Sorte Grande

Business Man Displaying a Spread of Cash over a green vintage background

Recebido agora por e-mail. Estou exultante de felicidade!!!

Caro beneficiário:

Meu nome é Collins Helms e eu estou entrando em contato a partir da United Nations no Reino Unido para informar que seu e-mail xxxxcxx foi listado para receber a soma de US $ 4,000,000,00 USD como fundo de compensação da Organização das Nações Unidas.

Queremos que você saiba que o seu check herança de $ 4,000,000,00 USD foi aprovado em seu nome e você é aconselhar a contate-nos imediatamente para permitir que nosso correio afiliados para enviar o pacote para você. Aconselhamos mais você a manter esta transação confidenciais a si mesmo, de modo a evitar mal-entendidos indesejados e comprometimento do seu fundo de herança.

Esperando sua resposta
Obrigado

Collins Helms
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Caríssimo Sr Collins Helms

Obrigado pela notícia alvissareira.

Receber esta soma de dinheiro sem aviso prévio é o que eu chamaria de surpresa deveras agradável.

Ademais, fico ainda mais feliz em receber esta maravilhosa notícia logo agora. Por uma dessas coincidências da vida, hoje mesmo iniciei as conversações para o recebimento de uma quantia fabulosa de uma senhora de Benin que, ao me encontrar na Internet, resolveu graciosamente me oferecer a soma de 10 milhões de euros que estão confiscados pelo sistema bancário do seu país. Os entraves burocráticos serão rapidamente vencidos, o que resolverá, em breve espaço de tempo, minhas agruras financeiras.

Está herança de 4 milhões de dólares americanos já tem um destino certo, tão logo cheguem ao meu bolso: comprar um barquinho de lata para o meu sítio. Caso sobre alguma quantia comprarei um Triplex no programa “Meu Triplex, minha Vida“.

Agradeço de coração pelo seu interesse em fazer com que a herança que me é devida chegue o mais rápido possível às minhas mãos.

Eternamente agradecido

Wassif Dehr

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Dor insuportável

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Uma dor insuportável? Não deixar os filhos crescerem.

Na vida driblamos as adversidades escolhendo a que nos provoca menos dor. Entre a perda da liberdade e a solidão escolhemos o casamento. Entre a exploração e a fome escolhemos o emprego. Entre a desconsideração dos pares e a integridade ética escolhemos a cesariana. Entre a dor da partida e a violência da opressão, deixamos que os filhos criem asas e saiam voando pelo mundo. Sempre há uma escolha a ser feita e cada um sabe onde o sapato mais lhe aperta.

Por isso que JAMAIS insisto nas tentativas de “conversão” de profissionais que se aproximam – entre temerosos e tímidos – do discurso da humanização do nascimento. Se a prática violenta que usam em sua atitude cotidiana não lhes causa DOR qualquer ação para mudar suas condutas será inútil. Estes colegas continuarão agindo dentro de suas cápsulas analgésicas, onde encontram o conforto e a aceitação que procuram. A estes falta a necessária e indispensável neurose para conduzir a mudança que desejamos.

Sem sofrimento não há mudança. Deixar um filho partir só é possível diante da dor maior de vê-lo definhar sob nossas asas.

Humanizar sua prática de parto, com toda a dor que isso acarreta, só é possível diante da vergonha de expropriar a mulher de seu momento mais sublime. Mas para isso faz-se necessário ter olhos de ver e ouvidos de ouvir.

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Vitimismo

Vitimismo

Uma comunidade de direita apareceu na minha TL com a mensagem conhecida de que não existe racismo, mas indivíduos de diversas etnias que escolhem caminhos certos ou errados.

A retórica é a conhecida exaltação da meritocracia. Os negros não se esforçam tanto quanto os brancos, por isso estão em condições menos favoráveis na economia. Se os negros parassem de reclamar e se esforçassem mais esta distância acabaria. Chamam os movimentos sociais contra o racismo de movimentos “vitimistas”.

O vitimismo é o uso da condição de vítima para obter vantagens. Todo mundo sabe o que é isso, e todo mundo que teve irmãos na infância já usou das táticas vitimistas. Dito isso, é óbvio que existe vitimismo no movimento negro, no movimento LGBT e no feminismo. É impossível existir vitimas que não se seduzam pelo vitimismo e as vantagens que ele oferece. Ele funciona como um bypass, um atalho para conseguir alguma vantagem usando sua condição política e economicamente inferior. Não há como não se deixar levar, mesmo que temporariamente, por esta sedução.

Entretanto, existe racismo, homofobia e misoginia na nossa cultura. Essa evidência pode ser facilmente extraída das estatísticas e dos dados governamentais, assim como dos relatos dos negros, dos homossexuais e das mulheres que sofrem atos racistas lgbtfóbicos ou machistas. Minha experiência com o parto me permitiu testemunhar milhares de atos, atitudes e comportamentos claramente sexistas contra as gestantes nas instituições que trabalhei, acima de qualquer dúvida. Com os negros e homossexuais certamente é o mesmo.

Não se trata, portanto, de contrapor vitimismo com preconceito. O vitimismo é absolutamente minoritário nesses movimentos, que se estabelecem sobre a crueza dos fatos do cotidiano, onde negros, mulheres e homossexuais são desconsiderados em função de sua cor, gênero e orientação sexual. Não há como desmerecer a luta contra o machismo, o racismo ou a homofobia pela existência, francamente minoritária, de discursos vitimistas no seio desses importantes movimentos sociais.

A tentativa de desqualificar a luta contra o racismo, a homofobia e o machismo apenas demonstra que os avanços alcançados por estes grupos incomodam os poderosos, e por isso mesmo precisam continuar.

A questão é que o “vitimismo” funciona como uma capa encobridora, fazendo com que todas as reivindicações dos grupos oprimidos desapareçam por serem deslegitimadas. Se existe ou não vitimismo em alguns setores destes movimentos é o menos importante. O que tem valor é reconhecer a legitimidade das lutas e respeitar seus pressupostos.

Nivelar, em que topografia for, é fazer justiça. Mas sequer é esse o problema. A “discriminação positiva” é uma etapa de readaptação, um processo de “aceleração da equidade”. É usada para tornar mais célere a justiça social, e por isso ela um dia acabará, como aconteceu em muitos lugares onde foi implementada (Flórida, por exemplo). No Brasil podemos constatar a olho nu como ela está produzindo frutos: uma quantidade crescente de negros tendo acesso às universidades e, mais ainda, aos cobiçados cursos de Medicina, Direito, Computação etc…

Quando os efeitos sociais da escravidão tiverem, por fim, evanescido o suficiente para não serem notados nas filigranas do cotidiano eu serei o primeiro a reivindicar pela extinção do sistema de cotas.

Por ora a inconformidade de uma parcela da classe média – ressentida e meritocrática – é a melhor medida para avaliar o sucesso do programa.

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Principiante

Doutor

Primeiros dias de trabalho no primeiro emprego. Não tinha mais de 27 anos mas carregava uma cara de 20. Trabalhava nesta clínica privada durante a manhã, enquanto à tarde atendia no hospital da aeronáutica. A essas “clínicas de passagem” (“fico aqui até achar algo melhor”) chamávamos “trambiclínicas“. Estão em extinção nos dias de hoje, mas quando me formei havia muitas.

Abri a porta e chamei por um nome de menina. Ela entrou, acabrunhada e tímida. Talvez não imaginasse um doutor adolescente. Quem sabe tivesse medo de me dizer algo, ou escutar alguma coisa que não queria.

Falou de umas dores no seio e algumas outras questões menos importantes. Ela era bonita como são as meninas nessa idade, e seu sorriso era tímido e juvenil. Tinha 19 anos e era estudante. Morava com o pai, e mãe e uma irmã.

Antes de pedir exames, colher o papanicolau e escrever uma receita protocolar resolvi perguntar-lhe sobre sua vida. Talvez houvesse ali algo a dizer.

– Como é sua vida sexual?, perguntei, fingindo uma maturidade e isenção que somente a idade garante.

Ela me olhou sem pestanejar e respondeu “boa”.

– Algum problema com as relações?

– Nenhum, disse ela, parecendo querer abreviar a conversa. Comecei a ter relações há 4 anos e nunca tive problemas.

– Anticoncepcional?, insisti

– Não tomo anticoncepcional, doutor.

Meu semblante ficou severo. Sua resposta de alguma forma me irritou. Esse sentimento pude sentir muitas vezes na vida. Uma mulher que não cumpre nossas “ordens” não está apenas prejudicando sua saúde, está desafiando nosso poder. Aprendi isso de uma maneira brutal ao tentar entender a raiva – às vezes ódio – que os profissionais sentem ao ver pessoas que se recusam a fazer uma cirurgia, tomar uma droga, ou ir para um hospital para ter um filho. Tais recusas são tomadas como ofensas e desconsideração com a autoridade do profissional. Nossa resposta, que deveria ser de acolhimento e respeito pelas decisões soberanas de quem nos procura, em geral é estruturada como violência. Não é lícito aos pacientes desmerecem nosso saber.

– Camisinha? Diafragma? Coito interrompido? DIU? Tabelinha?

A todas estas me respondeu negativamente, sem piscar um olho.

Resolvi agir com a delicadeza de um viking à mesa do jantar após uma batalha.

– Filha (iniciei com a arrogância típica dos donos da verdade, médicos e bispos), você não acha que é muita irresponsabilidade da sua parte agir desta forma em relação à sua vida sexual? Tem 19 anos, estuda, vive com os pais, não tem emprego, não tem renda, tem relações há 4 anos e não usa nenhuma proteção contra uma gravidez indesejada. Você acha certo agir assim? Acha justo que uma gravidez arruíne a sua vida e entristeça sua família? Não lhe parece uma atitude sem juízo?

Ela ficou por alguns instantes me olhando sem nada dizer. Finalmente arqueou as sobrancelhas e me respondeu com uma expressão de desconforto:

– Doutor, eu só tenho relações com meninas.

Silêncio. Passados alguns instantes percebi cada centímetro da minha pele ruborizar. Na minha face o vermelho brilhante denunciava a falha, a incompetência e o preconceito. Tentei falar algo, mas a voz não saía. Queria dizer algo para dar a impressão que “tudo estava bem” e que eu achava “a coisa mais normal do mundo”. Afinal somos treinados para estas situações.

Mentira. Somos produzidos em série para interpretar exames e cuidar de um corpo falsamente biológico. Achamos o erro na molécula, o equívoco no hormônio, a fissura no osso mas na arte do enfrentamento com a crueza da palavra somos garotos que, diante de uma mulher de verdade, nada sabem dizer. Falta-nos a voz. Para saber como enfrentar o choque da fala do outro somente se conquistarmos a mais excelsa das virtudes de um medico: a idade, que por vezes nos brinda com a sabedoria.

O constrangimento havia me roubado a voz e a pose. Dos frangalhos de uma arrogância tola, filha da insegurança infinita que jamais me abandonou, consigo forças para uma última frase, que poderia abrir – ou não – as portas para um novo contato, certo que o anterior havia morrido em sua última fala. Depois de um breve suspiro, pergunto:

– Desculpe. Podemos começar tudo de novo?

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Autonomia

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Os alunos do quarto ano da faculdade de medicina se aglomeravam ao redor da professora em uma de nossas primeiras incursões dentro da Santa Casa, campo de prática da Medicina Interna.

Naquele dia estávamos debatendo a respeito de algo que praticamente não tínhamos conhecimento algum: pacientes. Para nós as doenças e os males eram entidades abstratas, retiradas de páginas de livros, com nome de velhos professores ingleses e franceses, ou derivadas do latim. A conexão dessas descrições frias com os doentes ainda era para nós difícil de estabelecer.

A enfermaria era de clínica e o paciente uma criança. Era portadora de uma síndrome metabólica genética e estava acompanhada da mãe. A professora era uma médica contratada muito jovem, mal passando dos 30 anos. Tinha a curiosidade e a energia dos jovens médicos, mesclada com a inexperiência em tratar com almas complexas, que dificilmente se enquadram plenamente em modelos nosológicos preestabelecidos. Enquanto ela nos explicava as características da enfermidade que se abatia sobre a criança pude observar, ao longe, a mãe que trazia ao colo sua pequena filha.

Era pobre, mais do que simples, mas sua face tensa perdia um pouco de sua dureza sofrida a cada vez que sussurrava algo para a filha. Talvez por ser eu o único na sala além da pobre senhora que já havia passado pela experiência do nascimento de um filho – incluindo aí a professora – fui quem mais se tocou pela cena colateral, aquela que corria paralelamente à semiologia, aos exames e aos prognósticos sombrios. Trazer um filho doente nos braços é uma das mais angustiantes experiências humanas. A dor do ser que carregamos no colo dói mais que qualquer ferida que decerto temos em nosso próprio corpo.

Terminada a explicação sobre os detalhes do caso e nos aproximamos da mãe e seu filho. A professora apresentou-se e a todos nós. Explicou que éramos alunos de medicina e queríamos examinar sua filha. Ela aquiesceu com um olhar triste e a colocou na cama de lençóis simples sobre o colchão de napa azul.

Não tenho nenhuma lembrança da criança e sequer recordo qualquer detalhe da doença que ela sofria, nem mesmo o nome da enfermidade genética que a acometia. Minha atenção foi automaticamente voltada para a mãe e sua carga de dores. A paternidade havia me tornado, ainda menino, especialmente atento para os dramas que acometem aqueles que têm alguém sob seus cuidados.

– Essa é minha segunda filha, disse ela, com um sotaque carregado da colônia italiana. Minha filha mais velha tem essa mesma doença. Ela também se trata, mas agora está bem.

Seus olhos miravam o chão. Havia culpa em suas palavras, o mais sórdido e sorrateiro dos sentimentos. Mesmo sem saber as nuances e detalhes do metabolismo alterado ela sabia que suas filhas sofriam de algo que seus genes haviam lhes transmitido. A culpa era uma cicatriz a lhe encobrir o rosto com um queloide de dor.

Terminado o exame perguntamos a ela quais as explicações que haviam sido dadas pela equipe médica. Ela nos informou sobre a espera por um determinado exame e que desejava poder voltar para sua casa no interior para continuar sua vida e cuidar da outra filha. Silenciosamente fechava as roupinhas simples e amarrotadas da filha enquanto a professora se despedia.

– Cuide-se, disse a inexperiente professora. Espero que você não pense em ter mais filhos, pois as chances de ter outro com essa doença são grandes.

Olhei para a professora e tive uma sensação incômoda, algo inominado, um sentimento que não poderia entender naquela época da juventude. Para um aprendiz as palavras da professora faziam pleno sentido. Afinal, por que ter um filho cheio de problemas se é possível evitá-lo? Fazia sentido, sim. Todavia, isso não evitou a inquietude que senti pelo “conselho” da professora, principalmente pelo que se seguiu logo após.

– Doutora, disse a mulher, com a voz embargada e visivelmente emocionada. Fico muito agradecida pelo tratamento que recebo aqui. Não me importo que minhas filhas sejam examinadas pelos alunos. Em verdade eu gosto de saber que tantos se preocupam em ajudá-las. Os médicos são atenciosos e cuidadosos. Nossa vida não é fácil com duas filhas que precisam tratamento. Só eu sei o quanto é difícil sair do interior, deixar o marido e alugar um quarto perto do hospital só para acompanhá-las.

A cada descrição da dureza de uma vida sofrida de mãe meu coração se apequenava. Meu filho tinha um ano, se tanto, e nada lhe faltava, apesar de termos uma vida muito simples. Mas o esforço que ela devotava no cuidado de suas filhas deixava minhas angústias de recém pai diminutas e desprezíveis. Ela continuou seu desabafo.

– Sei do sofrimento que essa doença vai provocar nelas e, por extensão, em todos nós que as cuidamos. Muito ainda vamos enfrentar, mas venceremos, com a ajuda de Deus e o auxílio dos médicos, mas…

Olhou mais uma vez para a médica, abotoou o último botão do casaquinho cor de rosa de sua filha e disse:

– … da minha vida cuido eu. Só eu sei o peso que carrego. Terei os filhos que quiser, ou os que Deus mandar, e não cabe à senhora dizer como vou conduzir minha vida. Muito obrigado.

Pegou sua filha no colo e cruzou a sala sem olhar para trás.

Naquele dia percebi que quando nasce uma criança sua alma se acopla a um corpo biológico, que lhe dá sentido através dos significados múltiplos que a vivência na linguagem nos proporciona. Somos muito mais do que simples unidades físico-químicas. Somos seres animados, dotados de “anima”, algo que nos oferece uma mirada especial sobre o mistério da vida.

Um médico deve estar pronto a auxiliar com toda sua energia e conhecimento. Deve ser um “observador atento e isento de preconceitos”, como diria o pai da homeopatia, Hahnemann. Entretanto, ao médico não cabe julgar os valores e crenças de quem trata. Sua ação deve ser humilde e silenciosa, invisível. Uma “transparência de carne e sílica”, como brincava Max. Se é impossível abster-se de sentir – e até sofrer pelo que nosso paciente diz – é fundamental que nossa ação não imponha aos outros valores que somente a nós fazem sentido.

A mulher simples mostrou para o jovem estudante que no espaço que separa o paciente do médico flui uma energia que precisa ser respeitada, sem cair na tentação fácil de preencher esse espaço com arrogância ou prepotência.

Mesmo quando a intenção é ajudar.

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Ódio

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Qual o sentido publicar textos de ódio pela Internet contra pessoas que cometeram crimes famosos? Qual o sentido de agredir pessoas que já foram presas a condenadas pelos seus erros e falhas?

 Qual o sentido de odiar uma pessoa que já está destruída? Qual o sentido em destroçar quem já foi despojado de tudo? Não percebem que isso – odiar alguém que cometeu um erro – as aproxima do criminoso? Somente o oposto disso – o perdão – é capaz de produzir esse saudável afastamento. Somente o perdão que surge de uma profunda autocrítica pode nos colocar ACIMA destas questões.

 Meu pai sempre dizia, quando recebia uma “fechada” no transito: “Não posso xingar esse sujeito, pois ainda está vívida em minha lembrança a ultima vez que, por desatenção ou descuido, fiz exatamente a mesma coisa“.

 Mas…claro que não vou pedir que perdoem quem fez tanto mal. Isso serve apenas para as pessoas que, como Terêncio, são capazes de dizer “o que é humano não me é estranho”. Para o resto eu peço tão somente que não disseminem ou distribuam seu ódio publicamente, até porque isso em nada atinge o pobre criminoso, mas mostra que seus algozes não são tão diferentes dele quanto pensam… O motivo foi a constante crucificação da mulher que mandou matar o enteado. Mas basta um olhar muito rápido para perceber que ela é um farrapo humano. Resta pouco nela que possamos ainda tripudiar. Mas … para quê? Qual a razão de carbonizar um corpo quase destituído de vida? O que se ganha ao jogar ainda mais para baixo essa mulher? Eu digo: nada.

 Entretanto, ao fazer isso nos aproximamos de sua miséria e provamos que somos mais parecidos com ela do que pensamos. São pobres seres humanos, dignos de comiseração. Nenhum de nós admitiria trocar de lugar com esta pessoa, nem por cinco minutos. Quando se reconhece a miséria alheia isso não significa inocentá-la de todos os crimes, mas apenas que seus erros não podem nos afetar porque não encontram nenhuma ressonância em nós. Poderia ser esse caso ou qualquer outro.

 Ódio não nos leva a lugar algum. Não estou pregando moral, e talvez eu mesmo também sucumbisse à proteção que o ódio e o rancor prometem. Entretanto, não acredito que algo de construtivo possa surgir desse sentimento.

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Travessia

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Pouco passava das 7 horas quando iniciei minha tradicional caminhada entre Torres e Cidreira. O dia prometia ser quente e seco. Nenhuma nuvem algodoava o azul sobre minha cabeça. A pedra da Guarita mantinha-se no mesmo lugar que eu havia deixado de última vez que a vi. Abusadamente adentrando o Atlântico separa esteticamente a Rio Grande do resto do Brasil, como uma fortaleza. Do lado de cá a monotonia das praias retas e carentes de relevo. Do lado de lá a exuberância litorânea que o Criador ofereceu ao Brasil. Em compensação pelas nossas praias insossas elas estão curiosamente claras e limpas, o que não dá para afirmar dos nossos vizinhos catarinas.

Minha história com o “Caminho de Cidreira” começou há 36 anos. Munido de uma faca , duas laranjas, um boné e três dinheiros saí caminhando pela RS 40 em direção ao mar. A distância que separa Porto Alegre do oceano Atlântico é de 108 km. Imaginei que seguindo a “estrada da praia” mais cedo ou mais tarde chegaria lá. Não tinha mais do que 19 anos, estava começando a faculdade de medicina e não tinha feito nenhum planejamento. Impulso diriam alguns; cabeça oca, diriam outros.

A viagem foi muito menos extenuante do que eu imaginei. Nenhuma bolha nos pés, nenhuma dor muscular insuportável. As benesses da juventude, o vigor, o ímpeto, as carnes duras. O sol não maltratava; era companheiro. Aliás, num mundo sem celulares e sem internet, só a brisa, o barulho dos carros e o sol me mostravam o caminho adiante.

Na primeira noite dormi no banco da faculdade de agronomia, mal saindo da cidade e ingressando em Viamão. A caminhada fora tão mal planejada que sequer os melhores horários foram escolhidos. A segunda noite, dormi em um galpão abandonado ao lado de um posto de gasolina. Na terceira noite…. não dormi. A excitação de finalmente encontrar o mar foi tanta que continuei caminhando madrugada adentro, chegando na Praia do Pinhal quase ao amanhecer. Sim, eu também cresci visitando a casa da dona Vera, que viria a ser minha sogra já falecida. “Mas agora o Pinhal, não tem mais a gente lá, e eu volto pra lembrar, que a gente cresceu, na beira do mar”, como diria a música, do Cidadão Quem, muitos anos depois. Voltei de ônibus pagando dois dos três dinheiros que eu tinha. O resto do dinheiro gastei com água e pastel.

Na volta encontrei minha mãe preocupada. “Que houve com seu cabelo?”, perguntou. A parte que saía para fora do boné estava queimada e com uma cor estranha. Olhei no espelho e achei bizarro. Resolvi descolorir o cabelo inteiro com água oxigenada, que era a coisa mais gay que a um menino hetero era autorizado fazer. Em minha opinião ficou “tri”, mas não gostaria de ver nenhuma foto minha daquela época.

Quando completei 40 anos de vida resolvi repetir o sonho da juventude. Desta vez com menos vigor e mais planejamento decidi que ao invés de caminhar pela estrada meu trajeto seria acompanhando a linha do mar. Saindo de Torres meu destino final seria a 120 km de distância do ponto inicial, na praia de Cidreira, cidade irmã de Pinhal, que muito frequentamos nos anos leves da adolescência. Desde então tenho feito a caminhada sempre que consigo uma brecha na agenda de nascimentos. O menino que se jogava de janelas continuava inquieto. Agora, 36 anos depois eu voltava a olhar a Pedra da Guarita para mais uma travessia.

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Sabemos pouco…

Maurice

Esta é uma das melhores frases do meu pai, na orelha de um livro sobre “Espiritismo Laico” do amigo Salomão Benchaya.

Outra frase que eu gosto muito é: “Depois de certa idade percebi que não passa um dia sequer sem que eu me assombre com o desmoronamento de uma antiga certeza, por muitos anos acalentada“.

Envelhecer também é despir-se da arrogância que nos protege. Somente os fortes desconfiam de si mesmos; os fracos e frágeis jamais abandonam-se ao vácuo angustiante da dúvida.

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Cesariana “humanizada”

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Sobre o uso do termo “Cesariana Humanizada”

Esta é uma discussão que já tem mais de 20 anos. No meu segundo livro há um capítulo inteiro sobre a inadequação desse termo. Eu sempre chamei de “cesariana digna” ou “cesariana respeitosa” pois creio que estes termos oferecem uma compreensão melhor do que propomos e não criam confusão com o movimento que apoiamos.

Qualquer contato da cirurgia cesariana com o conceito de “humanização” me parece espúrio e uma tentativa de aproximação com o fenômeno complexo e intenso do parto. O próprio termo utilizado por muitos profissionais de saúde, “parto cesariana”, é uma aberração, mas surgiu pelos mesmos motivos: uma espécie de “pinkwashing” da cirurgia de extração fetal. O “parto cesariana” recebe de nós o mesmo repúdio que a expressão “fazer o parto”, quando utilizada pelos assistentes do parto. Parteiro não faz, ele assiste algo que só as mulheres fazem.

A “cesariana humanizada” nos transmite a mesma mensagem subliminar deformada que, como toda criptografia, precisa ser decifrada para ser entendida. A mensagem é: “Ah, você percebeu a importância do ideário da humanização aplicado ao nascimento? Que bom!! Eu também reconheço a necessidade de humanizar o parto, por isso lhe ofereço esse produto, o “parto cesariana humanizado “. Ele é quase igual ao original, mas um pouco mais barato, e você ainda leva a vantagem de não sentir dor nenhuma. Que tal?” Uma maravilha de marketing, exatamente porque a manifestação acima não precisa passar pelo discurso, pois o conceito se aloja nos espaços entre as palavras, mistura-se com as frases ditas e ganha força exatamente pela sua invisibilidade.

Humanizar o nascimento é GARANTIR o protagonismo à mulher. Sem esse conceito nunca avançaremos em direção aos plenos direitos reprodutivos e sexuais. Em uma cesariana – mesmo quando digna, respeitosa e bem indicada – a mulher NÃO É protagonista do ato (mesmo quando o é da escolha por ele), o qual pertence ao cirurgião. Desta forma, a cesariana carece do eixo central da nossa definição de humanização: a autonomia e o protagonismo restituídos a mulher.

Não há porque ceder a este tipo de manipulação do nosso inconsciente. Cesariana não é parto; é cirurgia de grande porte e que existe para oferecer segurança para mães e bebês em situações limites e de risco elevado para o parto fisiológico. Sem essa consideração corremos o risco de banalizar uma cirurgia cujos abusos são uma grave ameaça à saúde humana, e das mulheres em especial.

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Diagnósticos

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A respeito de diagnósticos cruéis…
(Um tema que deveria ser mais explorado)

Existe um conceito que eu penso ser muito relevante quando tratamos de avaliações, exames e tratamentos: a ação médica tem como ÚNICO objetivo o auxílio ao paciente. Essa ideia deveria estar na mente de todo o cuidador em qualquer aspecto de seu ofício. A Medicina é uma das possíveis expressões da “fraternidade instrumentalizada”, não uma fábrica de certezas. A Verdade, por si só, é pouco importante para o sujeito que sofre sem que a possibilidade de ajuda se mantenha no horizonte.

Exercer a crueldade de um diagnóstico – que rouba ao paciente a derradeira esperança – em nome da “verdade” ou de um “diagnóstico certeiro” não é Medicina, mas o exercício da desumanidade em nome de um falso ideal de excelência técnica.

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