Arquivo da categoria: Pensamentos

Netos

avos

Meus netos são ilhas de alegria e esperança em uma vida aguerrida, que olhando de longe parece um Rio Doce pós-Samarco, cheio de impurezas e detritos. Se eu não pudesse ser avô faria isso mesmo: andaria de pela cidade, solitário, a pé ou de ônibus, todos os dias e me ofereceria para casais ou moças simpáticas a minha disponibilidade de ser avô.

Aliás, reclamo há muitos anos da falta que me faz esse substantivo. A paternidade é a qualidade de ser pai, assim como a maternidade se refere às qualidades maternas. E como diz para avô? Pois se me fosse negada a possibilidade biológica de ser avô eu ofereceria a minha “avozidade” para um casal mais velho cujos pais já se foram. Assim essas crianças não seriam privadas do melhor exemplo de vida que podem lançar mão: a sabedoria açucarada de um avô.

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Haters

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Fico um pouco impressionado com pessoas que se afetam com os comentários negativos que recebem ao tocar em temas delicados e polêmicos na Internet. Quando vejo isso eu sempre me pergunto: será mesmo que essa pessoa pretende debater essas questões e não espera receber um ataque violento vindo do outro lado? Acha mesmo ser possível tocar no nervo exposto das crenças alheias sem ser importunado por isso? Acredita que seu engajamento apaixonado e a crença na “verdade” que carrega… são escudos fortes o suficiente para afastar detratores?

Por trás dos paroxismos de ódio e indignação está um corpo de inseguranças coberto com o verniz da arrogância.

Eu não caio mais nessa armadilha. Sei mesmo que tangenciar temas profundos é tão necessário quanto complexo, e não nutro nenhuma ilusão de unanimidade, sequer aceitação. Nietzsche já dizia que um verdadeiro pensador só é entendido um século depois de escrever suas ideias, então por que a pressa?

Por outro lado também reconheço que o destempero é a contrassenha do detrator. Se ele vier com pedras, retribua com sorrisos; se ele trouxer fel, transforme em mel. Quanto mais difícil esta alquimia tanto mais será efetiva em mudar a energia de quem lhe ofende. Responder com ódio ou desprezo é acusar o golpe, pois é tudo o que o agressor deseja ao lhe lançar o anzol da discórdia.

Não alimente haters deixando-se afetar por eles. Caso necessário apenas delete e abra espaço para as críticas e os contraditórios que focam no debate e não nos sujeitos.

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Evolução

evolucao

Será o “progresso” realidade ou miragem?

O problema é que a adoção da agricultura não foi pelas potenciais “facilidades” que ela sugeria, mas pela premência de adquirir espaço. Exatamente porque a estratégia de caça e coleta obteve vantagens por milênios ela acabou por determinar incremento da população e sucesso reprodutivo. Com isso a população cresceu e a cizânia se instalou. Um grupo de caçadores coletores precisa de 1 km2 por elemento para uma caça e coleta adequadas. Como garantir esse espaço? Com o crescimento – mesmo que lento e insidioso – da população, onde acomodar o surplus populacional? Desta forma, fica fácil entender que agricultura não foi opção; foi a imposição dura de um mundo que ia encolhendo. Com ela veio a fome, a religião, o patriarcado e a violência como modelo de relação.

Ganhamos com isso? Talvez sim, e a nossa sobrevivência é a prova.

Mas… a que preço?

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Bagaceiro

bagaceira

Nossos ouvidos são invadidos diariamente por uma enxurrada de músicas de conteúdo erótico explícito cujas protagonistas são meninas e/ou adolescentes. Espanto, rejeição, curiosidade ou clara aversão? Esse tema deveria ser tratado com cuidado e profundidade.

Eu lembro que EXATAMENTE as mesmas criticas que vemos aos bailes e às músicas do funk popular foram feitas aos rebolados do Elvis e às próprias letras do nascente roquenrol. Hoje em dia parecem coisa de criança. Quando me choco com as músicas e performances dessas meninas tento decidir se estou parado no tempo e me comportando como um velho de pensamentos e gostos anacrônicos… ou então se meu horror é justo e devemos colocar uma barreira contra os excessos produzidos pela indústria do entretenimento.  

Não tenho respostas. Como de regra prefiro as perguntas, mesmo que isso me ofereça ainda mais angústia. Minha principal questão é se estas meninas, novas estrelas da música Funk, estão empoderando as mulheres através do (novo) protagonismo da sua sexualidade ou apenas aprofundando sua objetualização e coisificação. Entre o choque e o assombro ainda creio que o simples distensionamento das amarras da sexualidade feminina – da qual fui testemunha nos últimos 40 anos – não resolveu a angústia essencial que sua complexa expressão erótica demanda.

Por outro lado, também percebi que nenhum passo atrás seria admissível em um mundo embriagado pela histeria dos corpos e vozes. Entretanto, debater está questão é essencial. A explosão da sexualidade explícita dessas meninas é uma nova etapa da revolução sexual ou um contragolpe silencioso e dissimulado do patriarcado?

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Comentários

demonio

“A seção de comentários das notícias é o que o demônio lê todas as manhãs em busca de novas ideias para o dia”

Que Deus nos perdoe por tanta maldade

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Terêncio e o Humano em nós

terencio

Uma das formas corretas de entender o drama humano é honestamente colocá-lo dentro de si mesmo. A radicalidade dessa tarefa expressou-a Públio Terêncio Afro ao dizer sua famosa frase “Sou um homem e nada do que é humano me é estranho“. Peço especial atenção à última palavra dessa frase que já percorre os séculos, sempre se mantendo atual.   A palavra “estranho” vem do latim “extraneum“, de extra, aquilo que vem de fora. O “estranho” – assim como seu derivado “estrangeiro” – está fora de nós, não compartilha ideias, idioma, conceitos e valores. É um alienígena, não humano.  

Uma das formas mais corriqueiras de persuadir um interlocutor à aderir aos seus argumentos é desumanizar seu opositor, tratando-o como louco, estúpido, assassino ou insano. Vê-se diariamente na forma como tratamos os “terroristas” palestinos, os governantes de quem não gostamos, os abusadores ou os adversários de qualquer ordem.

Na ficção usa-se a loucura para justificar condutas que o trânsito pela sanidade impediria, e nas novelas existe um número imenso de personagens que se refugiaram na absoluta falta de lucidez para cometer crimes e desatinos. A loucura é uma forma de desumanização, por colocar o sujeito fora de um padrão lógico semelhante ao nosso. O louco vira “estranho”, alguém diferente de nós, que não se adapta ao nosso modo de ver e sentir o mundo.  

A importância da frase do ex-escravo de origem bérbere se deve à sua visão profundamente humanista. Para ele o que é o humano não está fora do sujeito; pelo contrario, é compartilhado com todos os que pertencem à grande família humana. Assim sendo, não apenas a beleza, a virtude e o amor nos são comuns, mas também o ódio, a vingança, o egoísmo, o orgulho e o todo o mal de que somos capazes. Desta forma, os assassinos, canalhas, estupradores, abusadores, vigaristas, meliantes, gênios e anjos, todos estão dentro de mim a fazem parte do que sou. O que você vê agora é muito mais obra de contexto e circunstância do que virtude ou perversão. Somos uma construção única, inacabada e complexa, onde nosso Eu é o resultado de experiências de tempos distantes em choque com as múltiplas faces com que o universo se apresenta.  

Diante do absurdo de um massacre, o abuso de uma criança, a violência explícita ou a expressão crua do horror é útil lembramos da extensão da frase de Terêncio. Ela nos lembra que o mal que nos causam estes relatos não se dá por serem estranhos, mas – paradoxalmente – por encontrar ressonância dentro de nós. O horror é parte do que nos constitui como humanos, pois somos feitos de sombra e luz, magia e mistério, pureza e podridão.  

Ao analisar os relatos cotidianos da miséria humana é sensato encará-los como parte dos atos que nós mesmos lançaríamos mão diante de circunstâncias semelhantes. Desumanizar o outro serve apenas para ignorá-lo e, assim fazendo, ignorar o que existe de confuso e contraditório em nós mesmos.

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Sócrates e Epicuro

socrates

O primeiro jogou no Corinthians, mas na época não tinha essa barba. O segundo jogou no infantil do Madureira, mas rompeu o menisco esquerdo num carrinho maldoso por trás e teve que abreviar a carreira. Ambos foram colegas na Faculdade de Filosofia (mas naquele época era Philosophia) e fizeram bons trabalhos de conclusão, pelo menos eles passaram a vida divulgando suas ideias. Eles tiveram muito seguidores apaixonados.

epicuro

Em sua despedida da escola de Philosophia Sócrates escreveu sobre “O não saber-se quem se é-se“, um épico do desconhecimento absoluto de si mesmo. Enquanto isso, seu colega Epicuro resolveu dedicar-se a um tema que lhe foi muito próximo, por isso apresentou o tema “A ataraxia e meu joelho – a inutilidade da filosofia nas rupturas meniscais“. Tanto Sócrates quanto Epicuro foram aprovados com “C”, mas apenas porque as fotos que usaram na apresentação eram de baixa resolução. Banca de TCC é sempre essa aporrinhação.

Ambos desistiram de Filosofia. Sócrates, como sabemos, dedicou-se ao futebol mas faleceu por efeitos da bebida. Epicuro teve vários empregos, mas no fim da vida trabalhava como plastificador de estátuas e escovador de cães em pet shops de Aricanduva.

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Privilégios

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Um sujeito conta a sua historia pessoal de auto glorificação e imagina que isso pode ser extrapolado para a complexidade das estruturas sociais e vocês chamam isso de argumento??? Quer dizer que o Pelé ser rico prova que não existe racismo no Brasil? Quer dizer que a existência de uma executiva de sucesso prova que não existe machismo? Esse é o “argumento arrasador”? Por favor… melhorem o discurso e parem de adjetivar e ofender quem discorda de vocês. Isso não me (nos) ofende e não ajuda em nada a causa dos liberais.

Essas histórias de “self-made man” são acima de tudo mentirosas, pois mais escondem do que expressam. Nunca se conta, por exemplo, o pai, a mãe, os irmãos, e escola, os professores, o livro, o calçado, a comida, a saúde psíquica dos pais, e bondade dos amigos, o grupo, a igreja, a coletividade, os avós, o clima político da época, etc… tire tudo isso de sua formação – coisas que você GANHOU GRACIOSAMENTE DA VIDA – e o desenrolar de sua vida seria bem diferente. Basta que no seu (ou meu) relato houvesse um buraco na figura paterna, ou um pai espancador (como se vê tanto entre os pobres) e sua história já teria um desfecho diferente.

Pense nisso, nos seus privilégios invisíveis, antes de se achar tão corajoso, brilhante ou especial.

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Corpo Fechado

terra seca

Sou a favor do pleno protagonismo – em especial das mulheres – e isso inclui aceitar escolhas que me parecem tolas ou inadequadas, mesmo sabendo que minha ideia pessoal sobre essas determinações de nada interessa a quem se responsabiliza por elas. Sem essa possibilidade de decidir nunca haverá liberdade plena. Por outro lado, e com as mesmas justificativas, reconheço para os médicos a “objeção de consciência“. Uma mulher pode se esterilizar aos 25 anos, mas não pode obrigar um profissional a produzir um dano físico em seu corpo. Isso significa que o pleno protagonismo feminino não implica no completo desempoderamento do profissional.

Mas nem sempre vemos os profissionais de saúde respeitando as decisões soberanas das mulheres sobre seus corpos. Em verdade, o que norteia a postura dos profissionais da assistência é a bússola do patriarcado. Sua visão a respeito delas é sempre colocada sobre o pano de fundo da defectividade essencial e do corpo servil que possuem. Nunca uma mulher pode tomar decisões sobre si mesma sem que estas sejam controladas pelo ordenamento falocrático. Mas, tão entranhada está tal configuração nas relações sociais que sequer é percebida pelos médicos, que escamoteiam seu machismo com um discurso cientificista ou higienista. “Acredite em nós, é pelo seu próprio bem“.

Para ser franco, eu defendo até cesarianas banalizadas. Não acredito que vamos oferecer maturidade tratando eternamente as mulheres como crianças. Escolham a cesariana e depois percebam o erro que cometeram; proibi-las de fazer más escolhas não as tornará maduras ou adultas.

Quanto ao consentimento do parceiro isso me parece uma “excrescência cultural que apenas permanece pela inércia dos preconceitos”, a qual precisa ser abolida. O desejo reprodutivo precisa ser investigado antes da formação da parceria. Se a mulher (ou o homem) não deseja filhos, não case com ela (ele). Não faz sentido um homem (ou mulher) deliberar sobre ou corpo de sua (seu) parceira(o).

Concluindo, uma mulher que deseja exterminar sua capacidade reprodutiva precisa ter garantido esse direito, por mais que isso nos cause dor. Se a um homem é permitido emascular-se para se tornar mulher, por que seriam as mulheres impedidas de tornarem-se estéreis, para dar conta de seus desejos e limites subjetivos?

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Apartheid

racismo

Para alguns é difícil compreender a diferença entre racismo institucionalizado e racismo como excrescência cultural. É realmente difícil explicar isso para quem se nega a enxergar a potência de uma norma institucional. Para muitos a promulgação da Lei Áurea não precisava ter acontecido, e poderíamos ter banheiros, escolas, cinemas e ônibus separados para brancos e pretos, afinal… não faz diferença alguma se estiver na lei ou nos costumes, não é?

Para estes mesmos, a luta de Martin Luther King foi inútil porque a polícia americana continua matando mais negros do que brancos. Portanto, se o racismo existe, porque não regulamentá-lo? (entendam a ironia, pelo amor de Deus)

Mandela? Pffff… um inútil idiota. Afinal, para que toda a sua luta, que consumiu uma vida inteira, para acabar com o racismo se a economia ainda hoje continua na mão dos brancos africaners?

Muitos, municiados por estas falácias, se negam a enxergar a força simbólica das leis. Mudá-las, em direção à justiça social, é um motor poderoso na direção da paz e da equidade.

Eu fico espantado com o quanto existe de gente de bem que nunca percebeu que as leis discriminatórias produzem uma MARCA na sociedade, uma “mancha” que é muito mais grave do que a existência de uma cultura ainda discriminatória e injusta por força da inércia de seus preconceitos. Não perceber essa diferença é grave, pois produz uma equalização TOLA. “Ah, já que o Brasil é racista e os Estados Unidos também, qual o problema de criarmos leis que separam as raças?“. Ou então: “Ah, já que Israel tem Apartheid, qual o problema de fazermos isso também com nossos índios e aplicarmos um genocídio LEGAL aos povos nativos?

Não entender essa diferença é a faísca da selvageria e da brutalidade, a qual facilmente acende os piores instintos fascistas.

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