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Carta a Theo

Há poucas semanas você partiu ainda antes de chegar. Theo, filho de Lucas e Ariane, com 30 semanas de gestação. Como disse meu irmão Roger, “um bisneto que se foi antes do seu bisavô”. Sem explicações e sem avisos, apenas fechou seus olhinhos enquanto ainda aguardava em silêncio, imerso no mundo aquático, quentinho e róseo que o circundava.

De sua breve passagem, algumas descobertas. A primeira é de que o valor da vida está em sua fragilidade. Como pétala, quanto mais delicada mais rara sua beleza. Para além disso, o aprendizado de que a dor, por mais violenta e dilacerante, sempre carrega consigo várias lições . No seu caso Theo, você nos ensinou o valor da comunhão, do suporte, da família, da vida e do perdão. Também nos mostrou a importância da resiliência e da aceitação, assim como nos lembrou que juntos somos mais fortes e capazes de suportar mesmo as perdas mais dolorosas.

Theo, você seguiu seu caminho e à nós resta a saudade de tudo que não vivemos ao seu lado: as brincadeiras com seus irmãos, primos e amigos, a vida na Comuna, o amor dos seus pais e tios, os vovôs carecas e as avós doces e carinhosas. Todavia, sabemos que você está em algum lugar imaginando quando poderá voltar. Quiçá antes do que pensamos…

Vá Theo. Siga o seu caminho. Curta as nuvens, as estrelas e o céu azul. Brinque com os pássaros e a chuva. Estará para todo o sempre vivendo em nossos corações.

* Fotos da cerimônia de despedida com a família mais próxima na Comuna *

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Pedro e os balões

Legenda alternativa:

“Todo mundo quer ser amado e aceito pelos outros, inclusive o Pedro, que é tão humano quanto todos nós. A diferença é que o Pedro descobriu que o preço a pagar pela aceitação dos outros é alto demais. Por isso, jogou fora muitas de suas ilusões e por isso mesmo conseguiu voar mais alto. Perdeu amigos e admiradores, mas só assim conseguiu se elevar para poder ouvir a opinião dos pássaros”.

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Visibilidade Trans

Em uma conversa sobre a visibilidade trans uma menina fez a seguinte observação:

“O que mata é a situação da prostituição, ser negro, ser pobre, ou seja, o de sempre. Homens brancos com grana podem transicionar pro que quiserem e vão ficar de boa”.

Deixei claro para ela que “de boa” era um exagero inaceitável. Dizer que outras condições de precariedade social, como a pobreza e a cor da pele, são elementos que agravam a marginalização dos sujeitos não nos autoriza a dizer que as transições de pessoas mais privilegiadas vão ocorrer com tranquilidade.

Eu nunca vi alguém trocar sua identidade sexual dando risada ou com leveza no coração. Isso é uma fantasia, mas pode acobertar uma brutal crueldade. Você pode passar por isso com mais ou menos sofrimento, mas nunca “de boa”, tranquilamente, fazendo festa. E digo mais, o que torna a transição um pouco mais tranquila para o transexual não será a cor da pele ou o dinheiro do sujeito, mas o suporte da família e do seu círculo de afetos. Ali mesmo, na mão amiga e compassiva é vai residir toda a diferença entre o sofrimento e a aceitação.

Ninguém sai do armário sob uma chuva de purpurina; as pessoas saem “chutadas”, mas esse chute é o sujeito que dá em si mesmo, premido pela angústia de viver uma vida dupla. Na questão da identidade de gênero a questão é ainda muito mais grave, pois não se trata apenas da orientação sexual (que pode ser absolutamente privada) mas tem a ver com a persona pública desse indivíduo, e a pressão social sobre ele será muito mais forte, cruel e até mordaz.

É óbvio que a cor da pele e a pobreza colocam elementos de agravamento sobre este cenário, mas acredito ser profundamente injusto com o sofrimento das pessoas brancas e de classe média dizer que sua passagem foi “fácil” ou “tranquila”. Não é, e basta conversar 15 minutos com alguém que passou por este processo para ver o quanto ele pode ser doloroso e desafiante.

Se a visibilidade trans pode nos oferecer alguma lição que seja esta: não participe de competições sobre quem é a maior vítima, separando o transexual branco, do preto, do classe média, do milionário e do pobre. Todos enfrentarão uma sociedade preconceituosa e cruel. Nenhum deles estará livre disso, mesmo que alguns tenham preconceitos que se somam e se intensificam. Todavia, o acolhimento deverá ser para todos, inobstante o grau objetivo de sofrimento que nós, erradamente, arbitramos.

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