Arquivo da categoria: Pensamentos

Ad Hominem

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“Ad hominem” – a crítica dirigida à honra de um oponente – é uma tática de enfrentamento covarde e rasteira para todos os lados, partidos ou facções, e em qualquer situação, não apenas quando nos atinge. Quando eu vejo pessoas que compartilham ideais comigo ofendendo pessoalmente meus adversários meu primeiro pensamento é “o que está havendo com nossos sonhos que não mais cativam por sua clareza e – por isso mesmo – precisamos de ofensas aos adversários para conseguir adesões?”.

Quando testemunho o desejo de destruir o opositor substituindo o combate às suas ideias, propostas e visão de mundo percebo claramente o princípio de morte de nossas próprias paixões.

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Pets

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Estou um pouco abismado com a quantidade de candidatos a vereança que se apresentam como defensores dos “direitos dos animais”. Não quero entrar na discussão mais profunda sobre o assunto, mas creio que existe um claro exagero e uma óbvia sinalização sobre o tipo de sociedade que estamos construindo. Ontem mesmo um educador dizia – e para mim com razão – que nos preocupamos mais em sair com o cachorro para passear do que com os filhos. Encontro homens e mulheres jovens levando seus “pets” (um anglicismo que me dá arrepios) para fazer suas necessidades, e fico um pouco assustado ao perceber que estes são tratados como crianças, com a diferença de que com as crianças somos mais duros e menos carinhosos. Por que estamos trocando crianças que crescem por crianças que nunca crescem?

O que isso tem a dizer sobre a nossa sociedade?

Mais uma vez, não se trata de criminalizar o cuidado com os animais domesticados, mas se perguntar porque esta sociedade (e isso já acontece há muitos anos na Europa e Estados Unidos) tem essa devoção especial para com cães e gatos. Será que a explicação da baixa natalidade humana e o desvio de nossa natural capacidade de amar para os animais é suficiente? Ou existe algo no “amor pelos bichos” que vai além do simples deslocamento afetivo?

Outro dia estava debatendo sobre o problema dos gatos domésticos e o risco para as aves, que teremos que enfrentar nas próximas décadas, e afirmei que nunca tive amor pelos animais. E não tenho mesmo. Nesta semana passada autorizei eutanásia para a minha cadela Mel e não tive um grande sofrimento por isso. Por outro lado, quando meu neto machucou o dedo em uma pedra sofri junto com ele por horas a fio, imaginando a angústia de uma experiência de dor inédita em sua curta vida.

Mas vejam, não se trata de uma visão vertical de “valorização de amores”. Eu não me acho melhor por sofrer pelo dedo ferido do meu neto, mas nem pior por não sofrer por um cão que se vai. Apenas não tenho esse sentimento de AMOR, uma conexão forte e significativa com seres de outras espécies. Porém, tenho respeito, e o sofrimento deles não é desprezível para mim, por isso mesmo autorizei a eutanásia em um caso de tumor hepático em estágio terminal. E de nada adianta reclamar da minha falta de amor por “pets”; eu nasci sem esse chip.

Todavia, o que me chamou a atenção esse debate foi o fato de que, ao dizer que não nutria amor pelos animais (o que sustento), mas respeito e consideração, uma debatedora explodiu em ódio e disse:

Então você é uma pessoa de merda.

Claro que ela foi deletada e bloqueada (depois descobri que era uma veterinária), mas apenas porque não admito que debates atinjam a honra e sejam ofensivos às pessoas. Essa é uma regra antiga que tenho desde os tempos do Orkut. Como diria Madre Cuegundes “Ad hominem, abiciendi“…

Mas eu fico pensando… você pode chamar um desconhecido de merda sem que isso lhe torne uma má pessoa, ou mesmo deseducada e violenta, mas não pode dizer que não AMA (mesmo respeitando) os animais. Por que essa inversão de valores?

Que hierarquia é essa onde um cachorro vale mais que um homem? Ou ainda, da verve de madre Cunegundes, “melior est canis hominem?“.

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Nazismo

Sobre a bandeira nazista em 1934 em Santa Catarina …

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Antes de serem proibidas a língua e as referências à Alemanha durante o nazismo, o governo de força da Alemanha – e mesmo a figura de Hitler – eram exaltados como modelos de sucesso, especialmente pela reconstrução da economia alemã do pós guerra. A constituição brasileira de 1937 foi baseada nas ideias alemãs e Hitler chegou a ser eleito o “Homem do Ano” pela Revista Time. Ele tinha seguidores no mundo inteiro, e ainda os tem. De onde você acha que vem a paixão de alguns brasileiros por personagens como Bolsonaro e (em menor grau) o juiz Sérgio Moro? De onde você acredita que vem o saudosismo pela ditadura e os regimes fechados?

Ora… existia antes – e continua a existir agora – um desejo por governantes fortes, uma espécie de busca pela figura paterna, forte, viril e que dê conta dos nossos medos e fragilidades. É por isso que glorificamos esses personagens que nos prometem “dureza“, “firmeza“, combate sem tréguas à “corrupção“, etc. Lembra como Collor nos ludibriou com sua “Caça aos Marajás“? Pois atentem que seu discurso era EXATAMENTE na mesma linha do que se fala ainda hoje. Percebe como de novo estamos “caçando corruptos” como se isso significasse a redenção nacional? Não Percebe que essa estratégia obedece a uma agenda que já foi usada com Getúlio, Jango, Juscelino e Dilma?

Isso apenas mostra que estamos repetindo a história por não termos aprendido o suficiente com suas lições. Quando vejo Moro tratado como “Messias”, usando métodos medievais e ilegais como regra, e com o beneplácito de um STF molenga e acovardado, eu percebo que os fatos que culminaram em Hitler – na época amado por todo o povo alemão – se repetem na frente dos nossos olhos. A mesma busca por um Salvador nacional que nos livrará de todo o mal, e mesma leniência com o Estado Democrático de Direito, e mesma caça a políticos de um lado só, etc…

Esse Bandeira poderia estar ainda hoje tremulando. Tenho certeza que entre os “revoltados” e “anticomunistas” ela continua na moda.

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Universidade Elitista

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Meus colegas de faculdade tinham nome de rua. Eles eram a geração mais nova das oligarquias burguesas do estado, muitas delas ainda do tempo das charqueadas e da Revolução Farroupilha. Eu era um “estranho no ninho”, filho de funcionário público que estudou em escola do estado. Tive colegas que chegaram para o trote no primeiro dia de aula dirigindo seu próprio Dodge Dart (eu peguei o 77, linha Menino Deus). Algumas colegas se gabavam para mim de nunca terem comido no refeitório do hospital escola; afinal “bandeijão” não ficava bem. Outros que vinham do interior diziam, entre risos, que suas despesas na capital eram bancadas pelo MFL – Montepio da Família Latifundiária.

Todos estudavam de graça na universidade federal. Quem pagava nossas aulas podia ser visto pela janela do último andar do Instituto de Biociências: o pipoqueiro do Parque Farroupilha. Ele, e todas as outras pessoas que pagavam impostos, tiravam um pedaço do seu magro orçamento para que nós pudéssemos nos orgulhar de fazer uma faculdade cobiçada, valorizada e gratuita. Sua esperança era que, finda a etapa escolar, o investimento no menino esforçado e na menina estudiosa valeria a pena, e eles serviriam como anjos a apaziguar os sofrimentos do corpo e da alma daqueles que os ampararam por tantos anos.

Mas esse retorno sempre é apenas uma promessa, e nada nos garante que será realizado. Pagamos por toda uma educação superior sem qualquer garantia de que este profissional retribuirá com seu trabalho para o povo que o sustentou. Mais ainda, nosso processo seletivo privilegia o andares superiores das castas sociais, deixando quase nenhum espaço para pobres, negros e oriundos do ensino público. As cotas vieram para tapar esse fosso, mas nenhum avanço será percebido na fotografia de formatura antes que duas ou mais gerações tenham passado.

Por enquanto na universidade pública é o imposto do pobre que paga para o filho do rico estudar de graça.

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Netos

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Meus netos são ilhas de alegria e esperança em uma vida aguerrida, que olhando de longe parece um Rio Doce pós-Samarco, cheio de impurezas e detritos. Se eu não pudesse ser avô faria isso mesmo: andaria de pela cidade, solitário, a pé ou de ônibus, todos os dias e me ofereceria para casais ou moças simpáticas a minha disponibilidade de ser avô.

Aliás, reclamo há muitos anos da falta que me faz esse substantivo. A paternidade é a qualidade de ser pai, assim como a maternidade se refere às qualidades maternas. E como diz para avô? Pois se me fosse negada a possibilidade biológica de ser avô eu ofereceria a minha “avozidade” para um casal mais velho cujos pais já se foram. Assim essas crianças não seriam privadas do melhor exemplo de vida que podem lançar mão: a sabedoria açucarada de um avô.

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Haters

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Fico um pouco impressionado com pessoas que se afetam com os comentários negativos que recebem ao tocar em temas delicados e polêmicos na Internet. Quando vejo isso eu sempre me pergunto: será mesmo que essa pessoa pretende debater essas questões e não espera receber um ataque violento vindo do outro lado? Acha mesmo ser possível tocar no nervo exposto das crenças alheias sem ser importunado por isso? Acredita que seu engajamento apaixonado e a crença na “verdade” que carrega… são escudos fortes o suficiente para afastar detratores?

Por trás dos paroxismos de ódio e indignação está um corpo de inseguranças coberto com o verniz da arrogância.

Eu não caio mais nessa armadilha. Sei mesmo que tangenciar temas profundos é tão necessário quanto complexo, e não nutro nenhuma ilusão de unanimidade, sequer aceitação. Nietzsche já dizia que um verdadeiro pensador só é entendido um século depois de escrever suas ideias, então por que a pressa?

Por outro lado também reconheço que o destempero é a contrassenha do detrator. Se ele vier com pedras, retribua com sorrisos; se ele trouxer fel, transforme em mel. Quanto mais difícil esta alquimia tanto mais será efetiva em mudar a energia de quem lhe ofende. Responder com ódio ou desprezo é acusar o golpe, pois é tudo o que o agressor deseja ao lhe lançar o anzol da discórdia.

Não alimente haters deixando-se afetar por eles. Caso necessário apenas delete e abra espaço para as críticas e os contraditórios que focam no debate e não nos sujeitos.

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Evolução

evolucao

Será o “progresso” realidade ou miragem?

O problema é que a adoção da agricultura não foi pelas potenciais “facilidades” que ela sugeria, mas pela premência de adquirir espaço. Exatamente porque a estratégia de caça e coleta obteve vantagens por milênios ela acabou por determinar incremento da população e sucesso reprodutivo. Com isso a população cresceu e a cizânia se instalou. Um grupo de caçadores coletores precisa de 1 km2 por elemento para uma caça e coleta adequadas. Como garantir esse espaço? Com o crescimento – mesmo que lento e insidioso – da população, onde acomodar o surplus populacional? Desta forma, fica fácil entender que agricultura não foi opção; foi a imposição dura de um mundo que ia encolhendo. Com ela veio a fome, a religião, o patriarcado e a violência como modelo de relação.

Ganhamos com isso? Talvez sim, e a nossa sobrevivência é a prova.

Mas… a que preço?

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Bagaceiro

bagaceira

Nossos ouvidos são invadidos diariamente por uma enxurrada de músicas de conteúdo erótico explícito cujas protagonistas são meninas e/ou adolescentes. Espanto, rejeição, curiosidade ou clara aversão? Esse tema deveria ser tratado com cuidado e profundidade.

Eu lembro que EXATAMENTE as mesmas criticas que vemos aos bailes e às músicas do funk popular foram feitas aos rebolados do Elvis e às próprias letras do nascente roquenrol. Hoje em dia parecem coisa de criança. Quando me choco com as músicas e performances dessas meninas tento decidir se estou parado no tempo e me comportando como um velho de pensamentos e gostos anacrônicos… ou então se meu horror é justo e devemos colocar uma barreira contra os excessos produzidos pela indústria do entretenimento.  

Não tenho respostas. Como de regra prefiro as perguntas, mesmo que isso me ofereça ainda mais angústia. Minha principal questão é se estas meninas, novas estrelas da música Funk, estão empoderando as mulheres através do (novo) protagonismo da sua sexualidade ou apenas aprofundando sua objetualização e coisificação. Entre o choque e o assombro ainda creio que o simples distensionamento das amarras da sexualidade feminina – da qual fui testemunha nos últimos 40 anos – não resolveu a angústia essencial que sua complexa expressão erótica demanda.

Por outro lado, também percebi que nenhum passo atrás seria admissível em um mundo embriagado pela histeria dos corpos e vozes. Entretanto, debater está questão é essencial. A explosão da sexualidade explícita dessas meninas é uma nova etapa da revolução sexual ou um contragolpe silencioso e dissimulado do patriarcado?

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Comentários

demonio

“A seção de comentários das notícias é o que o demônio lê todas as manhãs em busca de novas ideias para o dia”

Que Deus nos perdoe por tanta maldade

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Terêncio e o Humano em nós

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Uma das formas corretas de entender o drama humano é honestamente colocá-lo dentro de si mesmo. A radicalidade dessa tarefa expressou-a Públio Terêncio Afro ao dizer sua famosa frase “Sou um homem e nada do que é humano me é estranho“. Peço especial atenção à última palavra dessa frase que já percorre os séculos, sempre se mantendo atual.   A palavra “estranho” vem do latim “extraneum“, de extra, aquilo que vem de fora. O “estranho” – assim como seu derivado “estrangeiro” – está fora de nós, não compartilha ideias, idioma, conceitos e valores. É um alienígena, não humano.  

Uma das formas mais corriqueiras de persuadir um interlocutor à aderir aos seus argumentos é desumanizar seu opositor, tratando-o como louco, estúpido, assassino ou insano. Vê-se diariamente na forma como tratamos os “terroristas” palestinos, os governantes de quem não gostamos, os abusadores ou os adversários de qualquer ordem.

Na ficção usa-se a loucura para justificar condutas que o trânsito pela sanidade impediria, e nas novelas existe um número imenso de personagens que se refugiaram na absoluta falta de lucidez para cometer crimes e desatinos. A loucura é uma forma de desumanização, por colocar o sujeito fora de um padrão lógico semelhante ao nosso. O louco vira “estranho”, alguém diferente de nós, que não se adapta ao nosso modo de ver e sentir o mundo.  

A importância da frase do ex-escravo de origem bérbere se deve à sua visão profundamente humanista. Para ele o que é o humano não está fora do sujeito; pelo contrario, é compartilhado com todos os que pertencem à grande família humana. Assim sendo, não apenas a beleza, a virtude e o amor nos são comuns, mas também o ódio, a vingança, o egoísmo, o orgulho e o todo o mal de que somos capazes. Desta forma, os assassinos, canalhas, estupradores, abusadores, vigaristas, meliantes, gênios e anjos, todos estão dentro de mim a fazem parte do que sou. O que você vê agora é muito mais obra de contexto e circunstância do que virtude ou perversão. Somos uma construção única, inacabada e complexa, onde nosso Eu é o resultado de experiências de tempos distantes em choque com as múltiplas faces com que o universo se apresenta.  

Diante do absurdo de um massacre, o abuso de uma criança, a violência explícita ou a expressão crua do horror é útil lembramos da extensão da frase de Terêncio. Ela nos lembra que o mal que nos causam estes relatos não se dá por serem estranhos, mas – paradoxalmente – por encontrar ressonância dentro de nós. O horror é parte do que nos constitui como humanos, pois somos feitos de sombra e luz, magia e mistério, pureza e podridão.  

Ao analisar os relatos cotidianos da miséria humana é sensato encará-los como parte dos atos que nós mesmos lançaríamos mão diante de circunstâncias semelhantes. Desumanizar o outro serve apenas para ignorá-lo e, assim fazendo, ignorar o que existe de confuso e contraditório em nós mesmos.

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