debate sobre partos e nascimentos no Brasil.

Sobre a fonte da discórdia, não retiro nada do que disse, porque mantenho minhas posições ainda hoje, mesmo admitindo que um dia argumentos melhores possam fazer que sejam alteradas. Continuarei na minha luta, cada vez mais pessoal e isolada, pelo pleno protagonismo da mulher nos seus momentos sagrados de gestar, parir e amamentar. Vou me manter fiel à LIVRE escolha, sem constrangimentos, das pessoas que ELA decide como acompanhantes. Continuarei escrevendo sobre a beleza de um nascimento protegido pela aura sublime da paz, que se conquista passo a passo em cada parto atendido com dedicação e envolvimento.

Por outro lado, não me calarei diante dos exageros, da insensatez, da violência, da censura, e da tentativa de cercear a liberdade de pensamento em nome de ideários sectários. Não é calando a boca de alguém que se estimula o debate, e nada se constrói sem o choque dos contraditórios, que energizam o caminho e as conquistas.

Afastar or homens do cenário do nascimento pela constante desconsideração de suas vozes, criando um ambiente negativo e violento, só pode produzir a fragmentação de um movimento, o que atrasa seu progresso. Os opositores, os que fazem parte do “mainstream” do parto cirúrgico, sempre se divertem com essas brigas intestinas.

Para os amigos que entenderam minhas posições, principalmente no que tange às diferenças entre “machismo” e “patriarcado“, eu espero que compreendam a atitude de minhas colegas. Para elas, absorvidas na luta diária por um mundo com mais equidade, minhas palavras parecem se contrapor ao que pensam. Não é o que eu disse, e muito menos o que eu penso, mas entendo que no seu ativismo uma voz dissonante (e não discordante) possa desestabilizar as suas lutas.

Obrigado pelo tempo em que pude compartilhar este espaço.

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As Questões Primordiais

“Sou amigo de Platão, mas amo ainda mais a verdade”.
– Aristóteles –

É por vezes difícil e desafiador reconhecer os valores mais profundos embutidos em nossas atitudes e no nosso discurso. Por vezes nos deixamos ofuscar pelo brilho das teses que defendemos sem nos dar conta de que, por baixo da tela fúlgida que encobre o que ardorosamente defendemos, existe uma questão filosófica mais ampla e complexa. A liberdade de falarem o que não me agrada é um assunto que sempre tomei como “sagrado”, assim como o direito ao contraditório, a busca da pluralidade das expressões, a liberdade resguardada e a necessidade de suportar opiniões contrárias, tanto quanto a importância de devolver as agressões com argumentos e não com violência. Quando tratamos das teses humanistas do nascimento é importante ter em mente que para combater o excesso de cesarianas (entre outras intervenções abusivas) é essencial que fundamentemos nossa causa com ideias e argumentos, e não com agressões e xingamentos. Para a defesa das minorias nossa postura não pode se afastar desse mesmo ideário: devemos utilizar a argumentação embasada na fraternidade e nos ideais humanísticos, sem cair na tentação de usar as mesmas armas cerceadoras daqueles que nos atacam.

A violência cometida contra a opinião do meu colega sobre o parto domiciliar foi muito mais grave por ferir o direito de livre expressão do que por atacar algo que a medicina baseada em evidências comprova como sendo lícito, adequado e até mesmo benéfico. O parto domiciliar é passível de debate, com profusão de argumentos livremente expressos de ambos os lados. Aliás, essa é a solicitação veemente que fazem os defensores da humanização do nascimento: um debate plural, cientificamente embasado e livre sobre o local de parto. Entretanto, algo muito mais importante do que o local do parto e sua segurança foi atingido: a garantia que o estado de direito oferece aos cidadãos de que suas opiniões possam ser expressas sem coerção ou constrangimento. Posso não concordar com um colega que defenda “cesarianas para todos”, mas não ousaria impedi-lo de manifestar suas teses e seus argumentos. O que aconteceu com meu colega Jorge, em São Paulo, foi grave exatamente porque agride um dos preceitos fundamentais das democracias modernas: a liberdade de falar o que alguns não querem ouvir. Numa sociedade livre tal preceito está acima de qualquer consideração.

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