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Luz e Sombra

Quase ninguém se importa em dar apoio e suporte aos cuidadores. Quando as perdas acontecem eles se tornam invisíveis ou se transformam em alvos fáceis para nossas frustrações. Humanizar o nascimento também é cuidar de quem cuida.”

Reese Waldorf, “Who cares”, ed Epigram, pág. 135

Esta escolha é sempre complexa pois se baseia em fatores subjetivos e questões circunstanciais e, em verdade, ela está na base de toda a opção que fazemos por cuidar das pessoas. Você pode escolher o contato nos limites do necessário para realizar sua função específica ou pode entender que somente ao raspar as crostras superficiais do sujeito é possível entender o que se passa para além de sua epiderme.

Assim sendo, diante de nós duas portas se oferecem: uma delas nos leva ao mundo do aparentemente manifesto, do discurso, da evidência, do sinal aparente e do sintoma mais grosseiro. Um mundo muito próximo da biologia, da física e do real que (ilusoriamente) nos envolve. Já a outra porta nos leva ao mundo do simbólico, do relativo, do subjetivo e do pessoal. Um universo de significados e significantes dispersos e fora de ordem, onde moram nossas verdades mais sombrias. A casa das verdades perenes, das memórias sombrias e do medo.

Ambas as portas nos oferecem a oportunidade de conhecer os pacientes, mas enquanto a primeira permite um contato superficial a segunda nos obriga à criação de um vínculo que também nos impõe – em contrapartida – a conexão afetiva e emocional. Por isso mesmo adentrar desta forma no universo mais profundo dos pacientes nos leva obrigatoriamente à empatia e à conexão, à alegria e ao sofrimento.

Quem escolhe a segunda porta sabe que as alegrias serão sempre o tempero da vida; a luz que nos faz caminhar e seguir adiante. Todavia, sabe também que as perdas os insucessos não poderão passar pela vida de quem cuidamos sem nos afetar da mesma forma.

A dor de perder na luta inglória contra a morte será sempre maior quando nossos corações se conectam com quem vestiu as capas do luto. Quem escolhe a com-paixão – o afeto compartilhado – sabe “a dor e a delicia de ser o que se é“. Sabe também que o preço das alegrias supremas é estar junto de quem sofre, para poder auxiliar quem se depara com as dores mais profundas que a vida pode reservar.

Um abraço pra as minhas amigas cuja dor de hoje lhes rasga a alma, exatamente porque são pessoas de luz e espíritos especiais.

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Luto

“É importante – talvez essencial seja a melhor palavra – preparar-se psicologicamente para TODOS os desfechos não desejados de uma gestação, como um parto com intervenções, uma cesariana e até a morte de um bebê. Meu pai sempre dizia: “Lute pelo melhor, prepare-se para o pior”. O luto que se segue aos fatos inesperados é mais difícil, longo e dolorido do que aquele conversado, reconhecido e preparado, cujas etapas de assimilação e resolução foram previamente esclarecidas e debatidas.

Não há mal algum em se preparar psicologicamente para qualquer infortúnio no processo de gestação, assim como é obrigação dos profissionais de parto abrir um espaço no pré-natal para debater estes temas.

Deveria haver em todo acompanhamento pré-natal um tempo para que as mortes pudessem ser trazidas à fala, para que ninguém deixasse de reconhecer que o nascer implica uma série de lutos.

Adélia Messider Perman, “A Flor Negra – Ensaios sobre Luto e Despedida”, Ed. Lacroix, pág 135

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Iconoclastas

Não é impressionante o fato de aparecerem textos descrevendo Belchior como um péssimo pai e com terríveis defeitos em sua vida pessoal. Em verdade é da natureza humana destruir seus velhos ídolos como parte de uma “lei de destruição”, para que novos ícones não sejam bloqueados pela memória dos que se foram. é um fenômeno natural. E ele não é ruim em essência, pois isso humaniza os ídolos, sejam eles quem forem. O “sujeito perfeito” se desmancha mantendo apenas seu trabalho imaterial: suas ideias e suas obras. Eu apenas peço que esse processo natural de “humanização pela destruição” aguarde um período razoável de luto.

para além desse respeito a quem acabou de deixar este mundo, concordo totalmente com a ideia que diz ser fundamental separar a obra do autor. Caso contrário acabamos caindo num debate cercado de infantilidades, como algumas que escutei no quartel: “Marx era realmente um homem muito inteligente, mas foi um péssimo pai de família“, onde a ênfase era colocada na segunda parte da frase. Precisamos mesmo deste tipo de perspectiva?

Portanto, eu pediria um pouco de paciência. O corpo do Belchior ainda está quente e acredito que para este exercício de iconoclastia seria gentil com a família esperar pelo menos que os vermes deem conta de sua carne (fraca). A velocidade para a destruição de um homem diz menos dos seus defeitos do que das fraquezas dos seus algozes.

Se uma pessoa da sua família tivesse morrido ainda ontem e alguém escrevesse uma crítica mordaz sobre ela enquanto seus entes queridos ainda estão devastados pela perda, como você sentiria isso? Teria mesmo essa postura altiva de dizer “ninguém pode calar nenhuma crítica”, ou “cada um sabe do seu sofrimento”? Não, você não aceitaria isso pois existe um código de civilidade para a morte: Respeito e silêncio. Foi o que permitiu Lula receber Temer no velório de Marisa. Ali não era a HORA e o local para este tipo de rancores. Romper com esse pacto civilizatório (o respeito à  dor por uma perda), que ocorre até entre inimigos declarados, é um passo em direção à  barbárie e à perversão, pois sinaliza a incapacidade de estabelecer uma relação empática com o outro, forçando no sentido de desumanizá-lo. Como a afirmar “não acredito em tua dor, só a minha tem razão de ser“.

Para mim o melhor exemplo de respeito à  dor alheia vem de Salatino, grande herói árabe (ele era curdo) na conquista de Jerusalém. Depois de findas as batalhas, e tendo derrotado seu oponente Ricardo III, ele foi pessoalmente ao encontro do seu inimigo e o convidou para entrar na Terra Santa, para que sua dor pela derrota fosse mitigada com uma visita aos locais sagrados. A compreensão desse homem e o respeito pela dor do inimigo são exemplos de dignidade e integridade até com os que combatem contra nós. Como eu disse anteriormente, nada contra a iconoclastia, desde que não seja seletiva. Vamos criticar Freud, Marx, Darwin, Belchior e até Simone de Beauvoir pelos crimes cometidos contra a humanidade, mas pelo menos tenhamos a humanidade de aguardar um tempo para que as pessoas que os amaram possam superar esta perda.

Eu não tenho a menor dúvida de que meus inúmeros inimigos não vão esperar sequer meu último suspiro para me detonar; vão começar a me espinafrar ainda na UTI. E eu vou fingir estar comatoso só pra me divertir com a decomposição ainda antes dos micróbios saprófitos fazerem seu serviço.

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