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Adeus, pai.

Depois de 80 dias internado, em quase todos eles incapaz de se comunicar, meu pai Maurice Herbert Jones descansou hoje, dia 20 de junho, por volta da 18h. Perder o pai – mesmo para um velho como eu – é um processo muito complexo e único. Só agora, depois de tantos anos, eu consigo sentir por completo o que as pessoas me descreviam de sua dor e o significado pleno dessa tristeza.

Falar do pai que acabou de morrer é sempre um risco. Os obituários transitam entre a idealização e as manifestações puramente emocionais e – compreensivelmente – subjetivas. Pretendo me afastar, se possível, dessas narrativas.

Prefiro não olhar para o meu pai como o “herói infalível” e desprovido de defeitos. Ele era um homem de sua época, com suas falhas e virtudes, mas soube deixar sua mensagem de racionalidade e coragem. Se posso dizer algo sobre ele falo apenas que foi o norte que guiou toda a minha vida. Sei que tudo o que fiz foi para, depois de feito, mostrar a ele e esperar sua aprovação. Sua falta agora retira de mim a bússola, o olhar cuja direção apontava o caminho certo a seguir.

Quando eu ainda era um adolescente ele me contou um sonho que teve, cujo sentido serve a mim também como a melhor imagem para o profundo significado de um pai. Dizia ele que neste sonho seu pai – Samuel Jones, meu avô – ficou impossibilitado de conduzir uma sessão da maçonaria, onde era um reconhecido “Grande Mestre”. Os seus companheiros, diante da súbita falta do líder Samuel, imediatamente se voltaram ao seu filho dizendo “Na falta de seu pai, caberá a você tomar seu lugar. Faça a palestra e conduza os ritos”.

Em seu sonho, meu pai tremia de angústia e medo. “Não poderei jamais tomar o lugar dele. Não posso, não sei como agir; tenho medo”. Entretanto, premido pela pressão de seus pares maçons, assim como pela vergonha de recuar, aproximou-se do púlpito e fez a palestra que esperavam dele.

Ao finalizar temia ser criticado pela má condução dos trabalhos. Liderou o restante dos rituais e deu por encerrada a sessão. Ao descer do púlpito seus companheiros maçons dele se aproximaram e o cumprimentaram pela fala vigorosa e centrada. Enquanto recebia os cumprimentos vislumbrou a figura de seu pai que, apesar de doente, veio assistir sua palestra. Este o abraçou e cumprimentou, sem muitas palavras, mas com um olhar carregado de orgulho. Meu pai contava da sensação de alívio e genuína felicidade que sentiu no sonho, em especial porque “não envergonhou seu pai”, como tanto temia.

Essa história é para mim a que melhor descreve a conexão que nos liga a figura de um pai. Para ele oferecemos nossas conquistas, e dele esperamos a compreensão pelos nossos fracassos e falhas. Este fragmento de sonho mostra que, mesmo em épocas aparentemente distantes no tempo, somos constituídos dos mesmos dramas psíquicos que guiaram centenas de gerações antes da nossa.

Eu penso que para homenagear um pai basta que se reconheça seu valor e sua trajetória. Meu pai deixou para seus filhos a mensagem de que a fidelidade aos princípios e ideais tem mais valor do que qualquer vantagem econômica. Para ele sempre valeu a máxima “Sê fiel a ti mesmo” e sua vida inteira foi guiada por este princípio.

Durante muitos anos ele me falava da curiosidade sobre o mundo espiritual. Dizia isso em especial quando a velhice chegou, e principalmente quando minha mãe faleceu há pouco mais de um ano. A saudade dela desempenhou um papel preponderante em seu último ano de vida, e por isso tenho certeza que nesse instante, quando ele recém chega no plano espiritual, minha mãe já está a fazer o que tanto gostava: está lá, ao seu lado, carinhosamente enroscada ao seu companheiro de uma vida inteira, aguardando que ele acorde da penosa travessia que acabou de empreender.

Vá em paz meu pai. Obrigado pelas seis décadas de debates, lições, exemplos, escutas e carinho. Em breve estarei aí ao seu lado e teremos, enfim, a eternidade para colocar nossas conversas em dia. Ver menos

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Carta a Theo

Há poucas semanas você partiu ainda antes de chegar. Theo, filho de Lucas e Ariane, com 30 semanas de gestação. Como disse meu irmão Roger, “um bisneto que se foi antes do seu bisavô”. Sem explicações e sem avisos, apenas fechou seus olhinhos enquanto ainda aguardava em silêncio, imerso no mundo aquático, quentinho e róseo que o circundava.

De sua breve passagem, algumas descobertas. A primeira é de que o valor da vida está em sua fragilidade. Como pétala, quanto mais delicada mais rara sua beleza. Para além disso, o aprendizado de que a dor, por mais violenta e dilacerante, sempre carrega consigo várias lições . No seu caso Theo, você nos ensinou o valor da comunhão, do suporte, da família, da vida e do perdão. Também nos mostrou a importância da resiliência e da aceitação, assim como nos lembrou que juntos somos mais fortes e capazes de suportar mesmo as perdas mais dolorosas.

Theo, você seguiu seu caminho e à nós resta a saudade de tudo que não vivemos ao seu lado: as brincadeiras com seus irmãos, primos e amigos, a vida na Comuna, o amor dos seus pais e tios, os vovôs carecas e as avós doces e carinhosas. Todavia, sabemos que você está em algum lugar imaginando quando poderá voltar. Quiçá antes do que pensamos…

Vá Theo. Siga o seu caminho. Curta as nuvens, as estrelas e o céu azul. Brinque com os pássaros e a chuva. Estará para todo o sempre vivendo em nossos corações.

* Fotos da cerimônia de despedida com a família mais próxima na Comuna *

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Luz e Sombra

Muito poucos se preocupam em dar apoio e suporte aos cuidadores. Quando as perdas acontecem eles se tornam invisíveis ou se transformam em alvos fáceis para nossas frustrações. Humanizar o nascimento também é cuidar de quem cuida. Se para cuidar é preciso aparentar força e confiança, quem haveria de duvidar de uma máscara tão bem costurada à pele, a ponto de nos fazer crer que nada a pode perturbar, nem mesmo “a dor que deveras sente”.

Esta escolha é sempre complexa pois se baseia em fatores subjetivos e questões circunstanciais e, em verdade, ela está na base de toda a opção que fazemos por cuidar das pessoas. Você pode escolher o contato nos limites do necessário para realizar sua função específica; entretanto poderá entender que somente ao raspar as crostas superficiais do sujeito é possível entender o que se passa para além de sua epiderme.

Assim sendo, diante de nós duas portas se oferecem: uma delas nos leva ao mundo do aparentemente manifesto, do discurso, da evidência, do sinal aparente e do sintoma mais grosseiro. Um mundo muito próximo da biologia, da física e do real que (ilusoriamente) nos envolve. Já a outra porta nos leva ao mundo do simbólico, do relativo, do subjetivo e do pessoal. Um universo de significados e significantes dispersos e fora de ordem, onde moram nossas verdades mais sombrias. A casa das verdades perenes, das memórias sombrias e do medo.

Ambas as portas nos oferecem a oportunidade de conhecer os pacientes, mas enquanto a primeira permite um contato superficial a segunda nos obriga à criação de um vínculo que também nos impõe – em contrapartida – a conexão afetiva e emocional. Por isso mesmo adentrar desta forma no universo mais profundo dos pacientes nos leva obrigatoriamente à empatia e à conexão, à alegria e ao sofrimento.

Quem escolhe a segunda porta sabe que as alegrias serão sempre o tempero da vida; a luz que nos faz caminhar e seguir adiante. Todavia, sabe também que as perdas e os insucessos não poderão passar pela vida de quem cuidamos sem nos afetar da mesma forma.

A dor de perder na luta inglória contra a morte será sempre maior quando nossos corações se conectam com quem vestiu as capas do luto. Quem escolhe a com-paixão – o afeto compartilhado – sabe “a dor e a delicia de ser o que se é”. Sabe também que o preço das alegrias supremas é estar junto de quem sofre, para poder auxiliar quem se depara com as dores mais profundas que a vida pode reservar. Merece um abraço todo aquele cuja dor de hoje lhes rasga a alma, exatamente porque são pessoas de luz e espíritos especiais.

Reese Waldorf, “Who cares”, ed Epigram, pág. 135

Rose Waldorf nasceu em San Diego, na Califórnia, em 1977. Muito cedo se interessou pelas questões do parto e do nascimento e após terminar o “high school” na sua cidade resolveu estudar enfermagem para se dedicar à parteria. Foi criadora da “Heaven”, uma Casa de Parto que atua no mais puro modelo de parteria, atendendo a população pobre e as imigrantes mexicanas da fronteira. Escreveu seu livro “Who Cares” após sofrer uma crise de pânico por excesso de trabalho (burnout) e perseguições da corporação médica de sua região. Seu livro rapidamente se tornou uma espécie de “manual emocional para parteiras iniciantes”, pois descrevia não apenas as partes belas e sublimes da tarefa de atender partos, mas também as sombras, as violências, as agressões e as perseguições a que são submetidas. Rose continua atendendo partos e morando em San Diego. É casada e tem dois filhos, Jeremy e Jason.

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Luto

“É importante – talvez essencial seja a melhor palavra – preparar-se psicologicamente para TODOS os desfechos não desejados de uma gestação, como um parto com intervenções, uma cesariana e até a morte de um bebê. Meu pai sempre dizia: “Lute pelo melhor, prepare-se para o pior”. O luto que se segue aos fatos inesperados é mais difícil, longo e dolorido do que aquele conversado, reconhecido e preparado, cujas etapas de assimilação e resolução foram previamente esclarecidas e debatidas.

Não há mal algum em se preparar psicologicamente para qualquer infortúnio no processo de gestação, assim como é obrigação dos profissionais de parto abrir um espaço no pré-natal para debater estes temas.

Deveria haver em todo acompanhamento pré-natal um tempo para que as mortes pudessem ser trazidas à fala, para que ninguém deixasse de reconhecer que o nascer implica uma série de lutos.

Adélia Messider Perman, “A Flor Negra – Ensaios sobre Luto e Despedida”, Ed. Lacroix, pág 135

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Iconoclastas

Não é impressionante o fato de aparecerem textos descrevendo Belchior como um péssimo pai e com terríveis defeitos em sua vida pessoal. Em verdade é da natureza humana destruir seus velhos ídolos como parte de uma “lei de destruição”, para que novos ícones não sejam bloqueados pela memória dos que se foram. é um fenômeno natural. E ele não é ruim em essência, pois isso humaniza os ídolos, sejam eles quem forem. O “sujeito perfeito” se desmancha mantendo apenas seu trabalho imaterial: suas ideias e suas obras. Eu apenas peço que esse processo natural de “humanização pela destruição” aguarde um período razoável de luto.

para além desse respeito a quem acabou de deixar este mundo, concordo totalmente com a ideia que diz ser fundamental separar a obra do autor. Caso contrário acabamos caindo num debate cercado de infantilidades, como algumas que escutei no quartel: “Marx era realmente um homem muito inteligente, mas foi um péssimo pai de família“, onde a ênfase era colocada na segunda parte da frase. Precisamos mesmo deste tipo de perspectiva?

Portanto, eu pediria um pouco de paciência. O corpo do Belchior ainda está quente e acredito que para este exercício de iconoclastia seria gentil com a família esperar pelo menos que os vermes deem conta de sua carne (fraca). A velocidade para a destruição de um homem diz menos dos seus defeitos do que das fraquezas dos seus algozes.

Se uma pessoa da sua família tivesse morrido ainda ontem e alguém escrevesse uma crítica mordaz sobre ela enquanto seus entes queridos ainda estão devastados pela perda, como você sentiria isso? Teria mesmo essa postura altiva de dizer “ninguém pode calar nenhuma crítica”, ou “cada um sabe do seu sofrimento”? Não, você não aceitaria isso pois existe um código de civilidade para a morte: Respeito e silêncio. Foi o que permitiu Lula receber Temer no velório de Marisa. Ali não era a HORA e o local para este tipo de rancores. Romper com esse pacto civilizatório (o respeito à  dor por uma perda), que ocorre até entre inimigos declarados, é um passo em direção à  barbárie e à perversão, pois sinaliza a incapacidade de estabelecer uma relação empática com o outro, forçando no sentido de desumanizá-lo. Como a afirmar “não acredito em tua dor, só a minha tem razão de ser“.

Para mim o melhor exemplo de respeito à  dor alheia vem de Salatino, grande herói árabe (ele era curdo) na conquista de Jerusalém. Depois de findas as batalhas, e tendo derrotado seu oponente Ricardo III, ele foi pessoalmente ao encontro do seu inimigo e o convidou para entrar na Terra Santa, para que sua dor pela derrota fosse mitigada com uma visita aos locais sagrados. A compreensão desse homem e o respeito pela dor do inimigo são exemplos de dignidade e integridade até com os que combatem contra nós. Como eu disse anteriormente, nada contra a iconoclastia, desde que não seja seletiva. Vamos criticar Freud, Marx, Darwin, Belchior e até Simone de Beauvoir pelos crimes cometidos contra a humanidade, mas pelo menos tenhamos a humanidade de aguardar um tempo para que as pessoas que os amaram possam superar esta perda.

Eu não tenho a menor dúvida de que meus inúmeros inimigos não vão esperar sequer meu último suspiro para me detonar; vão começar a me espinafrar ainda na UTI. E eu vou fingir estar comatoso só pra me divertir com a decomposição ainda antes dos micróbios saprófitos fazerem seu serviço.

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