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A Patologia Social dos Biliardários

Foto: Carta Capital

Numa sociedade dividida em classes, onde existem bolhas que separam as castas sociais, bilionários são pessoas distantes do nosso convívio regular. Em função dessa distância, e da necessidade de essencializar as diferenças, os bilionários desenvolvem desprezo pelo povo, seus jeitos, seu cheiro, suas roupas, sua música, seu linguajar. Essa percepção que têm de nós surge do fato de que eles se isolam num universo onde apenas encontram seus iguais – outros bilionários – cuja fortuna foi certamente forjada na exploração do trabalho alheio, na pilhagem, no roubo, à sombra dos poderosos e com doses quase imperceptíveis de escrúpulos. O jornalista Chris Hedges tem um excelente ponto de vista no que diz respeito à “Patologia dos Ricos”, afirmando que nossa percepção dos muito ricos é baseada em propaganda e que não espelha a realidade da sociopatia que tal divisão de classes proporciona.

Muitos, e durante muito tempo, acreditaram que um dos principais problemas está na falta de educação do povo, o que faz com que tenhamos políticos despreparados para dar conta das coisas do país. Em verdade, os oligarcas brasileiros – e igualmente os americanos – são paridos nas melhores escolas e com a melhor educação que se conhece. O problema não é a falta de preparo e de educação, mas um sistema político que escolhe representantes nas classes dominantes sucumbindo à ilusão de que sua educação os faria agir de forma a produzir progresso e justiça social.

Atenção: o “biliardário” não é o seu vizinho que tem uma casa de dois andares na praia ou que tem uma Hylux na garagem. Esse é o “rico” da classe média. O biliardário é um sujeito que você nunca viu pessoalmente.

Bilionários vivem em bolhas de privilégios, em condomínios fechados de usura e abundância indecentes. As únicas pessoas normais a quem encontram são vassalos, serviçais, muitos deles esperando uma pequena migalha ou o sublime êxtase de dizerem-se próximos do “comendador” ou da “fulana, rica e extravagante”. São personagens que desde crianças foram ensinados dar ordens a adultos; empregadas, babás, motoristas, diaristas, etc, acostumado-se a olhar a quem trabalha de cima para baixo. O mundo das gentes normais é algo que assistem com certo desprezo, com distância, olhando através de suas gigantescas TVs panorâmicas de plasma. A tragédia ocorre quando sujeitos com essa formação assumem posições do poder, como a família Bush, os Clinton, Trump, os Kennedy ou Boris Johnson, pois que enxergam o povo com profundo menosprezo, como uma imensa massa de serviçais ao seu serviço – e não o oposto, como somos iludimos a pensar.

Por certo que não é preciso dizer que toda a riqueza obscena que os cerca desde o berço não é garantia alguma de felicidade, realização ou alegria. Vidas construídas sobre “coisas” frequentemente são tão frágeis quanto a matéria que constitui seus objetos, a qual se deprecia rapidamente. Acreditar na capacidade do dinheiro em produzir a realização plena do sujeito é desprezar as evidências cotidianas que nos mostram a inexistência dessa conexão.

Uma amiga doula americana certa feita foi convidada para atender um casal herdeiro de uma família bilionária de um país distante. Recebeu para isso altos honorários e todas as despesas pagas. Depois do atendimento ela descreveu o casal como pessoas extremamente simples, com hábitos mundanos e triviais, iguais aos de qualquer mortal. “Gente como nós”, disse ela com a doçura que lhe caracteriza.

Eu lhe respondi que até a Rainha da Inglaterra pareceria normal num contato trivial e ocasional. Entretanto, os valores do sujeito vão inexoravelmente aparecer quando forem colocados à prova – em especial num momento de crise. O sujeito que desprezou e xingou policiais na frente da sua casa, dizendo ganhar milhões enquanto eles não passavam de pobres funcionários públicos, apenas expôs seu espírito deteriorado em um momento de crise, deflagrado por uma quantidade razoável de álcool. Posso apostar que, no dia a dia, ele é um sujeito que dissimula e esconde com perfeição seus preconceitos e o desprezo que, em essência, nutre pelos que estão abaixo de si na pirâmide dos ganhos materiais.

Zardoz, filme de 1974 com Sean Connery

O mesmo posso imaginar do jovem casal de bilionários, que certamente vivem no Valhalla dos ricos, no Olimpo dos “diferenciados” e que não conhecem, como nós, o preço do quilo da alcatra e não se espanta com o preço do leite. O mundo contemporâneo criou o universo distópico de Zardoz, um obscuro filme de 1974 com Sean Connery, onde a população rica vive reclusa em redomas de vidro para se proteger da crescente massa de miseráveis. E não se trata de uma avaliação de ordem moral, mas uma perspectiva de classes, onde a separação econômica – cuja ligação se dá pela exploração – produz uma ideologia e uma conduta cotidiana que naturalizam essa distância entre os bilionários e o povo por eles explorados.

Estabelecer conceitos – para o bem e para o mal – baseado nas informações superficiais colhidas em contatos ocasionais é sempre um passo para o equívoco ou a injustiça. Diga aí: quanto tempo você levou para se dar conta que aquele ex-campeão de Fórmula 1 era um reacionário de primeira?

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O Café e o Cocô

Nos Estados Unidos da América o dono do Twitter ameaça oferecer liberdade total de expressão no seu novo brinquedo de poder o Twitter. Curiosamente, a esquerda americana – os leftists – não estão reclamando com a devida veemência contra a concentração obscena de poder na mão de um sujeito egocêntrico e paranoico como Elon Musk, mas centram sua artilharia na possibilidade de que possamos escrever, a partir de agora, sem censura. Sim, a esquerda americana – que na verdade é uma direita identitária – teme que muitas mentiras serão disseminadas sem qualquer filtro. “O que será dos gays, dos negros, das trans, etc”.

Ora, esse tipo de vigilância de costumes não poderia perdurar muito mais tempo. Ninguém mais aguenta patrulha de expressões, de vocabulário e de sentimentos ofendidos. Ninguém suporta mais essa infantilização que se criou nas relações – em especial na Internet – e que trata a todos como crianças frágeis que não aguentam piadas ou críticas fortes.

Para piadas ruins conte outra melhor. Para ofensas, use ironia – ou ofenda também, se não lhe resta mais nada na sua caixa de ferramentas. O que não é mais admissível e o espetáculo constrangedor de correr sempre para a mamãe – seja ela o estado, o Twitter, o Facebook, o Instagram, etc – e fazer queixa para que uma instância de poder venha nos proteger. Um dia as pessoas teriam que crescer e enfrentar por si mesmas estes desafios.

Uma pena que a esquerda raiz, socialista e marxista não teve força para liderar a luta pela liberdade de expressão. Somos poucos a lutar contra os desmandos autoritário e da censura. Enquanto isso a esquerda liberal foi invadida por identitários que são os primeiros a pedir cancelamentos, silenciamentos, censura e cerceamento da liberdade de expressão. Uma lástima que essa nova onda veio de um bilionário Ancap, representante da direita mais perversa e concentradora de riquezas.

Bem, dizem que o melhor café do mundo é o Kopi Luwac, feito com grãos retirados do cocô da Civeta. Quem sabe essa metáfora sirva para a gente lembrar que em longo prazo a liberdade é sempre melhor do que qualquer censura, e que a gente pode consegui-la mesmo que tenha que separar seu valor da bosta que a envolve.

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Anticapitalistas

Na série de artigos que escrevi ultimamente sobre George Soros e a “benemerência colorida” era exatamente sobre essa perspectiva que eu me debruçava. Muitos de nós, tão fortemente estamos aprisionados na perspectiva capitalista, que sequer percebemos as armadilhas do realismo capitalista para a captura de consciências. Por isso eu vi com um certo horror a passividade com que grupos de assistência ao parto saudavam a intromissão da “Open Society” – uma organização internacional com tentáculos em todo o planeta e gerenciada pelo bilionário Soros – nas nossas organizações, e a justificativa dada era de que “bem, não há como combater a perversidade desse sistema; assim, nada mais nos resta a não ser jogar a toalha, mas pelo menos vamos nos aproveitar um pouquinho destes valores para mitigar os efeitos devastadores do capitalismo na cultura, nos povos, nos trabalhadores e nas minorias”. Neste momento testemunhamos a busca por auxiliar as vítimas do capitalismo usando os próprios recursos dos capitalistas, mas reforçando seus pressupostos.

Como seria possível deixar que o capitalismo curasse as feridas que ele mesmo produz pela adoção de uma sociedade dividida em classes?

“De acordo com Fisher, o realismo capitalista conquistou de tal modo o pensamento público que a ideia de anticapitalismo não mais atua como a antítese do capitalismo. Em vez disso, é implantado como um meio de reforçar o capitalismo. Isso é feito por meio da mídia que visa fornecer um meio seguro de consumir ideias anticapitalistas sem realmente desafiar o sistema. A falta de alternativas coerentes, conforme apresentadas através das lentes do realismo capitalista, leva muitos movimentos anticapitalistas a deixarem de visar o fim do capitalismo, mas em vez disso mitigar seus piores efeitos, muitas vezes por meio de atividades individuais baseadas no consumo.”

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Corrupção à granel

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Eu afirmo que comparada à corrupção LEGAL e corriqueira da sonegação de tributos, a corrupção de agentes do governo – seja de onde for – é café pequeno; totalmente desimportante quando comparada à grande corrupção do sistema capitalista. Basta olhar os números. Isso não significa que ela não deve ser combatida, mas apenas que deve ser vista em perspectiva, para que não seja usada eternamente como cavalo de batalha dos grupos de direita. Aliás, os escândalos mostrados na CPI da Pandemia e da família Bolsonaro mostram que essa retórica da direita é pura encenação. Era falso com Adolf, com a Ditadura Militar, com Collor, com Bolsonaro e com tantos outros.

“Somadas, as mil empresas que possuem as maiores dívidas ativas com a União sonegaram R$ 754,7 bilhões aos cofres públicos. Se esse valor fosse quitado pelos empresários, o Brasil poderia pagar 14 meses de auxílio emergencial aos trabalhadores informais, autônomos e desempregados. De acordo com o Ministério da Economia, cada mês do benefício custa R$ 51 bilhões.”

51 bilhões POR MÊS!!

Enquanto isso, a maior força tarefa para o combate à corrupção – a Lava Jato – de triste memória, arrecadou tão somente 4.3 bilhões, o que é menos de 10% do que poderia ser pago de auxílio a cada mês. É ÓBVIO que esse “combate à corrupção” promovido pelos governos de direita é uma cortina de fumaça, alienante e moralista, para não enxergarmos a verdadeira corrupção, o enorme furo que esse modelo produz nas contas.

Entretanto, apesar da disparidade desses números a corrupção é vendida desde sempre pela extrema direita como “o grande mal a ser combatido”. Por isso permitimos que surjam bilionários como o velho da Havan, o Bezos e o Elon Musk, cuja fortuna é produzida pela incapacidade do Estado em produzir justiça social.

O combate à corrupção deve ser feito dentro dessa perspectiva. Feche-se o megaducto da sonegação atacadista primeiro, para depois fechar a torneira dos corruptos à granel.

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Interesses ocultos

Não se trata de ser anti ciência, anti medicamentos, anti vacinas, anti cesarianas ou contra qualquer coisa, mas ter a coragem de fazer perguntas que precisam ser respondidas. É acima de tudo uma postura que encara as oligarquias planetárias e questiona seus métodos e seus objetivos. Afinal, quais os interesses de Bill Gates nesse cenário?

Uma lembrança: em 21 de abril de 1998 o jovem deputado Luis Eduardo Magalhães morreu de um infarto fulminante. A importância de sua morte era aumentada por três fatores: ser filho do poderoso ACM, ser líder entre seus pares e por ter apenas 43 anos de idade. A notícia chocou a todos. Na semana seguinte encontrei no corredor do prédio do meu consultório um colega cardiologista. No melhor estilo “small talk” disse a ele “E essa do filho do ACM, hein? Que horror!! Tinha só 43 anos!!”

Ele curvou os lábios para baixo e disse: “Nem fale, mas por outro lado o meu consultório nunca esteve tão cheio. Estou marcando consultas com semanas de antecedência. Podia acontecer uma coisa dessas cada seis meses.”

Claro, estava brincando, mas deu a entender, um pouco constrangido, que estes desastres acabavam lhe trazendo benefícios. A criação de doenças novas e a exaltação de tragédias produzem medo. E o medo, como bem o sabemos, faz desaparecer a razão e a clareza dos fatos e acaba nos jogando em um redemoinho de más escolhas. O pânico é sempre um péssimo conselheiro.

Assim, muita gente poderosa se beneficia com este tipo de tragédia global, e não precisamos ir muito longe para verificar isso. Os maiores beneficiários são empresários que estão revolucionando os setores de tecnologia, saúde e equipamentos médicos, como o bilionário sul-africano Elon Musk, ou a chinesa Zhong Huijuan.

Já é possível dizer que 2020 foi, na verdade, um dos melhores anos para os bilionários em muito tempo. As fortunas somadas dessa turma chegaram a US$ 10,2 trilhões recentemente, de acordo com um relatório divulgado pelo banco suíço UBS. Trata-se de um valor recorde, sendo que o anterior, de US$ 8,9 trilhões, data de 2017. Não apenas essas pessoas, as mais ricas do mundo, recuperaram seu patrimônio, como, em alguns casos, fizeram-no crescer. E isso aconteceu no mundo inteiro, e o Brasil participou da festa.De maneira geral, grandes nomes ligados ao universo da tecnologia e do varejo, como Jeff Bezos (Amazon), Bernard Arnault (LVMH), além dos chineses Ma Huateng (maior acionista da gigante de internet e da comunicação Tencent), cujo patrimônio aumentou quase US$ 20 bilhões em questão de meses, e Qin Yinglin (maior produtor de porcos do mundo) foram os grandes destaques desse show dos bilhões”. (leia aqui matéria completa)

PS: Veja abaixo uma entrevista sobre Bill Gates que foi dada por um dos jornalistas investigativos mais famosos da atualidade: Max Blumenthal, que entre outras coisas escreveu “The 51 Days War” sobre o massacre Palestino em Gaza em 2014.

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