Arquivo da categoria: Violência

O abuso – das calcinhas aos bisturis

Gerald Thomas Corte

Nos últimos dias fomos assaltados por uma imagem que até poderia ser chocante e agressiva não fosse a televisão a nos escandalizar todos os dias e banalizar os abusos. Entretanto, tivesse acontecido há alguns anos e isso seria intolerável para a moral e os bons costumes. Na foto que circulou pela Internet, um conhecido dramaturgo brasileiro (apesar do nome estrangeiro) coloca as mãos por debaixo do vestido exíguo de uma – aparentemente – constrangida apresentadora que participava de um programa de televisão. A cena é tão grosseira que até parece uma montagem previamente combinada, tamanha a liberalidade com que o artista se desvencilha das mãos da modelo e tenta alcançar as peças mais íntimas do seu vestuário.

Tudo é permitido na cena contemporânea. Para alcançar o sucesso e a fama parece que o limite tornou-se obscuro e esfumaçado. Numa sociedade de “ninguéns” um alguém que retira despudoradamente a calcinha de uma modelo parece alcançar uma merecida notoriedade. A fotografia bizarra chamou a atenção da mídia e de inúmeros articulistas, das feministas aos cronistas de cotidiano, todos condenando a ação violenta e grosseira levada a efeito durante a sessão de autógrafos do citado artista.

Por outro lado, muito se falou sobre o descaramento e a permissividade do tal ato, e pouco se falou do terreno fértil que a cultura contemporânea cria para esta ação. Se a atitude do cabeludo artista é deplorável, e tem sido por todos condenada, resta a pergunta que não quer calar: porque é tão fácil acessar o corpo de uma mulher?

Difícil responder, mas eu temo que esta questão fique restrita à discussão da exposição excessiva do corpo e das formas de uma mulher desejável, e das consequências que este oferecimento parece produzir nos homens. É certo que a provocação erótica de uma mulher que vende seus atributos físicos para o uso da fantasia alheia não significa, em hipótese alguma, a liberação de acesso à sua intimidade. Se a atitude agressivamente erótica dela pode receber alguma crítica de setores mais moralistas da sociedade, não vejo possibilidade de aceitar qualquer invasão do sagrado território de seu corpo com a justificativa de que “ao vestir-se assim estava autorizando o abuso”. Chega desse tipo de discurso, pois que ele está velho demais para continuar sendo usado.

Entretanto, eu gostaria de falar de outros abusos contra o corpo das mulheres. Há mais neste abuso do que simplesmente uma mão boba explorando uma calcinha, e acho que é oportuno que abordemos esta questão de frente. Para mim, que milito na área da humanização do nascimento, o “levantar de saias” deste senhor é uma agressão menor se comparada aos abusos diários e repetidos contra as mulheres perpetrados por uma atenção ao parto que viola a segurança de seus corpos.

O índice de cesarianas no Brasil chegou a números inaceitáveis. Mais da metade das mulheres deste país é submetida a uma grande cirurgia para a extração de bebês, muitos deles antes de estarem minimamente adaptados à vida extrauterina. As taxas de prematuridade explodiram no país, com consequências que podem se alastrar por toda a vida deste ser que está nascendo. Nossa invasão irrefletida ocorre à despeito de milhões de anos de processo adaptativo que capacitaram as mulheres para um nascimento fisiológico. Centenas de estudos e pesquisas abrangentes já foram realizados sobre esta questão e todos confirmam que a cesariana é muito mais perigosa e danosa para a segurança de ambos, mãe e bebê. Mesmo assim, e apesar das comprovações do risco aumentado, a incidência continua aumentando. Por quê? Qual a razão para continuarmos aceitando tanto abuso?

Se nos escandalizamos com a atitude obscena, despudorada e invasiva realizada contra a modelo de pernas saradas, por que não ocorre o mesmo com as intervenções abusivas nos corpos roliços e lustrosos de grávidas, submetidas diariamente – e aos milhares – a procedimentos invasivos e perigosos? Mais ainda: Se consideramos inaceitável que o ato deste artista seja esquecido, e considerado apenas um “arroubo de liberalidade em uma sociedade histérica”, ou quem sabe “uma brincadeira inconsequente de uma mídia para idiotas”, porque continuamos a fechar os olhos para a violência de corpos retalhados sem necessidade para satisfazer os desejos de controle e poder sobre as gestantes e seus corpos? Porque não produzimos em nós a mesma sensação de enojamento que o abuso na moça bonita produziu?

Minha resposta não é que os homens e as mulheres ainda se calam, ainda se fecham. Não há vozes suficientes para fazer a indignação das redes sociais virar um clamor por respeito, verdadeiro e eficiente. Os mesmos corpos que são vendidos ao lado de cervejas não conseguem se mobilizar para exigir que a inviolabilidade do corpo de uma mulher seja um fato social.

Por enquanto só escutamos ruídos baixos, ranger de dentes, lágrimas contidas e indignações sussurradas. O respeito à mulher precisa ir para a rua, para os parlamentos, para os centros obstétricos e para o ouvido das meninas, para que elas cresçam com a consciência de que o corpo que carregam por toda uma vida é um patrimônio de valor, e que deve ser respeitado.

Enquanto as mulheres permanecerem em silêncio todos os tipos de abusos serão cometidos. Levantar o vestido de uma mulher em público, abrir seu ventre sem justificativa ou impedir que seu marido esteja presente no parto são abusos que tem a mesma origem: o silêncio, a mortificação muda, a apatia vitimista e a condescendência com uma ordem cultural que avilta o feminino e expropria a mulher de seu próprio corpo. Lutar pela liberdade das mulheres é um dever dos cidadãos, homens e mulheres, que desejam uma sociedade baseada na fraternidade, na justiça e na liberdade.

Deixe um comentário

Arquivado em Violência

Tragédia de Santa Maria

Nesse momento de dor e sofrimento, em que estamos consternados e tristes pela tragédia que vitimou tantos jovens em Santa Maria, eu fico feliz em escutar minha filha falando da sua especial maneira de analisar o que ocorreu. Infelizmente muitas pessoas gastam seu tempo no justiciamento, na raiva, no ódio e com pensamentos de vingança. O que aconteceu para os proprietários dessa casa noturna, assim como para o jovem da banda (cujos nomes eu não quero saber), TAMBÉM foi uma tragédia, e nem os mais empedernidos e raivosos fascistas acreditam que eles, por algum momento, imaginavam que isso pudesse ocorrer, e muito menos que tinham o desejo de carregar o peso de tantas mortes pelo resto de suas existências. Mesmo reconhecendo como fundamental a apuração de TODOS os fatos relevantes deste caso, o que inclui a adequada punição dos culpados, o desejo de linchamento que eu percebo em muitas pessoas (inclusive jornalistas) é lamentável.

Pior ainda: quanto mais tentamos colocar as culpas nas pessoas (pois tal atitude parece nos confortar de alguma estranha forma) menos lições positivas tiramos do caso. A tragédia de Santa Maria precisa ser vista como um marco, a partir do qual as condições que lá estavam presentes não se repitam. Enquanto Fulano e Sicrano forem os culpados não se torna necessário olhar para dentro de nós e descobrir o que precisa ser mudado, o que está equivocado, inclusive nas nossas próprias atitudes.

Bebel me disse: “Perdemos tempo demais em atitudes ruins, pensamentos raivosos, disseminando as “energias negativas” do ódio, rancor e mágoa. Não vejo razão em odiar alguém em meio a tanta dor, e estes sentimentos jamais construíram algo de bom para a humanidade. Os responsáveis devem ser punidos pela lei, mas apenas para que suas culpas (onde houver) sejam reconhecidas e nos ajudem a evitar mais desastres, e não pelo prazer de ver mais gente sofrendo.

Nenhum ódio é capaz de trazer essas vidas de volta. Nenhum linchamento, físico ou moral, poderá nos ajudar. Espero que, entre as lições que a tragédia possa nos dar, o perdão e a compreensão possam estar presentes, tanto quanto a necessária e indispensável justiça para aqueles que cometeram erros.

1 comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Momento Transformador

A civilização poderá usar esse momento triste e chocante como elemento transformador. Eu prefiro acreditar que a indignação gerada pela morte brutal e inaceitável de uma menina em Nova Delhi, na Índia, venha a se transformar no estopim de uma “revolução para o bem”. Para tanto, me parece importante deixar de lado os sentimentos de ódio e vingança, olhar para frente e tentar propor soluções em todos os níveis (educacional, jurídico, político, social, policial, etc.) para que ocorra uma verdadeira e profunda a mudança nos valores daquele povo. O linchamento dos criminosos pode até satisfazer algumas almas que se deliciam com o sentimento de revanche, aquelas que ainda acreditam na lei de Talião. Entretanto, o “olho-por-olho” não é capaz de construir a sociedade que desejamos. Mesmo que não pareça aceitável negligenciar a necessidade de uma justiça dura, severa e exemplar para este caso, por outro lado nossos olhos precisam se voltar para o amanhã, exatamente porque o caso dessa menina é apenas emblemático, e está longe de ser um “fato isolado”. Mais de 600 estupros já haviam sido denunciados naquela cidade só em 2012.

A morte desta estudante foi apenas mais uma na estatística de violências hediondas produzidas por uma sociedade anestesiada pela impunidade, e que acabou por banalizar tais crimes. Executar meia dúzia de perversos não será a cura para esta doença, a enfermidade do desrespeito com a mulher. Precisamos muito mais do que a simples vingança; é necessário entender as raízes da violência, do machismo, da impunidade e dos abusos de ordem sexual para poder combate-los e prevenir a ocorrência de novas tragédias como a que testemunhamos. Somente com um postura civilizatória e fraterna poderemos fazer desse triste episódio uma lição duradoura para a humanidade.

Sabem qual a sensação que me dá quando eu leio na internet as declarações anônimas de pessoas pedindo os mais diversificados e sofisticados tipos de linchamento contra os assassinos da menina de Nova Delhi? Eu fico com a sensação de que realmente Terêncio tinha razão: “O que é humano não me é estranho”. O sentimento de vingança e justiciamento cego que algumas pessoas colocam na Internet é tão feroz e insano quanto o próprio crime que testemunhamos. É claro, dirão; são apenas “desafogos”, desabafos indignados e não há a “passagem para o ato”. Entretanto, o que nos distancia dessa passagem? É possível que, ao avaliarmos a vida, a infância, as circunstâncias e o contexto desses criminosos poderemos perceber que o ato brutal e inaceitável que cometeram nada mais é do que um elo na cadeia de ações aviltantes de suas vidas. Poderemos perceber que o crime que cometeram é tão somente uma “vingança”, cometida contra uma vítima inocente. Entretanto a “vingança” está atrelada a um passado em que eles próprios também foram vitimizados por uma sociedade cruel e nefasta.

O crime cometido por eles não está tão distante como pensamos de nossa própria realidade. Talvez fôssemos nós a cometê-lo, se nos tivessem oferecido o contexto e as circunstâncias que a eles foram ofertados. Longe de desmerecer a necessária dureza nas sentenças, creio que uma humanidade mais justa precisa olhar para casos assim com uma compreensão que se afasta dos sentimentos mais rasteiros, olhando para o futuro e tentando prevenir outras ocorrências trágicas como essa.

1 comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Violências Dissimuladas

O homem se distingue dos outros animais por ser o único em que a violência que pratica pode ser escondida, escamoteada e não percebida. Para um leão, um macaco, um rinoceronte, uma mordida é uma mordida, uma patada é uma patada. Já entre nós, ditos humanos, a violência pode ser praticada ao extremo sem que seja necessário levantar um dedo. As violências institucionais, principalmente no que diz respeito ao parto, se enquadram entre as “agressões invisíveis” nas sociedades contemporâneas. Pior: ao não marcarem o corpo elas se direcionam diretamente à alma, e lá, nos movimentos obscuros do inconsciente, elas crescem, se transmutam, se agrandam e ferem. Tal qual um cravo inserido na carne, as memórias tristes dos abusos, humilhações e maus tratos cometidos no nascimento permanecem por anos a gerar tristeza e ressentimento. “Violência no parto” é um dos piores tipos de agressão contra a mulher, pois as feridas que aí são geradas se mantêm até o fim da vida.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos, Violência

Homossexualidade e Futebol

Vou abrir um espaço para falar o que penso, sem brincadeiras (que, aliás, não apenas curto como estimulo, pois se trata da possibilidade de fugir do politicamente correto). Eu não acredito que exista um clube mais homossexual (em termos de torcida) que outro. Simplesmente não faz sentido. Aliás, se houver algum será o Flamengo, e depois o Corinthians, simplesmente porque detém as maiores torcidas. Simples assim, mas isso não significa que eles sejam percentualmente mais gays que outros. Aqui mesmo nana Internet apareceram fotos de homossexuais (postadas pela torcida adversária, claro) de todas as agremiações; basta procurar por alguns minutos na Internet que se acha.

Olha… eu sou do tempo em que o Grêmio teve uma torcida chamada “Coligay”. Era formada por um grupo de jovens homossexuais que frequentavam uma boate chamada Coliseu. Eu cheguei mesmo a assistir Grenal em que estava esta torcida, e ela era não apenas tolerada, mas até exaltada como um exemplo de diversidade; alegre, divertida, barulhenta e colorida. Havia também outra torcida no Grêmio chamada de “Força Azul” comandada pelo “Careca” que era um notório homossexual. Há relatos que ele praticava felação com os jovens  durante os jogos, escondido no meio das bandeiras. Entretanto, mesmo sabendo esse tipo de “viadagem”, isso não nos incomodava ou ofendia: entendíamos como o exercício da liberdade sexual. Olhava quem queria, chegava perto quem tinha curiosidade e entrava na roda quem precisava. Havia, curiosamente, um respeito pela diversidade sexual, algo impensável para os dias de hoje. Mas por quê?   O que se modificou na relação que nós temos com esse tipo de atitude? O que houve nos últimos 30 anos que modificou a estrutura da sociedade contemporânea penalizando a atitude homossexual, com as óbvias repercussões nos fenômenos de massa, como o futebol?  

Há várias interpretações.  A minha é a queda do muro de pedra. Não, nada a ver com o muro de Berlim. É sobre outro muro, do outro lado do mundo. Este muro é igualmente de pedra, chamado de “Stone Wall”, uma famosa boate gay na cidade de Nova York, no início dos anos 70. Uma feroz e desumana batida policial realizada naquele local colocou seus frequentadores diante das câmeras pela prática da “pederastia”.  Diante dos televisores dos lares americanos apareceram os “doentes”, os “transviados”, ou “perversos” praticantes de uma doença que parecia se alastrar, colocando em risco a estrutura da família americana. Mas, para o assombro geral, os sujeitos presos e humilhados durante a abordagem policial eram pessoas como nós: pais, jovens, velhos, advogados, avós, médicos, professores, arquitetos. Gente. Pessoas perigosamente parecidas demais conosco, os heterossexuais.  

É importante recordar que para nós, nos anos 70, não havia homossexualidade, que só foi inventada nos anos que se seguiram. Havia um distúrbio, uma doença, um desvio e uma aberração biológica e moral chamada “pederastia”. Diante desse nome, dessa marca e desse diagnóstico paradoxalmente sentíamo-nos seguros e protegidos. “Eu não sou homossexual, não tenho essa enfermidade”. A homossexualidade era tratada, curiosamente – e de forma um tanto jocosa – como uma doença contagiosa, num modelo “vampiresco”. Os próprios homossexuais ingenuamente diziam “Ah, você se julga hetero, mas se um dia você “der” nunca mais vai ser o mesmo”. Era folclore, misturado com preconceito e com a ignorância do determinismo de desejo que se aplica à orientação sexual.  

Pois a queda de Stone Wall acabou por provocar uma onda de protestos por todos os Estados Unidos, pelos direitos da livre expressão da sexualidade. O início desse movimento pode ser visto no filme MILK, grande obra de Sean Penn. Daquele ponto em diante a homossexualidade passou a ser vista como uma bandeira de luta pela liberdade, contra o moralismo e a favor da autonomia do sujeito sobre seu próprio corpo e seu desejo. A bandeira multicolorida, o orgulho gay, as paradas e as manifestações, assim como o surgimento de grupos em todo o mundo (como o “Nuances” no Brasil) marcam a trajetória de um movimento de resgate da homossexualidade como manifestação legal e legítima de afeto entre as pessoas.

Entretanto, a saída do armário acabaria produzindo um notável movimento de reação. Somente depois do surgimento da homossexualidade é que nós criamos a homofobia. Esse sentimento (que em geral não se expressa de forma organizada, mas como uma posição subjetiva) é derivado do medo de que os sentimentos homossexuais, derivados de nossa configuração sexual primitiva na tríade amorosa primordial, sejam descobertos pelo outro, e expressos como preconceito. A homofobia, portanto, nasce como contraponto à expressão livre da sexualidade na cultura. Ela é a forma como nos defendemos de nossas próprias inseguranças, refugiando-nos num estereótipo “macho” para esconder nossas fragilidades. O homossexual é sempre o outro, assim como na escola nos apressávamos em chamar o colega de “baixinho” antes que alguém pusesse os olhos em nós e visse que nossa altura era igualmente desfavorecida. 

Homossexuais são as torcidas adversárias : As Marias, o Gaymio, os Coloridos (moranguinhos), o Gaylo, os Bambis e todos aqueles que não são “nós”, num exorcismo que fala muito mais de nossas inseguranças do que de uma verdadeira preferência sexual do outro.   Hoje em dia vemos que os xingamentos de torcida são todos exorcismos sexuais. Os outros são “putos”, são “viados” e “bixas”. Na minha época de criança xingávamos a mãe, foco de nosso amor desmedido e centro da nossa proteção. Tudo mudou: ofendemos o outro por suas preferências supostas, imaginadas e/ou temidas.  

Eu achei que seria interessante abordar um fenômeno novo (porque não tem mais do que 30 anos) no futebol: a homofobia. Muito mais do que a defesa ingênua e tutelante que eu as vezes presencio, eu acredito ser mais interessante entender as origens da homofobia em função da conjuntura atual, decorrente dos movimentos de liberação gay. Nessa perspectiva, a homofobia (como manifestação, não como sentimento e nem como prática) é uma consequência dos movimentos GLTB (ou queers, que engloba tudo). Antes da extroversão dessas modalidades de expressão sexual não havia necessidade de expressão homofóbica, pela simples razão de que ela não ameaçava a maioria heterossexual. Bastou os homossexuais se assumirem publicamente, mostrarem seus rostos na rua, para nos apavorarmos com a semelhança (e não com as diferenças) que eles possuem com o mundo dos “normais”.

É isso, exatamente, que gerou a homofobia: a parecença, o fato de eles serem humanos, amarem, odiarem, terem medo e orgulho. Como qualquer um. Portanto, ninguém mais estaria a salvo. Saíram dos armários e do DSM (lista de doenças psiquiátricas), e isso os deixou perigosamente próximos de todos os héteros, os que sustentavam a ideia de família cristã e prolífica. Assim, tornou-se imperioso expurgar a suspeita e colocá-la no outro. Foi essa a razão pela qual os xingamentos homofóbicos se tornaram lugar comum nos estádios, e também na vida das cidades: o medo, pânico de que descubram minhas fragilidades…  

Mas sou um otimista inveterado. Eu ainda gostaria de ver de novo uma torcida homossexual no meu clube. Mais ainda: gostaria que a orientação sexual não fizesse diferença alguma para o torcedor, e que as barreiras entre homos e héteros simplesmente ficassem restritas aos leitos e aos corações. Gostaria que os homossexuais gostassem de futebol, se interessassem pelo espetáculo e se apaixonassem pelos gols e vitórias. Gostaria que meu clube não impedisse, através da direção ou da torcida, a livre expressão de amor clubístico pelos grupos homoafetivos. A repressão que qualquer preferência sexual é um mal para a sociedade. Mesmo que eu defenda com unhas e dentes a livre expressão, e o direito à homofobia, eu sonho com uma sociedade livre desses preconceitos, em que a comunhão em torno da alegria do futebol seja o traço de união entre todos que o procuram.

2 Comentários

Arquivado em Pensamentos, Violência

Carta Aberta à Sociedade

Carta aberta

Nós, médicos humanistas, enfermeiras-obstetras e obstetrizes, todos os profissionais, entidades civis, movimentos sociais e usuárias envolvidos com a Humanização da Assistência ao Parto e Nascimento no Brasil, vimos através desta presen te Carta manifestar o nosso repúdio à arbitrária decisão do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (CREMERJ) de encaminhar denúncia contra o médico e professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) Jorge Kuhn, por ter se pronunciado favoravelmente em relação ao parto domiciliar em recente reportagem divulgada pelo Programa Fantástico, da TV Globo.

Acreditamos estar vivenciando um momento em que nós todos, que atendemos partos dentro de um paradigma centrado na pessoa e com embasamento científico, estamos provocando a reação violenta dos setores mais conservadores da Medicina. Pior: uma parcela da corporação médica está mostrando sua face mais autoritária e violenta, ao atacar um dos direitos mais fundamentais do cidadão: o direito de livre expressão. Nem nos momentos mais sombrios da ditadura militar tivemos exemplos tão claros do cerceamento à liberdade como nesse episódio. Médicos (como no recente caso no Espírito Santo) podem ir aos jornais bradar abertamente sua escolha pela cesariana, cirurgia da qual nos envergonhamos de ser os campeões mundiais e que comprovadamente produz malefícios para o binômio mãebebê em curto, médio e longo prazo. No entanto, não há nenhuma palavra de censura contra médicos que ESCOLHEM colocar suas pacientes em risco deliberado através de uma grande cirurgia desprovida de justificativas clínicas. Bastou, porém, que um médico de reconhecida qualidade profissional se manifestasse sobre um procedimento que a Medicina Baseada em Evidências COMPROVA ser seguro para que o lado mais sombrio da corporação médica se evidenciasse.

Não é possível admitir o arbítrio e calar-se diante de tamanha ofensa ao direito individual. Não é admissível que uma corporação persiga profissionais por se manifestarem abertamente sobre um procedimento que é realizado no mundo inteiro e com resultados excelentes. A sociedade civil precisa reagir contra os interesses obscuros que motivam tais iniciativas. Calar a boca das mulheres, impedindo que elas escolham o lugar onde terão seus filhos é uma atitude inaceitável e fere os princípios básicos de autonomia. Neste momento em que o Brasil ultrapassa inaceitáveis 50% de cesarianas, sendo mais de 80% no setor privado, em que a violência institucional leva à agressão de mais de 25% das mulheres durante o parto, em vez de se posicionar veementemente contrários a essas taxas absurdas, conselhos e sociedades continuam fingindo que as ignoram, ou pior, as acobertam e defendem esse modelo violento e autoritário que resulta no chamado “Paradoxo Perinatal Brasileiro”. O uso abusivo da tecnologia contrasta com taxas gritantemente elevadas de mortalidade materna e perinatal, isso em um País onde 98% dos partos são hospitalares!

Escolher o local de parto é um DIREITO humano reprodutivo e sexual, defendido pelas grandes democracias do planeta. Agredir os médicos que se posicionam a favor da liberdade de escolha é violar os mais sagrados preceitos do estado de direito e da democracia. Ao invés de atacar e agredir, os conselhos de medicina deveriam estar ao lado dos profissionais que defendem essa liberdade, vez que é função da boa Medicina o estímulo a uma “saúde social”, onde a democracia e a liberdade sejam os únicos padrões aceitáveis de bem estar. Não podemos nos omitir e nos tornar cúmplices dessa situação. É hora de rever conceitos, de reagir contra o cerceamento e a perseguição que vêm sofrendo os profissionais humanistas. Se o CREMERJ insiste em manter essa postura autoritária e persecutória, esperamos que pelo menos o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP) possa responder com dignidade, resgatando sua função maior, que é o compromisso com a saúde da população.

Não admitimos, não permitiremos que o nosso colega Jorge Kuhn seja constrangido, ameaçado o u punido. Ao mesmo tempo em que redigimos esta Carta aberta, aproveitamos para encaminhar ao CREMERJ, ao CREMESP e ao Conselho Federal de Medicina (CFM) nossa Petição Pública em prol de um debate cientificamente fundamentado sobre o local do parto. Esse manifesto, assinado por milhares de pessoas, dentre os quais médicos e professores de renome nacional e internacional, deve ser levado ao conhecimento dos senhores Conselheiros e da sociedade. Todos têm o direito de conhecer quais evidências apoiariam as escolhas do parto domiciliar ou as afirmações de que esse é arriscado — se é que as há.

http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=petparto

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto, Violência